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Decolonialidade e interculturalidade servindo a dois senhores: entre o recuo

3. Incinerar para enegrecer: uma análise marxista anticolonial das teorias da educação do

3.2. Decolonialidade e interculturalidade servindo a dois senhores: entre o recuo

O final do século XX foi marcado pela globalização, um nome gourmet para a internacionalização do capitalismo. O estabelecimento internacional deste modo de produção não foi tão frio, como sugere o nome do conflito que marca a disputa econômico-política em torno da internacionalização de um modo de produção – um centrado na propriedade universal e outro, o vigente, na propriedade privada. De fato, o conflito central do período – entre Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – não trazia ameaça beligerante alguma ao mundo117. Isso não significa que não existiram conflitos paralelos quentes de inspiração socialista que, em alguma medida, foram relevantes para dar contornos à geopolítica que caracterizara a Guerra Fria (1947-1991), especificamente no que tange às alianças que a URSS estabeleceu com países do terceiro mundo118. Simultaneamente à Guerra Fria, a partir da década de 1970, militantes lutavam pela descolonização de países do terceiro mundo, sobretudo em países do continente africano. Uma revolução anticolonialista, em muitos momentos armada e violenta, pela libertação dos povos africanos que consolidou a independência formal119 de nações africanas do subjugo colonial-imperial europeu perdurante o século XX. Sobre os contornos geopolíticos deste movimento revolucionário, Paulo Fagundes Visentini explica:

(...) as revoluções africanas da década de 1970 ocorreram numa conjuntura em que era possível buscar alianças diplomático-militares alternativas em função da Guerra Fria, o que aprofundou os conflitos ligados a tais alianças. O apoio cubano, soviético e alemão oriental foi um elemento importante, enquanto a China Popular exerceu um papel progressista apenas na Tanzânia, em Moçambique e no Zimbábue.120

Tanto as alianças externas quanto as internas ao continente africano se davam muito pelas afinidades econômico-políticas. O apoio de Cuba e da URSS a alguns países, como o Burkina

117 “A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo iminente de guerra mundial.

Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados, mas sobretudo do lado americano, os governos das duas superpotências aceitaram a distribuição global de forças o fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de poder desigual, mas não contestado em sua essência. A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela exercia predominante influência – a zona ocupada pelo Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no término da guerra – e não tentava ampliá-la com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle e predominância sobre o resto do mundo capitalista, além do hemisfério norte e oceanos, assumindo o que restava da velha hegemonia imperial das antigas potenciais coloniais. Em troca, não intervinha na zona aceita de hegemonia soviética.”

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.

224.

118 Esta tese é de Paulo Fagundes Visentini.

119 Muita atenção a este destaque.

120 VISENTINI, Paulo Fagundes. As revoluções africanas: Angola, Moçambique e Etiópia. São Paulo: Ed. Unesp, 2012, p. 30.

Faso121, ou o apoio de países socialistas à Guiné, quando se descolonizou da França, se deu muito pela afinidade ideológico-política e econômica que estas nações possuíam. Todas elas com grande proximidade ao socialismo. Como se vê na experiência histórica, ao contrário do que setores da esquerda e da direita antimarxistas querem nos fazer crer, comunismo é coisa de preto.

Figura 5: Thomas Sankara (esq.), líder comunista da revolução burkinabé, cumprimentando Fidel Castro.

Figura 6: Lideranças comunistas anticoloniais no Centro de Treino Perevalnoe, na URSS em 1972. Na foto, em primeiro plano, o enfermeiro Samora Machel (Moçambique), um militar soviético, o engenheiro agrônomo

Amílcar Cabral (Guiné-Bissau e Cabo Verde) e o médico Agostinho Neto (Angola).

121 Thomas Sankara, líder comunista da revolução burkinabé, em entrevista sobre a cooperação entre Cuba e Burkina Faso: “A cooperação entre Cuba e Burkina Faso alcançou um nível bastante elevado. Conferimos grande valia a isto porque nos põe em contato com uma revolução irmã. Gostamos de se sentir à vontade um com o outro. Ninguém gosta de se sentir só. Saber que podemos contar com Cuba é uma fonte vital de força para nós.” SANKARA, Thomas.

We can count on Cuba. In: PRAIRIE, Michel (org.). Thomas Sankara Speaks: The Burkina Faso Revolution (1983-1987).

2. ed. Atlanta: Pathfinder Press, 2007, p. 383, tradução minha. Original: “Cooperation between Cuba and Burkina Faso has reached a very high level. We attach great importance to this because it puts us in contact with a sister revolution.

We like feeling at ease with each other. Nobody likes to feel alone. Knowing we can count on Cuba is an important source of strength for us.”

Esse apoio foi fundamental para engrossar o bloco socialista em termos ideológicos e políticos ante a Guerra Fria e, sobretudo, para o desenvolvimento da descolonização nesses países da África Subsaariana. A possibilidade de consolidar estados socialistas que não passaram pelo capitalismo ainda era quista ao bloco socialista e, mais importante ainda, é princípio marxista- leninista a camaradagem e, portanto, o apoio a todo povo em situação de exploração, o que não exclui as nações sujeitas ao colonialismo122. Por isso, fez-se um esforço para dar suporte a estes povos. Quem nos ensina isso e mais um pouco são o senegalês Iba Der Thiam, o ugandês James Mulira e o marfinense Cristophe Wondji, historiadores:

Após ter traçado os mecanismos e as vias para a colaboração com os movimentos anticolonialistas, o mundo socialista engajou-se em um programa de apoio ativo à descolonização definitiva da África, sob a forma de uma assistência material e diplomática, oferecida em conformidade com o princípio marxista-leninista, segundo o qual, o mundo socialista deveria ajudar àqueles que aspirassem à descolonização.123

Um historiador do breve século XX também dá apontamentos acerca desse apoio soviético aos países do terceiro mundo:

Durante várias décadas, a URSS adotou uma visão essencialmente pragmática de sua relação com os movimentos revolucionários, radicais e de libertação do Terceiro Mundo, pois nem pretendia nem esperava aumentar a região sob governo comunista além da extensão da ocupação soviética no Ocidente ou da intervenção chinesa (que não podia controlar inteiramente) no Oriente. Isso não mudou nem no período de Kruschev (1956- 64), quando várias revoluções autóctones, em que os comunistas não tomaram parte, chegaram ao poder com energia própria, notadamente em Cuba (1959) e Argélia (162).

A descolonização africana também levou ao poder líderes que não pediam nada melhor que o título de anti-imperialistas, socialistas e amigos da União Soviética, sobretudo quando esta levava ajuda técnica e outras não maculadas pelo velho colonialismo: Kwame Nkrumah em Gana, Sekou Touré na Guiné, Modibo Keita em Mali, e o trágico Patrice Lumumba no Congo Belga, cujo assassinato fez dele um ícone e mártir do Terceiro Mundo. (A URSS rebatizou a Universidade da Amizade dos Povos que estabelecera para estudantes do Terceiro Mundo em 1960 como “Universidade Lumumba’.) Moscou simpatizava com os novos regimes e ajudou-os, embora logo abandonando o excesso e otimismo sobre os novos Estados africanos. No ex-Congo Belga, deu apoio armado ao lado lumumbista contra os clientes ou títeres dos EUA e dos belgas na guerra civil (com intervenções de forças das Nações Unidas, igualmente antipatizadas pelas duas superpotências) que se seguiu à precipitada concessão da independência à vasta colônia.124

Em muitos momentos, recorreu-se – para usar o termo de Fanon, um dos revolucionários da descolonização africana – à “fórmula marxista”125 para compreender o colonialismo ao mesmo

122 Isso vai se aprofundar extensivamente com Lênin. Um historiador, o camarada Jones Manoel, demonstra o caráter anticolonial do marxismo-leninismo aqui: MANOEL, Jones. Lênin, a ruptura anticolonial do comunismo e o marxismo africano. Germinal: marxismo e educação em debate, v. 12, n. 2, p. 50–68, 2020.

123 THIAM, Iba Der; MULIRA, James; WONDJI, Christophe. A África e os países socialistas. In: MAZRUI, Ali A.;

WONDJI, Christophe (editores). História Geral da África VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010, p. 970.

124 HOBSBAWM, 1995, p. 423.

125 “Na realidade, os Estados colonizados que alcançaram a independência pela via política parecem não ter outras preocupações senão a de se encontrar em um verdadeiro campo de batalha com as feridas e destruição. Está claro, entretanto, que esta explicação psicológica, que faz um apelo a uma hipotética necessidade de liberação da agressividade, não nos satisfaz. Temos a obrigação, uma vez mais, de nos remontar à fórmula marxista. As burguesias triunfantes são as mais impetuosas, astutas, anexionistas que existem (não é por nada que a burguesia francesa de 1789

tempo em que se é uma estratégia ideológico-política e também econômica para superá-lo. Assim, a descolonização africana, entre outras características, teve orientação político-ideológica materialista, histórica e dialética – sim, marxista! – e isto possibilitou o desenvolvimento de táticas em prol da estratégia da descolonização nos países africanos subsaarianos. Foi um movimento de luta não só pela independência formal, mas um esforço coletivo e internacionalista (panafricanista) pela superação do modo de produção colonial e de todo o tipo de exploração em que se baseava.

Eis aí, portanto, o seu caráter anticolonial, porque buscou rejeitar radicalmente – na raiz! – i) as estruturas moribundas do colonialismo enquanto modo de produção que tolhia o desenvolvimento das forças produtivas dos Estados colonizados e, por via de regra, ii) o imperialismo capitalista.

Não acredite em mim, mas em uma das lideranças da descolonização caboverdiana, Amílcar Cabral:

Para nós, o fundamento da libertação nacional, sejam quais forem as formulações adotadas no plano jurídico internacional, reside no direito inalienável de cada povo ter a sua própria história: e o objetivo da libertação nacional é a reconquista desse direito usurpado pelo imperialismo, isto é, a libertação do processo de desenvolvimento das forças produtivas.126

Com o alcance, por alguns Estados colonizados, de sua independência formal, o período histórico que se via no crepúsculo do século XX vai ser chamado de pós-colonialismo. Neste mesmo período, ganhará força – germinando-se em Ásia e em África, apesar de apenas ganhar notoriedade em universidades do Ocidente – um conjunto de produções teóricas dos chamados Estudos Culturais com centralidade na “identificação de uma relação antagônica por excelência, ou seja, a do colonizado e a do colonizador”127. Frantz Fanon e Aimé Césaire, por isso, podem ser considerados teóricos pós-coloniais.

A recepção do debate sobre o colonialismo e a díade conflitiva colonizador-colonizado na América Latina tem inspiração nos estudos feitos no grupo sul asiático de Estudos Subalternos, à imagem e semelhança do qual se formaria o Grupo Modernidade/Colonialidade (Grupo M/C), conjuntando professores latino-americanos que trabalhavam em universidades estadunidenses.

pôs a Europa a ferro e fogo)”. FANON, Frantz. Pour la révolution africaine: écrits politiques. Paris: Éditions La Découverte, 2001, p. 134-5, tradução minha. Original: «En réalité les États colonisés qui ont accédé à l'indépendance par la voie politique semblent n'avoir d'autres préoccupations que de se trouver un vrai champ de bataille avec des blessures et des destructions. Il est clair toutefois que cette explication psychologique, qui fait appel à un hypothétique besoin de défoulement de l'agressivité, ne nous satisfait pas. Il nous faut encore une fois revenir aux schémas marxistes.

Les bourgeoisies triomphantes sont les plus impétueuses, les plus entreprenantes, les plus annexionnistes qui soient (ce n'est pas pour rien que la bourgeoisie française de 1789 mit l'Europe à feu et à sang).»

126 CABRAL, 2019, p. 146.

127 BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 11, Brasília, maio- ago. 2013, p. 91. Focarei quase nada no histórico do pós-colonialismo enquanto campo acadêmico de estudo. Além do texto de Luciana Ballestrin que utilizo aqui, recomendo a seção 2.2.1 do livro FAUSTINO, Deivison Mendes. A disputa em torno de Frantz Fanon: a teoria e a política dos fanonismos contemporâneos. São Paulo: Intermeios, 2020, p.

86-94 ou o Capítulo III do livro COSTA, Sérgio. Dois atlânticos: teoria social, anti-racismo, cosmopolitismo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006, p. 83-109.

Entre os pesquisadores do grupo, estão Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Catherine Walsh, Ramón Grosfoguel, Nelson Maldonado-Torres, Boaventura de Sousa Santos, dentre outros128.

É bem verdade que a formação do Grupo M/C não é tão simples como coloco e possui tensões, as quais foram bem expostas por Luciana Ballestrin em seu texto que uso como referência.

Porém, aqui, cabe só ressaltar que a formação deste grupo e o desenvolvimento do seu pensamento darão início a uma tendência latino-americana de pensamento sobre o colonialismo que se denominará por estudos decoloniais ou decolonialidade.

A decolonialidade não é una. Ao menos, não se diz ser.129 Nos textos que eu pude ler, foi comum ver os autores e as autoras sempre fazendo ressalvas sobre não ser possível encontrar em suas produções um definitivo arcabouço do que seja a decolonialidade. Um livro do ensino de ciências que se propõe a organizar textos dentro desta tendência de pensamento leva o título de Decolonialidades (no plural) na Educação em Ciências. Apesar de colocarem a decolonialidade como um projeto plural ou mesmo “pluriversal”130, notei que os mesmos autores e autoras se repetiam nos textos – tanto nos mais gerais quanto nos do Ensino de Ciências. Isso, inclusive, tornou possível para Luciana Ballestrin traçar uma lista de integrantes dessa tendência de pensamento em seu texto.

Tabela 1: Pesquisadores e pesquisadoras da decolonialidade e integrantes do Grupo M/C.

Integrante Área Nacionalidade Universidade onde

leciona

Aníbal Quijano Sociologia Peruana Universidad Nacional de San Marcos, Peru Enrique Dussel Filosofia Argentina Universidad Nacional

Autónoma de México Walter Mignolo Semiótica Argentina Duke University, EUA Immanuel Wallerstein Sociologia Estadunidense Yale University, EUA

128 BALLESTRIN, 2013.

129 “Decolonialidade, nesse sentido, não é uma condição estática, um atributo individual ou um ponto linear de chegada ou iluminação. Diferentemente, a decolonialidade busca tornar visível, abrir e avançar perspectivas e posicionalidades radicalmente distintas que deslocam a racionalidade Ocidental como a única estrutura e possibilidade de existência, análise e pensamento.” WALSH, Catherine E. The Decolonial For. In: MIGNOLO, Walter; WALSH, Catherine E. On decoloniality: concepts, analytics, praxis. Durham: Duke University Press, 2018, p. 17, tradução minha. Original:

“Decoloniality, in this sense, is not a static condition, an individual attribute, or a lineal point of arrival or enlightenment. Instead, decoloniality seeks to make visible, open up, and advance radically distinct perspectives and positionalities that displace Western rationality as the only framework and possibility of existence, analysis, and thought.”

130 GROSFOGUEL, Ramón. The Structure of Knowledge in Westernized Universities: Epistemic Racism/Sexism and the Four Genocides/Epistemicides of the Long 16th Century. Human Architecture, v. 11, n. 1, p. 73-90, 2013. “O interesse mais amplamente é com a decolonialidade pluriversal e a pluriversidade decolonial, uma vez que elas estão sendo pensadas e construídas fora e dentro das fronteiras e fissuras do mundo ocidental do Atlântico do Norte”

(MIGNOLO; WALSH, 2018, p. 2, tradução minha). Original: “The interest more broadly is with pluriversal decoloniality and decolonial pluriversality as they are being thought and constructed outside and in the borders and fissures of the North Atlantic Western world.”

Santiago Castro-Gómez Filosofia Colombiana Pontificia Universidad Javeriana, Colômbia Nelson Maldonado-Torres Filosofia Porto-riquenha University of California,

Berkeley, EUA

Ramón Grosfoguel Sociologia Porto-riquenha University of California, Berkeley, EUA

Edgardo Lander Sociologia Venezuelana Universidad Central de Venezuela

Arthuro Escobar Antropologia Colombiana University of North Carolina, EUA

Fernando Coronil Antropologia Venezuelana University of New York, EUA

Catherine Walsh Linguística Estadunidense Universidad Andina Simón Bolívar, Equador Boaventura de Sousa Santos Direito Portuguesa Universidade de

Coimbra, Portugal Zulma Palermo Semiótica Argentina Universidad Nacional

de Salta, Argentina

Elaboração: Ballestrin (2013)

Nos textos que tive acesso (tanto do campo das ciências humanas, quanto do ensino de ciências), aparecem com frequência referências a Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Ramón Grosfoguel, Catherine Walsh e Boaventura de Sousa Santos. Apesar da dita pluriversalidade intrínseca à decolonialidade, essas parecem ser as pessoas que têm tido maior penetração no campo, sobretudo no Brasil, e será maiormente em cima da produção destas que me basearei para escrever esta seção. Isto não significa que me restringirei a elas.131

A construção da decolonialidade começou no “momento de articulação do fim da Guerra Fria e abertura dos projetos globais neoliberais”132 e, por isso, duas características podem acabar atravessando a produção teórica que ali surgia, sobre as quais comentarei.

a) Com a queda da União Soviética, um derrotismo se assolou pelas esquerdas do mundo e este se manifestou no avanço de produções teóricas ditas progressistas, mas reacionárias

131 Uma pequena nota metodológica: É preciso lembrar que esta é uma pesquisa teórica. Ela pressupõe “o domínio da bibliografia fundamental, através do qual tomamos conhecimento da produção existente” (DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1985, p. 24) e, como tal, não se propõe necessariamente a sistematizar suas fontes, algo que consiste no objetivo de uma pesquisa bibliográfica, especificamente de uma revisão sistemática da literatura. Não tiro a necessidade de uma dessas, mas destoa do escopo e da natureza deste trabalho. Porém, minhas decisões não foram soltas: o panorama de Luciana Ballestrin sobre os estudos decoloniais (BALLESTRIN, 2013), sobretudo a lista de autores aqui reproduzida (Tabela 1), serviu para balizar o meu critério de seleção de leituras para a escrita desta seção.

132 MIGNOLO; WALSH, 2018, p. 6, tradução minha. Original: “(…) the hinging moment of the closing of the Cold War and the opening of neoliberal global designs.”

e reprodutivistas, proclamando até mesmo o “fim da história” ou a falência do marxismo, indicando a necessidade de uma superação deste para criar teorias outras orientadoras da esquerda, sobretudo no campo da teoria social e da ciência política.133

b) Uma supervalorização do aspecto individual/subjetivo das relações sociais, sobretudo em termos de agência pessoal ou de pequenos grupos para superar dilemas que estão acima do indivíduo, como é característico na forma neoliberal do capitalismo.

O derrotismo não se caracteriza apenas por um mal-estar e imobilismo, mas também se caracteriza por uma aceitação passiva do modus operandi de “quem ganhou”. Com relação à Guerra Fria, o modus productionis – modo de produção134. Sendo o capitalismo o vencedor onipotente, a esquerda derrotada tenderá a aceitar passivamente ou, melhor dizendo, tenderá a se render a muitas das formas de organizar a vida social que lhe é imposta, ao mesmo tempo em que propala, no gogó, ideais progressistas ou, no dizer de Terry Eagleton, românticas.

Esse ultra-esquerdismo romântico, porém, coexistiria, curiosamente, com um leve pessimismo – pois o fato é que se o sistema é todo-poderoso, não poderá haver, por definição, nada além dele, da mesma maneira que não pode haver nada além da curvatura infinita do espaço cósmico.135

Por exemplo: se a legalidade das coisas é fundante para a sociabilidade capitalista, uma vez que atua – pela via do Estado – como “uma força conservadora, na medida em que precisa atuar na preservação das formas sociais básicas do capitalismo”136, será característico desse derrotismo uma aceitação passiva (ou, raramente, ingênua) e indiscriminada do que é e não é determinado como legal nesta forma de sociabilidade. Por conta disto, muitas pessoas da tradição decolonial entenderão, equivocadamente, que a promulgação legal da independência dos Estados africanos equivale ao fim do colonialismo (citarei logo mais). Por essa lógica, é possível afirmar que, há 25 anos, vivemos tempos não racistas no Brasil, já que, desde então, temos a Lei Caó.

Essa negação do neocolonialismo leva a significativas demarcações no campo teórico decolonial. É sempre preciso não confundir, por exemplo, decolonial com descolonial. Para Catherine Walsh, ocultar o “s” é uma opção que

133 “(...) embora alguns membros da direita tenham proclamado o “fim da história” ou o triunfo final do capitalismo, alguns intelectuais de esquerda ainda repetem que uma época terminou, que estamos vivendo uma época “pós- moderna”, que o “projeto do Iluminismo” está morto, que todas as antigas verdades e ideologias perderam sua relevância, que os velhos princípios da racionalidade não mais se aplicam, e assim por diante.” WOOD, Ellen Meiksin Wood. O que é a agenda “pós-moderna”? In: WOOD, Ellen Meiksins; FOSTER, John Bellamy (orgs.). Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 10.

134 Uma pequena digressão: por isso, a Guerra Fria não poderia ser exclusivamente uma guerra ideológica, mas um embate para decidir a forma de organização material da vida social se daria, inicialmente em termos da sua produção.

135 EAGLETON, Terry. De onde vêm os pós-modernistas. In: WOOD, Ellen Meiksins; FOSTER, John Bellamy (orgs.). Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 24.

136 ALMEIDA, Silvio Luiz de. Neoconservadorismo e liberalismo. In: GALLEGO, Esther Solano. O ódio como política:

a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018, p. 29.

(...) pretende marcar uma distinção com o significado em castelhano do “des” e que pode ser entendido como um simples desarmar, des-fazer ou reverter o colonial. Isto é, passar de um momento colonial a um não colonial, como se fosse possível que seus padrões e marcas deixassem de existir. Com este jogo linguístico, pretendo colocar em evidência que não existe um estado nulo de colonialidade, mas posturas, posicionamentos, horizontes e projetos de resistir, transgredir, intervir, in-surgir, criar e incidir.137

Essa não parece ser uma opção apenas de professora Catherine E. Walsh. Essa diferenciação – entre decolonial e descolonial – constituiu uma das teses sobre decolonialidade/colonialidade que Nelson Maldonado-Torres propôs. Segundo este autor, esse conjunto de teses pretende ser uma “arquitetura conceitual básica” do campo, “uma analítica da decolonialidade”. Para ele,

(...) se a descolonização refere-se a momentos históricos em que os sujeitos coloniais se insurgiram contra os ex-impérios e reivindicaram a independência, a decolonialidade refere-se à luta contra a lógica da colonialidade e seus efeitos materiais, epistêmicos e simbólicos. Às vezes o termo descolonização é usado no sentido de decolonialidade. Em tais casos, a descolonização é tipicamente concebida não como uma realização ou um objetivo pontual, mas sim como um projeto inacabado. Colonialismo é também usado às vezes no sentido de colonialidade.138

O descolonial se associa, portanto, aos movimentos de descolonização em África e Ásia que procuravam detidamente superar o colonialismo em todas as suas manifestações (políticas, econômicas, ideológicas...) e obtiveram, como conquista, a independência de suas nações. Esse não é o interesse do pensamento decolonial porque não há mais o que superar. No ensino de ciências, há o endosso do posicionamento de Walsh nesse sentido. Para Katemari Rosa e Felicia Moore Mensah, “mesmo que as nações tenham se tornado independentes e o colonialismo terminou, as ideias de superioridade/inferioridade baseadas em raça continuam. O colonialismo terminou, mas a colonialidade persistiu”139. Segundo outros teóricos e teóricas da decolonialidade no nosso campo, “Catherine Walsh salientou em vários de seus trabalhos que a intenção do movimento decolonial não é desfazer o colonial ou superar o momento colonial em favor do pós-colonial”140. E é bem verdade. Em seu projeto ensaístico com Walter Mignolo, o livro On decoloniality: concepts,

137 WALSH, Catherine. Lo pedagógico y lo decolonial: entretejiendo caminos. In: WALSH, Catherine (org.). Pedagogías decoloniales: Prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir: Tomo 1. Quito, Ecuador: Ediciones Abya-Yala, 2013, p. 25, tradução minha. Original: “(…) pretende marcar una distinción con el significado en castellano del “des” y lo que puede ser entendido como un simple desarmar, des-hacer o revertir de lo colonial. Es decir, a pasar de un momento colonial a un no colonial, como que fuera posible que sus patrones y huellas desistan en existir. Con este juego lingüístico, intento poner en evidencia que no existe un estado nulo de la colonialidad, sino posturas, posicionamientos, horizontes y proyectos de resistir, transgredir, intervenir, in-surgir, crear e incidir.”

138 MALDONADO-TORRES, Nelson. Analítica da colonialidade e da decolonialidade: algumas dimensões básicas.

In: BERNADINO-COSTA, Joaze; MALDONADO-TORRES, Nelson; GROSFOGUEL, Ramón (orgs.).

Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2019, p. 36.

139 ROSA, Katemari; MENSAH, Felicia Moore. Decoloniality in STEM research: (re)framing success. Cultural Studies of Science Education, v. 16, n. 2, 2021, p. 504, tradução minha. Original: “Even though nations became independent and colonialism has ended, the ideas of superiority/inferiority based on race continue. Colonialism ended, yet coloniality persisted.”

140 DUTRA, Débora Santos de Andrade; CASTRO, Dominique Jacob F. de A; MONTEIRO, Bruno Andrade Pinto.

Educação em Ciências e Decolonialidade: em busca de caminhos outros. In: MONTEIRO, Bruno Andrade Pinto;

DUTRA, Débora Santos de Andrade; CASSIANI, Suzani; SÁNCHEZ, Celso; OLIVEIRA, Roberto Dalmo Varallo Lima de (orgs.). Decolonialidades na Educação em Ciências. 1. ed. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2019, p. 7.