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3.2 A PROPOSTA DA JUSTIÇA RESTAURATIVA

3.2.1 Delineamentos conceituais, valores e princípios

Não há um consenso sobre o conceito de Justiça Restaurativa, mas há aspectos que se repetem entre os autores, tais como o princípio da participação direta de vítimas e ofensores, diálogo entre eles e percepção do crime como um dano causado a uma determinada pessoa. Em linhas gerais, por intermédio da Justiça Restaurativa atribui-se um novo rosto à justiça, de modo que o objetivo central de qualquer programa que se intitule restaurativo é reconstruir a relação no que ela tem de mais concreto, repensando a justiça como o local de articulação entre os protagonistas (ACHUTTI, 2014, p. 60/61).

Howard Zehr (2008), considerado um dos principais nomes no estudo da Justiça Restaurativa, nos explica que o primeiro passo é “atender as necessidades imediatas, especialmente as da vítima”, argumentando que o processo deverá conceder poder e atribuir responsabilidades entre as partes diretamente envolvidas, quais sejam o autor e a vítima (ZEHR, 2008, p. 192).

Importa saber que objetivo central é a mudança paradigmática nos modelos de respostas quando do cometimento de um fato dito criminoso, mudar como vemos os nossos conflitos e como nos relacionados com o outro no dia-a-dia. Entre os objetivos, ACHUTTI (2014) afirma serem direcionados a conciliação, reconciliação entre as partes, reconstrução dos laços rompidos pelo delito, prevenção da reincidência, responsabilização, ressalvando serem não cumulativos (ACHUTTI, 2014, p. 58)

O que é mais importante observar é que o procedimento restaurativo foge da lógica processual habitual, com um rito específico ditado pela lei, com pouca margem para flexibilizações. Segunda as matrizes positivistas, o hábito é trabalhar com os Códigos de Processo que, guardada as devidas ressalvas, são bem similares aos passo-a-passo com um rito bem detalhado e pouca margem para flexibilizações, sob o argumento de que se deve proteger de arbitrariedades.

No caso da Justiça Restaurativa, do procedimento restaurativo em si, a lógica é completamente diversa. Justamente por isso é preciso desde o momento conceitual romper com a lógica positivista, tentando pensar na Justiça Restaurativa a partir dos seus princípios e valores para que se extraia os elementos do pensamento restaurativo e não um conceito e normas estanques.

Os ditames da Justiça Restaurativa acabam sendo eminentemente principiológicos e valorativos, ao contrário da Justiça Retributiva (sistema de justiça criminal) que possui regrar expressas e inflexíveis. Mais importante do que se conhecer o conceito e as normas, é saber quais são os seus princípios e valores.

Observa-se em geral que os autores que trabalham com a Justiça Restaurativa elencam essencialmente o princípio da direta participação das vítimas e ofensores

na resolução do conflito, presentes em qualquer programa de Justiça Restaurativa, de modo que devem “as partes considerarem e decidirem, elas mesmas, o que deverá acontecer” (ACHUTTI, 2014, p.59).

Além disso, não há uma forma pré-estabelecida de resultado, de modo que cada caso será conduzido de uma maneira particular, resultando não necessariamente em condenação, mas em composições diversas a depender da vontade das partes diretamente envolvidas, desde que essa vontade seja lícita e não viole direitos e garantias fundamentais. Para entender a Justiça Restaurativa é necessário extrair qual é a essência deste modelo, como bem exposto por Achutti (2014):

A essência da justiça restaurativa não é a adoção de uma forma ao invés de outra; é a adoção de qualquer forma que reflita os valores restaurativos e que visa a atingir os processos, resultados e objetivos restaurativos (...) necessário, portanto, que se observem os valores e os princípios restaurativos, para que as formas de aplicação deste modelo possam ser consideradas como efetivamente restaurativas (ACHUTTI, 2014, p. 66).

Há alguns valores elencados por autores clássicos da Justiça Restaurativa que devem ser buscados por qualquer programa de Justiça que se intitule restaurativo, a saber: não dominação de uma parte pela outra ou pelo Estado, empoderamento das partes, respeitos aos limites (constitucionais e morais), escuta respeitosa, igualdade de preocupação pelos participantes, “accountability” (transparência), respeito aos direitos previstos na declaração universal de direitos humanos e na declaração dos princípios básicos da justiça, reparação dos danos materiais, princípio da dignidade, etc. Outros autores ainda elencam como valores a serem buscados para um encontro bem-sucedido (não necessariamente irá ser alcançado) a busca pela prevenção de novos delitos, pedido de desculpas e busca pelo perdão (ACHUTTI, 2014, p. 68/70).

Ademais, tais valores não devem ser todos cumulativamente buscados e, portanto, não há a obrigatoriedade de que conste todos esses para que o programa seja de Justiça Restaurativa, em suma, “a justiça restaurativa enfoca as consequências do crime e as relações sociais afetadas pela conduta”, com isso, haverá um processo de construção coletiva do caso que resultará em um processo de construção coletiva da decisão, produzindo justiça para cada situação (ACHUTTI, 2014, p. 66/67).

Entre as práticas contempladas no modelo de Justiça Restaurativa, temos: apoio à vítima; mediação vítima e ofensor; conferência restaurativa; círculos de sentença e cura; comitê da paz; conselhos de cidadania; serviço comunitário; entre outras práticas17 (ACHUTTI, 2014, p. 75).

A mediação vítima e agressor e os círculos restaurativos estão entre as principais práticas aplicadas. Importante observar que a mediação quando utilizada em conflitos familiares já se mostra uma via adequada, enquanto não efetivamente implementado os pilares do modelo restaurativa, destacando-se que:

Na prática diuturna da mediação familiar encontramos algumas hipóteses em que a mediação consegue ser uma via adequada para solução de conflitos: como em casos de relações continuadas; quando as partes querem conservar o controle sobre o resultado do conflito; quando as partes querem compartilhar de algum grau de responsabilidade pelo estado do conflito; quando ambas as partes possuem bons argumentos e existe variada gama de possibilidades de se resolver o conflito, bem como de se prevenir o futuro surgimento de outros; quando as partes não tem a intenção de compor uma lide; quando se deseja manter a situação de anonimato, privacidade e confidencialidade; quando não existe um grande desequilibro de poder, quando a causa do conflito decorre de defeitos de comunicação prévia entre as partes e quando as partes necessitam, acima de tudo, de uma oportunidade para desabafar e expor seus posicionamentos (PAZÓ, 2009, p.17).

Em 2012, a Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu a Resolução n. 2002/12 onde estabelece “os princípios básicos sobre o uso da justiça restaurativa. Não se trata de um catálogo de princípios de obrigatória observação, mas de um guia geral relacionado ao tema”. Tal resolução pode ou não ser adotada pelos Estados- membros que desejem implementar a justiça restaurativa (ACHUTTI, 2014, p.72).

Um dos pontos relevantes a ser destacado é no que tange a voluntariedade de participação das partes neste tipo de procedimento. A resolução de forma expressa deixa claro que uma vez que as partes concordem em participar de um programa restaurativo, ela poderá desistir e retomar o processamento do caso ao processo penal tradicional. É importante destacar este ponto, uma vez que se o procedimento objetiva contemplar a vontade livre das partes, nada mais coerente do que atribuir a elas a decisão de ir ou não para o procedimento restaurativo (ACHUTTI, 2014, p.72/73).

17 Não é objetivo deste trabalho dispor minuciosamente sobre as práticas restaurativas.

Em suma, a resolução contempla 23 princípios divididos em 5 seções, a saber:

definição; uso; operação dos programas de Justiça Restaurativa; facilitadores; e desenvolvimento contínuo dos programas. São diretrizes direcionadas aos Estados membos da ONU, quando da implementação da Justiça Restaurativa, entretanto:

Isto não significa que exista um procedimento prévio a ser adotado, antes pelo contrário: a flexibilidade orienta dos valores e princípios acima conduz a uma enorme gama de processos restaurativos possíveis, denominadas práticas restaurativas (ACHUTTI, 2014, p.77).

No mesmo sentido, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), instituição pública que visa aperfeiçoar o trabalho do sistema judiciário brasileiro, editou em de 31 de maio de 2016 a Resolução n. 225, a qual dispõe sobre a Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Poder Judiciário e dá outras providências. Ademais, em suas metas estabelecidas periodicamente elencou como meta 8 implementar práticas de Justiça Restaurativa nos Tribunais brasileiros. Dispõe expressamente como meta de 2016 para os Tribunais Estaduais: “Implementar projeto com equipe capacitada para oferecer práticas de Justiça Restaurativa, implantando ou qualificando pelo menos uma unidade para esse fim, até 31.12.2016” (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016).

No Brasil, há um avanço significativo em alguns Tribunais, sobretudo nos Tribunais do Rio Grande do Sul com diversas experiências bem sucedidas. No Espírito Santo, entretanto, a Justiça Restaurativa se apresenta de forma tímida, a despeito da disposição expressa do CNJ como uma meta do Poder Judiciário para 2016.

O Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo em janeiro de 2016 instituiu gru- po de trabalho e gestores para acompanharem o cumprimento das metas. Em feve- reiro, a 1ª Vara da Infância e da Juventude de Vila Velha promoveu a primeira reu- nião do grupo de estudos sobre Justiça Restaurativa e Mediação. Em junho de 2016, foi realizada a primeira capacitação para os psicólogos e assistentes sociais do Tribunal de Justiça sobre a Justiça Restaurativa. Em agosto do mesmo ano, o tema Justiça Restaurativa continuou a ser discutido no “Fórum de Assistentes Soci- ais e Psicólogos do Poder Judiciário do Espírito Santo - FASP” que teve como tema:

“Mediação, conciliação e justiça restaurativa: a contribuição do serviço social e da

psicologia nas novas formas de resolução de conflitos”18 (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2016).

De forma incipiente, vê-se que no Brasil há um incentivo para o conhecimento e implantação deste novo modelo de justiça. Vê-se também que o estado do Espírito Santo tem se empenhado na capacitação de profissionais e implementação deste novo modelo no Estado.

3.3 UM NOVO PARADIGMA DE JUSTIÇA AOS CASOS DE VIOLÊNCIA