O FEIXE DE VARAS.– INDIVIDUALISMO E HYPERTROPHIA DE DEFEITOS. – EGOISMO INDIVIDUALISTA.– EGOISMO COLLECTIVO. – A MORAL DAS COOPERATIVAS. – PRIMUM VIVERE. – BOM SENSO, MATERIA PRIMA DO COOPERATIVISMO. – EXEMPLOS COLHIDOS NO MEIO. – VALORISAÇÃO DOS PEQUENOS PRO- DUCTORES. – PROBLEMAS AGRICOLAS INSO- LUVEIS. – AGENTES DE LIGAÇÃO ENTRE O PODER PUBLICO E A GRANDE MASSA PRO- DUCTORA. – O PONTO NEVRALGICO: O CON- SUMO. – SANEAMENTO DE PREÇOS E QUA- LIDADES. – COOPERATIVAS DE CONSUMO E ARMAZENS COMMERCIAES. – SOCIEDADES DE PESSOAS. – SUBORDINAÇÃO DA PRODUCÇÃO AO CONSUMO. – AS BASES DA ORGANISAÇÃO COOPERATIVA.
Sem duvida, existem regras, já hoje classicas, na engrenagem cooperativista. Terá de citar autores, e evocar principios consa- grados, quem se metter a discretear sobre Cooperativismo. Porém, este é fructo espontaneo do bom senso. Em vez de delinear es- corço historico, cheio de excerptos de Fourier, de Owen, de De- litzsch de Raiffeisen, de Luzzatti, de Gide, de Labadessa e de Borea, melhor é ir logo á fonte de dizer, simplesmente: a pri- meira pagina da literatura cooperativista, é aquella, antiga, que raconta o apologo do feixe de varas. Coopentivismo é união, é solidariedade. “Um por todos, todos por um”. Não haveria ou- tro systema apresentavel em synthese tão curta e tão completa a não ser aquelle, tão apparentado com o Cooperativismo, synthe- tisado desta maneira: “Amae-vos uns aos outros”. De resto, vale bem a pena fazer a aproximação e confessar o parentesco, em
3 - COOPERATISMO
auxilio da definição da materia. Realmente, não basta união; é de mister animal-a de bom espirito e bem oriental-a. O espírito da união cooperativa é o mesmo da união sodalicia, de inspiração nitidamente christã visando aperfeiçoamentos e perfeições. O individualismo é muito propicio ao desenvolvimento e hypertro- phia de deficiencias e defeitos. Á união bem inspirada desenvolve qualidades e perfeições, de que todos somos susceptiveis. Por outro lado o egoismo, essencia do nosso sêr humano, espraia-se demasiado e assume aspectos aggressivos, contra o proximo, se não conhecemos esse proximo se não estamos ligados a elle de qual- quer maneira. O egoismo individualista inspirou a Plauto o Homo homini lupus. Hoje, portanto, a união já não visaria im- pedir o irremediavel o facto consumado, esse triste facto de se- rem os homens lobos dos homens; mas, sim, impedir o dominio dos canideos, armar contra elles, ou em defesa, os que, isolada- mente seriam victimados.
Cooperativismo é a valorisação do individuo pela solidarieda- de social. Se a sociabilidade não caracteristica precipua do homem – pois muitos outros animaes vivem e lutam em sociedade, multiplicando cada individuo o seu valor pelo valor de cada um dos outros da mesma communidade – não se póde negar-lhe, ao homem, est’outra caracteristica; é unico animal que sendo es- sencialmente sociavel oppõe o individualismo á solidariedade.
Dahi decorrem as grandes desgraças: as guerras entre as nações;
as lutas entre as classes; as tragedias entre os individuos. Dahi, as maiores asperezas da vida, á cujas difficuldades naturaes se accrescentam as inventadas pelo homem, para o homem. Todos os crimes contra o proximo todas as manhas, todas as attitudes reprochaveis, tudo decorre deste facto: de abandonar o homem a solidariedade, base de todas as organisações sociaes, sejam de abe- lhas, sejam de termitas sejam de formigas, sejam de aves ou sejam de homens. Tudo quanto visa estabelecer ou reforçar a solida- riedade social, contribue pois, para o acrisolamento do caracter, fazendo desapparecer os motivos que levam o homem, natural- mente bom a forçal-o, a deformal-o. Regime do “um por todos, todos por um”, o Cooperativismo é a propria escola da solidarie- dade. E’, portanto, um temperador de caracteres.
de Marion, de Renouvier, de Secretan. Para ser uteis, detenha- mo-nos simplesmente no prosaico das cousas praticas. Discorren- do sobre os effeitos da solidariedade, Duprat começa por dizer que, fóra de qualquer relação social, o individuo é abstração ape- nas concebivel. O homem nasce em collectividade mais ou menos fortemente organisada; antes ainda de existirem instituições so- ciaes, soffre a influencia da solidariedade gragaria; mesmo contra a vontade, vive na dependencia de outros, e, sem perceber, exerce, tambem elle, influencia sobre os semelhantes. Á medida que au- mentam a cohesão, a reciprocidade, o poder de todos sobre cada um, continúa elle, vão se dando certos phenomenos psychologi- cos e sociaes, que tendam a desapparecer, ou desapparecem mesmo, á proporção que diminue a interdependencia dos seres na col- lectividade. Ha relação de causalidade entre esses factos, e as condições de existencia social, que os produzem. A simples co- hesão contribue para modificar os sentimentos. Espinas observa que “a colera cresce com o numero”. O valor de toda formiga, diz Forel, augmenta na razão directa da quantidade de compa- nheiras ou amigas, que ella sabe ter, e diminue em razão directa do isolamento. A mesma cousa quanto ao valor do homem. Fa- cilmente se verifica o alevantamento de animo de rapazes timidos, quando entre numerosos companheiros, ou simplesmente quando entre alguns amigos, com os quaes sabem poder contar, para dis- tribuição de responsabilidades.
Os aggregados sociaes melhor constituidos lutam com maior vigor pela conservação da propria existencia. Dahi resulta um egoismo collectivo. Uma sociedade bem organisada, mesmo quan- do de pequena força numerica, procurará tenazmente representar papel preponderante no seu meio social, na cidade, no Estado, ou na confederação de pequenas localidades. Quando a solidarie- dade social diminue, a opinião publica perde ao mesmo tempo em poder e em lucidez: as opiniões dividem-se, a não se sente já a necessidade de se pôr de accordo; os espiritos independentes affirmam com maior decisão o valor de suas concepções particula- res; a aristrocacia zomba das idéas do povo; os funccionarios não se preoccupam com ver apreciados pelo publico seus serviços e seu
zelo; as intelligencias desequilibradas abandonam-se ao absurdos;
os menos audazes vão á ventura, arrebatados ora por uma corrente de opinião, ora por outra.
Dir-se-á que essa solidariedade social é de ordem mora. E é.
Porém, diga-se que as relações fundamentaes entre os povos, como entre os individuos, são de ordem economica. Onde ha commu- nidade de interesses, ha cohesão de vistas. Por isso terá dito Du- prat, que, se tem de ser moral, a solidariedade social deve fazer de todos os seres racionaes cooperadores livres em todas as esphe - ras da actividade humana. Os individuos isolados só podem pre- judicar-se reciprocamente, em concurrencia ás mais das vezes im- productiva, sempre cruel, e que, se sobreexcita as faculdades de alguns e lhes permitte elevar-se rapidamente por sobre a multi- dão, que ameaçam opprimir, desalenta os mais, multiplica as cau- sas de desespero, exalta os egoismos, oppõe uns homens a outros, e faz da humanidade vasto campo de batalha, onde a generosi- dade, a piedade, o amor desinteressado ao proximo são um perigo para os que taes sentimentos abrigam. O estudo da solidariedade social mostra que de facto a degeneração moral das victimas da concurrencia a miseria, os males de uma producção desordenada e de um consumo não bem regulado, a desigualdade excessiva das condições de existencia e de aperfeiçoamento, teem em todos os individuos, mesmo nos triumphadores, repercussão funesta; o mal de alguns alcança indirectamente a todos os demais, mesmo aquel- les, cujo exito ou cuja sorte em apparencia favorece. E’, pois, absurdo esforçar-se por manter um regime que a experiencia con- demna, e que é contrario a um dever, á obrigação racional de realisar um systema unico de vontades livres, mas solidarias. Pó- de-se, ao contrario, attingir um progresso social consideravel, me- diante a formação de grande numero de associações que se repar- tam, a grande tarefa humana, e realisem a divisão do trabalho sem a intervenção de um genio providencial, nem de um Estado, que demarque a cada qual o seu trabalho e seu quinhão, mas sob a vigilancia de um poder moral instituido para a salvaguarda da liberdade e da dignidade individuaes. (Duprat: La Solidarité Sociale). Emquanto “a falta de solidariedade na producção pou- de falsear e até annullar os effeitos da hereditariedade, e mesmo
da selecção, longe, por conseguinte, de realisar o sonho de Nietzsche e de dar-nos uma floração de superhomens — diz Par- pillaut — a solidariedade dos cooperadores, a de suas associações, permitte a cada qual desdobrar suas aptidões hereditarias ou ad- quiridas, e chegar a ser, para seu proveito e o de seus socios, um homem de valor crescente, de utilidade cada vez melhor apre- ciada. Emquanto o regime da concurrencia faz inutil o esforço de milhares de seres virtuosos e intelligentes, o da cooperação permitte augmentar o acervo das riquezas communs com toda sorte de productos, qualquer que seja sua real importancia, e, acabando com os temores, com os riscos de insuccessos, a solidariedade dos productores infunde no obreiro uma confiança, que multiplica suas forças, sua productividade. A grande industria, o “machinis- mo pode proseguir seu vôo, sem que haja a temer nem a super- producção, nem a miseria crescente dos trabalhadores, se as asso- ciações cooperativas de producção e de consumo se accordam para procurar saidas a todos os productos, ao mesmo tempo que meios de satisfação a todas as necessidades”.
* * *
Depois de affirmar que a moral das cooperativas tem raizes na missão deitas, Staudinger imagina que isso parecerá ridiculo a muita gente, e, a não poucos, deploravel. E pergunta: que tem a ver com a moral a venda de feijões e presuntos, assucar e aren- ques? Geralmente, consideramos a moral como cousa externa e decorativa da vida, em vez de fazel-a consubstancial da vida; isto é, como condimento de um manjar e não como sua força nutri- tiva. Dahi resulta que a moral corre deslisa á ... .(ilegivel) ...
em lugar de ... (ilegivel) completamente ... (ilegivel) Não consi- deremos triviaes esses actos minimos de administração. Na pro- ducção e acquisição de artigos, que satisfaçam nossas necessidades materiaes, passamos a maior parte da vida e, por mecanismo da divisão do trabalho, todo productor de um artigo tem de propor- cionar-se com elle os outros bens, de que necessita, Para elle, passadas as etapas da rapina ou do senhorio, só fica um meio: a troca. Sustentamos o cambio, para que o cambio nos sustente.
Mas, isso não resolve problema algum; ao contrario, cria outros.
Pelo modo, como permutam entre si os productos, vêm os homens a estabelecer determinadas relações pessoaes. E por estas relações, não pelo ensinamento da moral e suas theorias, se decide a boa vontade de uns para com os outros. As relações moraes entre os homens ( e bem nol-o demonstrou a guerra) são distinctas em tem- po de paz ou de luta, entre homens livres ou entre victimas da escravidão, no commercio e na cooperação. Só esta ultima, que, a dizer a verdade, nunca falta inteiramente, assegura aquelle alto grau de moralidade, de que a philosophia e a religião exigem e des- envolvem na ordem ideologica.
Nossa habitual maneira de agir grava-se em nosso pensamento e em nossa sensibilidade, de modo indelevel. Os homens alimen- tam para com o proximo sentimentos mui diversos, conforme lu- tem pela posse de bens materiaes ou se dividam em dominadores e dominados por causa da producção, ou, ao contrario, se agrupem em collaboração para as cousas materiaes. Basta observar impar- cialmente, para notar-se que a selvagem luta economica entre gru- pos de productores se reflecte na conducta total dos homens. E essa luta pelo maximo de beneficios, pela maior potencia econo- mica, se desenvolve em torno á criação de cousas materiaes. Pois bem: embora pareça incrivel que a consciencia collectiva haja incorrido em falta de percepção, e indiscutivel que foi desconhe- cida aquella intima relação de interdependencia entre o sentimento e a economia e o modo de trabalhar dos homens; se não foi inteiramente desconhecida, foi pelo menos desprezada. Afinal de contas, a moral da cooperativa consiste em propugnar pelo pro- prio interesse, cuidando do interesse dos demais. Isso vem a ser o “amar ao proximo como a si mesmo”, base da perfeição humana.
(Franz Staudinger: Cooperativas de Consumo).
Na base de todas as questões moraes e sociaes, está uma questão economica. Primum vivere, deinde philosophare. Pri- meiro viver; philosophar, depois. Podem discutir-se as regras de moral e os principios de sociologia; a necessidade de viver é indiscutivel. E’ necessario cuidar do alevantamento moral e social das classes ditas inferiores. Por imperativos de caridade christã, por solidariedade social e por amor á estabilidade da ordem. Mas,
isso não se consegue mediante prégações de moral. Não se póde exigir moral irreprochavel de massas populares, cujos membros componentes passaram a infancia em abandonada promiscuidade. Para cuidar disso, é preciso combater, praticamente, o pauperismo, de que tudo é consequencia. Combater o pauperismo com armas efficientes, pela valorisação do individuo, pelo aproveitamento dos menores esforços, pela suppressão dos excessos, que forem inex- plicaveis e desnecessarios, de differenças entre classes – essas dif- ferenças resultantes da exploração commercial de umas pelas ou- tras. Teriamos, então, de cair novamente nesta definição, que os espiritualistas detestam: man is a trading animal – o homem é um animal que permuta. Escandalisem-se. Mas, releiam: “geral - mente, consideramos a moral como cousa externa e decorativa da vida, em vez de fazel-a consubstancial da vida, isto é, como o con- dimento de um manjar e não como sua força nutritiva. Dahi resulta que a moral corre, desliza á margem da vida, em lugar de penetral-a completamente”. Releiam mais ainda: “são de ordem economica as relações fundamentaes entre os povos, como entre os individuos”.
Não podemos negar que a physiologia domine nossa vida material. Accrescentarei: a primeira pessoa, que vi morrer, foi meu pae; colhido por um collapso cardiaco, desses que não dis- cutem muito. Entretanto, na luta breve, que terminou logo contra aquelle homem bom, vi — mais vi nitidamente — como o ins- tincto de conservação é o que mais forte grita dentro de nós e não se cala nem mesmo quando, esfriando-se já o despojo mate- rial, somos mais do mundo espiritual do que deste mundo carnal.
Isso, essa teimosia do instincto de conservação, observei-a em meu pae, religioso, cujos ultimos annos de vida já eram de desprezo superior ás cousas terrenas — o que lhe emprestava ares de con - viva da morte, que não tinha para elle feições tragicas. O ins- tincto de conservação, que dá o grito de commando dentro de nós, é physiologico, creio. Ora, não se rirão muito de mim physiolo- gistas, se disser que, physiologicamente, o homem é um sêr que consome. Para consumir, é indispensavel produzir. Dahi resulta que as duas funcções economicas essenciaes são: produzir e con- sumir. E dahi nasce o man is a trading animal, ou seja a per-
muta, a engrenagem entre a producção e o consumo. Então, em vez de prégações de moral, feitas aereamente, sem considerar que, dentro de nós, o instincto de conservação grita muito mais alto do que o mais estentorico moralista, cuide-se de aquietar a phy - siologia, resolvendo bem o problema do consumo e da producção.
Para demonstrar como é no systema cooperativo que está a me- lhor solução desse problema, abandonemos os livros e exponha- mos cousas praticas, prosaicamente.
Escrever sobre o Cooperativismo é, aliás, fazer literatura de manual: expôr cousas eminentemente praticas. “Evangelho em acção”, dizem-no. Quasi nenhuma theoria. Em meios, como o nosso, onde se ama o complicado, onde o sem complexo não me- rece fé, uma difficuldade do Cooperativismo é mesmo o facto de não poderem os seus prégadores expôr theorias lindas e extensas, como as lindas e extensas maravilhas a elle attribuidas, e annun- ciadas em seu nome. O Cooperativismo é o bom senso applicado em grande escala; só costuma fracassar por escassez de materia prima. Isto é, de bom senso. Um pouquiabo de exemplificação, a demonstrar como as praticas cooperativas fortalecem o fraco sem enfraquecer o forte; como prosaicamente valorisam a pequena pro- ducção, tornando possivel o seu aproveitamento, impraticavel de outra maneira. Vamos suppor que, ahi para os lados de Guaru- lhos e Santa Izabel, existem vinte pequenos sitiantes e que seja de dez kilometros, em media, a distancia interposta do sitio de cada um ao mercado municipal da Paulicéa. Admittamos que a media de distancia de um sitio ao outro mais proximo seja de dois kilometros. Para completar a equação, admittamos ainda, que, uns pelos outros, em cada sitio sóbrem diariamente do con- sumo domestico duas duzias de ovos, cinco litros de leite, e pequeninas safras hortaleiras — tomates, aboboras, etc.. Nas con- dições actuaes, de individualismo economico (vale dizer de desor- ganisação economica), como aproveita cada sitiante aquellas so- bras? Encher um balaio e palmilhar estrada até São Paulo, é penoso e impraticavel. Possuir um caminhão, é cousa acima da capacidade de pequeno sitiante, e implica despezas impossiveis de supportar-se por tão pequena quantidade de mercadorias, cons- tituida de artigos baratos. De sorte que acaba nisto a cousa:
quotidiana: a poucos kilometros dos centros consumidores, estra- gam-se, desvalorisados, productos agricolas, de cujo abastecimento esses centros consumidores se ressentem. Nos arredores das cida- des, gallinhas e porcos se banqueteam com cousas, de que as popu- lações citadinas sentem falta ou que compram carissimo. E nos sitios vae imperando esta situação chronica: a miseria circumdada de abastança; o sitiante vê as laranjas e as aboboras rolando no terreiro, hortaliças apendoando na horta, gatos e cachorros e por- cos bebendo leite... e os filhos delle sem camisa para vestir, elle sem dinheiro para comprar vermifugos nem cartilhas.
Admittamos mesmo a hypothese mais suave, ás vezes realisavel:
o sitiante arregimenta energias e consegue meio de transporte. E’
tão pouco, porém, a mercadoria, que as despezas comem os lucros.
Admittamos mais: que todos aquelles vinte sitiantes conseguissem trazer ao consumo as sobras de sua producção.
Primeiro: de cada sitio, pelo menos uma pessoa por dia (o sitiante mesmo, em quasi todos os casos) seria desviada da pro- ducção para o commercio. Segundo: cada sitiante haveria de tra- var na cidade, para vender o producto, luta mais titanica do que a travada com a Natureza para produzir; teria de enfrentar o explorador do fructo do seu trabalho, o qual lhe imporia o preço que quizesse, e elle teria de vender, ou de jogar fora. Terceiro:
sendo de dez kilometros a distancia média entre cada sitio e o mercado, o total percorrido, na vinda e na volta, pelos vinte si- tiantes, seria de quatrocentos kilometros. Calcule-se o preço dessa kilometragem em gazolina, ou em animaes de tracção, e tambem em energia despendida, e veja-se o quanto se encareceu o pro- ducto, em prejuizo do consumidor, ou o quanto se desfalcou a recompensa do productor.
Se, porém, aquelles vinte sitiantes estivessem organisados em cooperativa de producção: um caminhão partiria da Capital á tarde, e faria dez kilometros até um dos sitios; outro caminhão demandaria o sitio da outra extremidade. Na madrugada seguinte, de sitio em sitio, cada um faria dezenove kilometros, arrebanhan- do tudo quanto sobrasse ao consumo domestico dos sitiantes, e os dois se encontrariam a meio caminho. Se um pudesse conduzir
para a cidade a carga arrebanhada pelos dois, o outro ficaria lá;
se não voltariam ambos. Exponhamos por meúdo as consequen- cias:
a) Aproveitam-se as minimas parcellas da producção rural;
o sitiante isolado não póde vir á cidade só para vender uns pou- quinhos litros de leite e uns quiabos e umas laranjas, mas a cooperativa póde mandar um caminhão ao sitio delle, afim de apanhar essas sobras, porquanto esse mesmo caminhão passará pelo sitio visinho, pelo outro e pelo outro;
b) Em vez de vinte sitiantes que abandonam suas lavouras, afim de mercadejar na cidade, dois chauffeurs fazem o serviço todo do transporte; em vez do custeio de quadrocentos kilometros de caminhadas, a encarecerem a producção ou a desfalcarem a recompensa do productor, custear-se-iam apenas setenta e oito ki- lometros, na peor das hypotheses;
c) Em vez de um sitiante que marcha para o mercado sem saber se os especuladores lhe vão offerecer preço de compra ape- nas um pouquinho superior ou igual ou mesmo inferior ao preço de producção, teriamos uma cooperativa a receber o producto e garantir ao dono della a mais honesta conta de venda, prestada não por um especulador, ou por um intermediario mas por ge- rentes escolhidos e fiscalisados pelo proprio sitiante;
d) Em vez da ociosidade obrigatoria, em que vive grande parte da População rural – ociosidade advinda da inutilidade de qualquer esforço, porquanto não possue valor economico a pe- quena producção nas condições actuaes, teriamos população rural animada e obreira, certa, como estaria, de que seriam aproveita- das as ultimas parcellas da sua producção.
Admittamos que a terra de cada sitio esteja cançada, com o rendimento consideravelmente diminuido, como occorre quando não se pratica, na agricultura, a “doutrina da restituição”. Po- derá modesto sitiante comprar um arado, um cavallo ou um boi, para puxar o arado e, depois, adubos? Não póde. Primeiro, porque nem ao menos terá idéa de o fazer, já que o isolamento, em que vive, lhe cerceia a mentalidade aos limites angustos da