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ideias surgiram: telefonar ou ir até a casa dela. Contei às crianças que não tinha o número do telefone dela, mas sabia que a Silvana morava em Sorocaba – SP, então fomos analisar o mapa do Estado de São Paulo, vimos que a Cidade de Sorocaba fica muito longe, tornando inviável a ida de todos os alunos até a casa da autora.
Assim, perguntei se alguém conhecia o carteiro e sabia o que ele fazia. As crianças fizeram vários comentários que demonstravam conhecer este profissional. A partir desta conversa, as crianças chegaram à conclusão de que a carta seria um instrumento eficaz para comunicar à autora tudo o que elas conversaram após a leitura do livro. Eu atuei apenas como escriba, registrando as falas dos alunos.
Em seguida, auxiliei as crianças na organização do texto, colocando-o na forma padrão de carta. A partir deste momento, muitas oportunidades surgiram, nas quais as crianças poderiam se comunicar, por meio de carta, e, atualmente, elas se correspondem com sete pessoas, que disponibilizam alguns minutos de suas vidas e do seu dia a dia para enriquecê-los com suas experiências, criando amizades e formando vínculos afetivos.
Diferentemente de outros projetos, este não apresenta etapas tão definidas. No seu desenvolvimento ocorrem ações entrelaçadas que são pensadas e discutidas com as crianças na roda de conversa.
1. Ao enviar a carta
y Pensamos no que queremos conversar, comunicar com cada correspondente;
y Cada criança pode se colocar e dar a sua contribuição com frases;
y Eu registro as falas das crianças, na ordem em que realmente acontecem.
y Aos poucos, vou dizendo também as etapas que a carta deve conter: nome da cidade em que estamos e a data, cumprimento, despedida.
No final desta coletânea, temos muitas informações sem nenhuma organização, assim eu digito todo o texto na sequência em que as crianças disseram. E novamente em roda:
y Apresento as frases soltas na ordem em que elas disseram;
y Aos poucos, vamos lendo e percebendo a ordem em que as frases ficam me- lhores, vamos organizando o texto.
Assim, vamos dando coerência e sentido ao texto coletivo e ajustando de acordo com o formato carta. Com o texto já organizado, vamos para a assinatura. Cada criança escreve seu nome na frente da sua fotografia, assim o correspondente pode manter um pequeno contato visual com cada uma. Em seguida, vamos ao envelope, observar onde se escreve o nome do remetente e destinatário, não se esquecendo do selo. Depois, é só aguardar a resposta.
2. Ao receber a carta:
y Normalmente recebemos a carta na sala de aula;
y Observamos o envelope, tentamos descobrir quem é o remetente analisando as letras e comparando com o cartaz de alguns correspondentes em sala de aula;
y Observamos o texto, fotos e desenhos se houver;
y Fazemos a leitura em roda;
y Fazemos pesquisas sobre algum assunto solicitado na carta, ou algum tema que despertou curiosidade nas crianças;
y Para as pesquisas, podemos usar internet, livros, mapas ou entrevistas com adultos da escola. Ex. Onde está o Neymar?
y Exploração de algum tema suscitado na carta. Ex. Cozinhar o prato preferido do autor.
Durante o desenvolvimento do projeto encontrei várias dificuldades, algumas mais simples, outras mais complicadas e algumas ainda sem solução. O recebimento
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de cartas é sempre um momento de muito entusiasmo, gera muita expectativa nas crianças, porém algumas dificuldades aparecem neste momento. As crianças ficam tão eufóricas que querem comentar, todas ao mesmo tempo e, às vezes, perdem detalhes importantes de informações contidas na carta. É necessário relê-la várias vezes para que todas se apropriem de todo o conteúdo, de todos os detalhes da carta.
A ONG Roedores de Livros indicou cinco livros para nossa leitura. Fui até o acervo da escola e não encontrei nenhum, somente um título estava à disposição na Biblioteca Pública Milton Santos, distante 9 km da nossa escola. Eu tive de comprá- los para dar continuidade ao projeto.
Outro aspecto de preocupação é o tempo que nosso interlocutor pode demorar em responder as cartas das crianças, ora porque está viajando, ora porque está demasiado ocupado, ou simplesmente deixou para fazer isso depois e esqueceu. Como o correspondente responde de acordo com a sua disponibilidade, às vezes ocorre o recebimento de duas cartas juntas, o que dificulta a exploração da totalidade das cartas.
Ao término da carta, as crianças assinam na frente da sua foto, uma foto em preto e branco, já que não havia condições na Unidade de se imprimir a cores, o que, a nosso ver, daria mais vida às cartas das crianças.
O projeto de cartas foi finalizado em dezembro com a troca de cartas com o Papai Noel. Em seguida, reuni em uma encadernação todas as cartas enviadas e recebidas, bem como as fotos dos correspondentes e assinatura das crianças. Assim, cada família, cada criança, pode visualizar o desenvolvimento do projeto como um todo, ler e reler as cartas e perceber nestes textos escritos como as crianças se relacionaram com os diferentes correspondentes.
A compilação das cartas garantirá uma lembrança para o futuro. Assim como um documento que conta uma história, as nossas cartas retratam um momento da nossa infância e um momento da nossa vida escolar.
Em uma reunião de pais, foi entregue a compilação, proporcionando às crianças a possibilidade de falarem com eles sobre cada carta, cada descoberta,
cada conhecimento adquirido. Não foi uma apresentação formal, apenas um momento de podermos dizer aos pais o quanto este projeto foi importante para o nosso desenvolvimento pessoal e escolar.
O auge deste projeto pode ser classificado em dois momentos: o primeiro, em outubro, quando as crianças receberam das mãos da carteira (funcionária dos Correios), a Sra. Renata, uma carta escrita pelos pais, ou seja, a mãe e o pai juntos escrevem uma carta, uma mensagem para as crianças, onde falam de seu amor pelo filho, da importância das crianças na vida dos pais. É um momento de muita emoção e de alegria para todos.
O segundo, foi a visita do autor Ilan Brenman, que veio acompanhado de suas filhas Lis e Íris, o que enriqueceu mais ainda este momento tão esperado, mostrando às crianças um pouco da sua vida pessoal, um homem casado e pai de família. Conhecer o autor de pertinho, fazer perguntas, ouvir histórias, poder tocá-lo e descobrir que ele é de verdade é uma alegria que ficará para sempre no nosso coração.
O processo de avaliação do projeto ocorreu de forma contínua por meio da observação, da participação e do envolvimento das crianças nas atividades, o que permite perceber quais pontos e quais estratégias precisam ser ajustadas.
Até o presente momento, já observei que algumas crianças demonstraram ter mais autonomia durante as atividades e brincadeiras, melhoraram a autoestima, sentiram-se valorizadas, pois são “amigos” dos escritores Ilan Brenmam e Silvana Rando, têm amigos em Ceilândia-Brasília, recebem cartões postais de outros países, passaram a procurar amigos para resolver algumas dificuldades durante as brincadeiras e a apresentar melhor elaboração do pensamento resultando em uma fala mais clara e coesa, usando um vocabulário diferenciado.
Aprendi que não devo controlar o projeto, pois ele caminha pelas mãos e ideias das crianças e dos correspondentes. Coordenar este trabalho é gratificante. Aprendi que devo estar atenta a todas as possibilidades que surgirem para continuar com este ou outro projeto de escrever cartas.
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Conclusão
O desenvolvimento do Projeto Escrever Cartas trouxe às crianças a vivência real da escrita e mostrou a possibilidade de comunicar nossos pensamentos e ideias a outras pessoas, como também conhecer a cultura de outras cidades e países.
O Projeto Escrever Cartas teve a intenção de motivar os alunos a questionarem, a se colocarem nas conversas, a atuarem na elaboração das cartas. Assim, posso dizer que o Projeto surgiu da minha inquietação como professora em buscar novas estratégias para o desenvolvimento das atividades, no propósito de desenvolver na criança espírito crítico e atuante, desenvolver a criatividade, a estética, vivenciando a escrita como ela é de fato, ou seja, vivenciar a escrita com a sua função social.
Antes mesmo de concluirmos o ano, já pude vislumbrar alguns progressos com a turma, como:
y Percebem a relação entre: o que se fala se escreve, e se escreve de forma mais elaborada,
y Reconhecem a professora como escriba,
y Entendem a relação entre os endereços dos destinatários e remetentes, y Entendem a importância da língua escrita,
y Encantam-se com o recebimento das cartas,
y Identificam Ilan Brenman e Silvana Rando em entrevistas na televisão, y Criaram vínculos afetivos com os correspondentes.
O Projeto Escrever Cartas vai muito além das letrinhas e palavras que escrevemos, ele toma forma, ganha corpo, ganha vida e, assim, ele se torna mais, muito mais do que papel, envelopes e selos, ele entra em nossa vida, falamos dele o tempo todo, respiramos carta, identificamos situações semelhantes vivenciadas também na nossa casa.
Referências
LERNER, Délia. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.
SPATANI, Sandra; SILVA, Rosineide Barbosa da. Comunicação pela escrita. Revista Avisa lá, São Paulo, n. 45, maio 2011.
TEBEROSKY, Ana; CARDOSO, Beatriz. Reflexões sobre ensino da leitura e da escrita. São Paulo:
Vozes, 1993.
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