homem e mulher – que atravessa a composição para se constituir uma terceira possibilidade de compreensão. Aqui, neste ponto, é possível perceber um abandono no modo de compreensão binário a que se atêm os sujeitos, inserindo um elemento outro: o ser andrógino, componente constituinte da terceira margem.
uma vez que tal discussão dialoga com a posição apresentada por Diadorim, utilizaremos a colocação apresentada pela pesquisadora como empréstimo para falar acerca da posição de androginia da personagem, que se encontra, neste momento, acima do debate entre masculino e feminino. Assim, a autora aponta que:
Como as duas forças contraditórias atuam no interior de um mesmo e único ser, que não pode dividir-se, elas propõem acima delas uma terceira potência, que não é outra, senão a unidade. Essa terceira potência é mais pura, porque é livre em relação aos dois contrários, e, por isso, constitui a essencialidade por excelência. Assim, como a negação é o começo eterno, esta terceira potência é o fim eterno. (FARIA, 2007, p. 232).
Livre da ideia de apoiar-se e defender um só lado, ou só uma das metades em que se subdividem os gêneros e compõem a binariedade instituída como forma de compreensão do mundo, a posição alcançada por Diadorim ao longo da narrativa compõe uma mescla possível entre o masculino e o feminino, resultando em um único ser, uma terceira potência instaurada na narrativa, livre em relação aos pares opostos. Apoiado nesta terceira potência, resultante do jogo estabelecido pelas possibilidades, o narrador apresenta um local que pode ser ocupado por um terceiro, pelo ser híbrido gerado desta relação de completude: o ser andrógino. Desta forma, protagonista e leitor seguem divididos, construindo para a personagem Diadorim um lugar que é, ao mesmo tempo, possível e não possível, resultando em um entrelugar, que destaca a posição privilegiada da personagem. O deslocamento diante das possibilidades encontra-se inscrito na composição da personagem, tal como nos afirma Antônio Candido (1957):
A amizade ambígua por Diadorim aparece como primeiro e decisivo elemento que desloca o narrador do seu centro de gravidade. Levado a ele (ou ela) por um instinto poderoso que reluta em confessar a si próprio, e ao mesmo tempo tolhido pela aparência masculina, Riobaldo tergiversa e admite na personalidade um fator de desnorteio, que facilita a eclosão de sentimentos e comportamentos estranhos, cuja possibilidade se insinua pela narrativa e vai lentamente preparando para ações excepcionais, ao obliterar as fronteiras entre lícito e ilícito. (CANDIDO, 1957, p. 16).
Na medida em que a trama é desfiada pela fala de Riobaldo, o leitor coloca-se também como parte desta estranha aproximação, impossibilitada pelo conflito de ideias do personagem, resultante no perfil andrógino de Diadorim. Entre o lícito e o ilícito das relações estabelecidas, Diadorim assume a posição de indeterminação, tal como proposto para o modelo de donzela guerreira, tornando-se, por fim, a virgem inalcançável. O tensionamento da relação entre os dois jagunços é apontado constantemente por Riobaldo, quando o personagem exterioriza suas angústias quanto ao sentimento que tem por ela:
Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava.
Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele
estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria.
Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava.
Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava? Eu conto. O senhor vá ouvindo. Outras artes vieram depois. (ROSA, p. 146 – 147).
A relação, mesmo dúbia, que se estabelece, instaura a ideia de completude, quando Riobaldo afirma que, quando próximos, nada mais lhe faltava. As mãos, anteriormente apontadas como gesto de entrega, novamente aparecem para caracterizar a aproximação emocional dos personagens, permitindo uma feminilização da personagem de Diadorim por conta da delicadeza de seus gestos. Assim, apoiado na possibilidade de travessia estabelecida pela junção entre os sujeitos, e das problemáticas advindas dessa relação, o personagem mostra:
Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia. (ROSA, p. 502).
Dois aspectos merecem serem ressaltados quanto à citação acima: um primeiro, advindo da relação de paridade com que os jagunços se reconhecem, seguindo “par a par”,
“lado a lado”, em uma afinidade que “vai-a-vida inteira”, destinados ao eterno, como a ideia do rio; um segundo aspecto, acaba sendo revelado no momento que a travessia ganha nova dimensão, reconfigurada pelo trecho “a toda travessia”. Não é apenas uma, dada através da trajetória estendida do sertão enquanto espaço geográfico, mas “a toda travessia”, todas aquelas que compõem a obra, reafirmando a importância da personagem Diadorim para as demais possibilidades de discussão existentes dentro da narrativa, tal como a relação entre deus e o diabo.
Apoiando-se na impossibilidade de relacionamento existente entre os personagens, beirando as margens, simultaneamente tocando-as de uma ponta a outra e compondo os dois registros apresentados, Diadorim inscreve-se na terceira margem. Maria Lucia G. de Faria (2007) apresenta a relação com este movimento construído pela narrativa quando apresenta seu entendimento sobre o enlace amoroso:
O outro, no enlace amoroso, atingir a terceira potência, que é a unidade trinitária, significa transcender a oposição e aceder à complementariedade de todos os princípios opostos: o masculino e o feminino, o espiritual e o natural, o urânico e ctônico, o luminoso e o trevoso, o abissal e o supra- sensorial. Se dois seres se amam e se completam, a relação que estabelecem entre si é a de unus ambo. (FARIA, 2007, p. 239).
A autora nos chama a atenção para a possibilidade de totalidade quando aproximadas as duas margens existentes nas construções de gênero, leitura que é notável na relação de Diadorim consigo, bem como na relação de Diadorim com Riobaldo. Para a primeira situação, perceber a existência de Diadorim como ser que agrega as duas formas é pensar a existência de um ser místico completo, tal como o mito da androginia propõe. Pensar a sua relação com Riobaldo, por sua vez, é perceber a possibilidade de completude das metades separadas e instaurar uma figura de totalidade pelas metades envolvidas, abandonando as relações de oposição e assumindo a de complementariedade. Para ambos os casos, a ideia de completude se dá tomando como ponto central as relações estabelecidas entre as personagens principais e a relação com outros personagens secundários a partir da visão de Riobaldo. Trataremos, em seguida, das mulheres que compõem a trajetória de Riobaldo, ainda que apenas para demarcação dos traços de feminilidade que compõe a personagem Diadorim – marca que se configurará como espaço possível na construção da imagem de androginia.