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Com as palavras do próximo desenhador estudado, Domingos Santeiro, os oratórios são produtos de uma época em que a justiça era divina, “o povo não tinha a quem pedir, somente a Deus e a fé era maior”.

Domingos José da Paixão (fig. 39), ou como é popularmente conhecido Domingos Santeiro aprendeu a esculpir imagens de santos por necessidade.

Nascido em 10 de janeiro de 1948, sergipano da cidade de Lagarto, pelas suas próprias palavras se define “sobrevivente da seca, da fome e da miséria”. Para sobreviver já trabalhou como lavrador, pedreiro, camelô, ourives, vaqueiro, restaurador, ator, poeta, escritor, antiquário e santeiro. Teve com sua universidade a feira. Sr. Domingos afirma que:

[...] a feira foi a universidade do pobre, do sertanejo, que quando ele ia pela primeira vez ele via gente diferente, ele via produtos diferente, ele via o colorido dos tecidos, via o colorido da feira, de tanta coisa bonita, né?

Aqueles cantores [...] eu lembro que naquela época quando a gente entrava na cidade sempre tinha uma fila de gente sentada na calçada barbudo, mal vestido, maltrapilho [...] (informação verbal)40.

Foi nas feiras que este homem sertanejo aprendeu muito do que sabe fazer.

Por volta de 1980, Domingos Santeiro passou a comprar objetos antigos na região de Sergipe, dentre esses objetos vinham o santos, muitos deles com peças faltando.

A necessidade de consertá-los fez com que desenvolvesse o trabalho como santeiro como um desafio. De início fez algumas partes do corpo e logo depois passou a receber encomendas de consertos e de feitura de santos completos. Nas figuras 40 e 41 é possível observar o local onde Sr. Domingos esculpe os santos e alguma das ferramentas utilizadas por ele no seu trabalho.

Figura 40 - Local onde Domingo Santeiro faz os santos.

Fonte: Viviane Santos, 2014.

40 Entrevista concedida em 11.11.2014, no Antiquário São José, no distrito de Maria Quitéria, Feira de Santana.

Figura 41- Ferramentas do santeiro

Fonte: Viviane Santos, 2014.

Ao esculpir imagina que a madeira é como um bloco de areia que esconde uma imagem a ser revelada por ele enquanto a desbasta. Primeiro ele faz o formato geral, o contorno e por último se aprofunda nos detalhes (fig. 42).

Figura 42- Domingo Santeiro, esculpindo uma imagem de Nossa Senhora Santana

Fonte: Viviane Santos, 2014.

O desenho dos santos esculpidos por Sr. Domingos é decidido através de imagens que ele pesquisa quando não conhece a iconografia41, pelo gosto do cliente ou quando é uma iconografia conhecida, este a reproduz pelo desenho que tem guardado em sua memória. Observa-se como uma característica comum das esculturas do santeiro, os olhos das reproduções dos santos, que são levemente puxados e possuem tamanho acentuado quando observados no conjunto da face (boca, queixo e olhos).

Como proprietário de antiquário, Sr. Domingos Santeiro proporcionou a visualização de um grande conjunto de diferentes oratórios. Advindos de fazendas e casas sertanejas, os oratórios no Antiquário São José são peças fáceis de encontrar neste estabelecimento. O santeiro contextualiza dizendo que:

Toda casa antigamente tinha imagem. A religião que mais predominava era a católica, a fé era maior, o respeito era maior, principalmente na roça sempre tinha aquela igrejinha. O padre tinha aquelas procissão, romaria e o pessoal comprava um santo pra adorar. Só tinha a quem pedir a Deus.

Depois quando as outra religião começou a vir, dizendo que santo era ídolo de madeira, era coisa do diabo, aí fora vendendo, vendendo, vendendo, a fé foi diminuindo. Os mais velhos que morria, os novos não queria mais (os santos), iam vendendo os santo e era caro, muito caro, ficavam só com os oratório em casa. Depois ficar com o oratório pra que, se ninguém usava mais nada? Aí sempre traz pra vender”. (informação verbal)

Figura 43- Oratório de Convento

Fonte: Viviane Santos, 2013.

41 Iconografia é o ramo da história da arte que trata do tema ou mensagem das obras de arte em contraposição à sua forma. Tentemos, portanto, definir a distinção entre tema ou significado, de um lado, e forma, de outro. (PANOFSKY, 1986, p. 47).

Figura 44- Oratório com portada de vidro

Fonte: Viviane Santos, 2013.

Figura 45- Oratório sem portada com entalhe

Fonte: Viviane Santos, 2013.

Figura 46- Oratório com portada de madeira

Fonte: Viviane Santos, 2013.

Figura 47- Oratório com portada de madeira e pintura

Fonte: Viviane Santos.

Em entrevista, Sr. Domingos define a diferença entre oratório e nicho. Não só para ele, mas para uma parte dos proprietários de oratórios que conhecemos, há essa distinção. Segundo Domingos Santeiro:

“O oratório como é mais antigo, o povo tem mais respeito. Aqui ficava os santos, ele era fechado, não podia mostrar. Ele era aberto pra orar, se fazia oração com ele aberto, depois fechava em respeito as imagens. Se chama oratório. O nicho não precisa você abrir pra orar. Ele já vem pra exibir a beleza das imagens, é uma coisa mais nova, ele já vem pra exibir, pra mostrar e quem chega já vê, você pode rezar aqui, é vidro. Mas aqui não, aqui só abria pra orar, era segrego, era mistério” (informação verbal).

Pelas palavras de alguns proprietários os oratórios são os que possuem portas unicamente de madeira, sem vidro, o que impede que a sua parte interna seja visualizada a não ser quando aberto, favorecendo a privacidade e a intimidade. Já os nichos seriam os que possuem portas e ou lados de vidro, como uma vitrine, estão sempre visíveis. Neste estudo foi definido como o nicho uma parte do oratório, o que corresponde a sua caixa, ou seja, a parte onde ficam os santos.