A questão que deu início e foi motor desta pesquisa, parece ter ficado sem resposta. Continua a dúvida se há, nas famílias entrevistadas, o estabelecimento de um interdito sexual entre a fratria do recasamento. Nos trabalhos franceses Chapon-Crouzet (2005) e Guinche (2008), ele existe sim, e é estruturante. Tal interdito explicado por Héritier e Martial, pode ser entendido pela lógica da convivência (componente doméstico), do contrato social dos pais que são casados (componente genealógico), pela visão substancialista do parentesco e da aliança, e até mesmo, pelo tabu do incesto, não por serem irmãos, mas pela categoria irmão contagiar por contato através da convivência os atores que poderiam exercer este papel.
Isso não quer dizer que não podem ser obtidas outras respostas. Se o silêncio e a ausência de casos se manteve após a pesquisa de campo, esta é uma resposta importante para a qual proponho duas explicações: uma pela abordagem de gênero e outra sobre o “indizível e impensável”.
A primeira corresponde ao perfil demográfico dos entrevistados: 6 filhas e um único filho. Das 7 famílias pesquisadas, 5 reuniram meninas e meninos sob o mesmo
teto. Soma-se o fato de, em 4 famílias, os meninos eram mais novos do que as entrevistadas e, destas, apenas uma tinha um irmão que era mais velho do que a filha da madrasta. Mais forte do que o modelo de família é o modelo de casal, onde impera a norma heteroafetiva e o imaginário do homem mais velho do que a mulher (GOLDENBERG, 2001). A última família pretende reunir um menino mais velho e uma menina na mesma casa e talvez, a situação volte a se modificar: antes do namoro de seu pai, a menina se sentia atraída pelo menino da mulher que veio a ser sua madrasta, e, hoje a atração desapareceu; mas e quando passarem a se ver toda semana, será que a atração poderá voltar a aparecer?
A socialização e a força das instituições sociais conseguem, através de seus dispositivos, reproduzir e impor normas e valores hegemônicos com bastante eficiência (sempre haverá as forças dissidentes, reforçando e desconstruindo a hegemonia).
Quaisquer que sejam as preferências pelas explicações oferecidas neste trabalho, o material social em que se baseia o interdito sexual está plantado nos indivíduos mesmo antes do recasamento, e, com a mesma plasticidade com que se constituem as famílias, essa base adquire novos contornos e adapta seu conteúdo. Essas são relações, portanto, tão impensáveis onde não ocorrem, e “não ditas” quanto o interdito original, quando ocorrem. Que isto aconteça nos indivíduos automaticamente, sem muito questionamento, é compreensível. Entretanto, a aparente falta de reflexibilidade na prática terapêutica e na ciência brasileira é de se estranhar e merece atenção.
4 RECASAMENTOS NA MÍDIA
Ao mergulhar mais intensamente nos estudos sobre as múltiplas configurações familiares, em especial o recasamento, atraiu atenção a aparição desta temática em propagandas na TV e até em conteúdos dentro da programação regular, como nas novelas e séries. Com as observações feitas no último ano de mestrado, concluiu-se que valeria a pena incluir nesta dissertação um pequeno capítulo dedicado a maneira como as famílias de recasamento aparecem nos meios de comunicação de massa. Interessa pensar, ainda que superficialmente, o conteúdo, a forma, o tom e os instrumentos utilizados para retratar e tratar o recasamento.
Este capítulo foi pensado como um complemento para a pesquisa, e não uma profunda e embasada discussão sobre os meios de comunicação de massa. Os diversos limitadores ao campo e ao recrutamento comprometeram a aplicação das conclusões.
Pensou-se, portanto, que os produtos midiáticos ofereceriam uma visão mais abrangente sobre os recasamentos. Não sobre quem os vive, mas sobre a percepção social das múltiplas configurações familiares, a necessidade de entender melhor o "senso comum"
e a visão do grupo social. Tentar perceber o que é socialmente aceito ou repreendido sobre os recasamentos.
Porém, a busca por filmes e programas que dedicassem especial atenção ao recasamento com filhos não foi muito frutífera e, foi preciso expandir o recorte e fazer uma pequena análise nas formas de representação das famílias, e também as representações de homens e mulheres, de preferência, nos contextos familiares. Assim como foi difícil encontrar casos para entrevistas e estudos no Brasil que investigassem esta especificidade do recasamento, a mídia também ainda não descobriu este núcleo temático. Principalmente nos programas televisivos e de entretenimento, pois foram os jornais impressos ou em meios eletrônicos quem mais noticiaram os filhos de recasamentos, seja pelo caminho da curiosidade e do inesperado, assim como retratando diversos casos de mudanças legislativas e abertura de novas jurisprudências.
A mídia, em suas múltiplas e variadas formas, é parte constante do cotidiano nos centros urbanos. Somos bombardeados por propagandas e informações de todo tipo, nas ruas, nos intervalos de uma programação na TV ou rádio, através da internet em redes sociais e até mesmo em SPAM65 por correio eletrônico e mensagens de celular.
65 “Termo usado para referir-se aos e-mails não solicitados, que geralmente são enviados para um grande número de pessoas” (www.antispam.com.br/conceito).
Algumas vezes, as propagandas que visam a venda, divulgação ou consumo de produtos e serviços até programações específicas, nos invadem e muitas vezes não temos controle total sobre o que chega até nós; noutras, somos ativos na busca por informações e conteúdos de interesse particular. De uma forma ou de outra, está cada vez mais fácil o acesso do receptor ao disseminador, assim como do disseminador ao receptor. Pois isso a relevância de compreender a relação audiência-mídia (ALVES, 2010).
Brevemente, serão apresentadas as principais e mais recorrentes abordagens acadêmicas sobre o papel da mídia em nossa sociedade, as trocas efetivadas e as influências causadas e sofridas entre o material produzido e a população espectadora.
Tendo como foco a TV nacional, esses estudos concentram grande parte de sua produção às novelas produzidas pela emissora de maior prestígio e audiência entre os telespectadores.