A pesquisa segue estruturada, a partir desta introdução, em mais oito capítulos (Figura 1). Nos três capítulos seguintes ao primeiro capítulo, buscamos nos posicionar num continuum epistemológico-teórico-metodológico e articulados entre si. A configuração desta postura tríade foi estabelecida no intuito de nos possibilitar avançar no uso e na sistematização de um método de análise do discurso – Análise Sociológica do Discurso, na medida de suas possibilidades de adaptação ao campo organizacional brasileiro.
Apresentamos, pois, no capítulo 2, o posicionamento epistemológico em que procuramos esclarecer a percepção da relação entre o investigador (quem) e o investigado (o que). Assumimos uma postura epistemológica assentada na Teoria Crítica, especificamente na aproximação crítica discursiva da Escola Qualitativista Crítica de Madri – origem da Análise Sociológica do Discurso (ASD).
O posicionamento teórico, abordado no capítulo 3, foi dividido em duas seções. Na primeira refletimos sobre o espectro das organizações como fonte discursiva, e, noutra seção, fazemos um aporte da pesquisa que trata da sustentabilidade desde sua origem, conceitos, avançando suas práticas e instrumentos de comunicação.
A maneira com foi conhecida a realidade ora investigada neste estudo foi destinada ao capítulo 4, posicionamento metodológico. Estruturamos o capítulo em
três seções: (a) disseminação e níveis de aproximação da Análise do Discurso (AD), (b) níveis de aproximação da AD e ASD e (c) nível sociohermenêutico e pragmático.
Nesta última seção destacamos o surgimento da Análise Sociológica do Discurso (ASD), noção de discurso e de contexto em ASD, além de apresentarmos os principais temas e práticas de pesquisa com a utilização da ASD. Por fim, promovermos um debate entre a Análise Sociológica do Discurso e Análise Crítica do Discurso.
No capítulo 5 abordamos as definições metodológicas da pesquisa alicerçadas nas posturas epistemológica, teórica e metodológica, de modo interdependentes e congruentes entre si. Assim, estabelecemos a escolha do caso e sua contextualização e, na sequência, definimos as fontes discursivas da pesquisa.
O capítulo 6 resultou na construção do discurso da sustentabilidade em uma empresa do setor de energia elétrica. Primeiramente, apresentamos a conjectura analítica que nos direcionou e serviu de orientação focalizando nossa percepção, como norteador ao longo da interpretação e análise das fontes discursivas: a) relatórios de sustentabilidade; b) entrevistas realizadas; e c) jornais – nacional e regional -, press releases e boletim informativo da empresa estudada. De forma parcialmente simultânea as etapas interpretação das fontes discursivas, estabelecemos a análise das posições discursivas, das configurações narrativas e dos espaços semânticos.
Propomos, no capítulo 7, a sistematização do método de Análise Sociológica do Discurso (ASD), sem a pretensão de prescrevermos uma fórmula padronizada de praticar a ASD.
As conclusões, as limitações do estudo e as recomendações finais foram descritas no capítulo 8. Por fim, elencamos as referências utilizadas neste trabalho, seguidas dos apêndices que serviram de complemento no desenvolvimento da pesquisa.
Figura 1 – Estrutura da Tese
INTRODUÇÃO (capítulo 1)
POSICIONAMENTO EPISTEMOLÓGICO
(capítulo 2) TEORIA CRÍTICA
POSICIONAMENTO TEÓRICO (capítulo 3)
ORGANIZAÇÕES VISTA COMO DISCURSO SUSTENTABILIDADE: origem, conceitos,
práticas e discursos
POSICIONAMENTO METODOLÓGICO (capítulo 4)
ANÁLISE DO DISCURSO - disseminação e níveis de aproximação
NÍVEL SOCIOHERMENÊUTICO E PRAGMÁTICO - SURGIMENTO DA ASD
DEFINIÇÕES METODOLÓGICAS DA PESQUISA (capítulo 5)
CONTEXTO DA ORGANIZAÇÃO ESTUDADA: escolha do caso
FONTES DISCURSIVAS DA PESQUISA
CONSTRUÇÃO DO DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE
(capítulo 6)
CONJECTURA ANALÍTICA
ANÁLISE DOS RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE
ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
ANÁLISE MIDIÁTICA
POSIÇÕES DISCURSIVAS
CONFIGURAÇÕES NARRATIVAS E ESPAÇOS SEMÂNTICOS
SISTEMATIZAÇÃO DO MÉTODO DE ASD (capítulo 7)
CONCLUSÕES,
LIMITAÇÕES E RECOMENDAÇÕES FINAIS (capítulo 8)
2 POSICIONAMENTO EPISTEMOLÓGICO
A epistemologia, em termos gerais, é definida como a análise do conhecimento (CRISHOLM, 1969; BLANCHÉ, 1988; BRIONES, 2002). Mais especificamente, a epistemologia procura analisar: (a) os pressupostos filosóficos da ciência; (b) seu objeto de estudo; (c) os valores envolvidos na criação do conhecimento (d) a estrutura lógica das teorias, métodos empregados na investigação e explicação ou interpretação de seus resultados; e (e) a confirmação e refutação de suas teorias.
O posicionamento epistemológico está relacionado entre “quem”
(investigador) e o “que” (investigado), e do resultado desta relação. Blaxter, Hughes e Tight (2008) comentam que todas as manifestações ou graus de conhecer, observar, perceber, determinar, interpretar, negar ou afirmar, pressupõem a relação do homem com o mundo e são possíveis somente sobre o alicerce desta relação.
Desta maneira, ao estar atentos de onde se olha, desde o lugar de onde se está demandando a investigação, de onde se está pensando, traçamos o percurso da vigilância epistemológica (BACHELARD, 1996; BOURDIEU; CHAMBOREDON;
PASSERON, 1990). Dito de outra forma, ao iniciar o desenvolvimento da tese com o posicionamento epistemológico, o que pretendemos é assegurar a auto-vigilância e a manutenção da coerência epistemológica entre os diferentes capítulos subsequentes.
Na última década, ocorreram mudanças substanciais no panorama da investigação científica social. Lincoln e Guba (2006) constatam os seguintes fatos:
(1) leitores familiarizados com a literatura sobre métodos e paradigmas em busca de ontologias e epistemologias diferentes daquelas amparadas pela ciência social convencional, apesar da experiência quantitativa, profissionais desejam aprender mais a respeito das abordagens qualitativas; (2) há uma explosão de textos qualitativos, artigos de pesquisa, workshops e materiais de treinamento.
Observamos diariamente o crescimento de adeptos da investigação de novos paradigmas, bem como a mescla entre os paradigmas, vem alterando a hegemonia dos paradigmas tradicionais.
Delinear uma pesquisa requer conhecimento a respeito da forma que mais se apropria na descoberta da resposta para um questionamento estabelecido por meio
de meios científicos. Isso pode emergir pelo interesse e habilidade do pesquisador para conduzi-la, tempo e recursos disponíveis, enquadramento do método ao objeto de pesquisa e pelos pressupostos ontológicos e epistemológicos adotados pelo pesquisador.
No campo organizacional os estudos são marcados por discussões teóricas, nos quais o conhecimento se constrói na disputa sobre a verdade inerente a conceitos e estruturas referenciais (CLEGG; HARDY, 1996). “Em qualquer momento histórico, os Estudos Organizacionais sempre foram constituídos por linhas comuns de debate e diálogo, que estabeleceram os limites intelectuais e oportunidades para julgamento de novas contribuições” (REED, 1998, p. 64).
Para Clegg e Hardy (1996, p. 03) os estudos organizacionais correspondem a
“uma série de conversações, em particular aquelas dos pesquisadores dessa área, que ajudam a constituir as organizações por meio de termos derivados de paradigmas, métodos e suposições”. As tradições do discurso e as práticas pelas quais os membros das organizações se engajam podem ser refletidas, reproduzidas e refutadas pelas conversações (vozes envolvidas).
As formas de construção cognitiva da realidade, inseridas em uma tradição de pesquisa, que incluem estruturas de raciocínio, pressupostos e base epistêmica para o desenvolvimento da teoria e da observação empírica dos fenômenos sociais, constituem o que se pode chamar de paradigma. Os paradigmas devem ser entendidos como sistemas de crenças básicas, princípios e pressupostos, apresentados por Morgan (1980), que dizem respeito às seguintes dimensões: (a) natureza da realidade investigada (ontológico); (b) modelo de relação entre o investigador e o investigado (epistemológico); e (c) modo em que se pode obter conhecimento da dita realidade (metodológico).
A discussão acerca dos paradigmas teóricos teve origem na obra de Thomas Kuhn em 1962, onde muitos pesquisadores passaram a ver suas disciplinas de forma paradigmática. Khun (1986) considera os paradigmas como relações científicas universalmente reconhecidas que, durante certo tempo, proporcionam modelos de problemas e soluções a uma comunidade acadêmica, que inclui o compartilhamento de uma constelação de crenças, valores e técnicas.
O paradigma serve, pois, para definir o que se deve estudar, as perguntas e regras que se necessita seguir para interpretar as respostas obtidas. Torna-se, portanto, o paradigma, um modelo ou padrão aceito por determinados cientistas,
estabelecido como uma unidade geral de consenso dentro de uma ciência e serve para diferenciar uma comunidade científica de outra, corrobora Gurdián-Fernádez (2007).
Nessa perspectiva, Burrel (1998) comenta que teóricos organizacionais buscaram estabilizar o campo delimitando-o em quatro paradigmas divididos em compartimentos estanques: humanista radical, estruturalista radical, interpretativo e funcionalista. O clássico estudo de Burrell e Morgan (1979) confirma a pluralidade de enfoques paradigmáticos, podendo ser usados no estudo das ciências sociais e nas organizações, além de ser um instrumento de análise do conhecimento.
As teorias de regulação no estudo de Burrel e Morgan (1979) partem do pressuposto de que a sociedade moderna é caracterizada mais pela ordem do que por conflitos – debate surgido entre a sociologia interpretativa e funcionalismo.
Enquanto que as teorias de mudanças radicais vislumbram que a relação social é condicionada por pressões contraditórias muito mais do que forças de continuidade e transformação, resultando na polarização em dois campos: subjetivo e objetivo (BURREL; MORGAN, 1979).
Na medida em que se investigou como distinguir entre diferentes abordagens direcionadas ao estudo organizacional, elas passaram a sustentar os grandes debates filosóficos entre cientistas sociais de tradições intelectuais rivais. Ao realizar ligações cruzadas entre as tradições intelectuais antagônicas, se tornou evidente que os dois conjuntos de pressupostos poderiam ser colocados um contra o outro para produzir um esquema analítico para o estudo da teoria social em geral: os dois conjuntos definiam quatro paradigmas básicos refletindo visões da realidade social absolutamente diferente. Assim, o esquema proposto ofereceu uma forma de mapa intelectual mediante o qual as teorias sociais poderiam ser localizadas de acordo com suas fontes e tradições (BURREL; MORGAN, 1979).
Entretanto, mais do que um molde classificatório ou a intenção de catalogar um número limitado de alternativas disponíveis para os estudos organizacionais (CLEGG; HARDY, 2007), o caráter excludente dos paradigmas no estudo de Burrel e Morgan tornou-se o maior alvo de críticas (CLEGG; HARDY, 1996). Isto é, o isolamento de cada paradigma impediu as chamadas conversações e ao mesmo tempo salvaguardou os paradigmas alternativos de serem dominados pelo mainstream representado pelo funcionalismo. Desta maneira, tal estudo pretendia ser uma estratégia defensiva que legitimasse um espaço no qual os enfoques
alternativos de pesquisa pudessem se aprimorar resguardados do alvo dos funcionalistas. Apesar de o funcionalismo ter constituído por décadas a visão tradicional na pesquisa científica em estudos organizacionais, verificamos o surgimento de outras vertentes: interpretacionismo e referenciais críticos e pós- modernismo nas últimas décadas.
Na pesquisa social contemporânea, Gephart (1999) classifica os métodos de investigação nas disciplinas sociais, agrupando-os conforme os seguintes paradigmas epistemológicos: positivismo, interpretativismo e pós-modernismo crítico. Para o autor, essas três tradições são paradigmas ou visões de mundo que perfazem a formação social, organizacional e de gestão da investigação. Eles são distintos, mas não muito distantes um do outro. Gephart (1999) afirma ainda que, se estas formas divergem entre si, convergem, por outro lado, para tornar um sistema integrado na análise de múltiplos paradigmas, talvez seja a próxima questão metodológica relevante diante do campo organizacional.
Outra classificação alternativa é a apresentada por Lincoln e Guba (2006):
positivismo, pós-positivismo, teoria crítica e afins, construtivismo e participativo. Tais paradigmas são considerados como pós-modernistas e não são mutuamente excludentes, podendo estabelecer alguma intersecção entre si. Os paradigmas e suas especificações são apresentados no Quadro 2.
Quadro 2: Crenças básicas dos paradigmas investigativos alternativos
Paradigmas ONTOLOGIA EPISTEMOLOGIA METODOLOGIA
Positivismo realismo ingênuo - realidade
"real" mas inteligível
dualista / objetivista descobertas verdadeiras
experimental / manipuladora; verificação
de hipóteses, métodos sobretudo quantitativos Pós-
positivismo
realismo crítico - realidade
"real", mas apenas imperfeitamente e probabilisticamente inteligível
(apreensível)
objetivista / dualista modificada; tradição crítica/comunidade;
descobertas provavelmente verdadeiras
experimental modificada / manipuladora, multiplismo crítico, falseamento de hipóteses, pode incluir métodos qualitativos Teoria Crítica
e afins
realismo histórico - realidade virtual influenciada por valores sociais, políticos,
econômicos, étnicos, de gênero cristalizados ao longo
do tempo
transacional /subjetivista;
descobertas mediadas por valores
dialógica / dialética
Construtivismo
relativismo - local e realidades especificamente
construídas
transacional /subjetivista;
descobertas criadas hermenêutica / dialética
Participativo*
realidade participativa - realidade subjetiva objetiva,
co-criada pela mente e por um dado cosmos
subjetividade crítica na transação participativa com
o cosmos, epistemologia ampliada do saber experimental, proposicional
e prático; descobertas co- criadas
participação política na investigação de ação colaborativa; primazia do prático; uso da linguagem
baseado no contexto experimental compartilhado
* Os itens desta linha baseiam-se em Heron e Reason (1997).
Fonte: Adaptado de Lincoln e Guba (2006, p. 173).
Presenciamos o surgimento de uma consciência da descontinuidade, da não linearidade, da diferença e da necessidade do diálogo (PRIGOGINE, 1994), aonde as bases epistemológicas dos métodos e das ciências foram, desde a década de 1950, replanejadas. Chia (2000) comenta que, a questão do discurso e a maneira como ele orienta a epistemologia do homem e o entendimento da organização, torna possível a expansão do domínio na análise organizacional.
A teoria crítica é considerada transdisciplinar de tal modo que, num nível epistemológico, utiliza-se de métodos e categorias teóricas que descrevem a realidade como campo dialético contraditório sujeito a riscos e vantagens. No nível ontológico, a realidade se capta em termos que afrontam questões de posse, propriedade privada, distribuição de recursos, lutas sociais, poder, controle de recursos, exploração e dominação, de maneira no nível axiológico as estruturas dominantes se julgam como sendo indesejáveis e se identificam modos potenciais de aliviar o sofrimento e estabelecer uma sociedade cooperativa e participativa (FUCHS, 2009).
As organizações, por serem construções sociais dinâmicas e contraditórias, nas quais convivem estruturas formais e subjetivas, manifestas e ocultas, concretas e imaginárias, necessitam ser investigadas. Buscar a verdade, questionar a realidade e ir além do visível, são imperativos utilizados que qualificam o pensamento crítico.
Logo após a revolução kuhniana dos anos 1960, o debate epistemológico acerca da incomensurabilidade dos paradigmas chegou ao corpus da administração, apresentando suas limitações e potencialidades (AGÜERO, 2007). Emergida nos estudos organizacionais no final da década de 1970 e começo dos anos 1980 (BURREL; MORGAN, 1979; ALVESSON; DEETZ, 2007), a Teoria Crítica busca esclarecer as instâncias obscuras e manifestas que “dão conteúdo às configurações do poder” (FARIA, 2009, p. 513) nas organizações com suas contradições e paradoxos. Desse modo, afirma Faria (2007, p. 10), a Teoria Crítica em estudos organizacionais segue os pressupostos frankfurtianos, baseia-se no materialismo histórico e dialético, na práxis dos sujeitos, no processo coletivamente construído, na interação do sujeito com o real, bem como na dinâmica dos acontecimentos em detrimento dos cortes estáticos.
O que determina a forma dialética de se apropriar do real é o movimento e as relações contraditórias do objeto de estudo. Sendo assim, “tanto o pesquisador quanto o objeto estão em movimento e, portanto, em uma condição em que ambos se constroem durante a trajetória da investigação” (FARIA, 2007, p. 32). A realidade existe conscientemente para o sujeito, sendo o processo de interação capaz de lhe fazer perceber o real segundo seu esquema de assimilação (ação do sujeito sobre o objeto) e acomodação (ação do objeto sobre o sujeito) “construído ao longo do seu desenvolvimento cognitivo e de suas relações sociais” (FARIA, 2007, p. 32).
Simultaneamente, por meio desta interação dialética, desencadeia-se uma reelaboração da leitura do real.
Na área de Administração existe “muita confusão em torno da teoria crítica”
(VIEIRA, CALDAS, 2007). Parte desse conflito deve-se ao desconhecimento por parte dos usuários a respeito de sua origem e fundamentos teóricos; outra parte ao oportunismo comumente encontrado nas áreas aplicadas. Na intenção de caracterizar a Teoria Crítica, Faria (2007) apresenta seis categorias analíticas gerais, extraídas da discussão sobre o pensamento crítico e a teoria das organizações (FARIA; MENEGUETTI, 2004), sintetizadas no Quadro 3.
Quadro 3: Categorias analíticas gerais da teoria crítica
Categorias Caracterização
Contradições Os fatos se transformam e a realidade nega-se com o passar do tempo. As aparências nem sempre denunciam as mudanças das essências. São consequências naturais de uma sociedade que constrói (ou destrói), de acordo com as condições materiais de existência.
Ideologia Dominante
Fragmenta a compreensão e parcializa a consciência. Consequências naturais de uma “prisão social” que impossibilita o indivíduo compreender sua própria existência histórica.
Racionalidades Dominantes
Criadas para legitimar as ideias e os valores morais de grupos sociais que tentam mascarar a realidade para manter seus privilégios.
Contexto Social Histórico
Não é possível entender o desenvolvimento de um determinado fato social sem entender sua trajetória histórica.
Emancipação Busca incessante de autonomia do indivíduo e da sociedade, alimentada na capacidade de criar sua própria história, desempenhando papel ativo sobre os problemas relevantes de interesse coletivo.
Conscientização Individual e Coletiva
Estar ciente de si mesmo, das próprias percepções, sentimentos e emoções, compreendendo a realidade por meio do esforço coletivo. Envolve a capacidade coletiva de pensar.
Fonte: Adaptado Faria (2007, p. 7-8).
No intuito de esquematizar uma organização no campo de estudos organizacionais críticos, Faria (2009) propõe uma matriz dividida em quatro grandes áreas (Figura 2), a saber:
Figura 2 – Áreas de Estudos Organizacionais Críticos
Fonte: Faria (2009, p.512).
Segundo Faria (2009, p.511), as áreas de estudos organizacionais críticos abordam: (a) teoria crítica frankfurtiana – independentemente de qual seja a geração a que se filia, se baseia em estudos sociais e segue as orientações teóricas e filosóficas da Escola de Frankfurt; (b) teoria crítica em estudos organizacionais - baseada no marxismo em seus estudos e pesquisas no campo das organizações, com ênfase na centralidade do trabalho (processo e relações de trabalho, divisão do trabalho e gestão do processo de trabalho), que contempla, além dos estudos frankfurtianos, outras dimensões, tais como a psicologia sócio-histórica, a psicossociologia crítica, as formas democráticas de gestão (autogestão social e organizações coletivistas de trabalho), as análises sobre Estado, poder e classes sociais etc., área essa à qual o autor denomina de ‘economia política do poder em estudos organizacionais’; (c) critical management studies - alicerçado em estudos críticos em gestão na perspectiva da gestão, cuja referência depara-se nos estudos conduzidos principalmente por Alvesson e Deetz (2007) e Alvesson e Willmott (1992); análise crítica em estudos organizacionais – com base em estudos segundo novas dimensões, como o pós-estruturalismo de Foucault, o pós-modernismo de
Teoria Crítica Frankfurtiana
Teoria Crítica em Estudos Organizacionais -
TCEO
Critical Management Studies - CMS
Análise Crítica em Estudos Organizacionais -
ACEO Estudos Organizacionais
Críticos
Lyotard, as análises institucionais de Lourau e Lapassade, o simbolismo de Bourdieu, o imaginário de Castoriadis e a teoria da complexidade de Morin, entre outros afirma o autor. São análises críticas não marxistas e não frankfurtianas que estudam as organizações, do ponto de vista das relações de poder.
Agüero (2007) comenta que a teoria crítica tem realizado importantes contribuições aos estudos organizacionais, dentre elas, destacamos: (a) análise de trajetória, favorecendo a passividade dos membros da organização, para poder manipula-los; (b) análise da ambiguidade, das contradições e dos códigos na ação comunicativa organizacional; (c) pensamento estreito que gera a dominação da razão instrumental e do código de dinheiro; (d) condições de trabalho oprimidas, onde a criatividade, a mudança, o desenvolvimento e os significados são ignorados ou submissos a valores instrumentais; (e) relações sociais assimétricas entre expertos (incluindo as elites administrativas) e não expertos; (f) extensão do controle sobre os empregados e ocultação de sua realidade social; (g) controle sobre os consumidores e agenda sócio-ética-política priorizando o código do dinheiro; (h) destruição do meio ambiente; (i) falsa aparência de objetividade e imparcialidade das técnicas de administração utilizadas nas organizações; (j) dominação de grupos, ideias e instituições; (k) conflitos entre a razão prática (ação comunicativa) e razão instrumental (maximização de resultados).
Ao analisar as publicações de 1985 a 1989, com base nos paradigmas de Burrell e Morgan (1979), a análise organizacional no Brasil, em revistas, dissertações e teses, segundo Davel e Alcadipani (2002), encontrava-se amplamente situada no paradigma funcionalista e com uso minoritário de paradigmas radicais, quiçá uma ausência total de perspectivas críticas ou radicais.
O engajamento dos pesquisadores e teóricos brasileiros na análise crítica em Administração e, por conseguinte, a produção crítica no Brasil ainda é muito reduzida, cerca de 2,16% conforme os achados de Davel e Alcadipani (2002), ainda que seja possível identificar reconhecidos estudiosos críticos nacionais, dentre eles, Guerreiro Ramos, Maurício Tragtenberg e Fernando Prestes Motta. Antes mesmo do período de articulação e surgimento do movimento crítico anglo-saxão na década de 1990, tais estudiosos se propuseram a submeter a administração e os estudos organizacionais ao crivo crítico. E, a realidade brasileira, corroboram Alcadipani e Tureta (2009, p.506), “não cessa de dar motivos para o desenvolvimento de uma
abordagem crítica não dogmática e que esteja calcada na prática das organizações brasileiras”.
Alvesson e Deetz (2007, p. 237) esclarecem que estudos críticos tem destaque merecido no campo organizacional ao enriquecer a “base do conhecimento, a melhoria do processo de decisão e os aumentos na ‘aprendizagem’
e na adaptação”. Davel e Alcadipani (2003) reforçam que a abordagem crítica é capaz de promover nas pessoas uma postura vigilante, de reflexão e de questionamento a respeito do que se difunde no plano da teoria administrativa e da prática organizacional.
A partir da perspectiva da Teoria Crítica, em específico na área de estudos críticos em gestão, procuramos responder nesta pesquisa questões relacionadas ao discurso da sustentabilidade às quais organizações estão sujeitas, em busca da compreensão da vida e dinâmica organizacional.
Neste estudo, a maneira como o discurso da sustentabilidade é manifestado tanto no âmbito institucional quanto no midiático, seguem as alternativas a serem abordadas, sugeridas por Wood Jr. (2007), ao se referir a pesquisas que envolvem o paradigma da Teoria Crítica. Para o autor se faz necessário:
[...] explorar a manipulação de imagem e da retórica como instrumentos de controle social nas organizações; explorar as múltiplas narrativas no âmbito de processos de mudança, indo além do discurso oficial e dando voz aos críticos e descontentes; [...] analisar em profundidade os processos de fragmentação de identidade (individual e organizacional), especialmente nos processos de privatização; desenvolver uma crítica sistemática a discursos pseudomodernizantes (qualidade total, competências organizacionais etc.) e novos tipos ideais (learning organization, empresa flexível etc.) (WOOD JR, 2007, p. 268).
Segundo Tenório (2002), a Teoria Crítica por ser reflexiva, procura investigar as interconexões recíprocas dos fenômenos sociais e observar tais fenômenos numa relação direta com as leis históricas do momento na sociedade, ou da organização estudada. Desta maneira, na perspectiva teórico-crítica, o homem não pode ser visto isoladamente de seu contexto social (TENÓRIO, 2002). Para Simões et al. (2006, p.
105) “a ação, o pensar, o construir e o viver de acordo com uma abordagem crítica requer esforço e autoquestionamento contínuo, uma vez que vivemos em uma sociedade com organizações que contrapõe na prática qualquer argumento de formato mais crítico”.