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Economia liberal: expectativa de liberdade

2.2 Formação socio-racial brasileira

2.2.1 Economia liberal: expectativa de liberdade

De acordo com Mattos (2013), a partir de meados do século XIX no Brasil, a divisão racial entre pobres livres (brancos e pardos) e os pretos foi significativamente alterada. Para a autora, esta mudança se deu em razão de alguns fatores, entre eles: a lei n. 581, de 4 de se- tembro de 1850, conhecida como Lei Eusébio de Queirós, que estabeleceu medidas para a repressão do tráfico de africanos no Império4; a concentração demográfica e a posse de terras por escravos; a pressão pela alforria nas últimas décadas antes da lei de libertação em 1888; e a construção de uma identidade “camponesa” que aproximava brancos pobres, pardos e ne- gros nascidos livres e/ou alforriados. Na leitura de Mattos, estes acontecimentos implodiram a divisão racial entre negros, pardos e brancos daquele regime (MATTOS, 2013).

Segundo a autora, a percepção da cidadania dos brasileiros já não seguia estritamente

4 A promulgação desta lei é relacionada às pressões britânicas sobre o governo brasileiro para a extinção da escravidão no país.

o sentido colonial, rigidamente definido pela marca de cor associada ao status de liberdade do branco. Ainda que guardasse sua estrutura hierárquica racial, na segunda metade do século XIX a noção de cidadania e liberdade incorporava elementos sociais que não dependiam ape- nas da raça (MATTOS, 2013).

Durante o período monárquico, preservou-se o sentido hierárquico das relações pesso- ais, que foram transformadas em fiadoras da igualdade dos livres formalmente reconhecida pelo Estado Imperial. Estas alianças pessoais e hierárquicas, forjadas no contexto crescente das pressões pela liberdade (insurreições e revoltas dos escravizados) a partir da segunda me- tade do século XVIII, produziram o desaparecimento da cor como fator exclusivo de diferen- ciação social (MATTOS, 2013).

No entanto havia por parte da classe dominante a expectativa de enquadrar o negro em uma liberdade tutelada pelo Estado, uma falsa liberdade e cidadania para os “cidadãos ativos”

(MATTOS, p. 288). O ideal burguês de liberdade jurídica que implicava nas garantias de li- berdades clássicas de ir e vir, de propriedade, na integridade física e na proibição da tortura e castigos infames, contrastava com o real significado dessas garantias “em face do poder pri- vado e dos potentados rurais” (IBIDEM).

Como escreve Sodré (2019),

[...] o mesmo acontecia na Europa. Ou seja, também no território metropolitano não tinha o ideário burguês a universalidade que apregoava, parando frequentemente nas fronteiras com o universo camponês, operário, etc. Em outras palavras, a “Colônia”

podia ser encontrada no próprio coração da Metrópole, assim como a Europa se ins- talava no espírito das classes dirigentes colonizadas”. (SODRÉ, 2019, p. 37).

Contra a tese de que “aos libertos nada foi concedido além da liberdade [formal]”

(MATTOS, 2013, p.297), Mattos demonstra que a classe senhorial dependia da força de traba- lho dos libertos e esta necessidade forçou os antigos senhores a cederem a uma série de exi- gências da população liberta. Além disso, a autora argumenta que por interesses distintos dos senhores, os escravizados, alforriados e nascidos livres desenvolveram estratégias de subsis- tência e algumas atividades econômicas que escapavam ao controle da classe senhorial.

A elaboração de Mattos favorece a desconstrução de que no processo de libertação os negros figuravam como polo passivo. Havia uma expectativa da classe senhorial de que, após a “libertação” e já no contexto da República, o Estado mantivesse a tutela sobre o liberto, e este fosse forçado a continuar na plantation, em trabalhos assalariados, condições e termos definidos pelos ex-senhores (MATTOS, 2013). Porém, o negro resistiu ao enquadramento idealizado pelos ex-senhores, pois tinha ele sua expectativa própria de como deveria viver sua

experiência de liberdade e cidadania (MATOS, 2013). Também “[...] por razões culturais e históricas, os negros não deixavam de oferecer resistência aos regimes produtivos de capata- zia, ao regime férreo e pouco compensador do trabalho proletário” (SODRÉ, 2019, p.44).

A tutela do Estado manobrada pelas classes dirigentes contra a população negra en- controu muitas resistências nas últimas décadas do regime escravista. Pilares básicos da orga- nização social como a mobilidade, constituição de família e aquisição de propriedade, ao comtemplarem uma parcela da comunidade negra à época, possuíam significações enraizadas no quadro tradicional, hierárquico e integrativo “que a sociedade rural apresentava desde o período colonial” (MATTOS, 2013, p.289). Neste sentido, Mattos escreve:

Na ordem colonial, o direito de ir e vir era exercido em busca de laços, a família era constituída com base na Igreja (e não no Estado), que respondia também pela sepa- ração de bens em caso de divórcio, e a propriedade era entendida em termos parcelá- rios (direitos de propriedade superpostos) e se estendia até os escravos. Essa experi- ência de liberdade, entretanto, ao ser transformada em direitos civis no Império, pela Constituição monárquica, teve seus sentidos em grande parte redefinidos. Especial- mente a ideia de uma igualdade formal na liberdade foi progressivamente reforçada, em relação às concepções hierárquicas dos indivíduos nascidos livres, antes legal- mente vigentes. (MATTOS, 2013, p.288).

Ao final do regime escravista havia se construído entre negros e brancos um nível sig- nificativo de interpenetração. Obviamente em grau muito menor que os brancos, a população negra (pardos e pretos alforriados) tinha acumulado algumas propriedades materiais e simbó- licas e tinham constituído uma relevante rede de apoio social e familiar. Apesar disso, estas estruturas de apoio e permeabilidade social não se desenvolviam sem a resistência explícita da classe senhorial. Elas foram fortemente abaladas com a aprovação da lei de terras a partir de 1850 e com a opção pelo embranquecimento da população através da imigração de trabalha- dores europeus na segunda metade do XIX e na Primeira República.

Mattos argumenta contra certas narrativas de que a desagregação familiar da popula- ção negra e sua exclusão dos novos sistemas produtivos da economia capitalista seriam resul- tado dela ter sido deixada à própria sorte após a libertação. Como sustenta a autora, mais do que exclusão e negligência, tratava-se de projeto: a saída do regime escravista para o sistema de trabalho assalariado representou para os negros a destruição das estruturas de integração e permeabilidade social que se haviam constituído ao longo do período colonial e do Império.

A fantasia do Brasil como paraíso da diversidade e da harmoniosa convivência de di- ferentes culturas e raças se faz pela exclusão de uma parte constituinte de sua história, do an- tagonismo passado e presente que estrutura sua desigualdade social. Este real que se exclui em nome de uma ficção de integralidade atua para dar conta de um todo imaginário que des-

mente as fissuras reais que o compõem (DUNKER, 2018, n.p). De certo modo, é como se, para dar conta da organização social, houvesse um pacto para excluir da cena aqueles elemen- tos indesejáveis em nome da “bela” imagem que, no entanto, incomoda, e indica que há algo errado no ar. Esse real negado, entretanto, resiste e insiste como ato, como angústia que colo- ca em movimento a reconstituição da verdade deste sujeito histórico.