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Efeito do AU sobre a ansiedade dos animais submetidos ao teste do

No documento Talita Elisa Berté - Univali (páginas 68-100)

5.5 Testes complementares

5.5.2 Efeito do AU sobre a ansiedade dos animais submetidos ao teste do

Os resultados representados neste modelo (Figura 34) demonstraram que o AU, promoveu um aumento significativo (F(6.348) = 6,07, p < 0,01) na freqüência de entradas nos braços abertos (Figura 34, A), quando comparados ao grupo controle (veiculo). Também se pode observar que o tempo de permanência nos braços abertos (Figura 34, B), foi aumentado de forma significativa (F(17,794) = 5,13, p < 0,01) com o tratamento com o AU. Da mesma forma, verificou-se que o AU diminuiu (Figura 34, C) significativamente o número de entradas nos braços fechados (F(33,378)

= 2,30, p < 0,01). Com relação ao tempo de permanência nos braços fechados (Figura 34, D), o AU também promoveu uma diminuição significativa desse parâmetro comportamental (F (17.794) = 5,13, p < 0,01).

Também foi observado nesse experimento o clássico efeito ansiolítico do midazolam. O fármaco produziu respectivamente um aumento da freqüência e do tempo de permanência nos braços abertos do aparato (Figura 34 C e D) (F (15,610) = 3,19, p < 0,05; F (17,794) = 3,54, p < 0,01).

Figura 34 Efeito da administração intra-hipocampal do AU (4,54 mM/sítio) e do Midazolam (0,75 µg/sítio), em ratos submetidos ao modelo do LCE. Freqüência de entrada nos braços abertos (A), tempo de permanência nos braços abertos (B), freqüência de entradas nos braços fechados (C) e tempo de permanência nos braços fechados (D). Cada coluna representa a média de 8-10 animais e as barras verticais indicam os erros padrões da média (E.P.M.). Os dados foram submetidos à análise de variância ANOVA seguido pelo teste de Dunnett. Os asteríscos indicam diferenças significantes comparadas com o grupo veículo (** p < 0,01).

Veículo Àcido ursólicoMidazolan 0

50 100

Veículo Àcido ursólico Midazolan

A **

Freqncia Entradas Aberto (%)

Veículo Àcido ursólicoMidazolan 0

50

100 B **

**

Tempo de Permanência Aberto (%)

Veículo Àcido ursólicoMidazolan 0

50 100

**

C

**

Freqncia Entradas Fechado (%)

Veículo Àcido ursólicoMidazolan 0

50 100 D

**

**

Tempo de Permanência Fechado (%)

6 DISCUSSÃO

As plantas superiores representam uma rica fonte de novas moléculas com propriedades farmacológicas para o desenvolvimento de novas drogas. Durante as últimas décadas, o interesse na investigação de produtos naturais levou à introdução na terapêutica de vários fármacos importantes, tais como os agentes antitumorais vinblastina e taxol ou o agente antimalária artemisinina (QUEIROZ, WOLFENDER, HOSTETTMAN, 2009).

O sucesso obtido com a investigação dos produtos naturais é condicionado pela cuidadosa seleção vegetal, a qual se baseia em diversos critérios, tais como, os dados quimiotaxinômicos e as informações de medicina tradicional.

Uma estratégia primordial que está sendo utilizada na obtenção de novos compostos é o chamado isolamento bioatividade-guiados, no qual ensaios farmacológicos ou biológicos são utilizados para orientar o isolamento de compostos bioativos de um extrato obtido de uma planta. Registros na literatura reportaram o uso da técnica pela primeira vez em 1987 por Duch e colaboradores os quais obtiveram do extrato de Stizophyllum riparium cinco terpenos com propriedades citotóxicas contra células tumorais leucêmicas do tipo P-388. Nos anos subseqüentes até os dias de hoje a técnica do estudo de isolamento bioatividade- guiados tem sido efetivamente aplicada pelos profissionais químicos-farmacêuticos oferecendo aos farmacologistas compostos com as mais diversas propriedades, dentre as quais se pode destacar propriedade tripanossomicida (Da SILVA MOTA et al., 2009), antifúngica (SCHUFFLER et al., 2009), analgésicas (ZHENG et al., 2009), anti-osteoporótica (WU et al., 2009), antiplaquetária (CHIA et al., 2008), ansiolítica (AGUIRRE-ERNÁNDEZ et al., 2007), anticolinesterásica (ROLLINGER et al., 2006;

SUNG et al., 2002) , anticonvulsivante (AWAD et al. 2009), dentre outras.

No presente estudo os compostos AU e TRX foram obtidos respectivamente de extratos de plantas como Alamanda cathartica e Eugenia umbeliflora. Após o isolamento e a comprovação da estrutura de ambos os compostos iniciou-se o estudo com a bioautografia, que se fundamenta na desacetilação do acetato de 1- naftil para gerar o 1-naftol por ação da enzima AChE, o qual reage com o reativo Fast Blue B, para produção de coloração púrpura pela formação do corante azóico na placa cromatográfica (MARSTON; KISSLING; HOSTETTMANN, 2002).

A bioautografia por CCD é uma técnica relativamente simples e de baixo custo, considerando sua fácil execução, rapidez e reprodutibilidade (COLLINS;

BRAGA; BONATO, 2006), embora seja um teste qualitativo (TREVISAN et al., 2006).

Este método vem sendo utilizado para a localização de compostos com propriedades antifúngicas, antibacterianas e antioxidantes a partir de matrizes vegetais que após procedimentos de purificação, identificação e ensaios complementares vem a contribuir para a descoberta de interessantes compostos líderes para o desenvolvimento de medicamentos de uso clínico (PIETERS;

VLIETINCK, 2005).

O efeito do TRX sobre a atividade da AChE foi detectado após o aparecimento de halos brancos nas regiões onde continham o composto nas concentrações de 180, 120, 90, 60, 30 e 15 µg. Já com o AU foi percebido halos brancos em todas as concentrações testadas (180, 150, 120, 90, 60, 30, 15 e 6 µg).

Os dados obtidos no presente estudo confirmam a atividade anticolinesterásica dos compostos AU e TRX, conforme descrito Chung et al. (2001) e Lee et al. (2004).

Uma vez que a atividade anticolinesterásicas dos compostos em estudo foi confirmada por ensaio de bioatividade-guiada, procedeu-se novo experimento para verificar o efeito dos compostos sobre a enzima quando esta se encontra em seu local de origem, ou seja, nas sinapses colinérgicas. Para tanto, o método de Ellman foi realizado em tecido cerebral. Trata-se de um experimento simples, onde a enzima contida na amostra (nesse caso, o encéfalo e hipocampo) hidrolisa a acetiltiocolina, gerando como produto a tiocolina, a qual reage com o reagente de Ellman (DTNB) tornando a reação de cor amarelada (TREVISAN; MACEDO, 2003;

ELLMAN, 1961).

Estudos realizados por Lee e colaboradores (2004) demonstraram que o TRX exibiu atividade anti-AChE (inibição de 80%) quando avaliado na região mesolímbica do cérebro de camundongos na concentração de 400 µM. Com o objetivo de confirmar estes resultados e avaliar se, este composto exerce sua ação na área cerebral envolvida no processo de memória (o hipocampo), o mesmo foi submetido à análise utilizando como fonte da enzima o encéfalo e hipocampo de ratos. Nossos resultados demonstraram que o TRX não tem efeito inibitório sobre a atividade da AChE no encéfalo, entretanto houve inibição da atividade enzimática no hipocampo, e esse efeito foi observado utilizando-se concentrações variando entre 0,89 a 3,6.

µM. Ou seja, doses muito menores do que a utilizada por Lee e colaboradores.

Embora tenha sido tentado no presente estudo utilizar as mesmas concentrações utilizadas por Lee et al. (2004) para verificar o efeito do TRX sobre a atividade da enzima, não fora obtido sucesso, uma vez que a reação ocorre em meio polar e o

TRX é um composto apolar, precipitando em concentrações mais elevadas. Lee e colaboradores não esclarecem qual solvente fora utilizado em seus experimentos, entretanto, sabe-se que solventes orgânicos podem desnaturar a enzima por diminuírem a constante dielétrica do meio (MARZZOCO; TORRES, 2007).

No ensaio enzimático realizado com o AU, houve inibição da AChE na concentração de 0,27 µM no encéfalo, já em hipocampo a atividade enzimática foi inibida com as concentrações de 0,01, 0,09, 0,44 e 0,89 µM. Não foi observado inibição enzimática em todas as concentrações em hipocampo, apesar de ser encontrado nessa estrutura feixes colinérgicos bastante caracterizados (DASHNIANI et al., 2009). Além disso, no presente trabalho, durante os experimentos não foi possível determinar que tipo de isoformas da AChE poderiam estar sendo inibidas pelos compostos TRX ou AU, o que explicaria efeitos diferentes desses compostos no hipocampo. Das e colaboradores (2005) demonstraram a presença de três isoformas, (G1, G2 e G4) as quais são distribuídas de diferentes formas por todo o SNC.

Chung e colaboradores (2001) avaliaram o efeito do AU sobre a atividade enzimática utilizando cultura de células PC12. Neste trabalho foi observado que o AU apresenta uma CI50 de 7,5 nM, que é sete vezes maior quando comparado com a tacrina (1nM), tais resultados sugerem que o AU é eficaz com relação a inibição enzimática, entretanto, a tacrina (droga de referência na terapêutica do Alzheimer) mostrou-se mais potente.

A variabilidade da inibição da AChE no ensaio inibitório com TRX e AU pode ser também explicada pela diferenças da densidade colinérgica encontrada nas estruturas cerebrais. Maior densidade reflete em atividade enzimática aumentada, e menor densidade em atividade diminuída quando comparada com amostras diferentes. Em estudos sobre a atividade anti-AChE em ratos diabéticos induzidos com aloxano, Milatovic e Dettbarn (1996) demonstraram que no estriado, que é rico em vias colinérgicas a atividade enzimática é aumentada, já no hipocampo não foi encontrado nenhuma variação significativa (MAZZANTI et al., 2004).

Com relação ao sistema colinérgico e sua relação com a memória, várias revisões foram encontradas na literatura e a maioria delas enfatiza a importância desse sistema nos processos de memória, sem, entretanto especificar em qual (is) etapa (s) o sistema é mais importante (JELTSCH-DAVID; KOENIG; CASSEL, 2008;

AMENTA; TAYEBATI , 2008; MUSIAL; BAJDA; MALAWSKA, 2007). Foi verificado recentemente, que a ingesta prolongada e deficiente de colina pode produzir

distúrbios cognitivos causados por uma redução dos níveis ACh, bem como da memória, além de distúrbios de crescimento de várias regiões cerebrais (LIAPI et al., 2009). Esses dados confirmam com outros resultados anteriores obtidos por Meck e colaboradores (2008) onde foi verificado que a disponibilidade de colina durante períodos críticos do desenvolvimento cerebral influencia o desempenho cognitivo na idade adulta e velhice, bem como enfatiza a importância da nutrição para o sucesso cognitivo perinatal (MECK et al., 2007).

Outro fato que corrobora com a crença de que a liberação de ACh é importante nos processos de memória é a de que o papel dos receptores muscarínicos na LTP em muitas áreas do SNC, incluindo o hipocampo, tem sido extensivamente estudado (LUO et al., 2008). A LTP é bloqueada por antagonistas muscarínicos e, considerada um processo de plasticidade sináptica e modelo natural de memória (BLISS;

COLIGRIDGE, 1993; IZQUERDO, 1993).

O enfoque principal dos atuais estudos de memória em seres humanos é direcionado aos efeitos da ACh sobre ela e sua relação com a DA, uma vez que os principais medicamentos utilizados na terapêutica da doença são os anticolinesterásicos, os quais por inibição da AChE promovem aumento dos estoques de ACh no sistema nervoso central. Estudos de imagem realizados por Shinotoh e sua equipe (2003) mediram a quantidade de AChE em pacientes com a doença e encontraram uma redução siginicativa da enzima na amigdala (-33%), no hipocampo (-14%) e neocortex (-20%).

Para esclarecer se os depósitos do peptídeo -amilóide encontrados nos cérebros de portadores de DA eram realmente responsáveis pelos distúrbios colinérgicos e, estes por sua vez, por prejuízos de memória Watanabe e colaboradores (2009) utilizaram animais transgênicos (Tg 2576) os quais superexpressam o percussor mutante da proteína β-amilóide e, são descritos como modelos de memória. Nesses animais e em camundongos normais foi medida a liberação de ACh e sua relação com a idade dos mesmos. Esses autores verificaram que o prejuízo da memória foi detectado em animais mais velhos tanto nos normais quanto nos trangêbicos e, esse déficit estava claramente ligados a diminuição da liberação de ACh. Mas as disfunções das sinapses colinérgicas podem não ser causadas predominantemente por depósito das placas neuríticas, uma vez que o prejuízo de memória ocorreu em ambos os grupos de animais (WATANABE et al, 2009).

Após ter-se confirmado a atividade anti-AChE dos compostos TRX e AU, iniciou-se o estudo do processo de memória de longa duração, nas três etapas principais, aquisição, consolidação e evocação através do modelo de esquiva inibitória.

Grande parte do que se conhece atualmente a respeito dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos nos fenômenos de plasticidade neuronal deve-se à descrição do fenômeno da LTP feito por Bliss e Lomo (1973). A LTP (long term potentiation) ou potenciação de longa duração consiste em um aumento na eficiência da transmissão sináptica em neurônios de estruturas cerebrais como o hipocampo, em resposta a um estímulo de alta freqüência. Ao longo dos anos demonstrou-se que a LTP compartilha inúmeras e importantes características do aprendizado e novas memórias, sendo apontado pela grande maioria dos estudiosos do assunto como o mecanismo de memória neuronal (BLISS; COLIGRIDGE, 1993;

IZQUERDO, 1993; IZQUERDO, 1994; EICHENBAUM, 1997; RAO; FINKBEINER, 2007; McLEOD; SUNDRAM; DREAN, 2008; WOSTYN; AUDENAERT; DE DEYN, 2008).

As características que a LTP possui elegendo-a como possível mecanismo de memória são: indução rápida (aquisição); grande labilidade durante o período pós- indução (consolidação), em que ocorre seu estabelecimento perdurável e permite sua manutenção, mantendo-se por longo período na ausência de estimulação; e, por último, expressão imediata da resposta quando é novamente aplicado o estímulo original (evocação) (BLISS; COLLINGRIDGE, 1993; REYMANN, 1993; IZQUERDO, 1993; RAO; FINKBEINER, 2007; McLEOD; SUNDRAM; DREAN, 2008).

No presente trabalho, os experimentos demonstraram que AU e TRX se mostraram como agentes facilitadores do processo de memória, porém com atuação diferente conforme a etapa do processo estudada. O tratamento com AU melhora a aquisição e consolidação da memória dos animais, e não afeta a evocação, enquanto que o TRX não afeta o processo de aquisição, porém afeta os processos de consolidação e evocação.

Estudos farmacológicos bioquímicos e moleculares foram realizados ao longo desses anos, para tentar desvendar quais os mediadores envolvidos em cada etapa da memória. Hoje se sabe que o sistema GABAérgico é de fundamental importância para a formação da memória e a etapa de aquisição da memória conta também, com a participação do sistema glutamatérgico, principalmente dos receptores NMDA e ativação de PKA no hipocampo (BOURTCHOULADZE at al., 1998). De acordo

com Barros (2001) e Lin (2001 e 2003) com suas respectivas equipes, o IP3 tem papel fundamental na aquisição da memória, formação de MLD e MCD e PLD.

O processo de consolidação da memória envolve inicialmente a ativação dos receptores de glutamato NMDA, AMPA/kainato e mGluRs, ativação de PKA, PKC e CaMKII na região CA1 do hipocampo (JERUSALINSKY et al., 1992; IZQUIERDO;

MEDINA, 1997; CAMMAROTA et al., 1998; VIANNA et al., 2000). A expressão de genes e a síntese protéica é essencial para a formação da MLD (IGAZ et al., 2004).

Segundo Cammarota e colaboradores (2000) 2 a 3 horas após o treino com animais, a atividade de PKA é aumentada na região CA1, e essa atividade depende da ativação prévia de receptores NMDA. Depois da ativação de PKA tem-se também a ativação de ERK (signal-regulated kinase) nesta região, que coincide com o aumento da fosforilação do fator de trancrição CREB e então tem-se a expressão de genes e síntese protéica (IGAZ et al., 2002). Receptores dopaminérgico D1 juntamente com receptor -noradrenérgico apresentam papel facilitatório da memória nesta etapa, entretanto receptores serotonérgicos como 5HT-A1 é deletério para a consolidação na região CA1, 6 horas após o treino (ARDENGHI et al., 1997).

Ainda na consolidação da memória, etapa com mais mecanismos envolvidos, ocorre ativação de receptores dopaminérgicos D1 3 a 4 horas após o treino dos animais, melhorando a consolidação da memória através de uma estimulação indireta de PKA via adenilato ciclase (ARDENGHI et al., 1997). Também já é conhecida a participação dos receptores 1, 2 e 1 noradrénergicos na consolidação da memória (GIBBS; SUMMERS, 2001a; GIBBS; SUMMERS, 2001b;

GIBBS; SUMMERS, 2002), como também dos receptores de histamina H1 e H2 (DE ALMEIDA; IZQUIERDO, 1986, 1988; XU et al., 2009).

A etapa de evocação da memória é menos dependente do hipocampo (BONTEMPI et al., 1999; ANAGNOSTARAS; MAREN; FANSELOW, 1999). Segundo alguns estudos, os receptores NMDA e a ativação de PKA e PKC, são importantes para a aquisição, essenciais para a consolidação, mas desnecessárias para a evocação (STEELE; MORRIS, 1999; BOURTCHOULADZE et al., 1998; GOOSENS;

HOLT; MAREN, 2000). Mansuy e colaboradores (1998) encontraram a superexpressão de CaMKII e serina/treonina fosfatase após evocação da memória espacial.

A evocação também requer PKA e ERK na região CA1, basolateral da amigdala, córtex entorrinal e parietal, e córtex circular anterior, indicando que a

evocação não acontece somente no hipocampo, desta forma, esta etapa está distante de ser um evento passivo (BARROS et al., 2003).

Os resultados do presente trabalho não só enfatizam que o AU e o TRX produzem a melhora da cognição dos animais, atuando de forma diferente nos processos de aquisição e a consolidação e evocação da tarefa da esquiva-inibitória, como também estabelecem uma relação entre o seus mecanismos de ação com o sistema colinérgico, ou seja, a capacidade desses compostos de inibir a ação da AChE, o que leva ao aumento das concentrações de ACh e, a alteração da amésia induzida por escopolamina, um antagonista muscanínico. Os resultados sugerem que o bloqueio competitivo de receptores muscarínicos cerebrais pela escopolamina é revertido pelo aumento da demanda de ACh nas sinapses, induzida pelo efeito de ambos os compostos sobre a atividade da AChE.

Dados farmacológicos demonstram claramente o papel dos receptores colinérgicos, tanto muscarínicos quanto nicotínicos, na codificação de novas memórias. Estudos realizados com lesões localizadas de neurônios colinérgicos ou infusões de antagonistas demostram a importância desde sistema nos processo de cognição. Além disso, modelos computacionais ajudam a esclarecer a função da modulação colinérgica com efeitos celulares específicos em regiões cerebrais importantes nos processos de memória (HASSELMO, 2006).

As similaridades entre alterações relacionadas à memória de pacientes portadores da DA e animais tratados com escopolamina já foram relatados por Rubio (2007). Devido a esse fator, a escopolamina tem sido utilizada como ferramenta farmacológica para se produzir um dos primeiros modelos animais dessa desordem, ou pelo menos sua sintomatologia primordial, o défict de memória.

Ainda com relação a possíveis mecanismos de ação dos compostos em estudo, relacionando ACh, AU e DA, Lu et al. (2007) demonstraram que o composto produz melhora da cognição de animais idosos tratados com D-galactose, a qual produz neurotoxidade em regiões hipocampais e é considerado um dos melhores modelos animais atuais de DA. Os autores demonstraram que efeito o do AU contra a neurotoxidade induzida pela D-galactose pode estar relacionado com a produção de enzimas com propriedades antioxidantes, além da redução do processo de peroxidação lipídica. De fato, a formação de espécies reativas de oxigênio (ROS) tem sido apontada nos últimos anos, como um dos fatores envolvidos na morte celular em vários processos neurodegenerativos, como ocorre nas DP e DA (OLANOW, 1994; CASTEGNA et al., 2002; DE LULLIS et al., 2005; ZHANG et al.,

2005; JUN LU et al. 2007). Por outro lado, como ressaltado anteriormente, estudos têm recentemente sugerindo que o AU inibe a indução da formação do peptídeo - amilóide, o que diminui a produção de radicais livres e a peroxidação lipídica em células neurais, ocorrendo desta maneira uma redução dos efeitos neurotóxicos, da apoptose e da morte celular neste grupo (HARKANY, 1999; HEO et al., 2002; DAN LIU et al., 2008).

Os resultados obtidos por Lu et al. (2007) reforçam outros dados descritos anteriormente por Shih e colaboradores (2002), os quais mostram que o efeito antioxidante do AU protege o hipocampo de animais contra a neurotoxidade produzida por aminoácidos excitatórios como o cainato via receptores AMPA. De fato, Shih e colaboradores (2002) verificaram que culturas de células isoladas do hipocampo e submetidas a um tratamento com cainato, quando incubadas com o AU, tiveram redução dos efeitos neurotóxicos do cainato. Os autores sugeriram que o AU poderia estar exercendo seus efeitos por: (i) modulação dos receptores AMPA afetando o sítio de ligação do kainato com esses receptores, (ii), promover a proteção das mitocôndrias das células hipocampais e, (iii) produzir a diminuição da produção de radicais livres. Os autores também referem que o efeito anti-radicais livres do AU pode ser observado em outros tecidos como, por exemplo, os hepatócitos, e que podem também estar relacionado com os efeitos tanto antiinflamatórios (MARTIN-ARAGON, et al, 2001), quanto anti-tumorais (YOU et al., 2001) já detectados com o AU.

O AU é um composto bastante estudado e, desde seu isolamento e identificação por Rowe e colaboradores (1949) o triterpeno AU vem sendo constantemente estudado, tendo apresentado as mais variadas propriedades farmacológicas variando entre efeitos periféricos e centrais. O interesse no composto como possível candidato a medicamento é tamanho, que só perde para o flavonóide quercetina, o qual é considerado como o fitoconstituinte com maior número de estudos.

Os possíveis mecanismos envolvidos nos efeitos do TRX detectados nesse trabalho não são tão óbvios e correlacionados, como visto com o AU. O composto foi isolado pela primeira vez de flores de várias plantas da família das Compositae como, por exemplo, Calendula officinalis, onde foi descrito seu primeiro efeito farmacológico, o efeito antiinflamatório (AKIHISA et al., 1996). O composto também apresenta efeitos centrais em células gliais reduzindo a atividade de óxido nítrico, (TSAO et al., 2008) é antiinflamatório (SINGH, SAHU, SHARMA, 2002), e

antitumoral (JANG et al., 2004; CHATURVEDULA et al., 2004). Seus efeitos centrais como atividade ansiolítica, antidepressiva, anticonvulsivante, antioxidante e, até mesmo sua relação com a peptídeo β-amiloide ainda merecem ser estudados. E talvez não tenham sido feitos devido ao baixo rendimento do composto e da sua presença como fitoconstituinte em menor escala nas plantas quando comparamos com o AU. Portanto, a única hipótese relacionada ao seu efeito facilitador da memória até o momento identificado, resulta exclusivamente na sua capacidade de inibir a enzima AChE.

Relacionando a estrutura química de ambos os compostos utilizado no presente estudo, pode-se observar uma diferença estrutural entre os triterpenos AU e o TRX, principalmente no que se refere a presença de grupo carboxílico no C-17 do AU, não observado no TRX e, em relação a posição da dupla ligação, no AU encontra-se entre os carbonos 11 e 12 e no TRX nos carbonos 14 e 15.

Apesar destes compostos pertencerem a mesma classe química dos triterpenos, as pequenas diferenças supracitadas podem alterar a conformação espacial da molécula contribuindo ou não de maneira efetiva à ligação com receptores endógenos. Entretanto, os experimentos realizados no presente estudo, não fornecem subsídios suficientes para uma extrapolação entre os efeitos biológicos encontrados com ambos os compostos e uma correlação entre a estrutura e a atividade de ambos.

Durante esse trabalho alguns experimentos farmacológicos adicionais foram requeridos para verificar se os efeitos dos compostos sobre a memória poderiam ter sofrido interferências de traços de ansiedade dos animais ou de possíveis interferências sobre o sistema motor dos mesmos. Conforme dito anteriormente, nestes experimentos foram utilizados somente o AU.

O MOF é um teste utilizado para analisar comportamentos baseados em situações de conflito natural. Normalmente o conflito no animal é a exploração e a aversão a ambientes abertos e claros. O número total de cruzamentos (crossings) durante o teste é considerado um índice de atividade locomotora, enquanto que o numero de levantadas (rearings) é considerado um índice de atividade exploratória (LOTUFO et al., 2004). Dessa forma, o modelo pode descriminar se a substância- teste exibe efeito ansiolítico ou efeito depressor inespecífico atuando em regiões cerebrais envolvidas também coma atividade exploratória do animal (SILVA et al., 2006). Os resultados apresentados demonstram que o AU não produziu efeito sobre o sistema motor dos animais, uma vez que o número de cruzamentos não foi

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