3.2 EFEITOS JURÍDICOS DECORRENTES DO RECONHECIMENTO DA
Em relação direito sucessório, sendo o filho socioafetivo considerado herdeiro necessário, este se deve atentar para as normas do art. 1.845 do CC: “são herdeiros necessários, os descendentes, os ascendentes e o cônjuge”.
Desse modo, se reconhecida à paternidade socioafetiva, caberia ao filho socioafetivo impugnar eventual testamento, caso esse dispusesse de modo diverso do que determina a lei.
Entretanto, se o reconhecimento judicial ocorrer após o falecimento do pai socioafetiva, há entendimento que se utiliza do argumento de que se trata de interesse meramente patrimonial, haja vista que o suposto pai em vida não manifestou a sua vontade de que esse filho fosse reconhecido, ou ainda, teria deixado testamento que beneficiasse esse filho socioafetivo.
Assim, pela análise da emenda abaixo transcrita, podemos dizer que, aqueles que negam o reconhecimento da paternidade socioafetiva, após o falecimento do suposto pai, o fazem por acreditar tratar-se de interesse meramente patrimonial:
Ementa: Apelação cível, investigação de paternidade socioafetiva cumulada com petição de herança e anulação de partilha. Ausência de prova do direito alegado. Interesse meramente patrimonial.
Embora admitida pela jurisprudência em determinados casos, o acolhimento da tese da filiação sociafetiva, justamente por não estar regida pela lei, não prescinde da comprovação de requisitos próprios como a posse do estado de filho, representada pela tríade nome, trato e fama, o que não se verifica no presente caso, onde o que se percebe é um nítido propósito de obter vantagem patrimonial indevida, já rechaçada perante a Justiça do Trabalho. Negaram provimento. Unânime.180
Agora em relação, aquele que educa, sustenta e cuida de alguém como se fosse um filho, se realmente não o reconhecesse com tal, não diminuiria o vínculo existente entre esse pai e seu filho, caracterizando assim a paternidade socioafetiva.
Contudo, dizer que um filho socioafetivo só teria direito à herança se seus pais socioafetivos o reconhecessem expressamente, seja por um
180 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Sétima Câmara Cível. A.C.
70016362469, Rel. Des. Luiz Felipe Brasil Santos, julgado em 13/06/2006. Disponível em
<http://www.tjrs.jus.br> Acesso em 03 mai. 2010.
testamento ou pelo registro civil, seria o mesmo que reconhecer que a filiação socioafetiva não gera efeitos, o que é um equívoco.
Situação que ilustra a questão suscitada foi objeto de acórdão proferido pelo TJRS que, por maioria negou o reconhecimento da maternidade socioafetiva, por entender tratar-se de interesse meramente patrimonial, determinado que o único bem da mãe socioafetiva ficasse com a irmã da falecida, ao invés de ficar com seu filho socioafetivo. Porém, como já foi dito, não há posicionamento unânime sobre a matéria.
Contudo, enquanto a posse do estado de filho, base da filiação socioafetiva, não for expressamente reconhecida pelo ordenamento jurídico, cabe à doutrina e jurisprudência assegurar que os filhos socioafetivos sejam reconhecidos e protegidos, sobretudo após o falecimento daquele que o criou.
Nesse momento, surge a figura do julgador, o qual cabe a função de identificar e configurar a filiação, protegendo assim relação existente.
Nesse enquadramento de pensamentos salienta Bernardo Ramos Boeira181: “Na verdade, o pronunciamento judicial consiste no suprimento da manifestação da vontade que o pretenso pai deveria ter tido, perfilhando, e que o omitui”.
A exemplo do que foi explanado, pode-se citar o caso de um filho que ingressou com pedido de reconhecimento de filiação socioafetiva, e provando ter sido criado como filho, obteve na justiça o reconhecimento que lhe estava negado pelos demais herdeiros.
Ementa: Ação declaratória. Adoção informal. Pretensão ao reconhecimento. Paternidade socioafetiva. Posse do estado de filho.
Princípio da aparência. Estado de filho afetivo. Investigação de paternidade socioafetiva. Princípios da solidariedade humana e dignidade da pessoa humana. Ativismo judicial. Juiz de família.
Declaração da paternidade. Registro. A paternidade sociológica é um ato de opção, fundando-se na liberdade de escolha de quem ama e tem afeto, o que não acontece, às vezes, com quem apenas é a fonte geratriz. [...] que se supere a formalidade processual, determinando o registro da filiação do autor com veredicto
181 BOEIRA, José Bernardo Ramos. Investigação de paternidade. p. 71.
declaratório nesta investigação de paternidade socioafetiva, e todos do seus consectários. Apelação provida por maioria.182
Destarte, a filiação socioafetiva é um fato presente em nossa sociedade, a mesma merece e deve ser regulada expressamente, pois como preconiza Maria Berenice Dias183, a ausência de regulamentação legal não implica em ausência de direito:
O Estado, ao reservar o monopólio da jurisdição, assegurou a todos a prerrogativa de buscar os seus direitos. Elencou, pautas de conduta por meio de leis e, na impossibilidade de prever todas as situações que a riqueza da vida, a inteligência humana e o avanço das ciências, podem imaginar, atribuiu aos juizes, não só a função de aplicar o direito, mas também o dever de cria-lo sempre que constatar lacunas na legislação... Tal função torna-se verdadeira missão, quando o magistrado se conscientiza de que lhe compete revelar o direito mesmo quando não há previsão legal, pois a ausência de lei não significa a inexistência de direito merecedor de tutela.
Assim, tendo o filho preenchido os requisitos para a configuração da filiação socioafetica, quais sejam, nome, trato e fama, e tendo sua existência determinada pela inserção e convivência em uma determinada família, entende-se que deva ser autorizada a manutenção do seu status de filho.
Consequentemente será plenamente possível à legitimação do filho socioafetivo, para assegurar os direitos provenientes desta filiação. Assim o art.1.593, juntamente com o art. 1.634 do CC184 nos trazem o amparo legal do que foi acima exposto:
Art. 1.634- Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores:
I – dirigir-lhe a criação;
II – tê-los em sua companhia e guarda;
182 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Sétima Câmara Cível. AP.
70008795775, Rel. Des. José Carlos Teixeira Giorgis, julgado em 23/06/2004. Disponível em
<http://www.tjrs.jus.br> . Acesso em 03 de mai. 2010.
183 DIAS, Maria Berenice. Era uma vez. In: PEREIRA, Rodrigo da Cunha (coord.). Afeto, ética, família e o novo código civil. Belo Horizonte: Del Rey, 2004. p 17-18.
184 CAHALI, Yussef Said (org). Mini código civil. p. 444.
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III – conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem;
IV – nomear-lhe tutor por testamento ou documento autêntico, se o outro dos pais não lhe sobreviver, ou o sobrevivo não puder exercer o poder de família;
V – representá-los, até aos dezesseis anos, nos atos da vida civil, e assisti-los, após essa idade, nos aos em que forem partes, suprindo- lhes o consentimento;
V I – reclamá-los de quem ilegalmente os detenha;
VII – exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.
Em suma, o artigo mencionado trata dos pais de uma maneira geral, não mais mencionando se estes são naturais, civis, afetivos ou não, dirigindo a eles todos estes encargos, e por conseqüência determinando os seus deveres direitos inerentes.