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Eixo 1: Dificuldades de acesso à internet

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 91-96)

3.4 Categoria I: Experiência de estudantes, tutores e professores

3.4.1 Eixo 1: Dificuldades de acesso à internet

Os relatos abaixo demonstram os obstáculos similares observados pelos estudantes. Entretanto, são divergentes em alguns pontos que sinalizamos em seguida.

Os participantes citaram em seus relatos que, apesar dos recursos pedagógicos midiáticos inovadores possibilitados pelo acesso às Plataformas Digitais da Rede Municipal de Educação de Niterói pelas redes sociais e pelos aplicativos de mensagens, um dos obstáculos encontrados durante o estágio remoto foi o acesso precário à internet de todos os envolvidos, mas, principalmente, em relação aos estudantes da Educação Básica e, consequentemente, a participação de uma pequena parcela desses estudantes, conforme descrito a seguir:

Posso dizer que a maior dificuldade foi pensar em como alcançar um aluno que está distante e que muitas vezes não tem as ferramentas necessárias para acompanhar o ensino remoto. Já tive dificuldades algumas vezes de entender a fala da mediação por causa do acesso à internet. (Estudante A – E.F – UNIRIO/CEDERJ)

A plataforma digital achei ótima, com muitas atividades e jogos que as crianças mais gostaram. Tinha interação com os poucos alunos e a professora. Muito problema com a internet dos alunos. (Estudante E – E.F – UNESA).

O acesso precário à internet foi identificado no relato de três estagiários entrevistados. Isso pode ser explicado pelo fato de a maior parte dos estudantes da Educação Básica utilizar a internet através do telefone celular dos pais e com pequenos pacotes de dados, muitas vezes, não alcançando as tecnologias exigidas pelas plataformas digitais disponíveis para o estudo. Evidencia-se, portanto, a

pouca participação dos estudantes nas atividades veiculadas nas plataformas durante as aulas síncronas, pois, supostamente, os pais estariam em horário de trabalho presencial ou utilizando o celular para o trabalho remoto, conforme o seguinte relato: “Infelizmente o sistema era muito instável, poucos alunos conseguiam acessar e ficavam entrando e saindo/caindo. Tinha o suporte também pelo WhatsApp com os pais, que acompanhavam”. (Estudante F – E.F – Estácio)

A PNAD 31 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entre os anos de 2018/2019 demonstra ser o celular o equipamento mais utilizado para o uso da internet, por pessoas com 10 anos de idade ou mais, nos domicílios brasileiros.

Conforme quadro:

Figura 5 - Quadro comparativo de percentuais de equipamentos utilizados para acessar a internet

Fonte: IBGE, 2019.

A pesquisa TIC domicílios 2020 complementa esses dados, informando-nos que o acesso dos brasileiros à internet aumentou 7% no ano de 2020 em relação ao

31 IBGE EDUCA. Uso de Internet, televisão e celular no Brasil. Disponível em:

https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/20787-uso-de-internet-televisao-e-celular-no- brasil.html. Acesso em: 21 mai. 2022.

ano de 2019, representando aproximadamente 61,8 milhões de domicílios com algum tipo de conexão à rede, tendo o celular como principal dispositivo para acesso, principalmente entre as classes D/E, nordestinos, e entre os que se declaram pretos e pardos:

O telefone celular continuou sendo o principal dispositivo utilizado para acessar a rede, atingindo quase o total da população usuária de Internet com dez anos ou mais (99%). Para mais da metade desses usuários (58%), o acesso se deu exclusivamente pelo celular, proporção que chega a 90%

entre aqueles que estudaram até a Educação Infantil ou que pertencem às classes D/E. O uso exclusivo do celular também foi predominante entre os que residem na região Nordeste (72%) e que se autodeclararam pretos (65%) ou pardos (60%). (TIC domicílios 2020, p.3)

Corroboramos assim com os relatos dos estagiários com a informação das dificuldades de acesso às atividades síncronas veiculadas nas plataformas digitais disponibilizadas pelo município de Niterói, que foram atenuadas pela comunicação através do aplicativo de mensagens WhatsApp, isto é, através do uso do celular. As escolas da Rede criaram grupos de WhatsApp para as turmas, onde os estagiários eram inseridos e podiam acompanhar as atividades escolares realizadas, como observado nas falas dos estudantes a seguir:

[...] os estagiários foram incluídos num grupo de WhatsApp, podíamos participar das reuniões pedagógicas como ouvintes, elaborar atividades e participar das dinâmicas em grupo.

(Estudante B – E.I – UNIRIO/CEDERJ)

[...] o meu contato foi somente com as diretoras e com o corpo docente, através do grupo de zap dos estagiários da escola e das reuniões de planejamento, dos projetos e observando as reuniões de pais e as atividades propostas nos sábados letivos.

(Estudante C – E.I – UNIRIO/CEDERJ)

Nota-se, pelas falas dos estudantes, que a comunicação durante os estágios foi facilitada pelo aplicativo de mensagens WhatsApp. Em algumas escolas eram criados grupos para os estagiários acompanharem reuniões de planejamento, reuniões de pais, disponibilização de links de reuniões e sugestões de atividades.

Alguns estagiários relataram a participação ativa; outros participaram como ouvintes, mas tiveram acesso às atividades escolares:

[...] Além disso, em ambos os estágios os grupos de WhatsApp eram muito ativos. Os professores mantiveram uma relação contínua, de convivência cotidiana, com muitas trocas. Esse ambiente foi extremamente rico e produtivo para o estágio e deveria fazer parte de políticas de estágios remotos. Inclusive poderia ser adotado como parte dos estágios presenciais ou híbridos para os estagiários acompanharem essa vivência.

(Estudante F-E.F – E.I – UNESA)

A estudante F da UNESA considerou o ambiente “rico e produtivo” para o estágio e acha que este tipo de experiência deveria ser implementado nos estágios presenciais ou em modelos “híbridos”. Contudo, como relataram as estagiárias, a dificuldade de acesso à internet pelos estudantes da Educação Básica das camadas mais vulneráveis, ratificada pela pesquisa TIC domicílios 2020, tendo o aparelho celular como um de seus principais meios de conexão, nos faz pensar na urgência da implantação de políticas públicas de democratização de acesso à internet, com conectividade de banda larga para todos.

A pandemia nos mostrou o quanto somos vulneráveis e inexperientes em relação às tecnologias digitais e como delas ficamos dependentes durante os primeiros meses de isolamento social. É preciso ampliar o acesso à internet e torná- lo gratuito em vias públicas para que todos possam estar conectados ou possam ter acesso privado a preços acessíveis.

Em 7 de dezembro de 2021 foi publicada a medida provisória nº1.077, com força de lei, instituindo o “Programa Internet Brasil” com o objetivo de:

[...] promover o acesso gratuito à internet em banda larga móvel aos alunos da educação básica da rede pública de ensino integrantes de famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.

(BRASIL, 2021)

Foi percebido nos relatos acima a urgência de implementação de políticas públicas para democratização de acesso à banda larga de internet para a população carente e, em especial, aos estudantes da Educação Básica. No entanto, a Medida Provisória 1.077, de 7 de dezembro de 2021, publicada no período pandêmico, denota certa comodidade do Estado quanto à celeridade no processo:

§ 3º O Programa Internet Brasil será implementado de forma gradual, ob- servados:

I - a disponibilidade orçamentária e financeira;

II - os requisitos técnicos para a oferta do serviço; e

III - outras disposições estabelecidas pelo Ministério das Comunicações.

(BRASIL, 2021).

Observamos que a MP publicada parece uma preocupação governamental na democratização de acesso à internet dos estudantes pertencentes às famílias inscritas em programas sociais federais, mas o texto evidencia obstáculos a serem superados para sua efetivação. Não há, portanto, prioridade em reservar recursos financeiros para investimento neste propósito. Percebemos o descaso dos governos neoliberais em subsidiar programas de benefícios sociais e, por consequência, são parcos os investimentos em educação e cultura no país.

Assim como os estudantes da Educação Básica, os do Ensino Superior da América Latina possuem, em sua maioria, o acesso à internet através do telefone celular. Isso pode ser ratificado em documento produzido pela UNESCO (2020):

[...] apesar das taxas de conectividade doméstica serem muito díspares na América Latina, com casos extremos no Chile e na Bolívia, as taxas relativas às linhas móveis são extremamente altas e, em muitos casos, ultrapassam o número de uma linha por pessoa. Esta é, sem dúvida, uma oportunidade que as IES devem aproveitar concentrando seus esforços em soluções tecnológicas e conteúdo para uso em telefones celulares (UNESCO, 2020, p. 19).

Acreditamos na implantação de medidas de inclusão digital para todos, de estudantes e professores, da Educação Básica ao Ensino Superior, com conteúdos digitais que se adequem à telefonia móvel. Na Educação Básica, as tecnologias digitais podem ser utilizadas como facilitadoras da relação ensino-aprendizagem no ambiente escolar. No Ensino Superior, o investimento em tecnologia digital móvel é necessário para permitir aos estudantes o acompanhamento de suas aulas à distância ou para a realização de pesquisas de cunho acadêmico. Durante o período de isolamento social, professores se reinventaram e tiveram que aprender a utilizar recursos tecnológicos para dar prosseguimento às atividades pedagógicas de maneira remota, para que o ano letivo fosse validado. Por sua vez, os estudantes e suas famílias adaptaram-se a essa nova forma de estudo. Algumas escolas praticaram a transposição do ensino presencial para o remoto, outras utilizaram recursos pedagógicos digitais disponíveis para tornar o ensino mais prazeroso, como observado em alguns relatos a seguir.

3.4.2 Eixo 2: Participação dos estagiários nas atividades pedagógicas realizadas nas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 91-96)