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Encontros e desencontros políticos

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 57-61)

portuguesa e se casar na tradição francesa, do que se casar à portuguesa e viver à francesa, como havia acontecido com ele e Ana.

Antunes e Ana são apaixonados por uma cultura estrangeira e citam a todo o tempo expressões e palavras francesas. Ao analisar essas personagens, fica visível certo sentimento de valorização do estrangeiro, principalmente, da valorização da cultura francesa. Liam-se muito os franceses, antes do século XIX, a maioria das peças representadas eram traduções francesas. Em relação à Inglaterra e à França, Portugal era muitas vezes apresentado como um país periférico, mas isso apenas se acentua no final do século XIX, quando os intelectuais oitocentistas, buscam seu lugar na Europa.

Deste modo, em O noivado no Dafundo, certos personagens como Augusto (e também Pantaleão) acabam apresentando sua fidelidade a Portugal como expressão de seu patriotismo e, portanto, de seu ideário político. Augusto, inclusive, se recusa a casar ao ver que não se encaixa no complexo de vira-latas almejado como ideal por Ana e Antunes. Já Pantaleão parece representar o que acontece com o homem, que se torna cansado e derrotado quando larga seu patriotismo perante o surgimento de ideias, costumes e práticas, que não se encaixam com sua terra. Ele é inclusive menosprezado por Ana quando ela diz que seu nome não pode ser “afrancesado”, como se isso fosse algo necessário para um homem que viveu a vida toda em Portugal e nunca foi à França.

É isso que Bernardes (2012, p. 142) intitula como a “escrita patriótica de Garrett”. A autora destaca que “O amor pela pátria que Garrett coloca em cena, seguindo os passos de antigos e de modernos, conduz naturalmente aos bons costumes” (BERNARDES, 2012, p. 137): em O noivado no Dafundo, isso fica bem claro, como na obsessão de cidadãos portugueses em falar o francês em todo o momento, ao passo em que aqueles que valorizam a cultura e o idioma português, como Augusto e Pantaleão, são representantes, em maior e menor escala, do patriotismo envolvendo Portugal.

Souza (2014, p. 263) destaca que “o fenômeno literário pode ser visto não somente como reflexo do sentimento nacionalista, mas também como instância que permite ao autor uma visada crítica do cenário político português”, de modo que Almeida Garrett sempre buscou a valorização de ideias patrióticas em proteção aos costumes de Portugal.

Outra questão bastante clara, no capítulo 2, em relação ao ideário político na obra O corcunda por amor foi abordada por Santos e Gonçalves (2007, p. 2): “o título nos situa de imediato no vintismo - o autor alicerça as teias do amor e da paixão com a nova conjuntura sócio-política” e elabora suas paródias ao veicular duas mentalidades coexistentes na época, ou seja, o absolutismo e o liberalismo, exaltando a conscientização cívica como um triunfo dos liberais.

Assim como ocorre com Ana e Antunes n‟O Dafundo, Garrett apresenta personagens pitorescos e que repetem falas ignorantes e preconceituosas, sempre de modo cômico, para representar os absolutistas, sobretudo em se tratando do Doutor, que ao fim da obra passa por uma rápida conscientização, ou melhor, uma mudança que é feita para atender aos seus interesses, mas que o leva a endireitar sua coluna, além de D. Carangueija, que retrata a cômica matrona burguesa, ignorante e beata, cujo analfabetismo deturpa a linguagem popular. Há aqui uma critica a falta de valores e a superficialidade dessas personagens, ou melhor, dos absolutistas. Anseia o tempo todo por um confessor que lhe oriente e lhe diga como proceder e como se comportar.

Um exemplo já trabalhado ao longo do estudo se dá quando o Doutor Lapafúncio fala sobre as leis dos cereais, (que limitavam ou proibiam a importação de trigo do estrangeiro), mas sem saber nada sobre o assunto. Em sua visão limitada e corcunda, já que se tratava de uma lei surgida no contexto de ascensão liberal, ela não poderia ser boa. Por isso, era sua missão atacá-la. O fato de o Doutor ter sido tão facilmente enganado por Eleutério é outro indicativo de sua ignorância, já que bastava fingir ser corcunda para despertar sua simpatia. Tendo Barrigudo dito que Eleutério era uma absolutista, Lapafúncio não questionou.

Outro ponto político relevante é que o Doutor Lapafúncio temia que Carlota pudesse ter acesso à informação e se revoltasse contra o absolutismo, fazendo com que ele a censurasse e impedisse de consumir livros ou mesmo notícias de viés liberal.

Creio que nesse ponto a ideia política defendida por Garrett é bastante clara:

se uma pessoa jovem e inteligente como Carlota tivesse acesso aos materiais liberais, seria natural que ela não se tornasse corcunda. De fato, até mesmo Lapafúncio, quando devidamente confrontado sobre seu ideário político por circunstâncias que lhe fugiam do controle, disse: "Saibam todos que de hoje em

deante, nada mais de corcundices" (GARRETT, 1904, p. 624) e enfim aceitou o já inevitável relacionamento entre Eleutério e Carlota.

A encenação não apresenta Augusto e Eleutério como "Don Juans" (FELIPE, Guilherme, 2017, p.89); coloca-os na ordem do universo "titeriteiro de casanovas de pacotilha, mobilizados pela leviandade sensual e pela cupidez" (GARRETT, 1904, ato I, cena VII, p. 620). Eleutério e Augusto não são enamorados romanescos, sentimentais, de suspiros pelos cantos. Retratam mais o acadêmico coimbrão recém-chegado à capital, deslumbrado com “moças, touros, teatros, Marrare, súcia e mais súcia” (GARRETT, 1904, ato I, cena V, p. 618).

O teatro e a música são, pois, lugares de sociabilidade cultural urbana, a que se juntam tantos outros espaços informais, como os cafés (recorde-se em Lisboa o Marrare – ou os vários Marrare –, o Martinho e o Café Suisso, e no Porto o Guichard e o Águia de Ouro), locais de cavaqueira cultural ou pseudocultural. (TORGAL; VARGUES, 1993, p. 687)

É visível a importância dos novos espaços de sociabilidade para a divulgação das ideias liberais, especialmente os cafés.

O café é uma das feições mais características de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião. (GARRETT, 2010, p. 135)

Lapafúncio defende que a liberdade só trará anarquia. Faz uma ressalva à Gazeta Universal da Europa, que trazia a notícia de uma contrarrevolução ao movimento liberal. Barrigudo e Eleutério debatem as correntes políticas. Eleutério usa os argumentos de que o liberalismo está acabando com as tradições, com os valores morais e sociais, e critica a imprensa por propagar essas ideias que estão

“acabando com o mundo”, com o mundo a que eles estão vinculados. Percebe-se que, com pouco esforço, Eleutério conseguia enganar Lapafúncio, uma representação da ignorância absolutista do ponto de vista de Almeida Garrett.

O corcunda por amor representa uma espécie de "cômico” com personagens que representam os componentes do universo político de então, expressando-se em linguagem coloquial, ao longo de três cenas distintas:

1. Uma cena da Rua, Escritório de Lapafúncio e Hospedaria Lacombe –, caracteriza três espaços sociais – público, privado e semiprivado – que apelam ao burlesco de atualidade. Em estilo grotesco, mostrava a que se reduziam os embates políticos: meras rivalidades partidárias, em que cada qual tinham seu codinome e onde as consciências cívicas eram reduzidas a exibir os emblemas.

2. Um casal de “corcundas”, o Dr. Lapafúncio e D. Carangueja são ludibriados por dois jovens liberais recém-saídos da Universidade. O mais esperto se vale da ignorância de ambos, com uma caracterização caricata.

3. O bacharel Eleutério, se disfarça de corcunda, para estar junto da amada Carlota, sem que o pai dela, que também é seu patrão, se aperceba; o amigo e condiscípulo Augusto será o pretenso criado.

Na concepção de boa parte da crítica especializada, O corcunda por amor não figura entre as obras mais conceituadas de Almeida Garrett. No entanto, foi de grande aceitação pelo público. Sua estreia, de acordo com todas as bibliografias pesquisadas, figura como uma noite memorável em Lisboa. A peça foi muito aplaudida pelo público (AMORIM, 1881). Contudo, na pesquisa elaborada para a elaboração do presente estudo, constatou-se que O corcunda encontra um grande volume de análises e ensaios, o que ocorre em menor escala com O noivado no Dafundo. Isso porque a primeira obra conta com uma abordagem política mais clara e objetiva (crítica do absolutismo por Garrett) ao passo em que a segunda peça traz uma abordagem política mais sutil (valorização da singularidade portuguesa no contexto da consolidação das ideias liberais).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 57-61)

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