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Entre a política e o crime político

No documento As fronteiras da violência política: (páginas 58-64)

A análise deste capítulo se desdobrará a partir de denúncias realizadas no Brasil e no exterior sobre a violência do Estado ditatorial. Como argumentado na introdução da tese, a identificação naturalizada de determinadas práticas como a violência política definidora do que teria sido a ditadura é consequência da série de operações memorialísticas, políticas e intelectuais que são, em última instância, o objeto mesmo da pesquisa. Aqui, quero enfatizar que no momento mesmo em que tais ações violentas eram levadas adiante, essas formas de classificação ainda não estavam dadas. Elas foram construídas paulatinamente, e situo o início desta construção precisamente na virada dos anos 1960 para a década seguinte.

Quero enfatizar aqui que, no caso brasileiro, o início desse processo se deu a partir da centralidade da denúncia das torturas de presos políticos. Para compreender esse aspecto, é preciso enfatizar que a ditadura brasileira adotou uma forma repressiva que o cientista político Anthony Pereira caracterizou como “legalidade autoritária”. Esse tipo de repressão se baseava em uma atuação “judicializada” e “gradualista” por parte do regime (PEREIRA, 2010, p. 44), o que levou muitos dos seus opositores a serem processados em tribunais. Assim, se é verdade que em todas as ditaduras há “por um lado, uma esfera de terror estatal extrajudicial e, por outro, uma esfera de legalidade rotineira e bem estabelecida” (Ibidem, p. 53), no caso brasileiro houve uma larga utilização desta segunda esfera. Para Pereira, a escolha estratégica do regime em lançar mão desse tipo de repressão remete a diversos fatores, dentre eles a tradição de persecução judicial à oposição política de longo prazo do Estado brasileiro e a busca por legitimidade interna e externa.

A opção da ditadura brasileira gerou consequências, das quais uma me interessa particularmente para este trabalho. Essa forma repressiva particular implicou uma profusão de pessoas encarceradas ao longo dos anos. Ao menos dezenas de milhares de pessoas passaram pelas prisões. É certo que muitas delas estiveram em centros clandestinos de detenção e tortura, ou estiveram clandestinamente em espaços oficiais. Ainda assim, está na casa das dezenas de milhares o contingente de pessoas efetivamente processadas, isto é, cujas prisões adentraram e tramitaram oficialmente no sistema de justiça – ainda que, como veremos, no âmbito da Justiça Militar. A maior parte dessas pessoas respondia por crimes previstos nas diferentes Leis de Segurança Nacional (LSN) existentes durante a ditadura.

Nos primeiros anos do regime, estava em vigor a Lei 1.802 de 1953, que, produzida no contexto do fim do Estado Novo, designava a justiça comum como foro responsável por julgar civis acusados de “crimes contra o Estado e a Ordem Política e Social”. Para os dirigentes do novo regime, a lei parecia insuficiente, e não à toa os primeiros esforços repressivos demandaram novos instrumentos de exceção, como o Ato Institucional nº 1 (AI-1) e os Inquéritos Policiais Militares5. O AI-2, de outubro de 1965, transferiu para a esfera da Justiça Militar a responsabilidade pelo processo e pelo julgamento desses crimes, mesmo se cometidos por civis. Em 1967 foi publicado o decreto-lei 314, que instituiu a primeira Lei de Segurança Nacional da ditadura. A partir daí, houve uma sucessão de atos que aprofundavam os draconianos termos da LSN. A Constituição outorgada no mesmo ano consolidou as medidas de exceção prévias. Em seguida, houve o AI-5 em dezembro de 1968 e uma nova LSN em

5 Ver MOREIRA ALVES, 1984.

1969, instituída pelo decreto-lei 898. A constituição de uma institucionalidade voltada para levar adiante a repressão não se encerrou nesses instrumentos. Do contrário: ao longo do regime, uma série de leis, decretos, diretrizes secretas e atos institucionais seriam lançados, moldando as instituições à luz das diferentes conjunturas enfrentadas pelos militares no tempo.

Na virada dos anos 1960, o conflito entre militantes de esquerda e as forças repressivas recrudesceu. Diante do aprofundamento da repressão, parte das oposições fez a opção política pela luta armada. Nesse cenário, a ditadura intensificou a institucionalização de um sistema repressivo organizado com o intuito de promover, de forma sistemática, práticas como a prisão arbitrária, a tortura, a execução sumária e o desaparecimento forçado daqueles considerados inimigos do regime. Esse aprofundamento da violência de Estado se deu por meio da criação de consolidação de uma série de órgãos que centralizavam a repressão nas mãos das Forças Armadas – como experiência piloto, foi criada a Operação Bandeirantes (Oban) em 1969, São Paulo, a qual deu origem, posteriormente, aos Destacamentos de Operação de Informações dos Centros de Operação de Defesa Interna (DOI-Codis)6.

Com o aprofundamento desse contexto, intensificou-se também a disputa simbólica em torno do estatuto do conflito entre a ditadura e as oposições. Importa retomar, aqui, que na medida em que a repressão obedecia à lógica da “legalidade autoritária”, o regime não reconhecia a existência de uma repressão política no país. Isto é, tanto os instrumentos legais e jurídicos, quanto os órgãos que operavam a repressão, eram apresentados pelo regime como parte de uma institucionalidade montada para combater o perigo da subversão e do terrorismo, jamais para promover perseguições políticas. De fato, não havia, no rol de instrumentos repressivos criados pela ditadura e acima destacados, tipos penais objetivamente identificados enquanto crimes políticos. Mesmo a Lei de Segurança Nacional, como buscarei discutir no capítulo seguinte, era mobilizada contra setores que não seriam apresentados como criminosos políticos. Assim, é preciso notar que a categoria de presos políticos não tem um sentido objetivo – ou seja, preso político não é aquele que responde a um tipo penal específico. Quem eram, então, os presos políticos? A resposta a essa questão só pode emergir do próprio processo histórico e social: presos políticos eram aqueles que logravam ser legitimamente nomeados e reconhecidos como tal. É por essa razão que a disputa em torno das formas classificatórias não pode ser vista como acessória ou lateral: ela era parte fundamental do conflito entre o regime e as oposições.

6 Sobre a retroalimentação da ação da ditadura e das oposições, ver MOREIRA ALVES, 1984. Sobre a luta armada, ver GORENDER, 1987 e RIDENTI, 1993. Sobre a evolução da estrutura repressiva ao longo da ditadura, ver FICO, 2001. Para um olhar específico sobre a Oban e os DOI-Codis, ver JOFFILY, 2013.

Nesse sentido, os militares levaram adiante um esforço significativo para legitimar a repressão, a partir da elaboração de novas formas de definir e nomear aqueles vistos como seus inimigos internos. Essas formas classificatórias, evidentemente, não eram aleatórias ou fortuitas. Sua base era a doutrina militar que orientava as ações das Forças Armadas naquele contexto de Guerra Fria e de ditadura: a Doutrina de Segurança Nacional (DSN). Interessa pouco, para os fins deste capítulo, analisar detalhadamente a DSN e sua história – sobre isso, aliás, já existe ampla bibliografia7. O que importa, aqui, é observar a expressão prática desse pensamento, que se dava na forma da elaboração e utilização de categorias acusatórias bastante específicas.

Observemos, sobre isso, uma entrevista do General Antonio Carlos Murici para o Jornal do Brasil em julho de 19708. O então chefe do Estado-Maior do Exército divulgava, na ocasião, um “estudo” realizado pelo Exército para traçar um “diagnóstico da subversão”. Nos termos do periódico, a “pesquisa” havia sido realizada com “cerca de 500 pessoas detidas atualmente no Exército em todo o país e ligadas verdadeiramente ao terror e à subversão ativa”.

Segundo Murici, a conclusão do “estudo” era que “o movimento comunista internacional procura deliberadamente atingir a mocidade, a fim de conquista-la, se possível, pela impregnação ideológica”. Para explicar porque alguns jovens eram “aliciados” para a

“subversão”, o General apresentou quatro grandes causas:

1) desajustes sociais; 2) descaso dos pais pelos problemas da mocidade; 3) politização no meio escolar realizada por estudantes profissionais que despertam e exploram o ódio nos jovens, com o fito de impor-lhes um idealismo político, mesmo temporário;

4) o trabalho de alguns maus professores, hábeis em utilizar a cátedra para fazer proselitismo.

E Murici seguiu descrevendo o que ocorria uma vez que o jovem fosse “aliciado”:

Quando membro de uma delas [“organizações clandestinas”], o estudante se afasta, via de regra, dos estudos, da vida familiar. Entra a conviver com desconhecidos, não tem endereço próprio, vive como pária, na maior promiscuidade [...]. Sem vontade própria, obedece passivamente – e cedo os dirigentes do grupo tratam de confiar-lhe missões arriscadas que o incriminam em face da legislação penal brasileira.

Perguntado sobre o perfil dos “subversivos”, o General não deixou de apresentar uma certa surpresa:

[A] maioria dos que conspiram contra o aperfeiçoamento do regime e as instituições nacionais vêm, paradoxalmente, das classes A e B, as classes melhor dotadas financeiramente e de onde tendem a sair os futuros chefes [...]. É doloroso

7 Para além da já citada MOREIRA ALVES, 1984, ver também PADRÓS, 2008 e LENTZ, 2018.

8 Jornal do Brasil, “Murici aponta aliciamento de jovens para o terror”, 20 de julho de 1970.

para qualquer um de nós, como cidadãos, como pais, como chefes, deixar sem orientação sadia aqueles que no futuro terão a responsabilidade de conduzir os destinos do país.

Quero iniciar a análise da entrevista destacando a surpresa – e o tom que chega a beirar o lamento – com que o General fala da origem social dos “subversivos”. Há uma radical quebra de expectativas, na medida em que os “futuros chefes” não costumam carregar as características que historicamente vinculam certos tipos sociais ao mundo do crime – usualmente vinculadas à raça, ao local de moradia e à classe social. A particularidade da situação reside precisamente na existência de um novo tipo de criminoso que não podia ser inscrito em categorias historicamente utilizadas – tais como marginal, vagabundo ou bandido.9

Por isso, parecia tão urgente encontrar uma explicação que dessa conta da situação. E a explicação apresentada é, antes de tudo, de ordem moral: o afastamento da “vida familiar” e a adoção de um estilo de vida baseado na “promiscuidade” são os primeiros passos seguidos pelos jovens cujos “ódios” são despertados em razão da “imposição” de uma “ideologia política”. A argumentação está claramente referenciada na perspectiva segundo a qual a família nuclear, patriarcal e heteronormativa é vista como base fundamental da sociedade capitalista, cristã e ocidental, modelo de sociedade que os militares buscavam impor naquele momento10.

Uma vez que a pureza moral do jovem das “classes A e B” é desfeita, ele passa a assumir

“missões arriscadas” que o “incriminam” frente à lei. E dentre os que acabam por caminhar na direção do crime, há aqueles que se tornam “verdadeiramente comprometidos com a subversão”. Estes, agora, já são identificados como “criminosos terroristas” e, por isso, estão presos. Há, portanto, na ótica classificatória explicitada na pesquisa e na entrevista, um gradiente de classificações que vai da expectativa de uma conduta normal, típica daquele tipo social – “virar chefe” –, até a caracterização dos militantes como “verdadeiramente comprometidos com a subversão.

A subversão aparece, portanto, como a quebra radical da normalidade esperada para aqueles indivíduos. Assim, ainda que por vias distintas daquelas percorridas pelos criminosos tradicionalmente alvos das instituições de repressão e controle no Brasil, os subversivos e terroristas passam a integrar o outro lado da fronteira moral (e penal) que divide a

“normalidade” do crime.

9 Sobre essas categorias, ver MISSE, 1999.

10 Sobre a dimensão das moralidades na estruturação e legitimação da ditadura, ver QUINALHA, 2017 e COWAN, 2016.

Das observações feitas até o momento, decorrem duas consequências fundamentais para a análise que pretendo desenvolver em seguida. A primeira delas diz respeito à negação radical, por parte do regime, do estatuto político da ação desses militantes. Essa perspectiva é explicitamente colocada por Murici, e acompanhará os discursos públicos de órgãos repressivos ao longo dos anos – como de resto aparece nos comentários de Figueiredo na carta com que iniciei o capítulo. Vejamos:

P: São tão poucos os presos políticos?

R: Quero antes esclarecer dois aspectos. Em primeiro lugar, não há presos políticos, há criminosos terroristas presos. A nós só interessa a segurança do país em seu mais amplo sentido. Em segundo lugar, aceitamos que divirjam do governo; não compreendemos é que queiram destruir a Pátria, suas instituições e sua destinação democrática e cristã. Quanto à sua pergunta, posso responder que só permanecem presos os verdadeiramente comprometidos com a subversão.

A segunda consequência é que, embora os militares se esforçassem para equivaler os terroristas e subversivos aos criminosos comuns, sua própria operação classificatória deixava evidente que marcadores sociais como raça e classe continuavam desempenhando um papel importante. Os militantes poderiam até ser criminosos comuns, mas não eram bandidos, vagabundos ou marginais, tal como outros sujeitos criminais. Em outras palavras, a negação pública do estatuto de político para as ações dos militantes de oposição ao regime não significava que, na prática, os subversivos e terroristas recebiam o mesmo tratamento que os criminosos comuns.

Para compreender este ponto, é preciso atentar que “crime é inexoravelmente criminalização”, como sintetiza Efrem Filho (2017b) em sua leitura da noção foulcaultiana de

“gestão diferencial dos ilegalismos”. Ou seja, é preciso observar o crime a partir das relações sociais que o perpassam, incluindo aí necessariamente as dimensões de raça, gênero e classe.

Certos tipos de crime se tornam identificados com determinados sujeitos. Daí que Murici fica surpreso ao perceber que sujeitos que carregavam todos as marcas da pureza – universitários, das classes altas e brancos (o que não é explicitamente dito; mas nem seria necessário fazê-lo) – estavam se deixando contaminar, a ponto de se tornaram terroristas. Nesse sentido, não se pode compreender o tratamento que as instâncias estatais conferem ao crime sem que se atente para quem é o sujeito criminoso. Em outras palavras, “o crime é o sujeito” (Ibidem). Diante dessa percepção, torna-se ainda mais importante atentar para esse conjunto de operações classificatórias levadas a cabo pelo regime. A necessidade de criar novas categorias para conferir sentido a um tipo de crime que começava a se tornar um problema público – o

terrorismo - já era uma indicação de que esses sujeitos poderiam trilhar trajetórias específicas em sua tentativa de escapar das marcas que os tornavam criminosos.

Portanto, a entrevista de Murici nos dá a rara oportunidade de observar, de forma minuciosa, a construção das categorias acusatórias por parte das instituições pertencentes ao aparato repressivo do regime ditatorial. Não se trata aqui de tentar, com a fala do general, resumir as muitas e heterogêneas formas de classificação de inimigos internos operadas pelos diferentes órgãos do regime. Mas a iniciativa da “pesquisa” teve um peso importante dentro do regime. Ao mobilizar uma linguagem ancorada em visão psicologizante – e, portanto, patologizante – da atuação política, o “estudo” tinha a intenção de representar um tipo de palavra final, supostamente científica, sobre os subversivos. Assim, parece razoável utilizá-la como exemplo emblemático das operações de classificação levadas a cabo pelo Estado ditatorial naquele contexto específico da virada dos anos 60 para os 7011. O que parece importante destacar é o quanto o regime atuava para ampliar a noção compartilhada acerca do que era os crimes perigosos para o conjunto da sociedade, inscrevendo na cena pública novos sujeitos portadores do crime - os terroristas e subversivos.

Do outro lado dessa disputa simbólica em torno do estatuto da ação política contra a ditadura, estavam os militantes de organizações revolucionárias clandestinas. Estes compreendiam – e buscavam apresentar – seus atos como legítimos, ainda que violentos. Essa legitimidade estava ancorada na afirmação de sua motivação política.12 Ou seja, ao mesmo tempo em que o regime se esforçava para construir um novo tipo social criminoso, a fim de legitimar na esfera pública a repressão, os militantes faziam o movimento inverso. Também buscavam formas de definir a violência da qual eram alvos e utilizar os meios ao seu alcance para denunciá-la como ilegítima.

1.2. A Repressão militar-policial no Brasil: as denúncias de violência a partir do

No documento As fronteiras da violência política: (páginas 58-64)