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Entrevistada 4 (Vanessa)

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 72-75)

3.2 As entrevistadas

3.2.4 Entrevistada 4 (Vanessa)

Vanessa é uma mulher de 34 anos, natural de Teresina – PI, branca, bissexual e jornalista. Mora no Rio de Janeiro há nove anos, e cursou a sua graduação em Brasília – DF. Atualmente, trabalha com análise de dados, é mestranda do curso de

Computação e possui uma filha de cinco anos, estando em um relacionamento estável com uma mulher negra. Denomina-se uma “retirante”, devido a todos os deslocamentos realizados ao longo da sua vida.

A entrevistada em questão aproxima-se dos feminismos através de “um caminho muito clássico, assim, de meninas que não são exatamente feminilizadas, femininas, lidas de modo feminino, que é um caminho que a minha memória mais antiga de criança, eu já lembro de mim sendo assim, né?”. Amanda menciona que, por conta dos julgamentos e dos modos depreciativos que sempre ouviu das pessoas, não consegue recordar sobre quando não era feminista, “porque quase sempre eu tive que fazer esse caminho da autoafirmação, e de lutar contra aquele meio”.

“Então, me dizer feminista foi já na faculdade, sabe? Foi já, minto. Na adolescência, quando vem o grunge, bandas de punk, quando eu conheço isso, eu começo a entender o que essas mulheres estão dizendo, quando elas se dizem feministas. Né? Então, a música sempre teve muito presente na minha vida, então essas bandas dessas mulheres vão me trazer essa palavra e vai me trazer esse confronto e aí eu vou poder olhar pra essas mulheres e pensar “cara, não é tão estranho assim então não usar saias, ou não ter um namoradinho, ou não ser esse parâmetro do que é o feminino aqui que tá todo mundo me falando que eu tem que ser, existem outras pessoas como eu”, né? E essas mulheres vão se dizer feministas, e então eu vou começar a me ver dessa forma. Mas realmente, é, consumir isso, então... “eu estou estudando feminismo, eu estou estudando o que é isso” já foi na faculdade, já foi morando fora da casa da minha mãe, enfim, já foi tendo outras vivências que é mais pra idade adulta do que pra adolescência, mas realmente eu não consigo lembrar de quando eu não era feminista e acho que isso acompanha 99% das mulheres, né?”.

As suas referências feministas são diversas. Primeiramente, Vanessa discorre sobre como o orgulho que ela tem das mulheres de sua família a sensibiliza, e faz com que ela as reconheça como suas principais referências de resistência e resiliência, mesmo que estas mulheres não se entendam como feministas.

Aproximando-se de um feminismo intelectualizado, como menciona, afirma admirar bastante bell hooks e Angela Davis. Cita, também, mulheres da literatura como grandes referências de adolescência, como Virginia Woolf, Clarice Lispector e Raquel de Queiroz. “E mulheres da música também, eu acho que todos esses espaços que mulheres conseguiram adentrar e produzir a sua própria arte, sua leitura de mundo foram mulheres que me inspiraram muito e pra quem eu olhei muito a vida inteira, assim. E quis muito, é... me apropriar dessas discussões delas e tentar fazer também o meu caminho me inspirando nelas”.

Sua aproximação com as práticas feministas se inicia quando ela se separa do pai de sua filha. Depois de uma série de violências sofridas, vê-se desempregada,

com uma criança de um ano, em uma cidade em que não tinha parentes e “pra não surtar de vez naquele desespero todo eu resolvi procurar grupos e pessoas que estavam discutindo questões de maternidade e violência doméstica”.

“E aí eu também comecei a identificar que eu tinha questões que não estavam sendo discutidas nesses espaços, mas que eu queria pautar, né? Então e aí eu começo a falar muito de maternidade, o que é ser uma mulher, branca, retirante, desempregada, numa cidade como o Rio de Janeiro, com uma criança que é menina também, né? Lida como menina. E ai eu começo a falar sobre isso e procurar pessoas que estejam falando sobre essas experiências sempre com essa linha da maternidade e do feminismo, né?”.

A maternidade foi um assunto bastante presente na entrevista com Vanessa, e acho necessário expor alguns dos seus posicionamentos sobre a temática, visto que, segundo ela, “tem mais tensionamento do que acolhimento” nas pautas feministas sobre a maternidade. “A mulher que se torna mãe e ela vive com uma criança, [isso]

move demais a vida dela. Todas as escolhas que ela tiver que tomar, elas vão passar por esse filtro, sabe?”.

“Então, quando eu olho pros espaços de feminismo, de discussão sobre os feminismos, eu nem sempre sinto a acolhida ou eu nem sempre sinto que outras mulheres estão sendo acolhidas, assim. (...) você tem que tensionar, e é curioso porque me parece que, assim como o debate de raça não tem como fugir, o debate de classe, se [você] é responsável por outra vida, ela me parece uma coisa assim tão dado, sabe? Tão, assim, se eu chego num espaço onde as pessoas me veem sem minha filha, ou se eu estou num espaço e uma pessoa, que eu sei que é mãe, chega sem a filha, eu acho que meu primeiro pensamento é “cara, como que ela conseguiu fazer isso, qual é o custo pra ela disso”, né? Ou “porque que ela não trouxe a filha dela?”, não porque ela não possa sair sem a filha, mas as vezes eu sei que é muito difícil e eu sempre falo muito isso pras outras mulheres que eu sei que tão militando, que eu sei que acabam fazendo todo um cambalacho pra deixar o filho, a filha com um tio, enfim, eu fico sempre assim “cara, esse espaço tem que te abrigar”, sabe? “tem que abrigar a sua filha!”, como é que você tá num movimento estudantil, você tá dando sua cara tapa igual todo mundo e você tem que fazer todo um esquema pra deixar a sua filha, enfim, uma serie de implicações que uma pessoa que não tem filho não vai estar sensível, (...)!

Eu acho que não dá pra fingir que isso não existe, porque pra quem é mãe não tem como fingir que isso não existe. (...) E pensar como que faz isso, como que abraça essas mulheres, é indissociável”.

Falar sobre maternidade envolve falar de pautas importantes para os feminismos, pois envolve o debate sobre diversas questões, como: a violência obstétrica, a questão da licença maternidade, a inserção no mercado de trabalho para mulheres que são mães e a escolarização das crianças. Apesar da entrevistada manifestar a sua percepção sobre um avanço e maior abertura nesses debates, sempre é por uma via de tensionamento, “eu forço daqui e aí as pessoas [falam]: ah

beleza, vamos pensar nisso, né? E aí a gente consegue mobilizar e eu acho que os espaços hoje, eles estão mais sensíveis”.

Atualmente, Vanessa se identifica como feminista interseccional, por buscar sempre olhar o mundo através de todos os marcadores sociais da diferença, “tentando entender que as coisas não são únicas, estanques, que se movem e se transpassam”.

Ademais, vê-se como uma militante feminista, neste momento: “não sei quanto tempo isso vai durar, mas acho que tem aí uma preocupação aí de me expor, de expor minha filha, (...) e isso implicar nela e isso me faz ter bastante parcimônia, bastante cuidado de me juntar a um grupo que possa me expor e me colocar em perigo”.

Ao questionar o motivo pelo qual aceitou o convite para realização da entrevista, ela diz que não tinha como não aceitá-lo:

“Eu acho que não basta se dizer feminista, se a gente vive em uma sociedade racista, e acho que tem outras implicações nessa sociedade, né? Uma sociedade machista, uma sociedade racista, uma sociedade de classe, uma sociedade que exclui pessoas que não têm um corpo padrão, do que se espera ser padrão, enfim, então eu acho que se você não tá entendendo quem é você nesse todo, tá faltando algumas visões aí que você precisa voltar”.

Vanessa relata que quando soube da minha pesquisa, achou muito importante e quis colaborar prontamente:

“Acho que todo mundo que tá pensando sobre isso precisa se envolver, precisa ajudar a elaborar isso, né, e trazer também suas histórias pra que a gente possa elaborar isso junto com suas historias, né, porque uma feminista branca aqui do Rio ela vai ter outras histórias, né, você tem outras histórias, e a gente precisa ouvir essas histórias, e a gente precisa olhar essas histórias e vê o quanto a branquitude passa essas histórias, o quanto o racismo passa essas histórias, quanto esses marcadores passam essas histórias, né”.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 72-75)