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As entrevistas estruturadas são elaboradas mediante questionários onde as perguntas são previamente formuladas e não são alteradas. Dentre as vantagens desse tipo de entrevista estão: a possibilidade de comparação do mesmo conjunto de perguntas, onde as diferenças apresentadas são apenas entre os respondentes; atingem-se várias pessoas ao mesmo tempo, permitindo a obtenção de um grande número de dados, podendo abranger uma área geográfica mais ampla; e garante maior liberdade das respostas, devido o anonimato. As principais desvantagens dizem respeito ao fato de dificuldade de compreensão das perguntas e baixo retorno dos questionários, quando o entrevistador não está presente (BONI e QUARESMA, 2005: 74). Todavia, ressalta-se que no presente trabalho todos os questionários formam aplicados pela autora.

O objetivo da aplicação dos questionários foi analisar a percepção da população do interior e entorno do Parque Estadual do Desengano sobre a existência e localização dessa UC, sobre o conceito de desapropriação, e, no caso de proprietários, sobre a situação fundiária atual do PED, e ainda o levantamento do uso da terra da região e sócio-econômico dos entrevistados.

Tendo como foco do estudo a população do entorno e interior do Parque Estadual do Desengano, determinou-se que a amostragem seria retirada da população residente nos distritos dos três municípios (Campos dos Goytacazes, Santa Maria Madalena e São Fidélis) que possuíssem áreas do PED.

Em seguida, para determinar o tamanho da amostra, buscou-se observar o nível e o intervalo de confiança adequados para qualidade analítica do estudo. Segundo Rea e Parker (2002: 118, 122 e 125), é comum um pesquisador buscar um nível de confiança de 95% ou 99% e sua escolha é definida pela concessão mútua entre economia, precisão e risco de erro, mas não há um critério fixo para fazer essa escolha, cabendo ao pesquisador fazer essa determinação de acordo com as metas e objetivos da pesquisa. É importante ressaltar que o nível de confiança é o risco de erro que o pesquisador está disposto a aceitar no estudo, no caso de 99% há uma chance de erro de 1%.

No mesmo sentido está a determinação do intervalo de confiança, ou margem de erro, que precisa ser estabelecido caso a caso, dependendo da unidade de medida, da magnitude e da amplitude da variável. Afinal, a “relação entre o nível de confiança, o intervalo de confiança e efeito do tamanho da amostra sobre eles torna a determinação do tamanho da

amostra um componente absolutamente vital para o processo de pesquisa” (REA e PARKER, 2002:125).

Assim, devido às restrições de tempo e custo do estudo, e levando em consideração o tipo de pesquisa a ser realizada e o resultado pretendido, percebeu-se que um nível de confiança de 99% com um intervalo de confiança de 10% se faz suficiente para validar as informações.

Passou-se, então para a determinação da população útil1 de onde será retirada a amostra. Para tanto se separou apenas os distritos de cada um dos municípios onde o PED está inserido.

O Parque Estadual do Desengano está inserido em seis distritos de três municípios diferentes. Sendo eles: Morangaba em Campos dos Goytacazes; Santo Antônio do Imbé, Renascença e Sossego do Imbé em Santa Maria Madalena; São Fidélis e Cambiasca em São Fidélis.

A população distrital residente em cada um dos municípios onde existe alguma parte territorial do PED (Quadro 1) foi determinada pelos dados do último Censo realizado, e formam um total de 29.359 pessoas residentes no interior ou entorno do Parque (IBGE, 2002). Esse montante passou a ser, desta forma, a população útil de onde se retirou a amostra.

QUADRO 1: Número da população distrital dos Municípios que abrangem o PED.

MUNICÍPIO DISTRITO POPULAÇÃO RESIDENTE

Campos dos Goytacazes Morangaba 3322

Santa Maria Madalena Santo Antônio do Imbé 1674

Santa Maria Madalena Sossego do Imbé 194

Santa Maria Madalena Renascença 239

São Fidélis São Fidélis 21322

São Fidélis Cambiasca 2608

Fonte: Elaboração Própria (dados IBGE, 2002).

1 Segundo Rea e Parker (2002: 138-139) População útil é uma definição operacional de uma representação da população geral e na qual o pesquisador é razoavelmente capaz de identificar uma lista tão completa quanto possível de membros. Esta população é delimitada por uma série de características consideradas importantes para o estudo, e é a partir dela que se delineia a amostra. É de suma importância que o pesquisador esteja convencido que a população útil e a amostragem representam o melhor possível a população geral.

Para o cálculo do número amostral de uma população considerada pequena (com menos de 100.000 pessoas) a equação geral, no entender de Rea e Parker (2002: 127) é:

2 2

2

) 1 ( ) 25 , 0 (

) 25 , 0 (

Cp

N Z

N n Z

− +

=

α

α

Onde:

n = Tamanho da Amostra N = Tamanho da População

Zα = Contagem Z para vários níveis de confiança (a) Cp = Intervalo de confiança em termos de proporções.

Sendo N = 29.359, Cp = 10% = 0.1 e destacando-se que Zα é comumente fixado em 2,575 para o nível de confiança de 99%. Tem-se a seguinte equação:

2 2

2

) 1 , 0 )(

358 . 29 ( ) 25 , 0 ( ) 575 , 2 (

) 359 . 29 )(

25 , 0 ( ) 575 , 2 (

+

n=

Desta forma, a população amostral mínima no caso da pesquisa é de aproximadamente 165 pessoas.

Levando em consideração que, segundo os dados fornecidos pela administradora do PED Maria Manuela Alves Lopes (entrevistada em 22/06/2009): 63% da área territorial do PED estão no município de Campos dos Goytacazes, 33% em Santa Maria Madalena e apenas 4% em São Fidélis, optou-se por utilizar essa mesma proporção na aplicação dos questionários para a população amostral, tendo ciência que tanto melhor será a escolha quanto mais homogênea for a densidade populacional dos municípios. Nesse sentido foi feito o cálculo de aplicação de 170 questionários, sendo 107 em Campos dos Goytacazes, 56 em Santa Maria Madalena e 7 em São Fidélis.

Com os objetivos, número amostral e população útil delimitados, partiu-se para a elaboração do instrumento de pesquisa estruturada propriamente dito. Os questionários foram confeccionados de forma que as perguntas fossem claras, objetivas e com linguagem simples, tendo em vista que a população entrevistada tem pouca instrução e reside, em sua maior parte, na área rural dos municípios. Outra característica do levantamento é que as respostas

foram elencadas com menos de dez alternativas, conforme aconselham Rea e Parker (2002:

65).

Antes de sua aplicação na pesquisa real, porém, fez-se a validação dos instrumentos da entrevista estruturada com 10% do número total da amostra, ou seja, 17 questionários.

Essa validação ocorreu nos dias 11, 19 e 20 de março de 2009 no distrito de Morangaba, Campos dos Goytacazes.

Para a aplicação da entrevista de validação utilizaram-se membros da população útil, potenciais integrantes da amostra. Como destacam Rea e Parker (2002: 41), exige-se que eles mantenham uma semelhança razoável com a população considerada aproveitável2 para o estudo. Todavia, essas entrevistas não devem ser computadas na analise final, servem apenas para adequar o instrumento de pesquisa (questionário) possibilitando a revisão de perguntas de acordo com as necessidades.

Após a validação e as pequenas correções que se fizeram necessárias no instrumento de pesquisa, partiu-se para a aplicação dos questionários finais. As entrevistas foram feitas pela autora nos períodos de 05 a 22 de maio de 2009 e de 09 a 19 de junho de 2009, nos municípios de Campos dos Goytacazes, Santa Maria Madalena e São Fidélis.

Como procedimento final para a análise das entrevistas estruturadas fez-se a tabulação e cruzamento dos danos no Microsoft Excel. A partir da qual se pretendeu verificar possíveis elementos de configurassem a percepção da população local sobre o Parque Estadual do Desengano, regularização fundiária e a questão da desapropriação.

De maneira análoga, as entrevistas semi-estruturadas, abordadas anteriormente, buscou-se subsídios para o esclarecimento dos problemas relacionados à regularização fundiária e ao histórico fundiário do PED.

2 Aquela que tenha as características necessárias para integrar a população útil da pesquisa.

3 HISTÓRICO FUNDIÁRIO NO BRASIL

“Todas as relações de propriedade têm passado por modificações constantes em conseqüência das contínuas transformações das condições históricas” (MARX e ENGELS, 1988: 27).

Em linhas gerais, a terra utilizada como bem comum pela população nativa brasileira, após a conquista portuguesa passou ao domínio da Coroa, posteriormente ao Império e finalmente à República, “sendo, ao longo do tempo, parcial e gradualmente repassada para particulares por meio de concessões de uso ou do reconhecimento das ocupações das terras vazias como ato legítimo” (MONACO, 2004: 16).

As peculiaridades e detalhes desse processo evolutivo de apropriação das terras nacionais refletem o comportamento cultural de uma colônia de exploração com uma sociedade fundamentalmente rural, baseada em latifúndios e trabalho escravo, e que, de certa forma, traduzem e influenciam o instituto jurídico da regularização fundiária que temos hoje.