OS CONFLITOS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: A CRISE DA ALTERIDADE COMO DESAFIO PARA O DIREITO
3. ETICIDADE E A CRISE NAS RELAÇÕES DE ALTERIDADE
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de amar a si mesmo, da mesma forma que é impossível amar o outro sem amar a si mesmo, pois o amor envolve uma atitude mais séria diante da própria vida em si. O sujeito egoísta e narcisista não ama, apenas busca supercompensação para carência básica de auto-estima, conforme assinalado pelo autor41.
A estrutura de vida moderna prepara solo fértil para a propagação tanto do indivíduo destrutivo como daquele que, sentindo-se sozinho e isolado, se junta a uma coletividade maior em busca de se sentir com maior poder.42 O primeiro, destrutivo, auxilia no entendimento da explosão de violência urbana, pois se o outro é apenas instrumento para satisfação da minha carência pode ser inclusive agredido.43 O segundo efeito permite maior compreensão, primeiramente do surgimento de doutrinas e ideologias hoje incompreensíveis para muitos, como o fascismo e o nazismo, e depois para adesões de tantas pessoas a instituições bastante comuns como qualquer grupo social, sobretudo aquilo que Maffesoli chamará de tribos, um fenômeno específico da sociedade dita pós-moderna44.
Esta cultura do egoísmo e do narcisismo, advinda do fenômeno do individualismo exacerbado da modernidade, implica consequências próprias para o âmbito jurídico. Um indivíduo que visa os outros seres humanos apenas como satisfações da própria necessidade não é capaz de envolver-se em projetos de aprimoramento social. É deste fenômeno que surgem tantos fatos reputados como criminosos pelo Direito Penal e tantas lides trabalhistas, por exemplo. Em suma, é a própria dificuldade de conviver com o outro, de entender seus valores.
Toda essa problemática impede a realização da ideia de eticidade de Hegel, que seria pressuposto indispensável para a vida livre em sociedade e assim se tem uma crise nas relações de alteridade que resultam em uma crise em todo o âmbito social.
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A eticidade é a ideia da liberdade, enquanto Bem vivente, que tem na autoconsciência seu saber, seu querer, e pelo agir dessa, sua efetividade, assim como essa tem, no ser ético, seu fundamento sendo em si e para si e seu fim motor, - [a eticidade é o conceito da liberdade que se tornou mundo presente e natureza da autoconsciência.45
Por autoconsciência entende-se aqui a mesma figura da consciência de si, já indicada na Fenomenologia do Espírito. Somente por meio da consciência de si é possível elevar um projeto social como a eticidade.
Muitas interpretações foram feitas da Filosofia do Direito de Hegel, da liberal ao comunismo, do enaltecimento do indivíduo ao absolutismo estatal. A eticidade, conforme exposto no conceito do § 142, não se baseia nesta fragmentação.
A eticidade resultada do saber e do querer da consciência de si, depois de superar diversos momentos, a se iniciar pela dialética do reconhecimento. A eticidade é o conceito da liberdade que se tornou mundo presente e natureza da consciência de si, isto é, a própria ideia de Liberdade realizada, de que de tal forma se tornou uma segunda natureza da consciência de si.
O ser ético, dessa forma, não é externo e coercitivo à consciência, mas seu próprio conteúdo, de tal forma que as instituições e leis que derivarem daquela comunidade e Estado não são opressoras contra seus membros, mas a manifestação da vontade dos indivíduos.
Isto não significa que Hegel autoriza considerar qualquer Estado como livre e manifestação da eticidade. A eticidade é um processo espiritual e histórico, e que nasce apenas de uma série de dialéticas fenomenológicas e históricas efetuadas pelo indivíduo e pela humanidade, de tal forma que para Hegel seria possível somente na modernidade46.
O mundo ético é harmônico e dialético, onde uma série de interesses (família, sociedade civil, Estado, indivíduo, etc.) coexistem, às vezes de modo conflituoso, mas sem jamais ameaçar a existência do ser ético, ou da eticidade em si.
A eticidade seria aquele momento de convivência social onde os indivíduos sabem ser membros efetivos de uma totalidade maior, seja ela o Estado ou a comunidade em geral, e
45 “Die Sittlichkeit ist die Idee der Freiheit, als das lebendige Gute, das in dem Selbstbewußtsein sein Wissen, [und] Wollen, und durch dessen Handeln[,] seine Wirklichkeit, [hat] sowie dieses an dem sittlichen Sein seine an und für sich seiende Grundlage und [seinen] bewegenden Zweck hat, - der zur vorhandenen Welt und zur Natur des Selbstbewußtseins gewordene Begriff der Freiheit”.
FD, A eticidade, § 142, HW 7, p. 292.
46 Embora possua relação, a eticidade da Filosofia do Direito não é a mesma eticidade da Fenomenologia do Espírito, que se refere ao mundo grego. O vínculo entre ambos é a Harmonia, imediata no mundo grego e mediatizada na modernidade. Cf. SOARES, Josemar Sidinei. Consciência-de-Si e Reconhecimento na Fenomenologia do Espírito e suas Implicações na Filosofia do Direito.
312 f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009.
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respeita a Constituição e as normas emanadas pelo Poder Público não por atitude de obrigação mas por vontade livre.
Por outro lado, a substância ética, suas leis e suas potências, não passam, para o sujeito, como algo de estranho, mas, tem o testemunho de constituir em si mesma sua própria essência, onde tem o seu sentimento e nele vive como um elemento não diferente de si. Trata-se de uma relação imediata, que é mais idêntica que na fé e na confiança.47
Entretanto, mais importante que o respeito em si às instituições e normas, que parecem ser mais efeito que causa, é o processo de reconhecimento mútuo, já realizado pelas consciências de si. O indivíduo não agride o outro e as instituições porque reconhece o outro e as instituições como ele próprio, pois todos são membros de uma totalidade orgânica, logo agredir o outro é agredir a si mesmo. Objetivamente falando o homicídio não é o ato de matar apenas um indivíduo, mas a própria ideia de humanidade, e o representante eleito que se aproveita de seu cargo para praticar atos ligados à corrupção não está apenas enriquecendo ilicitamente, mas agredindo o ser ético do Estado. Entretanto, tais preocupações e discernimentos não perpassam a consciência do sujeito que pratica tais atos.
Não se reputa aqui que o sujeito precisa saber discernir as ideias de reconhecimento e ser ético. Na verdade, se tal ideia estivesse enraizada em seu ser, de modo inconsciente ele se negaria a praticar tais atos. O problema não é a inconsciência da dialética do reconhecimento, mas a sua falência ou até inexistência nos dias atuais.
O problema é existencial e, portanto, anterior à esfera jurídica, política e social, anterior inclusive à esfera ética/moral.
Na dialética do reconhecimento hegeliana a consciência precisa sair de si e reconhecer o outro como a si mesmo. Como já salientado, Hegel substituiu o amor pela luta/conflito, portanto não se trata de exigir das pessoas o amor, o sentimento genuíno pela humanidade, como queria Fromm, e como foi tão salientada na filosofia cristã, mas apenas um sentimento de respeito mútuo pelo outro, de reconhecimento de seu valor e humanidade, de entender que o outro é igual a ele mesmo, então ambos membros de um mesmo projeto social maior. Amor seria uma etapa ainda mais evoluída desse processo.
O que se coloca em questão é se uma consciência que não reconhece o outro pode
47 “Anderseits sind sie dem Subjekte nicht ein Fremdes, sondern es gibt das Zeugnis des Geistes von ihnen als von seinen eigenen Wesen, in welchen es sein Selbstgefühl hat und darin als seinem vo sich ununterschiedenen Elemente lebt, - ein Verhältnis, das unmittelbar noch identischer als selbst Glaube und Zutrauen ist. FD, A eticidade, § 147, HW 7, p. 295.
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reconhecer a si mesma. Como afirmava Hegel, reconhecimento é necessariamente mútuo. Ser pessoa implica em ser reconhecido por outros como pessoa, da mesma forma que ser proprietário de um bem implica em reconhecer o outro também como proprietário de um bem. Não há real dicotomia entre direitos e deveres. Exercer o direito responsabiliza o sujeito no dever de respeitar o direito alheio.
O que se observa, em outra via, é que a cultura e as instituições reforçam tal egoísmo narcisista e a incapacidade de reconhecer o outro e a si mesmo. Perdeu-se a cultura da responsabilidade e da profundidade, substituindo-a pela do lazer e do entretenimento, conforme apresentou Vargas Llosa em sua obra mais recente48. Não há uma cultura a responsabilizar qualquer pessoa a realizar e ser funcional ao bem-estar social, pelo contrário, é dever do coletivo prover ao indivíduo. Desse modo educa-se o jovem para a alienação e inefetividade. Está-se a nutrir uma pedagogia avessa em que é função do Estado garantir assistência, e não do indivíduo conduzir a própria vida, do professor em fazer o aluno aprender, e não deste em estudar, e assim por diante. A totalidade é orgânica, de tal modo que ela só pode prosperar se seus membros contribuírem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentro de todo esse contexto abordado no artigo está o Direito, que tem toda sua estrutura em torno da ideia de conflito. O Direito Penal lida com o conflito entre o transgressor e a sociedade ou particular, o Direito do Consumidor com o conflito entre o fornecedor e o consumidor, o Direito Ambiental com o conflito entre as pessoas e o meio ambiente, O Direito do Trabalho com o conflito entre empregado e empregador.
Isso não significa que se deve acabar com o conflito. A existência do conflito por si só não é um mal, no pensamento de Hegel significa uma dialética que dará origem a superação, desenvolvimento. O problema é que na modernidade grande parte dos conflitos não visa a busca de algo melhor, mas a simples e pura destruição.
O Direito deve manter seu papel de solucionador de conflitos, que sempre existirão na sociedade e necessitam de um aparato estatal que os resolve e garanta a harmonia entre os indivíduos que compõem a sociedade. O problema é quando o Direito se torna um incentivo de
48 LLOSA, Vargas. A Civilização do Espetáculo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
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criação de conflitos. Muitos indivíduos, em vez de buscarem a solução pacífica do conflito preferem usar o Direito como arma para o aniquilamento do outro.
Muitos empregados ao saírem da empresa em que trabalham entram com ações trabalhistas para se vingarem dos antigos empregadores ou conseguirem um dinheiro fácil, já que em muitos casos é mais econômico para o empregador pagar o ex-funcionário do que arcar com as despesas e gastar um longo tempo com um processo judicial.
Existe ainda hoje a chamada “indústria do direito moral”, qualquer mero incômodo é motivo para se entrar em juízo buscando uma indenização de danos morais. O Superior Tribunal de Justiça – STJ chegou a condenar um pai a pagar R$ 200 mil de indenização por não ter dado afeto para a sua filha49.
Apesar disso tudo, o Direito não tem condições de mudar a sociedade individualista e narcisista, não é papel dele mudar o caráter das pessoas e suas concepções. É da educação o papel de mudar o indivíduo, de o tornar responsável, maduro, de preparar o jovem para que desenvolva a capacidade de reconhecimento do outro e de si mesmo.
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