Deve-se ainda fazer registro sobre as excludentes da responsabilidade civil. Hipótese essa, que ocorrerá para exonerar o suposto responsável da obrigação de indenizar, descaracterizando assim, o caráter ilícito da ação cometida pelo agente.
Propaga Inácio de Carvalho Neto que:
Podem-se relacionar várias causas de excludente da responsabilidade civil, dentre as quais se destacam: a) o estado de necessidade; b) a legítima defesa; c) o estrito cumprimento do dever legal; d) o exercício regular de um direito; e) a culpa exclusiva da vítima; f) o caso fortuito e a força maior; g) o fato de terceiro; h) a cláusula de não indenizar; e i) a renúncia. 85
Acerca do estado de necessidade, predomina o ensinamento de Rogério Marrone de Castro Sampaio: “(...) age em estado de necessidade aquele que, para remover perigo iminente, deteriora ou destrói bem alheio, desde que as circunstâncias tornem o ato absolutamente necessário e os meios sejam os suficientes para remover o perigo”. 86
É através do art. 188, II, 929 e 930 do CC/02 que o estado de necessidade é representado, porém, mesmo a lei declarando que o ato ao praticado em virtude do estado de necessidade não seja um ato ilícito, nem por isso extingue quem o pratica de reparar o prejuízo. 87
Sobre a segunda destas, a legítima defesa, Silvio de Salvo Venosa ensina que: “(...) a sociedade organizada não admite a justiça de mão própria, mas reconhece situações nas quais o indivíduo pode usar dos meios necessários para repelir agressão injusta, atual ou iminente, contra si ou contra as pessoas caras ou contra seus bens”. 88
85 CARVALHO NETO, Inácio de. Responsabilidade do estado por atos de seus agentes. p. 77.
86 SAMPAIO, Rogério Marrone de Castro. Direito civil: Responsabilidade civil. p. 95.
87 GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil. p. 431-432.
88 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil. p. 45.
Assim sendo, pode-se argüir a legítima defesa para justificar uma conduta ilícita, que terá o objetivo de excluir aquele ato considerado crime.
Quanto ao estrito cumprimento do dever legal, Roberto Senise Lisboa ensina que: “(...) é a observância de um dever jurídico anteriormente estabelecido pela lei, onde o agente poderá ser responsabilizado pelo excesso ou abuso de poder ou de autoridade”. 89
Nesse caso, não será preciso reparar o prejuízo causado, diferente do que acontece no estado de necessidade.
O exercício regular de direito cuida dos acontecimentos de ações permitidas nos termos da lei. É um direito que é dado a algumas pessoas com o objetivo de estimular a sua realização.
Nessa mesma linha, enfatiza Ivan Martins Motta em relação ao exercício regular de direito: "deve-se observar que o exercício de direitos deve ser efetivado dentro da condicionante expressa pelo adjetivo regular, ou seja, de forma não abusiva e rigorosamente dentro da autorização dada”. 90
As quatro primeiras causas de excludente da responsabilidade citadas acima tem seu amparo legal no CP, em seu artigo 23, incisos I, II, III.
Maria Helena Diniz aduz sobre a culpa exclusiva da vítima nos seguintes termos:
(...) a vítima deverá arcar com todos os prejuízos, pois o agente que causou o Dano é apenas um instrumento do acidente, não se podendo falar em nexo de causalidade entre a sua ação e a lesão. A autora elucida que há casos em que a culpa entre agente e vítima são concorrentes, ocasião em que se possibilita o aproveitamento de critérios para: compensar as culpas; dividir proporcionalmente os prejuízos; ou determinar ou grau de participação e gravidade da culpa de cada um. 91
89 LISBOA, Roberto Senise. Manual elementar de direito civil: obrigações e responsabilidade civil. p. 255.
90 MOTTA, Ivan Martins. Estrito Cumprimento do Dever Legal e Exercício Regular de Direito – Dupla Natureza Jurídica e Repercussões Processuais Penais. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2000, p. 60.
91 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil: Responsabilidade civil. p. 111-112.
Sobre o caso fortuito e força maior, Carlos Roberto Gonçalves ensina que:
O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar, ou impedir, (...) o caso fortuito geralmente decorre de fato ou ato alheio a vontade das partes:
greve, motim, guerra. Força maior é a derivada de acontecimentos naturais: raio, inundação, terremoto. 92
Adiante, ficará o agente desobrigado a indenizar quando o fato ocorrer por culpa de terceiro, assim, Maria Helena Diniz explica que:
Isto é, de qualquer pessoa além da vítima ou do agente, de modo que, se alguém for demandado para indenizar um prejuízo que lhe foi imputado pelo autor, poderá pedir a exclusão de sua responsabilidade se a ação que provocou o dano foi devida exclusivamente a terceiro. (...) se a ação de terceiro causou o dano, esse terceiro será o único responsável pela composição do prejuízo.
93
Sobre a cláusula de não indenizar, pode-se conceituá-la como sendo uma possibilidade de se ajustar, nas obrigações contratuais, que uma das partes não fique responsabilizada pelos danos que por risco vierem a ocorrer, assim, transferem-se, os riscos do contrato para a pessoa da vítima.
Caio Mário Pereira, diz que “a cláusula de não indenizar é a convenção pela qual se exime o responsável do dever de reparação (...)". 94
Seguindo o mesmo raciocínio, Silvio de Salvo Venosa conceitua a cláusula de não indenizar: "Trata-se da cláusula pela qual uma das partes contratantes declara que não será responsável por danos emergentes do contrato, seu inadimplemento total ou parcial". 95
A renúncia, última das causas de excludente da responsabilidade civil é tratada por Inácio de Carvalho Neto como: “expressa modalidade de extinção subjetiva de um direito. É um ato unilateral e informal
92 GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil. p.447.
93 DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil: Responsabilidade civil. p. 114-115.
94 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil: Teoria geral das obrigações. 16 ed.
vol. 2, Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 223.
95 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: Responsabilidade civil. p. 50.
(podendo ser exercido oralmente) do qual só pode ser objeto um direito existente, isto é, não em relação a um direito futuro”. 96
Assim sendo, fica exposto que as causas excludentes da responsabilidade civil servem para isentar o agente causador do dano de repará-lo.
96 CARVALHO NETO, Inácio de. Responsabilidade do Estado por atos de seus agentes. p. 90