especial, as quatro maiores envolvidas na operação: Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, OAS e Odebrecht.
Diante da polêmica e considerando que isso abriria brechas para ampliação do poder dos procuradores da força tarefa, houve o recuo na defesa pública desta pauta. A ideia da fundação não foi adiante e o destino do valor recuperado ficou por conta do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que homologou, em setembro de 2019, o acordo estabelecido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Advocacia-Geral da União (AGU), após extensa negociação. Com a homologação ficou autorizada a imediata transferência dos recursos financeiros para a conta única do Tesouro Nacional.
No que diz respeito à prisão dos executivos e doleiros, a ação foi central para a articulação narrativa da Lava Jato perante a opinião pública bem como para a estratégia definida pela força tarefa baseada na prisão para estimular/forçar a delação premiada. Os executivos que, em geral, atuavam em articulações e negociações de bastidores ou, na esfera da visibilidade pública, em geral, por meio de entrevistas para as editorias de Economia dos jornais viram suas vidas e de suas famílias expostas. A curiosidade sobre a presença deste grupo na prisão se fez presente em várias notícias publicadas na grande imprensa que alardeava o feito inédito e trazia detalhes sobre a queda daqueles que até então eram poderosos e influentes na vida política e econômica nacional. Na ocasião, ficou célebre a repercussão da frase do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima proferida na coletiva de imprensa: “Hoje é um dia republicano. O Ministério Público está aqui neste momento com a PF e a Receita dizendo que não há rosto e nem bolso na República. Todos nós somos iguais. Todos os que cometem algum tipo de ilícito devem responder igualmente” (GASPAR, 2020, p. 470).
O livro-reportagem A Elite na Cadeia: o dia a dia dos presos da Lava Jato (2019), do jornalista Wálter Nunes, da Folha de São Paulo, é um exemplo do perfil de conteúdo que circulou na grande mídia. Ainda que de forma mais aprofundada se comparada às matérias diárias dos jornais, a informação apresentada busca retratar os sentimentos, medos e reações na hora da prisão, bem como a rotina que levaram uma vez encarcerados. Ao descrever os acontecimentos, o jornalista identifica, de certa forma, como os atores envolvidos já percebiam a estratégia da força tarefa e se movimentaram para mitigar os impactos do trauma da prisão.
Sobre a prisão de novembro, Nunes narra:
A decepção dos policiais ficou por conta de não terem encontrado nenhum dos diretores da Camargo Corrêa, e por um simples motivo: os advogados da empresa já tinham percebido que as operações da Lava Jato costumam acontecer às sextas-feiras.
Como suspeitavam que cedo ou tarde a PF bateria à porta de seus executivos, orientaram o presidente da empresa, Dalton dos Santos Avancini; o vice-presidente,
Disponível em https://www.cartacapital.com.br/politica/apos-polemica-lava-jato-recua-e-pede-suspensao-de- fundacao-bilionaria/. Acesso em 03/03/21
Eduardo Hermelino Leite; e o presidente do Conselho de Administração da construtora, João Ricardo Auler, a saírem de casa na quinta-feira. A intenção não era fugir da Justiça, mas evitar que fossem detidos na frente da família (NUNES, 2019, P.17)
Após detalhar o momento da prisão dos executivos e o traslado até Curitiba, Nunes descreve os dias iniciais na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, período de adaptação e o esquema de apoio montado pelas empreiteiras para dar suporte aos executivos presos, incluindo envio de frutas e alimentos, bem como materiais de higiene pessoal e limpeza. O jornalista detalha as inúmeras investidas dos advogados para melhorar o dia a dia dos presos, indicando pedidos aceitos e negados, bem como as flexibilizações que foram permitidas como, por exemplo, a entrada de jornais e revistas semanais.
Um dos itens que chama atenção nesta parte do relato referente ao cotidiano na carceragem é a presença do doleiro Alberto Youssef. “Nas primeiras noites após a prisão dos empreiteiros, Youssef ouvia xingamentos vindos da ala oposta à dele. ‘Youssef, seu filho da puta’, diziam do outro lado da cadeia” (NUNES, 2019, p. 59). Isso porque, para evitar confrontos, a direção da PF havia colocado inicialmente os delatados em pavilhão oposto ao do delator. O jornalista diz que o doleiro em um momento inicial quando se viu frente a frente com o grupo de delatados teria dito a frase “Não tinha outro jeito, tive que contar o que eles queriam ouvir” (NUNES, 2019, p. 60). Com o passar do tempo, esse afastamento entre delator e delatados foi se dissolvendo72. “Estes [os agentes] foram percebendo que a possibilidade de que algum dos presos cometesse um atentado contra o doleiro-delator era próxima de zero”
(NUNES, 2019, p. 61) e, assim,
Youssef foi aos poucos sendo exposto a breves contatos com outros presos no banho coletivo e no pátio do banho de sol, sempre acompanhado de perto por um agente.
Não foi hostilizado e, em alguns momentos, alguns executivos até tentaram consolá- lo. Houve mesmo quem lhe oferecesse alimentos. Youssef foi então “recuperando” o fôlego e passou a caminhar sem dificuldades. O fato é que sua inteligência acima da média e capacidade de convencimento o tornariam uma espécie de “trunfo” da Lava Jato dentro da carceragem. Ninguém levou tão ao extremo o papel de colaborador premiado como ele. Foi Youssef que permitiu aos policiais e procuradores desenhar toda a estrutura do esquema de corrupção na Petrobras e deu o caminho do dinheiro da propina. Ele também indicou uma penca de novos implicados, tanto políticos quanto operadores e empresários. (NUNES, 2019, P. 61)
De acordo com Nunes, “Youssef passou a praticamente dar expediente nos gabinetes onde a Lava Jato se desenvolvia” (2019, p. 63) e, assim, os demais presos também perceberam que a convivência com os policiais aumentava as regalias. O doleiro chegou a ter uma TV por decisão de Moro. Durante a exibição do Jornal Nacional, ele aumentava o volume do aparelho para alcançar as outras celas. O jornalista explica a estratégia: “Essa ação simples cumpria uma
72 Isso aconteceu também em outros momentos. Nunes, em seu livro, ilustra que “houve situações inusitadas de convívio harmonioso entre delatores e delatados”, como a convivência de Marcelo Odebrecht com Aldemir Bendin, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Antonio Palocci e João Santana. (2019, p.220)
função dupla: não só ganhava a simpatia dos outros presos como incutia neles a ideia de que delatar trazia vantagens” (2019, p. 63).
O modo como era tratado pelos agentes havia mudado. Newton Ishii73 passara a chamá-lo de Yoyô, em tom de humor. Se algum outro preso estava próximo, Ishii mudava o tratamento para “meu preferido”. Na ala de Youssef as portas passaram a ficar abertas e os presos podiam circular durante todo o dia no corredor e até na área do banho de sol. Aos não delatores, continua vigorando a lei. Tinham apenas duas horas fora do cubículo para tomar banho, lavar a roupa e andar no pátio. (NUNES, 2019, p. 63)
Houve denúncias, em 2015, sobre as regalias de Youssef, mas, de acordo com o jornalista, a apuração concluiu que não havia privilégio e/ou tratamento diferenciado. Nunes relata em sua extensa reportagem que os procuradores também negam ter colocado Youssef como responsável por convencer outros presos a delatar. De todo modo, o doleiro desempenhou esse papel, sobretudo, porque, na visão dos procuradores, havia um critério utilitarista por meio do qual a delação dele “se tornava mais efetiva à medida que outras a corroboravam” (NUNES, 2019, p. 64). Assim, Youssef teria se encarregado de orientar os novos detidos sobre como se comportar perante a força tarefa e estratégias de defesa no processo, recomendando, em geral, que quanto antes falassem, melhor. O que chama atenção neste relato, em especial, é como o modus operandi da Lava Jato precisava, inclusive, reverberar dentro das celas para fomentar novas delações, que eram as peças essenciais para o andamento e fortalecimento das operações pela perspectiva midiática. Outro trecho do livro-reportagem que também evidenciou a força midiática para retroalimentar as investigações foi quando o Moro determinou a transferência dos presos da carceragem da PF para o Complexo Médico Penal, em Pinhais. De acordo com Nunes, os advogados interpretaram essa movimentação como pressão por novas delações. O jornalista narra: “Na terça de manhã, 24 de março, os presos foram acordados pelos agentes que já tinham a ordem de transferência nas mãos. ‘Juntem suas coisas porque vão mudar de casa.
Hoje vocês vão aparecer no Bom Dia Brasil’, disse um dos carcereiros”. (NUNES, 2019, p. 77).
Para além do jornal matutino da Rede Globo, a transferência foi amplamente noticiada na grande mídia, que detalhava como seria a vida dos presos naquele espaço.
O livro-reportagem de Nunes também segue nesta linha, detalhando desde os relacionamentos estabelecidos entre presos e agentes carcerários a questões íntimas e privadas como a forma pela qual usavam o banheiro da cela, conhecido como “boi”, um buraco no chão no qual os presos precisam ficar de cócoras para evacuar. As limitações físicas e de saúde do grupo foram expostas: de quem roncava mais alto a detalhes sobre indisposições intestinais frequentes por conta da marmita servida na cadeia, bem como a necessidade de utilização de
73 O agente Newton Ishii ficou conhecido como o “Japonês da Federal”.
neutralizador de odores sanitários no ambiente da cela. Além de eventuais constrangimentos que se tornaram novidades na vida deste público, Nunes (2019) narra ainda que houve a tentativa de extorsão pelos faxinas74 de outros pavilhões da cadeia: “encostavam nas portas das celas e passavam recados ameaçadores.
Tem que ajudar o partido, gente fina”. Os empreiteiros sabiam do que estavam falando. Partido, no presídio, é como os internos se referem ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Após o impacto inicial, veio a piada. “Estamos aqui por causa disso. Olha no que dá ajudar os partidos”, brincou Coutinho75. O assunto, porém, poderia não ficar só no anedotário. Os empreiteiros avisaram os agentes sobre a ameaça. (NUNES, 2019, p. 96-97)
Nunes traz ainda detalhes sobre a gestão do espaço, bem como das diferenças dentro do próprio Complexo Médico Penal entre os presos da Lava Jato e os outros detentos. No que tange à visibilidade midiática, o livro-reportagem traz uma passagem muito ilustrativa relacionada ao interesse da imprensa pelo cotidiano deste público na prisão. Nunes narra quando a produtora Lizzie Nassar do programa Fantástico foi autorizada a entrar na cadeia com uma câmera de vídeo com acesso a filmar as galerias e o pátio. A reportagem não foi ao ar porque houve um problema com o aparelho que não registrou as imagens. No entanto, a saga narrada por Nunes evidencia o quanto era grande a expectativa por aquele furo. Segundo o jornalista, foi uma escalada de decisões: Lizzie comunicou ao chefe imediato, que deu ciência ao diretor do programa que, por sua vez, optou por comunicar à cúpula do departamento de jornalismo da TV Globo. Assim, apenas após essa cadeia de aprovações internas, a produtora teve o aval para seguir. Além da autorização do diretor do presídio, o então secretário de Segurança Pública do Paraná, Fernando Francischini, aquiesceu e, de acordo com as fontes de Nunes, “parecia entusiasmado”. Nunes relata: “Ao conversar com assessores, aparentemente concordou em veicular as imagens dos presos que estavam sob sua custódia. Nos bastidores da Secretaria, os assessores comentavam que ‘ia dar merda’” (NUNES, 2019, p.108).
Francischini, Lizzie e o assessor de imprensa Karlos Kolbach foram juntos até o Complexo Médico Penal, distante dezenove quilômetros do prédio da Secretaria. Lá foram recebidos pelo diretor do presídio, que já estava ciente do acordo para deixar a jornalista transitar pelo local usando o colete preto de funcionários. Ela estaria infiltrada, levando consigo apenas uma discreta câmera.
Uma caravana acompanhou Lizzie enquanto cruzava os corredores do presídio até a sexta galeria. Para registrar as celas dos empreiteiros, ela foi até o pavilhão quando foram liberados para o banho de sol. Lizzie ligou o equipamento e, ao ver piscar a luz que avisa que está gravando, passou a apontar a câmera para todas as direções. Queria detalhes da cadeia, dos objetos dos presos, de tudo que pudesse ajudar o espectador a conhecer o espaço onde viviam os detentos mais célebres do Brasil.
Depois foi até o banheiro coletivo, onde registrou como eram os chuveiros, e seguiu
74 Detentos responsáveis pelos serviços internos dentro da prisão, como entrega de medicamentos, marmitas etc.
75 Coutinho é Mateus Coutinho de Sá, ex-diretor da OAS. Foi, posteriormente, absolvido. O livro de Nunes conta ainda que foi abandonado pela mulher, perdeu o emprego e ainda foi privado do contato com a filha ainda pequena.
até o fim do corredor, onde se pendurou na janela gradeada que dava para o pequeno pátio.
A repórter viu então o que poderia ser o ápice da reportagem: os presos da Lava Jato à vontade, sem saber que eram vigiados. A produtora mirou a câmera em Léo Pinheiro, presidente da OAS, que, sem camiseta, gesticulava ao conversar com um grupo de detentos. Sérgio Cunha Mendes, dono da Mendes Júnior, estava sentado num canto segurando uma caneca azul de plástico numa das mãos. Esticou o braço para receber água de um dos colegas. Adir Assad corria em trote de um lado para o outro.
(NUNES, 2019, p. 109, grifo nosso)
A citação, apesar de longa, ilustra como a repórter estava totalmente respaldada pelas autoridades de Segurança Pública a despeito das recomendações contrárias dos assessores. A matéria não foi ao ar porque a câmera aqueceu e impediu a captação das imagens. Apesar de a repórter tentar convencer Francischini a fazer uma nova incursão, Nunes afirma que “os presos e seus advogados já haviam sido avisados sobre a gravação e estavam furiosos. Francischini estava convencido de que aquilo ia dar merda” (NUNES, 2019, p. 110). Este episódio revela o quanto a Lava Jato funcionava como um propulsor midiático. A despeito de recomendações contrárias dos assessores – afinal havia uma violação dos direitos dos presos –, os mais diversos atores buscavam capitalizar suas imagens perante a operação. Todo e qualquer abuso parecia disponível a ser tolerado em nome do espetáculo e da necessidade de construir a percepção, junto à opinião pública, de que a elite e os poderosos também estavam sendo punidos por crimes de corrupção (ainda que naquele momento, muitos estivessem presos por medidas cautelares).
Sobre a operação e prisão desses executivos, Nunes resume: “A engrenagem que se autoalimentava consistia em prender suspeitos, que logo optavam por delatar comparsas, que também eram presos e, por sua vez, traíam outros envolvidos no esquema” (2019, p.110). O fechamento deste ciclo no que diz respeito à participação empresarial na Lava Jato ocorre quando a força tarefa se aproxima e reúne elementos suficientes para alcançar e responsabilizar o que foi chamado, no escopo da operação, de “núcleo político”.
Se, em 14 de novembro de 2014, com a prisão dos executivos, a Lava Jato deu, nas palavras de Nunes, “um grande salto” (2019, p. 16) para alimentar o escândalo nacional, “foi a prisão de Marcelo Odebrecht que deu à operação uma estatura inédita” (2019, p.120).
Considerado um dos homens mais ricos do país, ele exemplificava que a “operação poderia alcançar quem quisesse” (2019, p. 121), de acordo com o jornalista. A estratégia de negação da empreiteira baiana também contribuiu para o antagonismo perante os procuradores e, consequentemente, alimentou a controvérsia junto à opinião pública. A fase Erga Omnes, que seria a expressão latina equivalente a “vale para todos” e é usada no universo jurídico para se referir que ninguém está acima da lei, prendeu incialmente seis pessoas da Odebrecht, incluindo Marcelo, que era presidente, e três da Andrade Gutierrez. Um dos executivos da Odebrecht
preso foi Alexandrino Alencar, que mantinha contatos regulares com o ex-presidente Lula.
Segundo Nunes, “Alexandrino costumava dizer que a Lava Jato tinha um objetivo final: prender o Lula, e o caminho para chegar ao ex-presidente passava por ele” (NUNES, 2019, p. 119).
De acordo com o relato de Nunes, o grupo foi recebido com um aviso pelo “japonês da federal”, Newton Ishii. “Lá fora vocês mandavam em tudo. Aqui dentro, somos nós que mandamos”, alertou Ishii. “Nós decidimos o que vocês vão fazer e quando vão fazer” (2019, p.121). O jornalista continua
O procedimento de entrada foi seguido à risca. Abrir a boca para que se verificasse se havia algo escondido embaixo da língua, levantar os braços, agachar três vezes para garantir que não havia nada na cavidade anal. Aquela espécie de ritual de recepção, aparentemente desnecessária, reforçava a condição de submissão dos detidos.
(NUNES, 2019, p. 122)
Com a expectativa de que sairia rápido da prisão, Marcelo Odebrecht teria dito ao advogado que não queria visitas da mulher e das filhas. Ele teria dito “A imprensa toda está na porta. Não quero foto delas nos jornais” (2019, p.123). Disciplinado, o príncipe das empreiteiras adotou uma rotina de exercícios e de estudo do processo. De acordo com Nunes, “depois de um tempo preso, os policiais federais consideraram que o herdeiro da Odebrecht não havia se dobrado à hierarquia da cadeia e mesmo à autoridade da Lava Jato” (2019, p. 18), mantendo sempre um ar de superioridade que incomodava. Para mostrar quem mandava ali, revistas nas celas e até mesmo o relato de que um dos policiais disparou por acidente uma rajada de gás de pimenta na direção da ala dos executivos presos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, causando intoxicação. O mesmo acidente teria acontecido, em 2014, com os empreiteiros da OAS, Camargo Corrêa e Mendes Júnior. Segundo Nunes, a justificativa nos dois casos foi a mesma:
um dos carcereiros manuseava o spray lacrimogêneo quando borrifou sem querer o conteúdo nocivo na direção dos empreiteiros. “Nenhum dos presos acreditou na versão dada pelos agentes, mas não havia o que fazer” (NUNES, 2019, p. 219).
Como mencionado anteriormente, a prisão foi central para a articulação narrativa da Lava Jato de que os colarinhos brancos estavam presos, bem como para pressionar a adesão à delação. No que diz respeito à bibliografia relacionada às negociações da delação e seus bastidores, dois livros-reportagens ajudam a ilustrar este processo: A Organização: a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo (2020), de Malu Gaspar, e Why Not: como os irmãos Joesley e Wesley, da JBS, transformaram um açougue em Goiás na maior empresa de carnes do mundo, corromperam centenas de políticos e quase saíram impunes (2019), de Raquel Landim. Enquanto o primeiro aborda justamente a estratégia de resistência e negação que ocasionou inclusive a cisão da alta cúpula da Odebrecht, o segundo aborda como, diante daquele contexto da Lava Jato e ao verem o cerco apertar, os irmãos Batista buscaram
rapidamente entregar os políticos para se livrarem o quanto antes da Justiça. A delação da J&F, holding que reúne todos os negócios da família, inclusive a JBS, também se deu no contexto da operação e se constitui como um objeto muito interessante de análise a partir de uma perspectiva comparativa com as empreiteiras. No âmbito desta tese, no entanto, não se optou neste momento por esta exploração aprofundada da empresa originária no segmento de frigoríficos. De todo modo, convém aqui fazer um esforço de compreender o que a J&F e a Odebrecht tinham em comum. Ambas eram consideradas expoentes da chamada política de campeões nacionais e, nas respostas à crise, buscaram operar suas estratégias de comunicação (e de negócios) a partir das suas chaves de leitura do contexto da operação em cada momento.