A revisão da literatura aponta relatos de drogas que causam a interrupção da postura de ovos pela fêmea de S. mansoni: nicarbazin (Campbell & Cuckler 1967, Pellegrino & Katz 1969), mevinolina (Vandewaa et al. 1989, Chen et al. 1990), tiosinamina (Pellegrino et al. 1972), diaminofenilsulfona (DDS) (Pellegrino & Katz 1975) e lovastatina (Araújo et al. 2002).
De fato, Campbell e Cuckler (1967) mostraram que a adição de nicarbazin à dieta de camundongos, na concentração de 0,2%, não apresentou ação esquistossomicida, porém, interrompeu a ovoposição, já no 2o dia da dieta. Embora esse efeito fosse reversível (retirado o nicarbazin da dieta reiniciava-se a ovoposição) foi um fato digno de ser registrado e foram dados confirmados posteriormente, em camundongos e macacos Cebus, por Pellegrino e Katz (1969).A tiosinamina e a sulfona-mãe (diaminodifenilsulfona – DDS) mostraram o mesmo efeito apresentado pelo nicarbazin - interrupção reversível da postura (Pellegrino et al. 1972, Pellegrino & Katz 1975).
Agentes esterilizantes de roedores machos, bem como substâncias antifertilizantes, também apresentaram atividade supressora (Davies & Jackson 1970).
A mevinolina, agente inibidor da síntese de colesterol, quando administrada oralmente a camundongos ou incorporado na dieta dos animais bloqueou a produção de ovos de S. mansoni. Nesse mesmo trabalho os autores apresentaram resultados de experimentos realizados com mevinolato, farnesol, e mevinolina in vivo e in vitro, e sugeriram que a produção de ovos na esquistossomose está associada com a atividade da enzima 3-hidroxi 3- metilglutaril Coenzima A (HMG-CoA) redutase e que lípides não esteróis, produzidos no metabolismo bioquímico, regulados por esta enzima estimulam a produção de ovos (Vandewaa et al. 1989).
Chen et al. (1990) trabalhando com camundongos infectados com S. mansoni e tratados com baixas doses de mevinolina, observaram a parada de postura pelo parasito e o bloqueio da patologia associada à infecção. A administração de 0,2% de mevinolina na dieta de camundongos infectados por 14 dias resultou em 96% de eliminação dos parasitos. A mesma dose administrada por dois dias antes e 15 dias após a infecção resultou em 93-95% de redução do número de parasitos adultos. A administração de mevinolina com 0,5% de mevalonato bloqueou a atividade anti- esquistossomicida da mevinolina, sugerindo que mevalonato e/ou metabolitos não
somente são de vital importância para a produção de ovos em S. mansoni, como também para a sobrevivência do parasito.
A lovastatina, uma lactona (a forma inativa do ácido hidroxílico aberto), é também um potente inibidor da síntese endógena do colesterol. Após a absorção gastrointestinal o fármaco é rapidamente hidrolisado para o hidroxiácido aberto, um inibidor competitivo da 3- hidroxi 3- metilglutaril Coenzima A (HMG-CoA) redutase, enzima que catalisa uma etapa precoce e limitante na biossíntese do colesterol. Em estudos clínicos a lovastatina reduziu as concentrações de colesterol plasmático total e lipoproteína de baixa densidade (LDL) e a lipoproteína de densidade muito baixa (VLDL) ligadas ao colesterol (Araújo et al. 2002).
A lovastatina, administrada, por via oral, a camundongos infectados pelo S.
mansoni, 30 dias após infecção, mostrou alteração do oograma em 20 e 43% dos animais tratados e 15 e 22% de mortalidade dos vermes quando foram utilizadas, a dose única de 400mg/kg ou essa mesma dose administrada durante 5 dias consecutivos, respectivamente (Araujo et al. 2002). Em um experimento de observações seriadas, camundongos foram tratados, por via oral, com a dose de 400 mg/kg/dia durante 5 dias consecutivos 30 dias após a infecção, observou-se alteração do oograma e um percentual pequeno de vermes mortos no fígado no 15º dia do tratamento. O percentual de alteração do oograma e da mortalidade dos vermes foi maior quando se prolongou o tratamento para 30 e 60 dias. Dois meses após o tratamento, ainda foi observado alteração de postura, inclusive com baixa acentuada do número de ovos no fígado dos animais tratados. A análise morfológica mostrou alterações degenerativas nos vermes, sendo que as principais acometeram o aparelho reprodutor, com a redução e alteração dos folículos vitelínicos e do ovário das fêmeas e modificações nos testículos dos machos (Araujo et al. 2002).
“Essas drogas anti colesterolêmicas ainda não foram, mas deveriam ser, ensaiadas na clínica como agente antiesquistossomose” (Katz 2005).
O papel de uma dieta rica em colesterol na esquistossomose mansoni foi avaliado experimentalmente usando-se quatro grupos de animais: infectados com dieta rica em colesterol (29% de lípides); infectados com dieta padrão (12% de lípides); sem infecção com dieta rica em colesterol e sem infecção com dieta padrão, e observou-se que os camundongos infectados alimentados com dieta rica em colesterol apresentaram
maior número de ovos de S. mansoni viáveis e maior número de ovos nas fezes em comparação ao grupo de camundongos infectados alimentados com dieta normal.
Observou-se também que os vermes adultos recuperados do grupo de camundongos infectados alimentados com dieta padrão apresentaram maior número de modificações morfológicas no aparelho reprodutor dos vermes machos, principalmente em relação ao lobo supranumerário, vesícula seminal e espermateca. Neste grupo, o ovário das fêmeas apresentava maior número de oócitos sendo eliminados do que dos espécimes do grupo com 29% de lípides na dieta. O autor sugere que um ambiente rico em colesterol é benéfico para a reprodução e excreção dos ovos do S. mansoni (Neves 2006).
Em estudo realizado por Okomura-Noji et al (2001) a taxa de maturação de ovos de S. japonicum in vitro foi reduzida quando vermes adultos foram cultivados na presença de soro de paciente com deficiência na enzima CETP (Cholesterol Ester Transfer Protein). A deficiência nesta enzima acarreta um acúmulo de ésteres de colesterol na molécula de HDL, utilizada pelos vermes adultos como fonte de nutrição, alterando sua estrutura e aumentando o tamanho da molécula de HDL. Assim, os vermes adultos passam a não utilizar o HDL em sua nutrição, acarretando uma redução na taxa de ovos maduros.
O clonazepam (fármaco de uma classe química conhecida como benzodiazepinas) tem como propriedade principal a inibição de funções do sistema nervoso central posuindo ação anticonvulsivante, sedativa, relaxante muscular e efeito tranquilizante e foi citado pela primeira vez como esquistossomicida por Stohler (1978).
O autor mostrou que Ro 11-3128 (meticlonazepam) foi altamente eficaz contra a infecção por S. mansoni tal qual niridazol, hycanthone e oxamniquina. In vitro, quando foi adicionado 6,25µg/ml do fármaco ao meio contendo vermes machos de S. mansoni os mesmos se contraíram em segundos (Stohler 1978). Pax et al (1978) estudaram a ação da benzodiazepina Ro 11-3128 e do praziquantel na musculatura dos vermes de S. mansoni e S. japonicum in vitro e mostraram que em baixas concentrações elas produzem tensão, paralisia e imobilidade dos vermes machos. Estudos in vitro feitos por Bennett em 1980, usando 20 vermes machos de S. mansoni e 20 de S. japonicum incubados a 37ºC por 10 minutos em 2,0 ml de solução de Earle e variando a concentração da benzodiazepina Ro 11-3128 observou que o fármaco possui um sítio
específico de ligação com o verme macho apresentando o tegumento intacto. Estes sítios de ligação foram visivelmente alterados em presença de agentes que, sabidamente, destroem a integridade da membrana.
Leite et al. (2007) estudaram a participação dos sítios de ligação na ação contraturante do clonazepam e 3 metilclonazepam sobre vermes de S. mansoni.
Vermes adultos, machos, foram colocados em placas de vidro contendo solução salina e o efeito de contração muscular das benzodiazepinas foi avaliado através da redução da área corpórea, medida por análise das imagens captadas através de câmeras.
Encontraram que os benzodiazepínicos utilizados na concentração de 10µM levaram à contração dos vermes de forma tempo-dependente semelhante ao praziquantel quando usado na concentração de 1µM. Diante dos resultados concluíram que o efeito de contração causado pelas duas benzodiazepinas não se deve a um efeito direto no músculo do verme, nem como resultado da ligação a um dos dois receptores benzodiazepínicos presentes no S. mansoni. Noel et al. (2007) pesquisaram a presença de receptores do ácido gama-aminobutírico (GABA) em vermes adultos de S. mansoni, usando [3H] – flunitrazepam para marcar os sítios de ligação alósterico dos agentes benzodiazepínicos e detectaram em grande parte da população de vermes alta afinidade de sítios de ligação para a droga estudada. Os autores descreveram as propriedades farmacológicas de alguns receptores diazepínicos como uma contribuição para o desenvolvimento de novas drogas esquistossomicidas. Descreveram também, pela primeira vez, a presença de receptores benzodiazepínicos periféricos no parasita.
Pica-Mattocia et al. (2008) estudaram o mecanismo de ação de Ro 11-3128 (metil- clonazepam) e do praziquantel, in vitro e in vivo, sobre os vermes do Schistosoma. As duas drogas causam paralisia, influxo dos canais de cálcio e danos no tegumento dos parasitas. Sabendo que o Ro-11-3128 é ativo contra vermes imaturos do S. mansoni e o praziquantel é ineficaz nesta fase e o praziquantel é ativo contra o S. japonicum , enquanto o Ro 11-3128 é inativo, foi estudado o excesso de uma droga sobre a outra e verificou-se que um excesso do praziquantel não inibe a atividade do Ro 11-3128 sobre os vermes imaturos de S. mansoni e um excesso de Ro 11-3128 não inibe a eficácia do praziquantel sobre o S. japonicum, sugerindo que o sítio de ligação do verme das duas drogas é diferente. Por outro lado, quando foi usado cytochalasin D – um agente que bloqueia o canal de cálcio – houve inibição da atividade dos dois agentes. A associação
desses resultados sugere que as duas drogas, embora se liguem a diferentes sítios receptores no parasita, apresentam o mesmo mecanismo esquistossomicida.
Cabe ressaltar que na grande maioria dos trabalhos sobre benzodiazepinas citados a ação do clonazepam e Ro 11-3128 foi observada em vermes machos de S.
mansoni provenientes de infecções unissexuadas (Stohler 1978, Pax 1978, Leite 2007).
Fazendo a ligação entre clonazepam e praziquantel, é curioso notar que no princípio da década de 70, pesquisadores do laboratório E. Merck, na busca por medicamentos tranqüilizantes que fossem mais ativos e causassem menos efeitos colaterais, incluíram as substâncias pirazinoisoquinolinas (entre as quais, o praziquantel) como promissoras para tal propósito. Mas para que o praziquantel apresentasse efeito comparável aos tranquilizantes deveria ser usado em doses relativamente altas. Sendo assim, não houve interesse do Laboratório Merck em continuar os estudos e um acordo foi firmado entre esse laboratório e o Laboratório Bayer no sentido de desenvolver um fármaco para uso veterinário. Dos estudos entre esses dois laboratórios surgiu o praziquantel com atividade esquistossomicida. (WHO 1998).
Artemisinina (qinghaosu), uma lactona sesquiterpena com um grupo endoperóxido, é o princípio ativo extraído das folhas da Artemisia annua, uma planta originária da Ásia, amplamente disseminada na China, encontrada também na Europa Central, Estados Unidos e Argentina e atualmente produzida em muitos países, aonde são desenvolvidos projetos de adaptação da planta, visando aumentar a produção da artemisinina. A artemisinina e seus derivados semi-sintéticos (arteméter, artesunato e arteéter) são considerados atualmente de importância fundamental para o tratamento e controle da malária, incluindo malária cloroquina-resistente em áreas endêmicas (Klayman 1985)
O descobrimento da ação esquistossomicida da artemisinina data de 1980. O efeito esquistossomicida do arteméter e artesunato foi descrito pela primeira vez na China, para S. japonicum, no princípio da década de 80. (Chen et al. 1980, Le et al.
1982, 1983). Le et al. (1982) foram os primeiros a confirmar a atividade esquistossomicida do arteméter em camundongos e cães infectados com S. japonicum.
Usando diferentes doses e vias de administração os autores mostraram redução significativa na carga de vermes dos animais tratados. As fases larvárias
(esquistossômulos) de S. japonicum também foram suscetíveis ao arteméter. Sobre os ovos não foi observado efeito significativo (Yue et al. 1984). Outros estudos confirmaram a atividade esquistossomicida para derivados da artemisinina, como artesunato, (Le et al. 1983, Araújo et al. 1999) e dihidroartemisinina (Abdel-Azia & El- Badawy 2000). Atualmente sabe-se que o arteméter e seus derivados possuem atividade também sobre o S. mansoni e o S. haematobium (Araújo et al. 1991, Xiao et al. 2002, Utzinger et al. 2003). No Brasil, experimentos utilizando-se o arthemeter e o artesunato foram realizados em camundongos e hamsters experimentalmente infectados pela cepa LE do S. mansoni e tratados 45 dias após a infecção (Araujo et al.
1991,1999). O artemether usado na dose única de 100mg/kg, via intramuscular apresentou 100% de alteração do oograma e 61,5% de vermes mortos. A mesma dose administrada por cinco dias consecutivos elevou para 96,3% a mortalidade dos vermes.
Com a dose única oral de 100mg/kg não foi observado alteração do oograma e somente 22,6% dos vermes encontravam-se mortos. A administração da dose única de 200mg/kg, via intramuscular, a camundongos infectados e examinados 45 dias após o tratamento mostrou que os vermes sobreviventes se recuperaram e reiniciaram a oviposição (Araujo et al. 1991). Camundongos infectados experimentalmente com S.
mansoni foram tratados, em dose oral única, com artesunato 300 ou 500mg/kg ou com as mesmas doses durante 5 dias consecutivos. Os animais foram sacrificados 7, 30, 60 ou 90 dias após o tratamento. Diferenças estatisticamente significativas foram encontradas na distribuição e mortalidade dos vermes e na alteração do oograma nos grupos tratados em relação ao grupo controle quando os animais foram sacrificados 30 dias após o tratamento. A análise morfológica dos vermes mostrou alterações no aparelho reprodutor feminino com diminuição do volume do ovário e rarefação dos folículos vitelínicos, entretanto, quando os animais foram sacrificados 60 ou 90 dias após o tratamento, as diferenças e alterações foram menores, mostrando que os vermes sobreviventes, recuperados, reiniciaram a postura (Araujo et al. 1999).
Importante frisar que a atividade do arthemeter é maior nas formas jovens do que nos vermes adultos (Xiao et al. 2002), daí ser considerada por alguns autores como profilática. Recomendação especial para o potencial perigo do uso continuado e prolongado da artemisinina e seus derivados em área endêmica para malária com vistas a prevenir o aparecimento de resistência a essas drogas é feita por Katz (2005).
O autor adverte que “essas drogas são muito importantes para o tratamento dos indivíduos infectados pelo Plasmodium falciparum, especialmente devido ao efeito rápido e eficaz nos casos de envolvimento cerebral causado por esse parasito. Por outro lado, as formulações atuais da artesiminina e seus derivados não parecem ter indicação do ponto de vista prático, seja pela necessidade do tratamento repetido e constante nessas áreas, seja pela possibilidade do aparecimento de formas resistentes a essas drogas na malária. Todavia, é possível indicá-las para o tratamento de curto prazo de pessoas que obrigatoriamente têm que entrar em contato com águas contaminadas em zonas endêmicas, como o pessoal das forças armadas ou limpadores de canais de sistema de irrigação” (Katz 2005).