A mãe de Yago é auxiliar de serviços gerais e possui ensino médio incompleto e seu padrasto é autônomo e finalizou o ensino fundamental. O jovem mora com eles juntamente com uma irmã mais nova.
Por fim, os pais de Maria finalizaram o ensino básico, sua mãe é dona de casa e o pai garçom, com quem mora atualmente.
perguntando sobre as minhas relações, é, tanto com professores, com a direção também, como com os amigos, e, tenho amigos, amigos mesmo, meus amigos até hoje, muito forte o laço, e, sempre foi muito boa.
Assim como Vitória:
V - Mas minha mãe sempre foi muito participativa, ela era aquela mãe que cobrava, que sempre estava ali atenta à agenda quando tinha. No ensino médio ela era também muito atenta, por mais que a gente já tenha uma autonomia, a gente já está ali na adolescência, então é diferente a cobrança da família, mas ela estava sempre ali perguntando, sempre olhou meu boletim, não era algo largado, ela sempre era muito participativa, entendeu?
No caso de Maya, o acompanhamento era feito tanto por seu pai quanto sua mãe:
M - Ah, foi muito boa. Porque eles sempre, principalmente minha mãe, né, sempre quis estar presente na minha vida escolar. Reunião, o que tinha, ela sempre estava lá, sempre corria atrás para resolver alguma pane, né, sempre que tivesse algum problema. Então ela sempre estava presente na vida escola, meu pai também, sempre me cobrava bastante junto com a mãe, então é uma relação boa
Por meio dos relatos de Maria, Yago, Vitória e Maya é possível perceber que suas vidas escolares foram acompanhadas de perto por suas famílias. Tais narrativas vão ao encontro das análises de Nogueira (1998) em relação aos investimentos feitos pelas famílias em ajudar os estudantes com tarefas escolares, presença em reuniões e eventos.
Através de suas ações, a família tem papel fundamental na vida escolar dos filhos.
Nogueira (1998) identifica que um dos fatores da aproximação entre as instâncias se dá por uma maior responsabilização das famílias em relação às escolhas dos estabelecimentos de ensino, devido a políticas educacionais e ao aumento da oferta de instituições de ensino e das desigualdades escolares. Questões como resultados acadêmicos e aprovação em concursos e vestibulares são fatores levados em conta por famílias de classe média, enquanto as famílias de camadas populares se concentrariam na facilidade de acesso e na distância entre a escola e as residências. Porém, se tratando de uma sociedade complexa, por mais que dados relativos à classe social constituam fatores por vezes determinantes, essas escolhas se dão de forma multidimensional e heterogênea. No caso da escola que contextualiza esta pesquisa, trata-se de uma instituição muito tradicional na região e, por isso, é comum famílias do entorno buscarem a unidade por terem tido outros integrantes formados na instituição, como no caso de Vitória:
V - Meu irmão mais velho estudou no CE5 também, então por isso que eu fui para lá.
Porque a gente tenta para o Pedro II, para outras escolas que precisam de processo seletivo, mas acabou não rolando. E aí eu tenho aqui do lado da minha casa um colégio estadual também. Mas por preferência dela, pela vivência que ela já teve lá com meu irmão, ela falou: “Não, Vitória, vamos tentar no CE”. E eu consegui. Mesmo sendo um pouco mais distante, esse deslocamento, a gente deu preferência para concluir meu ensino médio lá.
Vitória constrói então um discurso que demonstra uma escolha ativa de sua mãe por uma escola para cursar o ensino médio. Houve a tentativa de entrar “para o Pedro II, para outras escolas que precisam de processo seletivo, mas acabou não rolando.”. Além de ser uma escola que possui processo seletivo, é também instituição que possui ensino público excelente e altos índices de aprovação em concursos de ingresso no ensino superior. A opção da família por esse tipo de escola, demonstra a utilização dos conhecimentos em relação ao sistema educacional, ou ao capital cultural. Mesmo “não rolando”, Vitória e sua mãe possuíam outra opção por conta da vivência do irmão, mesmo “[tendo] aqui do lado da minha casa um colégio estadual também.
Mas por preferência dela, pela vivência que ela já teve lá com meu irmão, ela falou ‘não, Vitória, vamos tentar no CE’ ”. A mãe de Luana também foi ativa tanto na escolha quanto na permanência da jovem na escola. Em um momento da entrevista, Luana comenta que apesar de querer sair da escola e finalizar o ensino médio através do Encceja6 foi impedida pela mãe:
F - E porque ela não permitiu?
L - Porque o CE, ele era um colégio de referência na aprovação no vestibular. E minha mãe sempre focou muito nessa questão do ensino superior. Eu podia fazer qualquer coisa contanto que eu fizesse.
Os papéis e as formas que a família e a escola atuam na vida dos indivíduos são extremamente complexas e heterogêneas. Nas camadas populares, muitas vezes a relação com a escola pode se dar de forma ainda mais intrincada devido à relativa falta de capital cultural.
Além disso, as expectativas das famílias em relação à escolarização dos seus filhos passam por uma lógica instrumental da escola, perspectiva que entende a escolarização como domínio de saberes essenciais e como pré-requisito para a inserção no mercado de trabalho (ZAGO, 2000), e compreendida como caminho de possibilidade de ascensão social. Na conversa com Camille, ela discursa sobre a relação de sua família com a escola:
5 CE foi a sigla selecionada para nomear a escola na qual os pesquisados realizaram o ensino médio.
6 Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos.
C - Bom, eles eram de pegar e falar para mim: “Ah tira uma nota boa porque depois vai servir para o seu currículo”. Ou então falava assim, que eu vou ser um ser humano superior se eu tirasse notas boas… (...)
F -Você tirar nota baixa na escola era ruim para sua família?
C - Era totalmente ruim. Era visto como um fracasso, era visto como uma perda, pois a todo momento eles diziam para mim que para ser um ser humano superior eu precisava, tinha que tirar notas boas
Neste momento eu questiono Camille se ela saberia me dizer o que significa “um ser humano superior” para seus pais:
C - Acho que sim… eu realmente…, acho que seria trabalhar com algo que desse muito dinheiro, tipo ser uma médica, eles queriam muito que eu fosse uma médica
Desta forma, Camille discursa acerca de sua compreensão da relação de sua família com sua escolarização. Através de suas falas, nuances de uma visão instrumentalizada de sua escolarização surgem, quando ser “um ser humano superior” significa atingir uma carreira de prestígio que demanda longa trajetória acadêmica, como medicina, e assim “trabalhar com algo que desse muito dinheiro”. Essa perspectiva da escola é igualmente perceptível quando tirar notas baixas é “visto como um fracasso, como uma perda”, perda esta que pode estar ligada a perder a chance ou o caminho para atingir o objetivo escolar construído pelos pais. Em pesquisas no campo da sociologia da educação, Zago (2000) comenta que as demandas das famílias pela escolaridade se ligam ao “reconhecimento da educação escolar como requisito básico para responder às exigências do mercado de trabalho e, sobretudo, como a possibilidade de romper com as condições de pobreza familiar” (p.23), ou como ascensão social.