CAPÍTULO 2................................................................................................................... 18
2.1 FINALIDADE
Leis novas, principalmente as que se referem a temas polêmicos, necessitam de uma ambientação junto às instituições que as receberão. É o que ocorre com a Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que trata da violência doméstica – tema este bastante polêmico. Há todo um sistema institucional que envolve as atividades jurídicas e sociais. Neste sentido, necessita de uma preparação para receber e implementar novas normas legislativas.59
A Lei Maria da Penha veio para criar mecanismos visando coibir a violência contra a mulher nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal; da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a mulher e da Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher.60
A Lei n° 11.340/06, como se constata pelo teor de sua ementa, cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFM); altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências”. São indicados, assim, (1) os objetivos, (2) os destinatários da proteção e (3) os fundamentos de justificação e de validade da lei.61
59 PORTO, Pedro Rui da Fontana. Violência doméstica e familiar contra a mulher: Lei 11.340/06: análise crítica e sistêmica. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p.13.
60 BRASIL. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Brasília, Distrito Federal, 7 de agosto de 2006.
61 GARCIA, Emerson. Proteção e Inserção da Mulher no Estado de Direito: a Lei Maria da Penha.
Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister, 2007, p.40. pdfMachine A pdf writer that produces quality PDF files with ease!
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Neste sentido, a Lei Federal nº 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, tem como principal finalidade, proteger, prevenir e coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher (art. 1º).62
As medidas de prevenção variam desde a integração operacional dos órgãos governamentais que atuam nos casos de violência doméstica (Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Polícia Judiciária etc.), passando pela adoção de medidas que permitam monitorar a intensidade e frequência com que os ilícitos são praticados (v.g., com a realização de estudos estatísticos), até alcançar as providências voltadas à formação de uma nova identidade sociocultural para o povo brasileiro, com o efetivo respeito pela mulher.63
Assim, a Lei Maria da Penha visa atender ao disposto na Constituição Federal e nos tratados internacionais, buscando fazer com que as mulheres que sofrem violência doméstica tenham amparo na legal, e as vítimas possam reivindicar seus direitos junto ao Estado.64
No âmbito das medidas de proteção, tem-se (1) aquelas especificamente direcionadas à esfera jurídica da mulher, vítima da violência doméstica, que deve receber todo o auxílio necessário à garantia de sua integridade física e mental, sendo- lhe assegurada, quando necessário, proteção policial, e, dentre outros, o direito de ser acompanhada para a retirada dos seus pertences do local da ocorrência; e (2) aquelas direcionadas à esfera jurídica do ofensor, isto com o objetivo de assegurar a proteção da ofendida, podendo assumir múltiplas formas, como o afastamento do lar e a restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, medida drástica e que deve ser aplicada com muita cautela, isto em razão de seu potencial de desintegração da família.65
62 DIDIER JR, Fredie; Oliveira, Rafael. Aspectos Processuais Civis da Lei Maria da Penha:
violência doméstica e familiar contra a mulher. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister, 2007.
63 GARCIA, Emerson. Proteção e Inserção da Mulher no Estado de Direito: a Lei Maria da Penha.
Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister, 2007, p.44.
64 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Violência doméstica: lei maria da penha (lei 11340/2006), comentada artigo por artigo. 2. ed. rev. atual. E ampl. – São Paulo: editora Revista dos Tribunais, 2008.
65 GARCIA, Emerson. Proteção e Inserção da Mulher no Estado de Direito: a Lei Maria da Penha.
Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister, 2007, p.44. pdfMachine A pdf writer that produces quality PDF files with ease!
Com relação às medidas de coibição, ressaltam-se as que não apresentam cunho cautelar, como o afastamento do lar, relacionadas à punição do autor da agressão, estando contempladas nos arts. 17,33 parágrafo único, e 41 da Lei nº 11.340/06.66
Art. 17.É vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, de penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que implique o pagamento isolado de multa.
[...]
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, as varas criminais acumularão as competências cível e criminal para conhecer e julgar as causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei, subsidiada pela legislação processual pertinente.
Parágrafo único. Será garantido o direito de preferência, nas varas criminais, para o processo e o julgamento das causas referidas no caput.
[...]
Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei n° 9.099, de 26 de setembro de 1995.
Nota-se o caráter mais rigoroso do Estado Brasileiro, na adoção de medidas mais enérgicas para o combate e prevenção da violência doméstica cometida contra as mulheres.67
[...] o estabelecimento de penalidades mais severas em razão da especial qualidade da vítima não é algo novo no direito brasileiro.
Nesse sentido, nosso Código Penal, em sua versão original, de 1940, já previa, como circunstâncias agravantes, a prática de crime contra “ascendente, descendente, irmão ou cônjuge”, bem como contra “criança, velho ou enfermo” (art. 44,II,f e i). No primeiro caso [...] a agravante decorria da “grave manifestação de insensibilidade moral dada pelo agente”; no segundo, da “covardia
66 BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
67 SILVA, José Ronemberg Travassos. O Instituto da Retratação na Lei Maria da Penha: breve análise dogmática da Norma Disciplinada no Art. 16 da Lei Federal nº 11.340/2006. Revista Brasileira de Direito das Famílias e sucessões. Porto Alegre: Magister, Jun./2009, a.11,
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e impiedade do autor, que agiu sem atenção à situação pessoal da vítima”. [...] A técnica, que já ornava o Código Criminal de 1890, foi preservada na nova Parte Geral, em vigor desde 1984 (art.61,II, e e h). [...] a qualidade da vítima também tem sido considerada para a configuração de crime específico ou como causa especial de aumento de pena, como ocorre, de longa data com os crimes praticados contra crianças (art. 121,§ 9º, do Código Penal).68
Neste sentido, a Lei Maria da penha tem a finalidade de cumprir com o que demanda a Constituição Federal, os tratados internacionais firmados pelo Brasil e buscar a erradicação da violência doméstica no Brasil, bem como assistir às mulheres que sofrem violência doméstica, no sentido de coibir, punir e prevenir este tipo de agressão.69