B) Obras
1. FISCALIDADE E SISTEMA COLONIAL
Embora de relevância reconhecida, não somam grande número os estudos dedicados à tributação no período colonial. Se, de um lado, obras abrangentes de História econômica como as de Roberto Simonsen, Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Novais3 se ressentem de análises mais detidas sobre o tema - cabendo à produção e comercialização dos produtos coloniais suas principais preocupações - por outro, um pequeno conjunto de diferentes estudos temáticos ainda não conseguiu tratar de modo sistemático e abrangente a questão. Pelo menos como ela merece.4 Algumas contribuições com temáticas específicas podem ser alinhadas5,
3 SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil (1500-1820). São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1978; Prado Jr., Caio. História econômica do Brasil. 20a. ed., São Paulo: Brasiliense, 1977;
Furtado, Celso. Formação econômica do Brasil. 10a. ed., São Paulo: Companhia Editôra Nacional, 1970;
Novais, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial - 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.
4 Entre aqueles que se pretendem genéricos podemos destacar Dorival Teixeira Vieira em A política
financeira. In: História Geral da Civilização Brasileira. 4a. ed. Tomo 1 (A Época colonial), 2o. vol. Rio de Janeiro: Difel, 1977, pp. 340-351 ; Dom Oscar de Oliveira em Os dízimos eclesiásticos do Brasil- nos períodos da colônia e do império. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1964; Maria Bárbara Levy em História financeira do Brasil colonial. Rio de Janeiro: IBMEC, 1979; Myriam Ellis em Comerciantes e contratadores do passado colonial - uma hipótese de trabalho. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. no. 24. São Paulo, 1982, pp. 97-122; Augusto Viveiros de Castro em História Tributária do Brasil. 2a. ed. Brasília:
ESAF, 1989; Frederic Mauro. O papel econômico do fiscalismo no Brasil Colonial (1500-1800) . In: Nova História e Novo Mundo. São Paulo: Perspectiva, 1969. pp. 193-205 e Mauro de Albuquerque Madeira.
Letrados, Fidalgos e contratadores de tributos no Brasil colonial. Brasília: Coopermídia, Unafisco/Sindifisco, 1993.
5 Ver Maria Thereza Schorer Petrone em Considerações sobre a tributação do açúcar e aguardente paulista, 1765-1851 In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 5, São Paulo: EDUSP, pp. 23-30, 1968; José António Gonsalves de Melo. A finta para o casamento da rainha da grã-bretanha e paz da Holanda (1664- 1666). In: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano , no. 54. Recife, 1981, pp. 9-62; M. A. Galvão. Dízima da Chancelaria. Reflexões sobre a História e Legislação desta renda, e sua arrecadação até 1855-56; e legislação que regula sua aplicação e percepção. Rio de Janeiro: Typ.
Nacional, 1858.
ressalvando-se desde já que o período da economia mineradora no século XVIII concentra o maior número desse tipo de trabalho, dada a importância que a fazenda então assumiu 6.
A fiscalidade no contexto da historiografia brasileira é uma pálida sombra que se espraia ao lado de monumentos erguidos em devoção ao comércio e à produção colonial. Se num primeiro plano ela não aparenta ser tema tão relevante como aqueles, não faltam entre eles evidentes redes de articulação. A dificuldade de reconhecer sua importância, aliada à patente carência de estudos, podem ter, no entanto, algumas explicações. De um lado, mais recentemente, a historiografia que revisou o sentido da colonização esteve, como é natural, preocupada com a dinâmica do sistema, suas forças de transformação, de aceleração da acumulação primitiva, através das quais os mecanismos da colonização moderna contribuem para a transição do capitalismo comercial na Europa Ocidental. Ora, sob esse quadro essencialmente dinâmico, parece uma preocupação secundária tratar de mecanismos econômicos identificados com as forças de conservação, como aqueles que operavam para suprir as receitas do Estado absolutista, que em última análise eram aplicadas na política de distribuições de favores (mercês, graças, ordens e hábitos) a grupos sociais da ‘velha ordem’. Nesse quadro de tensões de todo o tipo, tratava-se de conviver com uma das expressões mais elementares das contradições do mercantilismo português, apontadas por Francisco Falcon: se suas manifestações mercantilistas operam uma transferência de rendas dos setores mais produtivos para os mais estagnados, por outro, no que se refere aos negócios e à produção, a
6 Entre eles, Antônio Luiz de Bessa, Tributação em Minas Gerais: período colonial. In: História Financeira
de Minas Gerais. Pref. de Francisco Iglesias. Belo Horizonte: Secr. de Estado da Fazenda, 1981, 2vs.; Charles Boxer com sua clássica A Idade de Ouro do Brasil; Dores de Crescimento de uma Sociedade Colonial - 1695-1750. São Paulo:Nacional, 1963; Kenneth Maxwell, A Devassa da Devassa: a Inconfidência Mineira,Brasil-Potugal, 1750-1808. Trad. de João Maia. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. 317 pp.;
Fernando Resende A tributação em Minas gerais no século XVIII. In: II Seminário sobre a economia mineira - História Econômica de Minas Gerais/ A Economia Mineira dos Anos Oitenta. Diamantina:
CEDEPLAR/UFMG, pp. 112-148, 1983; Gilberto Guerzoni Filho. Tributação das entradas na capitania de Minas Gerais (1776-1808).In: Estudos Ibero-Americanos, v. 5, n. 2, pp. 219-250, 1979, sem esquecer dos pioneiros João Pandiá Calógeras com As Minas do Brasil e sua Legislação Rio de Janeiro: [s.n.], 1904, 3v. e Manuel Cardoso em Alguns Subsídios para a História da Cobrança do Quinto na Capitania de Minas Gerais, até 1735 . Lisboa: Sociedade Nacional de Tipografia, 1938.
intervenção política favorece a acumulação do capital7. Sendo assim, a contrapelo desse movimento tendencial, em outras palavras, a fiscalidade cuidava de sangrar a parcela produtiva do capital em circulação para os setores que retardariam o projeto de afirmação burguesa. Numa atmosfera ainda mais ampla, outros complicadores afastam-nos do interesse temático pela fiscalidade. Por parte da historiografia atual tem-se uma negligência para com o tema devido aos efeitos desfavoráveis dos impostos, “numa reação, talvez inconsciente à ênfase excessiva que os historiadores liberais do século XIX haviam emprestado à ação deste fator”8.
Superada por ora essa incipiente discussão, visitemos alguns aspectos de uma História fiscal cujo sinuoso percurso parte de isenções e privilégios iniciais para alcançar a mais insuportável sobrecarga.
A primeira fase da colonização e quase todo século XVI representou nitidamente um momento em que a política fiscal se reveste de um sentido político, ainda disciplinador, sujeita à necessidade objetiva de facultar o povoamento. Os primeiros povoadores dispõem de isenções fiscais e, à maneira de estímulo, muitos agentes particulares dispersos por vários recantos conseguem arrendar o direito de cobrar impostos em nome de Sua Majestade. Não era diferente de outras regiões do império colonial português como África, Ilhas e Oriente, vivendo-se no início da colonização uma espécie de “negligência salutar” tributária por parte da metrópole, que também concedia isenções e distribuía favores fiscais com generosidade9. Afinal, mais do que obter rendimentos imediatos, naquela conjuntura de intensas disputas, a colônia deveria, prioritariamente, estar resguardada. Fundadas sob o signo da guerra, as cidades são verdadeiros fortes para repelir possíveis e reais invasores e assegurar as conquistas, engenhos são obrigados por lei a estarem providos de muitas armas e Tomé de Souza é fidalgo “mui experimentado na guerra de África e Índia” 10.
Uma vez que a organização inicial das unidades produtivas envolvia enormes gastos, o Estado procurava compensar, não gravando as empresas com impostos convencionais. Assim, ao lado de uma exigência fiscal mínima - o dízimo
7 FALCON, Francisco José Calazans. A Época Pombalina - Política Econômica e Monarquia Ilustrada. São
Paulo: Ática, 1982, pp. 86-87.
8 WILSON, Charles. Taxation and the decline of empires: an unfashionable theme. Economic History and the
Historian. Londres, 1969. Apud Evaldo Cabral. Olinda Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630- 1654 . Rio de Janeiro: Forense Universitária; São Paulo: EDUSP, 1975. p. 158
9 OLIVEIRA, A. Águedo de. As finanças portuguesas dos séculos XVI e XVII relacionadas com a expansão
civilizadora no oriente. In: Orçamento do Estado da Índia (1574) feito por mandado de Diogo Velho, vedor da fazenda da Índia. Lisboa: s.e., 1960, pp. 191-458.
10 ACCIOLI, Ignácio & AMARAL, Braz do. Memórias Históricas e Políticas da Província da Bahia. 6 vols.
Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1919-1940, v. 1, p. 296.
pago à Ordem de Cristo - garantia aos donatários o privilégio das marinhas do sal, das moendas e engenhos, possibilitando ainda que recebessem o dízimo daqueles para quem cediam lotes. Cabia- lhes ainda uma redízima de todas as rendas e tributos da Ordem de Cristo e da Coroa. A montagem dos negócios coloniais (doações de terras e montagem de engenhos, extração do pau brasil) contava com outras exigências tributárias bem leves, concedidas durante a fase de instalação da produção açucareira. A princípio, deveria o açúcar pagar 10%, ao sair do Brasil, e mais 20%, ao entrar em Portugal. No entanto, os produtores e senhores de engenho mereceriam durante 10 anos isenção aduaneira, ao final de que passariam a pagar apenas meios-direitos. Tais vantagens se prendiam naturalmente à perspectiva de atrair capitais para a instalação da produção11. O Rei concedeu ainda aos moradores das vilas criadas completa isenção de todas as fintas, talhas, pedidos e outros tributos, com exceção dos dízimos. Certamente, em circunstâncias onde a carga tributária era tradicionalmente tão pesada, a idéia de ficar isento de quase todos os impostos deveria servir de estímulo decisivo para animar a instalação dos colonos.
Superada a fase que, em recente artigo, Luis Felipe de Alencastro, chamou de “aprendizado da colonização”12, em que os agentes da colonização não se combinavam, nem entre si, nem com o mercado a que deveriam atender, o Brasil cai nas mãos dos administradores fazendários. A lógica da conquista cede lugar à lógica econômica. Lentamente, às diretrizes fiscalistas somam-se àquelas de caráter militar, sobretudo a partir da montagem da administração fazendária, em fins do séc. XVI e início do XVII.
“Os engenhos que em número vão crescendo”, como disse nosso primeiro provedor-mor da fazenda do Brasil em 157813, motivam o ânimo fiscal do Rei, que passou então a restringir o direito tributário dos particulares, para, através da fazenda real e das câmaras, cobrar diretamente de seus súditos. As instâncias metropolitanas vão se sobrepondo à fiscalidade que ficava em mãos dos capitães donatários. O ‘Deve e o Haver’ entre Portugal e Brasil muda de figura: se até ali a América pertencia ao rol das despesas da metrópole, adiante integraria - competindo ao longo do século XVI e boa parte do XVII com os mercados asiáticos - uma de suas mais importantes e vitais receitas.
Ambrósio Brandão, cuja autoria é atribuída aos Diálogos das Grandezas do Brasil, em 1618 marcaria esta passagem: “Todo o Brasil rende para a fazenda de sua majestade sem nenhuma despesa, que é
11 Consultar a este respeito Frédéric Mauro. Portugal, o Brasil e o Atlântico (1570-1670). Lisboa: Estampa, 1989, 2 vols.
12 “O aprendizado da colonização”. Economia e sociedade - Revista do Instituto de Economia da Unicamp, 1, 1992, pp. 135-62.
13 SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro no Século XVI. p.125.
o que mais se deve de estimar”14. Sugestivamente, na documentação que traduzia o pensamento da política colonial apareceriam doravante com freqüência expressões reveladoras do papel econômico do Brasil para o equilíbrio português: “o Brasil é a jóia mais rara da Coroa...”, a se repetir - com variações - até a emancipação.
Nesse sentido, à medida que os núcleos populacionais progridem e se firmam, amparados pela estabilização de algumas atividades produtivas, a fiscalidade do rei ganha novas tintas, atingindo atividades de produção e circulação e alcançando de modo freqüente e brutal as populações coloniais. Tratava-se de contribuir incessantemente para o dote de casamento de reis europeus, despesas com canhões e fortalezas, verbas para reconstruir edificações no reino arrasado pelo terremoto, recursos para financiar guerras em que se envolvia Portugal, recursos para, ao contrário, celebrar a paz, pagamento de despesas para professores, empréstimos forçados à Real Fazenda, Bula da Santa Cruzada, manutenção das viúvas e enjeitados no reino... Para assegurar essas receitas a longa teia do fiscalismo se espalhava pelo território perseguindo inquietas boiadas, fugazes veios de ouro, escuras grotas de diamantes, ‘canoas’ sob rios, prostitutas pelas ruas de Salvador, frangos, frangões e porcos pelas ruas das cidades, escravos que os mercados recebiam, o vinho que as tabernas consumiam. Regimentos, alvarás, ordens, provisões do conselho Ultramarino se multiplicavam prodigamente em todas as direções.
Conforme a conjuntura e a urgência na necessidade de se fazer receita - situação muito comum em decorrência de guerras ou defesa militar, no reino ou nas colônias -, tributos iam sendo aplicados. Novos impostos com freqüência amparavam obras para sustento de presídios, fortes e guarnições15. No Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides, em 1641, criara um novo imposto para atender ao soldo da infantaria e despesas com as fortificações: o subsídio grande dos vinhos, imposto de importação que recaía sobre o vinho importado (5$600 por pipa da Ilha da Madeira e 2$800 de Portugal). A Câmara instituiu em 1645 tributos sobre gêneros exportados: 80 rs.
por arroba de açúcar branco, 40 rs. sobre açúcar mascavado, 50 rs. sobre couro de rês, 2 rs. sobre arroba de fumo, sendo esta renda destinada à manutenção das frotas de comércio e construção de galeões para a defesa marítima da cidade. A Câmara, anos mais tarde (1681), introduz o imposto sobre a aguardente, com uma taxa de 1$200 sobre cada barril importado para a capitania. Desta arrecadação, 800 rs. eram destinados para a infantaria da guarnição da Colônia de Sacramento e 400 rs. para a conclusão das
14 BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1977.
p.138.
15 AZEVEDO, Thales de. Povoamento da Cidade de Salvador, Salvador: Itapoã, 1969, pp. 380-381.
obras da Carioca. Em 1694, a capitania da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco foram gravadas com uma contribuição de 10 mil cruzados para atender às despesas da disputa pela Colônia de Sacramento, lançando-se em decorrência tributos sobre o sal, o azeite de peixe e o contrato das baleias. Os exemplos poderiam se multiplicar ad nauseam.
O Estado português estende para as relações colônia-metrópole a fiscalidade que praticava no reino, repetindo, aqui, o vasto e desordenado acúmulo de exações fiscais que conheciam na penín- sula. Contudo, se na aparência eram os mesmos tributos e os mesmos direitos reais, desta vez a fiscalidade deveria se constituir em um vigoroso instrumento de transferência da riqueza colonial. Se na aparência o estatuto do Brasil era de domínio ultramarino, na realidade sua condição era colonial.
A fiscalidade preserva sua função tradicional de atender às despesas do Estado com a defesa, justiça e outras necessidades, mas torna-se um voraz instrumento de exação das riquezas geradas no pólo colonial. A complexidade de sua organização, a abrangência de suas fontes de receita, a hierarquia de seus agentes não deve esconder uma fiscalidade com tal sentido. Sob essa aparência desordenada das receitas, as despesas para as quais se destinavam eram bem arranjadas: mercês e comendas para a nobreza, donativos eclesiásticos, gastos com o luzimento da realeza. E, mesmo quando parecia negar essa sua feição espoliativa, uma vez que parte considerável desses recursos recolhidos na colônia era aplicada em gastos na sua própria defesa, funcionava justamente para reforçar seu caráter primordial: a preservação do mercado sob os termos do ‘exclusivo comercial’ diante das permanentes ameaças externas à soberania.
Nas alfândegas coloniais, direitos de importação e exportação eram recolhidos: impostos sobre as vendas do açúcar, imposições do vinho; do azeite de peixe; da aguardente; do azeite doce;
1% sobre remessa de ouro das Minas; direitos sobre comércio de escravos (com a África, com Minas); passagem (gado) e entrada (pessoas, secos e molhados) entre as capitanias; dízima da alfândega. Nada deveria circular pelos mares e terras sem contribuir para os direitos reais.
A produção, quando não esteve cercada por ávidos contratadores, seria gravada diretamente pela fazenda sob diversas formas: impostos sobre a produção açucareira; dízimos pessoais; quinto do ouro e diamantes (e suas sucessivas formas de cobrança). Tudo que a terra gerasse mereceria retribuição ao Rei e a Deus.
A essa lógica somavam-se impostos de caráter regional, adotados apenas em certas áreas e decorrentes de atividades econômicas específicas ali desenvolvidas. Pode-se aqui lembrar o tributo sobre o fumo ou o quinto dos couros e gado em pé, arrecadados na capitania de Rio Grande de São Pedro do Sul;
imposto para reforma do cais de Viana do Castelo (cobrado na Bahia); quinto sobre as benfeitorias holandesas (Pernambuco); imposto para água da carioca (Rio de Janeiro); imposto nas canoas “que iam para o sertão” (Pará e Maranhão); direitos do cacau, do anil, café e canela (Pará).
Aos intermináveis tributos somavam-se contribuições de caráter extraordinário. Lembremos aqui algumas delas, tomando ainda como exemplo o Rio de Janeiro. A Câmara é instada pelo governador-geral a contribuir com um donativo para o dote da infanta D. Catarina, que casava com Carlos II da Inglaterra. Valor: 26.000 cruzados por ano, a serem pagos durante dezesseis anos. Para atender e este donativo adotam-se taxas de 4% sobre o açúcar, e 2% sobre todas as importações. Em 1664, impõe-se à Câmara 123$000 anuais para pagar propinas aos ministros do Conselho Ultramarino e, em 1670, sofre a imposição pela metrópole de uma contribuição de 400.000 réis para os serviços das missões religiosas nas conquistas ultramarinas. Entre todos, foram os impostos dessa natureza que mais se destacaram, ao menos no plano das tensões sociais, uma vez que motivaram freqüentemente situações de confronto e resistência durante seu recolhimento, que partiam de dificuldades econômicas e, não raro, de questionamentos à sua legitimidade. Sob esse caráter de extraordinário, uma primeira classificação poderia dividi-los entre aqueles cuja receita se dirigia para o reino e aqueles voltados para despesas coloniais. Aqui aplicados, mas destinados a Portugal, lembraríamos: o real donativo para casamento da infanta portuguesa com o rei inglês (1662); real donativo para a paz da Holanda (1662); donativo voluntário para o dote da rainha (1727); donativos voluntários para reedificacão de Lisboa (1755) e, outro mais tarde, para reconstrução do palácio da Ajuda. Cobrados aqui para amparar despesas da colonização estariam: o donativo para estabelecimento do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, a contribuição para Nova Colônia de Sacramento, a contribuição para o resgate da cidade do Rio de Janeiro (1711), o subsídio literário para financiar o salário de professores no Brasil.
As Câmaras Municipais, por seu turno, não eram menos tímidas no lançamento de tributos.
Alguns deles são: Subsídios, Direito do talho, sobre os peixes do mar, Direito de açougagem, que incidia sobre as reses abatidas, Direito de aferições, pago pela aferição dos pesos e medidas uti- lizados no comércio, Rendas do ver (possivelmente apareceu em meados do século XVII), imposto sobre as lojas e vendas ao que parece pago proporcionalmente ao fluxo comercial, sendo seu pagamento entregue a contratadores 16. Além disto, as Câmaras intervinham sempre que havia necessidade de alguma contribuição extra, definindo a forma de
16 RUSSEL-WOOD, A. J. R.. O governo na América portuguesa; um estudo de divergência cultural. Revista de História, São Paulo, v. 55, n. 109, pp. 25-79, 1977.
atendê-la. Dois exemplos: na Bahia, 1652, o governador estipulou que as Câmaras deveriam estabelecer donativos e direitos para pagar o sustento do presídio; em Minas as Câmaras decidem a forma como deveria ser pago o subsídio voluntário para a reconstrução de Lisboa. Havia ainda, a cargo das Câmaras, impostos indiretos (licenças e registro anual dos artesãos, vendeiros e açougueiros, taxa para inspeção anual de pesos e medidas, multas, taxa para construção civil, foros de sesmarias do Senado) e diretos (fintas ou cobranças municipais diretas para atender a despesas específicas17. Tais fintas de incidência local, ou municipal multiplicariam-se - sempre devidamente autorizadas pelo Rei, após consulta ao Conselho Ultramarino e ao procurador da fazenda - destinadas a consertos de pontes, construção ou reforma de igrejas e cadeias, perseguição a quilombos (Minas Gerais) ou “finta alimentária”, utilizada para sustentação dos estudantes de medicina que iam à metrópole aprender o ofício.
Aliada à fiscalidade dos poderes temporais, a tributação eclesiástica completava o quadro do enorme contingente de obrigações que pesava sobre a população. Neste sentido, destacava-se - como apontamos anteriormente - o direito sagrado do dízimo (o “divino tributo”) e as taxas para realização de missas e liturgias, conhecidas como conhecenças. As instâncias eclesiásticas também recorreram a expedientes fiscais, a fim de garantir sustento material à suas atividades. Nas cidades maiores onde havia Misericórdias, desde o século XVII o reino autorizou que cobrassem dízimo sobre frangos, frangões e mais aves, cordeiros, leitões, cabritos e ovos para os enfermos ali tratados. Outros tributos, como as obras pias também alcançavam seus cofres. Em sua ação, a Igreja teria ainda concorrido decisivamente para o sucesso da política fiscal, entrelaçando lentamente suas mãos com o poder temporal em atividades de convencimento e coerção espiritual da população sobre a importância no pagamento dos tributos reais. Utilizando inúmeras pastorais e sermões ao longo do século XVIII, ameaçam de excomunhão aqueles que sonegassem o quinto real e os dízimos. Buscava fazer valer entre os grupos sociais na colônia as recomendações de São Paulo na Epístola aos Romanos: “É também por isso que pagais impostos, pois os que governam são servidores de Deus, (...). Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido, a taxa a quem é devida, a reverência a quem é devida, a honra a quem é devida” 18.
A política econômica metropolitana foi ainda pródiga na adoção de mecanismos garantidores de receita, muito próximos de serem verdadeiros
17 SOUZA, José Antônio Soares de. A receita e despesa da Comarca do Rio Janeiro, em 1800 e 1801. In:
Revista do IHGB, no. 238, pp. 337-80.
18 Epístola de São Paulo aos Romanos, 13, 6.