Diferente da forma como ocorreu com os exemplos anteriores, podemos observar em Macaé a presença de duas formas variantes para a palavra “whatsapp”.
A primeira delas com a realização do sinal usando o dorso da mão como mão passiva, representando 14,28% dos entrevistados, enquanto que no outro é na palma da mão que encontramos o elemento passivo, representado por 85,71%
dos informantes pesquisados, conforme ilustrado no quadro 7 e observamos na figura 39:
Whatsapp 1 em Macaé (Elaboração própria)
14,28%
Whatsapp 2 em Macaé (Elaboração própria)
85,71%
Figura 39: Sinais variantes para a palavra whatsapp.
Fonte: Elaboração própria (2017).
A manifestação de duas variantes foi encontrada nas sinalizações dos surdos pesquisados em Macaé, para as palavras verdade, passear e porco. Para ilustrar tais diferenças, usaremos o Dicionário da Língua Brasileira de Sinais produzido pela Acessibilidade Brasil contrastando com os sinais reproduzidos durante a pesquisa com os surdos de Macaé, através de vídeo e imagens de elaboração própria, conforme observaremos nas figuras 40, 41 e 42.
Verdade no Rio de Janeiro (Acessibilidade Brasil)
Verdade em Macaé 1 (Elaboração própria)
85,71%
Verdade em Macaé 2 (Elaboração própria)
14,28%
Figura 40: Variação diatópica a nível fonológico, no primeiro e último exemplo.
Fonte: Acessibilidade Brasil (2005); Elaboração própria (2017).
Entre o primeiro e último exemplo da figura 40, ocorreu uma variação a nível fonológico, pois os sinais opõem-se por configurações de mãos distintas, mantendo mesma locação e movimento. Vale ainda destacar que as formas produzidas para o sinal da palavra verdade em Macaé, conta com uma diferença de 85,71% para 14,28%, de acordo com os informantes desta pesquisa, vide quadro 7 e ilustrado acima .
Entre o primeiro e último exemplo da figura 41, ocorre uma variação a nível fonológico, pois os sinais opõem-se pelo movimento. Na cidade de Macaé, foi manifestado pelos informantes desta pesquisa uma proporção de 71,42% para 28,57% de duas formas diferenciadas para a palavra passear.
Passear no Rio de Janeiro (Acessibilidade Brasil)
Passear em Macaé 1 (Elaboração própria)
71,42%
Passear em Macaé 2 (Elaboração própria)
28,57%
Figura 41: Variação diatópica a nível fonológico, no primeiro e último exemplo.
Fonte: Acessibilidade Brasil (2005); Elaboração própria (2017).
Tanto a palavra verdade quanto a palavra passear apresentaram variação a nível fonológico, entretanto não foi uma variação produzida por todos os informantes, como observamos nos percentuais obtidos.
As formas produzidas entre o primeiro e último exemplo da figura 42, para representar a palavra “porco” configuram-se em uma variação a nível lexical. Em Macaé duas formas variantes foram apresentadas na proporção de 71,42% para 28,57%, conforme informantes caracterizados no quadro 7.
Porco no Rio de Janeiro (Acessibilidade Brasil)
Porco em Macaé 1 (Elaboração própria)
71,42%
Porco em Macaé 2 (Elaboração própria)
28,57%
Figura 42: Variação diatópica a nível lexical, no primeiro e último exemplo.
Fonte: Acessibilidade Brasil (2005); Elaboração própria (2017).
Essas últimas formas foram analisadas à parte, por representar formas variantes e ilustradas nesta pesquisa através dos vídeos realizados. Quanto à sinalização da palavra Libras, foi unânime a realização do sinal de sua forma antiga entre os informantes pesquisados.
Finalizando, uma curiosidade narrada por uma das informantes é que tanto ela quanto seu grupo de contato observam que há uma sinalização feita de forma mais rápida pelos surdos do Rio, os quais usam expressões faciais mais marcadas, enquanto que em Macaé as sinalizações são feitas de modo mais calmo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo buscou verificar se houve a presença de variação linguística do tipo diatópica nas sinalizações em Libras das Comunidades surdas, através de análise de vídeos das duas cidades pesquisadas, a saber, Macaé e Rio de Janeiro.
Considerando a hipótese de que as variações linguísticas são tão pertinentes às línguas de sinais quanto às línguas orais, apesar de poucos estudos nesta área, é possível afirmar que em ambas as modalidades, oral e visuoespacial, ocorrem o fenômeno da variação linguística.
De acordo com os autores investigados, vimos que as línguas de sinais são línguas naturais, as quais as pessoas surdas devem ser estimuladas a aprender como primeira língua, para não sofrerem com atraso de linguagem e desenvolvimento de suas capacidades superiores.
Na segunda parte deste trabalho fizemos uma retrospectiva histórica, no qual foram apontados breves mapeamentos de como teve início o trabalho com as línguas de sinais de uma forma geral e, consequentemente, com a educação de pessoas surdas em um panorama mundial, em que a decisão do social para o individual, determinou por muito tempo o modo de viver da pessoa surda. Exemplo disso foi a exclusão da pessoa surda, a qual não podia exercer direitos mínimos como casar e herdar propriedade, fato este que foi mudando também pelo viés econômico, como em caso de surdos filhos de pessoas nobres. Este fato contribuiu para que futuramente se pensasse na educação de surdos, surgindo diversas metodologias educacionais para a escolarização destes, dentre elas as de caráter manualista e oralista. O ensino que até então ocorria de forma privada e para um número muito restrito de alunos, começa a ser ofertado também no formato público, contribuindo para que a língua de sinais trabalhada na metodologia manualista pudesse atender a um público maior. Vimos isso ocorrer com o Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris (nome atual), o qual foi responsável por não só ensinar dentro do próprio Instituto como também por propagar a língua trabalhada em diversos outros países, a exemplo dos Estados Unidos da América, o qual através deste contato pôde posteriormente desenvolver a Língua de Sinais Americana, como
também com o Brasil. Aqui foi um surdo francês que fundou o Instituto Nacional de Educação de Surdos (nome atual) e, através da Língua de Sinais Francesa, a Língua Brasileira de Sinais começa a ser desenvolvida, com o aumento lexical.
Ainda nesta parte, fizemos um breve histórico da Língua Brasileira de Sinais- Libras nas cidades de Macaé e Rio de Janeiro, onde pudemos mapear suas origens.
Partimos dos pressupostos da Sociolinguística para entender que a língua não ocorre de forma homogênea com seus falantes, mas sim heterogênea. Nesse sentido, o autor Labov, precursor da teoria sociolinguística do variacionismo, considera os fatores sociais e a língua usada no cotidiano pelas comunidades de fala como elementos importantes para sua análise.
Outros autores também foram trabalhados, entre eles, Bagno que discute o preconceito linguístico sofrido com o português falado no Brasil. Para ilustrar que o preconceito linguístico também ocorre com as línguas de sinais, trabalhou-se autoras como Quadros & Karnopp e Gesser, as quais discorrem sobre os mitos que perpetuam a Língua Brasileira de Sinais, na intenção de desmistificar alguns conceitos em relação a esta língua, demonstrando que a mesma também sofre com equívocos.
Ao trabalharmos com a temática da Gramática da língua de sinais, verificamos que a mesma possui regras comparáveis a uma língua de modalidade oral, sendo sujeita a sofrer os mesmos fenômenos que ocorrem com línguas orais, dentre os quais destacamos o da variação linguística. Como nosso objetivo geral foi estudar se há a presença dessa variação, do tipo diatópica, em dois municípios distintos do estado do Rio de Janeiro, partimos de pressupostos teóricos para a reflexão sobre a variação linguística como um todo, visando entender o que a caracteriza e os diversos tipos que ela compõe.
Já nos objetivos específicos tivemos como intenções, os seguintes pontos:
1) Investigar a origem histórica das sinalizações da Comunidade surda do grande centro da cidade de Macaé e cidade do Rio de Janeiro; 2) Correlacionar o fenômeno da variação linguística presente na língua oral com a língua de sinais; 3) Mostrar, seguindo os Parâmetros fonológicos da LIBRAS, o que caracteriza a sinalização de uma região diferente da outra; 4) Identificar em que níveis as variações ocorrem;
5) Verificar possíveis variantes nas sinalizações pesquisadas; 6) Ilustrar as possíveis variações e variantes encontradas nas pesquisas.
O primeiro ponto, já citado anteriormente, foi trabalhado por meio de pesquisas de revisão de leitura, busca de fontes em meios eletrônicos, entrevistas, em que registramos um breve histórico dessas origens, tópicos trabalhados na segunda parte deste trabalho.
O segundo ponto, foi trabalhado na terceira e quarta parte desta pesquisa, quando trouxemos exemplos do fenômeno da variação linguística, presentes tanto em língua oral quanto de sinal.
O objetivo geral foi alcançado, quando depois de realizadas revisões de literatura, tivemos embasamento teórico para entender como ocorre esse processo.
A partir de então, o terceiro e quarto ponto dos objetivos específicos atuam em conjunto com o objetivo geral, no qual partimos para a coleta de dados, que foi trabalhada na quinta parte deste trabalho, para enfim fazer a análise dos dados obtidos. Ao compararmos vídeos de sinalizações em Libras de falantes surdos das duas cidades pesquisadas, verificamos que houve manifestações diferenciadas para um mesmo significado de palavra. Como exemplo, citamos o sinal para a palavra
“aeroporto”, o qual é feito de forma diferenciada na cidade do Rio de Janeiro e em Macaé. Foi estabelecido como critério seguir os Parâmetros fonológicos da Língua Brasileira de Sinais, para fazer as comparações dos sinais e assim entender o que foi modificado e assim classificar em que níveis as variações ocorreram, se fonológico ou lexical.
O quarto ponto foi atingido, quando encontramos formas concorrentes de variantes nas sinalizações, a exemplo do sinal para a palavra “Libras”, a qual tem um formato antigo e um formato novo concorrendo entre si.
O último ponto, fazer a ilustração das variações e variantes encontradas foi alcançado, quando após análises de diversos vídeos produzidos no Rio de Janeiro, pudemos em contrapartida trazer para análise, os sinais manifestados durante a coleta de dados de vídeos por informantes surdos de Macaé, os quais ilustramos como elaboração própria a partir da participação especial de uma surda que aprendeu e desenvolveu sua língua nesta cidade, ao ter contato com a Associação
Macaense de Deficientes Auditivos- Amada, que frequenta desde bem criança.
Podemos verificar estas informações na quinta e última parte desta pesquisa.
Podemos afirmar que tanto o objetivo geral quanto os específicos foram alcançados. Assim, esperamos com este trabalho, contribuir para o entendimento de que a Libras é uma língua de fato e sujeita aos mais diversos fenômenos, dentre eles o da variação linguística, não podendo ser caracterizado como erro do sinalizante, mas sim como outra forma para sinalizar.
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