• Nenhum resultado encontrado

Frentes de expansão

No documento ENSAIOS SOBRE A ECONOMIA GAÚCHA - FEE (páginas 178-184)

Pelo que vimos, o crescimento econômico do Rio Grande do Sul vai bem. Se alguma queixa podemos apresentar, esta diz respeito ao baixo nível da renda per capita da largada. Dado esse começo em voo rasante, a presente geração fez o que pôde para melhorar as condições econômicas do estado. O mesmo não pode ser dito da distribuição da renda. Ao contrário, nestes últimos 35 anos, o país e o Estado experimentaram um processo de concen- tração da renda sem precedentes na economia mundial. A situação de um mercado segmentado em menos de 2 milhões de pessoas na opulência e 50 milhões de miseráveis é tão pouco desejável econo- micamente quanto sustentável politicamente.

As Tabelas 8.4 e 8.5 ajudam a ilustrar o que representa o crescimento da economia gaúcha em termos da composição setorial, caso se mantenham as taxas de crescimento verificadas no período 1950-85. Na composição do setor serviços, introduzimos alguma volição, em termos de conceber os subsetores do governo e outros serviços como os que efetivamente darão a resposta às questões sociais hoje tão maltratadas.

Tabela 8.4 - Composição setorial da renda do Rio Grande do Sul

Fontes: elaboração própria.

Mostrando as cifras em dólares de 1985, as coisas ficam mais expressivas e imponentes. De uma renda de US$ 17 bilhões, passaremos em 15 anos a US$ 46,1 bilhões. Ou seja, nesse lapso temporal, a tendência histórica da economia gaúcha sugere que serão gerados mais US$ 29,1 bilhões por ano, a partir do ano 2000.

Isto representa tudo o que produzem hoje países como o Paquistão, o Peru e é quase o nível da já citada Grécia. Quer dizer, apenas o acréscimo de produção que terá lugar no Rio Grande do Sul será aproximadamente do tamanho da economia grega.

A pergunta que se coloca é em que tipo de atividade serão aplicados os recursos do Estado, de modo a gerarem esses volumes de bens e serviços. Mais tecnicamente: qual será o perfil da oferta?

Mais importante, ainda, do que esta primeira pergunta, se coloca outra: que pode fazer a sociedade em geral, e o planejador econômico em particular, para que cheguemos ao ano 2000 com um quadro econômico e social substancialmente diverso? A Tabela 8.5 sugere uma imagem objetiva, em que cada um dos subsetores – comércio, intermediários financeiros, e transportes e comunicações – será maior individualmente do que as atuais agricultura e indústria.

1985

US$ bilhões % US$ bilhões %

Agricultura 3,2 19 6 13

Indústria 3,7 22 11,1 24

Serviços 10,1 59 29 63

Total 17 100 46,1 100

Setores 2000

Tabela 8.5 - Composição da renda dos serviços do Rio Grande do Sul no ano 2000

Fontes: elaboração própria.

O que está sugerido é um substancial aumento dos setores governo tradicional e de outros serviços. Se tal aumento parece excessivo, podemos pensar em dois argumentos em sua defesa.

Primeiramente, ele representaria bem menos do que representa hoje a carga tributária que pesa sobre o gaúcho médio. Em segundo lugar, devemos argumentar um pouco mais longamente. A defesa tão aberta do intervencionismo certamente é controversa sob o ponto de vista da teoria econômica. Trata-se, basicamente, de ideias de John Maynard Keynes, que, em 1933, contribuíram decisivamente para a salvação do capitalismo mundial. Propomos apenas que as deixemos funcionar nestas paragens, mesmo porque os argumentos opostos, defensores do absenteísmo governamental, além de também serem polêmicos teoricamente, têm a desvantagem de acenar com um paraíso bem menos tentador.

Daí ser uma necessidade imperiosa se criarem frentes de expansão da economia que produzam uma situação de crescimento econômico calcado na geração de lucros por um setor privado eficiente e competitivo, ao mesmo tempo em que os problemas sociais sejam equacionados pelo setor público, na forma de maior prestação de serviços e consequente geração de emprego. Isto pode ser viabilizado pelas funções tradicionais que o governo deve

Subsetores US$ bilhões %

Comércio 3,7 13

Intermediários financeiros 3,5 12

Transportes e comunicações 4 14

Governo 7,9 27

Aluguéis 2,0 7

Outros serviços 7,9 27

Total 29,0 100

cumprir, ampliando os serviços de saúde, justiça, segurança e educação colocados à disposição da comunidade. Sem descurar da geração de infraestrutura para o setor privado, algumas ações estatais na órbita produtiva podem vir a ocorrer na produção de bens, como é o caso de alimentos, na linha de um programa bem organizado e de inquestionável honestidade.

O mais tentador de uma argumentação na linha da aqui apresentada diz respeito à compatibilização entre o crescimento econômico e o atual conflito distributivo. É visível a carência da população em praticamente todos os serviços que devem ser providos pelo governo, embora sua produção, em muitos casos, possa ser delegada ao setor privado. Entre eles, se incluem os anteriormente arrolados como “atividades sociais” e “prestação de serviços” que podem viabilizar um nível sem precedentes de emprego da população neste país de grandessíssimo desemprego estrutural.

Ora, capitalismo significa lucro, e é bom que se resgate esta palavra. Com efeito, algum tempo atrás, as soluções ao conflito distributivo eram tão autoritárias que muitos recebedores de lucros tinham verdadeiro pudor em se apresentarem como tais. O que se deve ter presente é que a função social da empresa é gerar lucros. Só assim crescerá e criará mais empregos. O que nem sempre é visto com suficiente clareza é que a geração de emprego no setor privado sempre assumiu papel residual. Eficiência e competitividade são requisitos fundamentais do setor privado e, por isso mesmo, totalmente incompatíveis com metas de maximização do volume de emprego. Quem deve se preocupar com a questão do emprego é o governo. Ele é que deve criar programas que resolvam os problemas crônicos do mercado de trabalho.

O governo precisa, assim, resolver o problema do emprego ao mesmo tempo em que resolve o problema da oferta dos serviços acima mencionados. Para tanto, ele deve assumir um papel muito mais ativo do que o tem feito em termos de formulação de políticas econômicas. Deve perder o medo de falar em controle demográfico, ao lado da utilização de mecanismos econômicos (e não, por

suposto, coercitivos) que levem as migrações internas a assumirem os rumos adequados. Adicionalmente, mostram-se necessárias inúmeras medidas no setor agrícola. Se a questão fundiária se propõe a resolver o problema social de populações rurais, um programa de estoques reguladores e estratégicos de produtos agrícolas irá regularizar o abastecimento de alimentos no meio urbano, com a previsível vantagem de se pagar completamente antes do ano 2000. Com ele, simplesmente nunca mais o país terá problemas de consumo de alimentos.

É necessário, para concluir, que digamos uma palavra sobre outro elenco de políticas econômicas usualmente considerado muito polêmico. Trata-se da política tributária. É evidente que, para gastar, o governo precisa de recursos. E cedo os governantes perceberam que a forma de obterem esses recursos era cobrar impostos à população. Ocorre, no Brasil do século XX, que a estrutura tributária em vigor auxiliou na construção da pior distribuição de renda do planeta, pois se baseia grandemente na cobrança de impostos indiretos. Devemos fazer arranjos para que, no século XXI, o principal imposto redistributivo seja o imposto de renda sobre os lucros distribuídos às pessoas físicas. Neste contexto, é fundamental ficar claro que o imposto de renda da pessoa jurídica deve receber um tratamento privilegiado e muito mais brando do que o que hoje vigora. Por incentivarem o crescimento do setor privado, os lucros retidos devem ser isentos de pagamento do imposto de renda. Sob o ponto de vista da constituição de uma sociedade democrática, aumentar o poder econômico do setor privado significa preservar a galinha que produz os cobiçados ovos de ouro, ao mesmo tempo em que implica diminuir o peso do setor público na chancela, via política econômica, de uma sociedade desigual.

Referências

BÊRNI, D de A.. O futuro do ano 2000. In: ______. A Cura da época futura.

Porto Alegre: Ortiz, 1995. P. 199-216.

BOULDING, Kenneth E.. O significado do século XX: a grande transição. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1966.

KAHN, H.;WIENER, A.. O ano 2000: uma estrutura para especulação sobre os próximos trinta e três anos. São Paulo: Melhoramentos/Universidade de São Paulo, 1968.

9 Nota sobre as exportações das

No documento ENSAIOS SOBRE A ECONOMIA GAÚCHA - FEE (páginas 178-184)