• Nenhum resultado encontrado

FUNDAMENTOS DA JUSTIÇA RESTAURATIVA

No documento Karina-Flores.pdf (páginas 94-97)

possibilitando uma abertura à comunicação entre vítima e infrator, autor e réu. Esses cuidados iniciais que o ordenamento jurídico fornece demonstram a necessidade da legislação acompanhar não apenas os direitos instituídos, mas também as necessidades intrínsecas às situações conflituosas.

O incentivo pela composição de acordos pelas partes também é evidenciado pelas previsões estabelecidas pelo Novo Código de Processo Civil (NCPC), Lei 13.105, de 2015, ao sustentar a promoção pelo Estado da solução consensual de conflitos (art. 3º), adequando a conciliação e mediação ao ordenamento vigente. Ainda, a própria forma de cooperação entre as partes, pode ser identificada como mais um avanço da legislação ao encaminhar o procedimento que mais se adapte aos interesses e necessidades do caso. Segundo o artigo 165 do NCPC, “[...] os tribunais criarão centros judiciários de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e mediação e pelo desenvolvimento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição.”

(BRASIL, 2015). Aliás, o diploma processual civil, introduz a audiência conciliatória ou de mediação como parte do procedimento comum (art. 334).

Nesse sentido, absorve-se das modificações das legislações que a atenção do ordenamento jurídico prioriza a inclusão das partes no procedimento legal, um olhar voltado à essência dos interesses envolvidos e pela adequação da resposta dada pelo ordenamento, amenizando a procura desenfreada pela punição e singela retribuição ao delito, ampliando o conceito de restauração das relações e dos indivíduos que são partes interessadas. Portanto, perfeitamente adequada a necessidade de estudo e aprofundamento de procedimentos identificados com a Justiça Restaurativa para promover a resolução alternativa dos conflitos.

obrigação por resultados determinados. A Justiça Restaurativa não se opõe necessariamente a Justiça Retributiva. Logo, a defesa pela aplicação da maneira mais pacífica de resolver os conflitos não compreende na posição do abolicionismo penal, até mesmo porque, não há a preocupação essencial de modificar o aprisionamento e reduzir a reincidência dos delitos, apesar de ser configurada constantemente nas práticas alternativas; conforme Zehr (2015, p.

41), “[...] a Justiça Restaurativa requer, no mínimo, que cuidemos dos danos sofridos pela vítima e de suas necessidades, que seja atribuída ao ofensor a responsabilidade de corrigir aqueles danos, e que vítimas, ofensores e a comunidade sejam envolvidos nesse processo.”

O amparo proposto pela Justiça Restaurativa corresponde a aproximação dos envolvidos, vítima e ofensor, no próprio procedimento adotado, significa dizer que os interesses, posicionamentos, sentimentos e compreensões de cada um pode se apresentar verdadeiramente no próprio processo e que o ordenamento jurídico não ficará afastado de tais análises primordiais. Corresponde, portanto, a uma concepção diferente do papel de cada um dos envolvidos, fundamentalmente à vítima, cuja proteção legal se justifica. Pallamora (2009, p. 46) assim destaca:

O direito penal esqueceu da vítima ao tratar apenas da ‘proteção de bens jurídicos’

desde o viés do castigo àquele que cometeu um delito, e negligenciou o dano causado à vítima e a necessidade de reparação. Além do direito penal, também o processo penal esqueceu a vítima ao deixá-la à margem do processo e sem proteger seus direitos. Até mesmo a criminologia esqueceu dela, pois tratou apenas do delinquente, num primeiro momento, para depois passar a entender o delito como um fenômeno relacional sem entretanto, analisar a vítima da relação, restringindo-se, apenas, à analise dos processos de criminalização.

Esse envolvimento da vítima e do ofensor modifica o caráter simplista de coadjuvantes no prosseguimento dos atos processuais, e concede aos envolvidos a capacidade e responsabilidade de atuação em um processo informal, que se fundamenta na espontaneidade das partes. Nesse diapasão, observa-se que a utilização da Justiça Restaurativa, como meio alternativo de enfrentar os conflitos, é uma forma de garantir a observância de direitos fundamentais das partes, possibilitando-se assim a autonomia das partes e manutenção de direitos incondicionados, conforme se observa na Resolução 2002/12 do Conselho Social e Econômico da ONU: “[...] enfatizando que a justiça restaurativa evolui como uma resposta ao crime que respeita a dignidade e a igualdade das pessoas constrói o entendimento e promove harmonia social mediante a restauração das vítimas, ofensores e comunidades.” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2012).

De acordo com as previsões estabelecidas para a prática da Justiça Restaurativa, observa-se que a inexistência de um conceito fechado de conteúdo e regras a serem observadas concede maior flexibilidade de métodos a serem adotados e abertura no procedimento que dependerá dos envolvidos no conflito:

E essa construção ainda em aberto e em constante movimento é, paradoxalmente, um importante ponto positivo da justiça restaurativa, pois não há um engessamento de sua forma de aplicação e, portanto, os casos-padrão e as respostas-receituário permanecerão indeterminados, na busca de adaptação a cada caso e aos seus contextos culturais. (ACHUTTI, 2016, p. 66).

Sendo assim, não há apenas um procedimento que se identifica com os princípios da Justiça Restaurativa, as aplicações são abertas, possibilitando a liberdade e autonomia dos envolvidos e a adequação do meio utilizado com o conflito a ser enfrentado, podendo exigir do terceiro imparcial, que atua na prática da Justiça Restaurativa, diferentes abordagens sobre os indivíduos, possibilitando muitas vezes o encontro direto de vítima e agressor, ou a preparação em separado dos envolvidos. A amplitude de atuação das partes e do facilitador é o principal fundamento da Justiça Restaurativa, exigindo preparação por parte do agente facilitador, sobre os diversos meios de abordagem para promover o diálogo entre os participantes. Essas possibilidades de manifestações da Justiça Restaurativa já estavam disciplinadas na Resolução 2002/12 do Conselho Social e Econômico da ONU (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2012):

I – Terminologia

1. Programa de Justiça Restaurativa significa qualquer programa que use processos restaurativos e objetive atingir resultados restaurativos.

2. Processo restaurativo significa qualquer processo no qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. Os processos restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios (sentencing circles).

3. Resultado restaurativo significa um acordo construído no processo restaurativo.

Resultados restaurativos incluem respostas e programas tais como reparação, restituição e serviço comunitário, objetivando atender as necessidades individuais e coletivas e responsabilidades das partes, bem assim promover a reintegração da vítima e do ofensor.

4. Partes significa a vítima, o ofensor e quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime que podem estar envolvidos em um processo restaurativo.

5. Facilitador significa uma pessoa cujo papel é facilitar, de maneira justa e imparcial, a participação das pessoas afetadas e envolvidas num processo restaurativo.

Nesse sentido, os parâmetros fundamentais de aplicação da Justiça Restaurativa consistem na preocupação com o dano sofrido, e não na forma adequada de penalizar a conduta delitiva; apenas esse cuidado com o dano sofrido é que possibilitará a compreensão das necessidades da vítima, bem como a adequação das obrigações e responsabilização coerente dos causadores do dano. “Os ofensores recebem oportunidade e estímulo para compreender o mal que causaram às vítimas e à comunidade, e desenvolver planos para assumir suas responsabilidades de modo adequado.” (ZEHR, 2015, p. 92). A principal necessidade de atuação da Justiça Restaurativa reside na possibilidade de estabelecer o diálogo entre os participantes dos encontros, permitindo um certo engajamento e participação sobre o prosseguimento do procedimento, bem como sobre as próprias modificações trazidas à comunidade afetada.

No documento Karina-Flores.pdf (páginas 94-97)