2.2. Nuclear
2.3.5. Gás Natural liquefeito
A tecnologia do gás natural liquefeito possui propriedades que solucionam, ou ao menos minimizam, os problemas relativos à construção de gasodutos43. O custo do GNL aumenta relativamente pouco em função da distância transportada, além de proporcionar ampla flexibilidade para transportar o gás entre um terminal de liquefação e qualquer terminal de regaseificação, por meio de navios-tanque especialmente concebidos para GNL (Instituo Acende Brasil, 2016).
Entretanto, apesar das vantagens associadas, o transporte de gás natural na forma de GNL requer elevados montantes de investimentos fixos, sobretu- do na construção dos terminais de liquefação e regaseificação e na compra 43 De acordo com o Instituto Acende Brasil (2016), há duas situações em que a construção de gasodutos se torna inviável. A primeira é no transporte envolvendo grandes distâncias, pois o custo-benefício dos gasodutos é decrescente em função da distância ou do transpor- te entre regiões separadas pelo mar. A segunda está associada ao transporte temporário ou intermitente entre regiões, pois a construção do gasoduto requer vultosos investimentos em ativos cujo único propósito é transportar gás natural entre as áreas interconectadas, o que, muitas vezes, só é viável economicamente se houver expectativa de transporte em volume e prazo suficientes para amortizar o investimento inicial.
de navios-tanque estruturados para o transporte deste tipo de carga44. Além disso, o processo completo de liquefação e regaseificação45 do GNL envolve etapas caras que acabam por aumentar seu custo final, mas que podem ser parcialmente compensadas se os preços do combustível nas principais regiões produtoras forem baixos46.
Atualmente, a capacidade de regaseificação do Brasil está distribuída em três terminais de regaseificação pertencentes à Petrobras, localizados na Baía da Gua- nabara (RJ), Pecém (CE) e Salvador (BA), os quais possibilitam a importação de até 41 milhões de m3/dia de GNL. Vale destacar que a estatal é responsável por todo o volume importado de GNL do país e que o acesso aos terminais de regaseificação é vedado a terceiros (MME, 2016b).
De acordo com os Planos Decenais de Expansão de Energia 2024 e 2026 (EPE, 2015; EPE, 2017b), está prevista a construção de mais um terminal de GNL para os próximos 10 anos, com capacidade de regaseificação de 14 milhões de m³/dia, em Barra dos Coqueiros (SE). Este terminal estará diretamente conectado à UTE Porto Sergipe I, com demanda máxima de aproximadamente 6 milhões de m³/dia.
Deste modo, a capacidade excedente de 8 milhões de m³/dia poderia ser dispo- nibilizada ao mercado não térmico ou a novas UTEs que venham a participar de futuros leilões de energia.
Atualmente, o Brasil importa GNL com o objetivo principal de suprir a de- manda de gás para geração de energia elétrica, devido à maior flexibilidade na obtenção e utilização deste combustível (CLARA, 2015). Tais importações são re- alizadas, sobretudo, mediante compras no mercado spot, o que faz com que sua origem seja variada. A Tabela 6 fornece a evolução da importação de GNL para os últimos cinco anos, desagregada por terminal de regaseificação. Nota-se que a importação de GNL assumiu um papel importante no suprimento de gás natu- ral do país, principalmente para os anos de 2013, 2014 e 2015, quando a crise hidrológica levou ao acionamento maciço das termoelétricas e o GNL importado 44 No caso brasileiro, a Petrobras optou por afretar duas embarcações para realizar os ser- viços de armazenagem e transporte do GNL, com contratos até 2024 e 2029. Há, ainda, a previsão do afretamento de mais uma embarcação para 2018 (ABEGÁS, 2017).
45 A cadeia de processamento do GNL é composta por três etapas. A liquefação do gás é a primeira etapa, que possui um rendimento médio de 90%, ou seja, perde-se ou utiliza-se como fonte de energia 10% do gás natural que inicia o processo. O transporte em navios metaneiros é o segundo ponto na cadeia integrada do GNL e, nesta etapa, em média, 5%
do GNL é perdido em virtude do movimento do barco e das mudanças de temperatura ao longo do transporte (passa do estado líquido para gasoso). A regaseificação e a introdução à rede de transporte de gás natural do país comprador compõem a terceira e última etapa.
Nesta parte da cadeia, o volume do gás natural aumenta 600 vezes ao passar do estado líquido para o gasoso e utiliza-se, em média, 2% do gás para realização desta última etapa (RONCEROS, 2008).
46 Locais que não dispõem de mercados consumidores próximos interligados por gasodu- tos, como no caso do Qatar, Malásia, Austrália, Indonésia, Nigéria, e Trinidad e Tobago, muitas vezes conseguem fornecer gás a um preço no porto de origem que é capaz de tornar o fornecimento atrativo, mesmo considerando a remuneração do capital fixo empregado.
correspondeu, respectivamente, a 16,78%, 20,99% e 19,20% da oferta total de gás natural (MME, 2017).
tabela 6: oferta Média de Gás Natural (em milhões de m3/dia) e a participação relativa na oferta total (%), entre 2012 e 2016
2012 2013 2014 2015 2016
oferta importada 36,02 46,49 52,93 50,46 32,14 47,81% 53,49% 55,79% 53,94% 42,67%
Regaseificação de GNL 8,49 14,58 19,92 17,96 3,81
11,27% 16,78% 20,99% 19,20% 5,06%
Terminal GNL de Pecém 1,95 3,59 3,65 2,96 1,75
2,59% 4,13% 3,85% 3,16% 2,32%
Terminal GNL da Baía de Guanabara
6,54 10,99 10,63 5,16 0,63
8,68% 12,65% 11,20% 5,52% 0,84%
Terminal GNL da Bahia 0 0 5,64 9,84 1,43
0,00% 0,00% 5,94% 10,52% 1,90%
oferta total 75,34 86,91 94,88 93,55 75,32
100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00%
Fonte: MME (2017).
Conforme se observa na Tabela 6, houve uma brusca redução nas importações de GNL em 2016, as quais passaram a representar apenas 5,06% da oferta total de gás natural. Esta queda na importação de GNL pode ser explicada pela redução na demanda deste combustível para a geração de energia elétrica. Isto é, em anos de menor demanda pelo gás natural para geração, o corte na oferta se dá preponde- rantemente pela redução da importação de GNL, devido a seu preço mais elevado e por ser contratado em mercado spot.
Este fenômeno fica evidente ao se avaliar os dados da demanda média de gás natural em milhões de metros cúbicos por dia, por setor de consumo, disponíveis na Tabela 7. É possível observar que a geração de energia elétrica foi o setor que apresentou a maior queda na demanda por gás natural entre 2015 e 2016, re- duzindo seu consumo em 16,31 milhões de m3/ dia. Por outro lado, observa-se, também, uma queda no consumo de gás pela indústria, enquanto os demais seto- res mantiveram suas demandas de 2016 em patamares muito próximos daqueles verificados em 2015, apesar da recessão econômica.
tabela 7: demanda Média de Gás Natural (em milhões de m3/dia) por setor de Consumo e a participação relativa na demanda total (%), entre 2012 e 2016
2012 2013 2014 2015 2016
Industrial 42,00 41,81 42,98 43,61 40,82
55,99% 45,78% 43,30% 44,22% 50,86%
Automotivo 5,32 5,13 4,96 4,82 4,96
7,09% 5,62% 5,00% 4,89% 6,18%
Residencial 0,92 1,00 0,97 0,97 1,11
1,23% 1,09% 0,98% 0,98% 1,38%
Comercial 0,72 0,75 0,77 0,79 0,83
0,96% 0,82% 0,78% 0,80% 1,03%
Geração Elétrica 23,03 40,08 46,84 45,90 29,59
30,70% 43,88% 47,19% 46,54% 36,87%
Cogeração 2,92 2,46 2,57 2,50 2,37
3,89% 2,69% 2,59% 2,53% 2,95%
Outros (inclui GNC) 0,11 0,10 0,17 0,04 0,58
0,15% 0,11% 0,17% 0,04% 0,72%
Demanda Total 75,02 91,33 99,26 98,63 80,26
100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00%
Fonte: (MME, 2017)
No que diz respeito ao preço do GNL, sobretudo quando comparado a outros combustíveis, é perceptível que se trata de uma alternativa cara. Como ilustração, a Tabela 8 fornece informações acerca do preço médio praticado nas importações de GNL pelo Brasil, entre os anos de 2012 e 2016, comparando-o a outros indica- dores de referência para o preço do gás natural.
2012 2013 2014 2015 2016 GNL utilizado no Brasil (FOB) 12,58 14,23 14,89 13,86 6,45
Gás importado da Bolívia 9,24 9,08 8,43 5,63 4,65
4,60 4,55 4,53 3,96 3,94
Gás russo na fronteira da
Alemanha 11,98 11,19 10,44 7,31 4,35
NBP 9,36 10,48 8,47 6,56 4,73
Henry Hub 2,66 3,73 4,36 2,62 2,5
tabela 8: preço Médio do GNl adquirido no brasil (Fob47) e preços internacionais de referência para o Gás Natural (usd/MMbtu),
entre 2012 e 2016
PPT48
Fonte: MME (2017) e EPE (2017a).
Adicionalmente, tendo em vista que o GNL importado pelo Brasil é negociado no mercado spot, o país acaba ficando exposto à alta volatilidade do mercado in- ternacional. O Gráfico 7 fornece o preço por carga de GNL importado pelo Brasil, entre agosto de 2014 e julho de 2015, onde fica evidente a grande volatilidade associada a esse mercado. Nesse sentido, Tolmasquim (2016) destaca que, como o Brasil é tomador de preços no mercado internacional de GNL, há uma exposição ao risco econômico decorrente das oscilações de preço.
47 O significado da sigla FOB (free on board) está relacionado com o pagamento de frete no transporte marítimo de mercadorias. Neste tipo de frete, o comprador assume todos os riscos e custos com o transporte da mercadoria, a partir do momento em que ela é colocada a bordo do navio. Por conta e risco do fornecedor fica a obrigação de colocar a mercadoria a bordo, no porto de embarque designado pelo comprador.
48 O preço não inclui imposto e é calculado com base na Portaria Interministerial nº 234/2002.
Gráfico 7: preço Fob de importação de GNl no brasil (preço por Carga), entre 2014 e 2015 (usd Fob/MMbtu)
Fonte: Clara (2015).
A viabilidade da continuidade nas importações de GNL por parte do Brasil depende do desenvolvimento do mercado de gás natural e da capacidade de ex- portação de GNL por parte dos países produtores. De acordo com a IEA (2017), espera-se um crescimento de 1,6% ao ano, entre 2016 e 2022, da oferta mundial de gás natural, alcançando quase 4.000 bilhões de m349, em 2022. A produção dos EUA representará 22% deste total, devido à revolução do shale gas, sendo que mais da metade do aumento da produção americana será utilizada para exporta- ção de GNL.
A capacidade mundial de liquefação de GNL crescerá 160 bmc até 2022, alcançando 650 bmc, o que significa que haverá capacidade instalada para liquefazer até 15% da produção mundial de gás. A maior parte da nova ca- pacidade de liquefação ficará dos EUA e a expectativa é que, em 2022, eles alcancem 107 bmc de capacidade instalada, contra uma capacidade atual de 14 bmc. O GNL americano será o catalisador para a mudança no mercado in- ternacional de gás, diversificando a oferta, desafiando modelos de negócios e fornecedores tradicionais e transformando o mercado global do gás (IEA 2017).
Além disso, a instalação desta nova capacidade de liquefação dar-se-á em um momento em que o mercado de GNL já está bem suprido, afetando, assim, a formação de preços, com um possível barateamento relativo do GNL no mer- cado internacional.
49 1 bilhão de m3= 35.687.347,87 MMbtu.
O Brasil poderá se beneficiar, no médio prazo, de condições mais favoráveis para importação do GNL, incluindo contratos com maior flexibilidade e melhores preços (CLARA, 2015). Mesmo se a escolha for a manutenção das importações de GNL pelo mercado spot, os preços podem vir a se tornar mais vantajosos, ocasio- nando, no limite, uma competição por preços, inclusive, com o gás importado da Bolívia. Além disso, uma maior participação do GNL importado pode gerar efeitos na própria indústria do gás natural nacional, afetando investimentos, sobretudo, nos recursos de gás não associado e em terra. Nesse sentido, caso as reduções de preço esperadas para o GNL se verifiquem, a viabilidade econômica de alguns projetos de gás brasileiros pode vir a ser comprometida.
De todo modo, embora o Brasil possa se beneficiar de uma maior oferta no mercado internacional de GNL, se, de fato, o expressivo desenvolvimento esperado para os próximos anos ocorrer, esta forma de obtenção de gás natural apresentará diversos fatores de risco, dentre os quais se destacam a cotação atrelada ao dólar (vo- latilidade cambial) e a ligação com o mercado internacional (volatilidade no preço).