“Quero contribuir pra mudar o mundo, porque eu não vejo como ser totalmente feliz em um mundo capitalista e machista; e eu quero construir minha autonomia pessoal, que passa por ter relações igualitárias” (Participante da MMM- BR).
Em pesquisa sobre género e juventude nos movimentos sociais observei que as discussões sobre o tema, e a criação de setor e/ou coletivo de gênero e/ou juventude em sua estrutura, se faz presente em diversos Movimentos. Considero que, embora seja importante a criação de setores para mulheres e jovens nos movimentos, muitas vezes a
8 CAPITAL POLITICO Bourdieu entende por capital não apenas o acúmulo de bens e riquezas econômicas, mas todo recurso ou poder que se manifesta em uma atividade social.
atuação desses pequenos grupos, sua fala, sua capacidade de intervir se restringe aquele espaço e aquelas questões específicas. E, mesmo quando as mulheres assumem papel de liderança nos Movimentos, os lugares de representações estão quase sempre definidos pelo feminino, são papéis desenhados por valores históricos e culturais, que codificam condutas, comportamentos, separam os espaços por sexo e idade.
As discussoes de gênero nos movimentos são realizadas por grupos minoritários e, no interior desses grupos, temos ainda os subgrupos mais minoritários, como é o caso das mulheres jovens, mulheres negras, mulheres lésbicas. Dessa forma, há sempre o risco de grupo/setor/coletivo de gênero serem silenciados, mas podem também se constituir em dispositivos de articulação de uma nova forma de agir, dispositivos que possibilitem criar aberturas para estabelecer diálogos.
A participação das mulheres jovens nos movimentos se caracteriza principalmente pelo ativismo político, ainda é uma minoria que chega a liderar os movimentos, e nesse campo político elas vivenciam duas formas de “subordinação”, ou seja, pelo gênero e pela geração. Mesmo com todas as dificuldades, há um crescimento de grupos de mulheres jovens nos Movimentos e esses grupos tem colocado em pauta questões sobre violência, discriminação, saúde da mulher e sexualidade, e sua interface com o tema juventude. Essas questões no interior dos movimentos, possibilitam a ampliação de limites, questionam as estruturas de poder dos movimentos, os saberes constituídos e desenham novos espaços e áreas de atuação.
Tudo isso pode reforçar a discussão de gênero trazida pelos feminismos, que se contrapõe à ideia de universalidade, de essência, que explica comportamentos de mulheres e homens pelo biológico. E por isso, suscita discussões, como diferença, desigualdade e direitos humanos.
O Feminismo foi e é, sem dúvida, muito importante na construção da discussão das relações de gênero, pois, ao trazer reivindicações sobre igualdade de direitos entre mulheres e homens, em termos políticos e sociais, introduz novos aspectos na luta política, abordando temas importantes como gênero, sexualidade, família, trabalho doméstico.
Ao demarcar a questão geracional no feminismo – especificamente as jovens -, retomo a mesma perspectiva em que foram pensadas em outras décadas as marcações de diferença no feminismo, como classe, raça, orientação sexual. Embora o diverso tenha tensionado o movimento em outro período, também foi interessante para refletir para alem da unidade aparente em torno de um sujeito político único – as mulheres. Entendo que a identidade é estratégica em momentos de luta, de reivindicação de direitos, mas isso não
apaga a diferenciação, as especificidades. Como ressalta Buther (1998) a política representativa funciona desse modo, os movimentos reivindicam em nome das mulheres.
Não me proponho desenvolver uma discussão sobre identidade, contudo, considero importante concordar com Hall (2009), quando diz que utiliza
“o termo ‘identidade’ para significar o ponto de encontro, o ponto de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam nos ‘interpelar’, nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos lugares como os sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, os processos que produzem subjetividades, que nos constroem como sujeitos aos quais se pode ‘falar’. (p.111-112).
Isso nos leva a recolocar a pergunta de Rago (2004): “como se coloca para o feminismo brasileiro, entre teóricas e militantes, a questão da figuração de novas subjetividades, questão que certamente não afeta apenas o Primeiro Mundo, se não se visam apenas transformações das condições de exterioridade”(p.10)
A Marcha é uma ação, uma manifestação que abre espaço para diversos grupos de mulheres, inclusive as jovens. Uma representante da MMM destaca:
A MMM são espaços de formação feminista, reflexão e que contribuem para pensar algumas ações específicas das jovens, como a batucada feminista. A MMM é um movimento com o qual as jovens tem muita identidade, porque tem um caráter irreverente, de ação e mobilização.
Sobre o lugar das jovens na MMM a representante relata que:
Nós costumamos dizer que não somos “jovens DA Marcha”, mas “jovens NA Marcha”. Nas reuniões nacionais da MMM e nos comitês estaduais há sempre a preocupação de envolver as jovens e de colocar as jovens em espaços de representação política da MMM. Com a nucleação da MMM, muitos núcleos em universidades foram surgindo, que são compostos pelas jovens. Também algumas batucadas que tem dinâmica própria constituem grupos de jovens, como as “Sonhadoras de Lilás” do Rio Grande do Norte, ou a Fuzarca Feminista, de SP. E a batucada chama muito a atenção e empolga muito as jovens. E foi um dos principais instrumentos da ofensiva contra a mercantilização do corpo e da vida das mulheres. E além da batucada acho que algumas ações da MMM protagonizadas pela MMM também são formas de atuação permanente das jovens na MMM. Um exemplo disso são as colagens de lambe-lambe, que no início era bem ampla, falávamos de vários temas, mas que depois concentramos mais em alguns temas específicos, dependendo do eixo das manifestações, como a questão da legalização do aborto, da valorização do salário mínimo e da violência contra as mulheres.
Ao pesquisar sobre as jovens na Marcha, observo sua composição de rotas, caminhos e linhas múltiplas, com todos seus elementos heterogeneos, potências singulares, e reflito que a Marcha é um conjunto capaz de produzir, ou pelo menos almejar um comum, através de suas redes e conexões.
As jovens feministas participantes da MMM, nos seus processos de lutas contra opressão e desigualdades sociais, e no seu desejo de emancipação, vivenciam relações de poder, criam suas estratégias, fortalecem sua participação e liderança.
4.CONCLUSÃO
Na pesquisa pude verificar que a diferença de gênero e geração, no interior dos movimentos sociais, define padrões de comportamento, reforça as relações de poder e cristaliza os valores e as hierarquias sociais.
Quando perguntei sobre o lugar das mulheres jovens nos movimentos, se era um diferencial sua presença, colocaram que, mesmo com todas as dificuldades impostas, há um crescimento de grupos de mulheres trazendo questões como violência, discriminação, saúde da mulher e sexualidade, e tem havido uma interface com o tema juventude. Essas questões no interior dos movimentos possibilitam a ampliação de limites, questionam as estruturas de poder dos movimentos, os saberes constituídos e desenham novos espaços e áreas de atuação. É inegável reconhecer a participação da juventude e o crescimento do número de mulheres na direção dos movimentos, isso foi reiterado na pesquisa.
A força do coletivo é colocada nas entrevistas quando descrevem suas motivações em participar dos movimentos sociais. O que mobiliza o ativismo político, ou a militância política, são situações cotidianas que mexem diretamente com a vida, o intolerável que atravessa a sociedade e se concretiza na experiência da exclusão, da exploração, opressão, divisão, preconceito, discriminação, injustiça, desigualdade social.
A organização das jovens feministas já pode ser mapeada, além da militância na Marcha Mundial de Mulheres, existem espaços de articulação dessas jovens. Cito alguns eventos e grupos que mais se destacaram através das redes.
- Jovens Feministas de São Paulo - Negras Jovens Feministas -SP
- Coletivo de Jovens Feministas do Ceará:
- Coletivo de Jovens Feministas Elza Monnera
- Fórum Cone Sul de Mulheres Jovens Políticas – Espaço Brasil.
- I Encontro Nacional de Jovens 2008, Ceará - I Fórum de Jovens Feministas da ALC
As jovens feministas com certeza estão reafirmando antigas lutas e princípios do feminismo e também estão criando e recriando novas estratégias, novos estilos de enfrentamento, portanto, deixam de ser invisíveis e tem uma efetiva participação política.
Concluo que os coletivos, os eventos são importantes na formação política das jovens. A participação política das jovens é expressa em diferentes espaços e diversas formas, através do batuque, da música, do corpo, da articulação em rede. Muitas das ações desenvolvidas pelas jovens em seus coletivos ou na MMM rompem com determinações fixadas e as práticas de poder constituídas na sociedade. Essa forma de agir, através de expressões artísticas e culturais, cria possibilidades de ultrapassar o que está preestabelecido, moldado para investir no domínio de si, na sua autonomia para poder explorar toda a potencialidade de ser e fazer feminismo.