Desabafo 6:
Ao colega de computação que ainda acha que mulheres são incapazes de programar, seu comentário mexeu comigo.
Poderia dizer que seu comentário mexeu comigo porque já senti na pele o preconceito de ser mulher em uma turma só de homem. Já cursei meio semestre de Engenharia Mecânica (...), onde pertencia a uma sala de 38 homens e 2 mulheres: eu e outra. Neste curso, tive que ouvir de professor que mulher está ali de gaiata, tomando vaga de homem que vai ser engenheiro de verdade. Isso me chocou. Me chocou porque quando eu fiz vestibular para engenharia, a quantidade de mulheres nessa área ainda era muito menor do que é hoje. E sabe por que? Porque meninas são, em sua grande maioria, criadas para se acharem inferiores e incapazes; porque meninas começam a desacreditar delas mesmas na sua fase inicial da vida, antes mesmo de fazer 4 anos; porque meninas não tem o mesmo incentivo de construir e planejar e projetar durante a infância – brinquedos “de meninos” são muito mais legais; porque meninas em sua grande parte dividem seu tempo de estudo com o tempo gasto na realização de tarefas domésticas. [...] Larguei o curso de Engenharia Mecânica e vim fazer computação na UEFS, onde fui recebida de forma completamente diferente por grande parte dos meus professores e professoras (sim.
Mulheres te ensinarão a programar). É, cara! Seus professores não concordam com seu pensamento. E além de não concordar, vêem todos os dias que não há fundamento nele: tivemos e temos excelentes alunas no curso de Engenharia de Computação da UEFS. Uma delas, se não me engano é professora desse curso no qual você está matriculado e muito provavelmente será sua professora. Você aprenderá muito com ela. Outras, como eu, ensinam marmanjos como você a programar. E acredite: ensinamos bem e temos excelentes frutos na nossa vida profissional.
Então, cara, antes de sair falando besteira, dá uma pesquisadinha nas ex-alunas e atuais do curso aí. São muitas. E todas nós aprendemos a programar. E aprendemos muito mais do que isso: aprendemos acima de tudo que podemos e devemos realizar qualquer atividade com maestria. Que não é gênero que nos limita e incapacita.
Nunca será. Pesquise no curso. Mas, pesquise fora também. Pesquise por grandes mulheres na área. O que não vai faltar é exemplo. Comece pesquisando sobre a história da computação e conheça: Ada Lovelace, Grace Hopper, Anita Borg, Lois
Haibt, Marissa Mayer, Margaret Hamilton, Adele Goldberg, Jean Sammet, Radia Perlman, Frances Allen, dentre outras (DORIA, 2017)4.
O curso o qual escolhemos realizar a nossa pesquisa tem a forte característica de ser quase que exclusivamente masculino. A entrada das mulheres no curso é sempre mínima e acaba virando um destaque nos assuntos sobre o perfil do curso. A aluna 7 quando questionada sobre como são as estudantes de EComp disse: “Acho que determinadas porque é foda ficar numa sala só com menino quase todo dia” (Aluna 7). Segundo a autora da carta acima, grande parte dessa exclusividade masculina no curso se deve a uma cultura machista que separa os aprendizados a partir do gênero e faz que as meninas entendam a matemática, a programação e etc., como “coisas de meninos”. Entendimento que ocorre desde o começo da vida.
A sua carta também nos remete ao que Claxton (2005) traz sobre o aprendizado por intermédio dos outros. Segundo ele, os valores e crenças transmitidos pelos mais velhos interferem diretamente na própria aprendizagem do sujeito. Algo que é semeado nas culturas que vivencia quando criança e que estariam nas opiniões dos pais (de acordo com uma pesquisa por ele exemplificada) uma tendência de prognosticar muito mais forte as atitudes e desempenhos dos filhos do que as notas que eles tiram.
[...] Um exemplo específico dessas profecias auto-realizadoras diz respeito às diferentes explicações que os pais dão ao desempenho de seus filhos e suas filhas em matemática. As mães da amostra tendiam a atribuir o sucesso de suas filhas a um grande esforço, enquanto creditavam seus filhos com competência (CLAXTON, 2005, p.171).
Nos dados da EEA-U encontramos que as meninas de EComp apresentam mais estratégias de aprendizagem do que os meninos (como pode ser visto no gráfico 3 abaixo).
Contudo, por razões de termos 24 meninas para 113 meninos, os cálculos não trouxeram uma diferença significante nesses dados. Em estudo recente de Santos e Silva (2015) sobre a avaliação dos estudantes de EComp – UEFS, os dados se aproximaram aos nossos, e eles concluíram, que talvez as mulheres estejam mais familiarizadas com a ABP que os homens.
4 O presente texto foi publicado numa página fechada dos estudantes de Engenharia de Computação da UEFS.
Tivemos acesso a ele através de integrantes do grupo Estrategistas, ao comentarem sobre um eventual distrato de um aluno do curso em relação a uma aluna. Para que o texto fizesse parte do trabalho entramos em contato com a autora Nara Doria, no mês de abril de 2017 pedindo a sua autorização. A autora além de ex-aluna do curso, hoje faz parte do corpo docente de uma universidade pública de Feira de Santana.
Figura 5: Gráfico (3) de Fatores relacionados com Sexo
Nas pesquisas de Lins (2013) foi identificada uma diferença significativa entre os gêneros, tendo as mulheres uma pontuação maior. Estas reportaram utilizar com mais frequência estratégias como “fazer anotações no texto ou em folha à parte”, “rever as anotações feitas em sala de aula”, “organizar seu ambiente de estudo” e “anotar na agenda as coisas que tem para fazer” (LINS, 2013, p.66). Além disso, os seus dados corroboram “os achados de Bartalo (2006), Bartalo e Guimarães (2008), Joly e Paula (2005), Bortoletto (2011) e Silva (2012) que também verificaram diferenças no desempenho de homens e mulheres, em favor dessas” (LINS, 2013, p.66).
Como possíveis explicações para essas diferenças entre os sexos na utilização de estratégias de aprendizagens, Lins (2013) apresentou a hipótese de Silva (2012) de que as mulheres são mais automotivadas para os estudos. Mas, traz também uma suposição de que essa pode ser uma questão biológica, já que o amadurecimento feminino costuma acontecer antes, fazendo-as se desenvolverem emocionalmente e socialmente mais cedo.
Lemos (2016), também trouxe como significativas as diferenças no resultado entre os gêneros, trazendo que as mulheres utilizam mais estratégias cognitivas e metacognitivas voltadas para repetição, recuperação da informação, tomar notas e pensamento crítico do que os homens. Além disso, trouxe que dados semelhantes foram identificados em pesquisas internacionais (FETTAHLIOĞLU, 2011; MUÑETÓN ET AL., 2013; MARUGÁN ET AL.
2013). Porém, ele sinaliza que mesmo com o resultado encontrado, novas pesquisas precisavam ser realizadas com um olhar mais direcionado para esse aspecto.