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1.2 A teoria do discurso

1.2.3 Hegemonia e Antagonismo

A categoria hegemonia com a qual opero é entendida a partir dos trabalhos de Laclau e Mouffe (1985, 1996, 2006) que partem da análise gramsciana, mas escapam às posições essencialistas e determinações de classe dessa perspectiva. Hegemonia supõe el carácter incompleto y abierto de lo social, que sólo puede constituirse en un campo dominado por prácticas articulatorias (LACLAU E MOUFFE, 1987. p. 155), representando “o colapso mútuo entre objetividade e poder” (MOUFFE, p. 415).

Na prática hegemônica, uma demanda social particular tem seu conteúdo específico transformado numa fixação parcial de significado, em torno do qual outras demandas sociais são articuladas (SOUTHWELL, 2008. p.126). Essa transformação implica uma luta política por meio de práticas hegemônicas que “têm como condição um marco de significados sociais compartilhados, e a impossibilidade de fixar temporalmente posições relativas” (SOUTHWELL, 2008. p. 125). Desse modo, hegemonia é um processo que constitui um discurso. O discurso é produzido a partir da articulação de diferentes elementos – diferenciais -, transformando-os em momentos parcialmente fixados, em dado contexto atravessado por forças antagônicas. Para isso, devemos entender que toda identidade significativa encontra-se submetida a duas lógicas: a

lógica da diferença e a lógica da equivalência. Segundo Laclau (2006), hegemonia é um conceito que se “constrói”, implica fundamentalmente a ausência da totalidade e da presença de uma diversidade de tentativas de recomposição e rearticulação. É precisamente esta diversidade articulatória que leva a superar a ausência de totalidade, pois não existe uma totalidade a priori.

A hegemonia se desenvolve dentro do campo das práticas articulatórias, ou seja, dentro de um sistema aberto de identidades relacionais, em um espaço onde não existem concretizações ou cristalização dos elementos pelo qual se lutam em contextos determinados. Para que uma demanda possa se hegemonizar – além da necessidade de um momento articulatório – é preciso existir uma oposição entre práticas articulatórias contrárias, ou seja, antagonismo. O antagonismo implica fenômenos de equivalência e efeitos de fronteira, mas também articulação de elementos flutuantes. Essa articulação supõe uma constante “construção” onde se redefinem as demandas por que se luta. Desse modo, a hegemonia consiste em um conjunto de práticas articulatórias que definem sua identidade por oposição a outras práticas articulatórias antagônicas.

O antagonismo, por sua parte, representa uma experiência de negatividade, uma relação que apresenta o limite da objetividade ou da constituição plena das identidades (MENDONCA, 2012.p. 208): “antes de ser uma relação entre objetividades prontas, apresenta o próprio momento em que elas passam a ser constituídas” (DE MENDONCA, 2012 p. 209). Assim, o antagonismo é uma condição de possibilidade para a construção das identidades políticas. Essas identidades não existem a priori, ou pré-constituídas, mas a relação antagônica produz as identidades, ao mesmo tempo em que essas mesmas identidades têm sua própria constituição negada. A presença do outro é identificada como a condição da impossibilidade da plena constituição identitária. Desse modo, o antagonismo se produz sob a existência do “outro”, se torna uma condição da possibilidade e da impossibilidade da minha identidade, já que, sem o “outro”, eu não poderia ter razão pelo que lutar. É por isso que “cada identidade é irremediavelmente desestabilizada por seu exterior e o interior aparece como algo sempre contingente” (MOUFFE. p. 420).

Desse modo, o discurso do governo representa a impossibilidade de constituição plena do movimento da Revolução Pinguina, transformando-o numa identidade negada, ao mesmo tempo em que é sua possibilidade de constituição. Na medida em que há antagonismo, a identidade do movimento em estudo não pode ser completa presença de si mesma, pois “a presença do outro me impede de ser totalmente eu mesmo” (LACLAU E MOUFFE, 1985.p. 125).

Na atualidade, dentro do campo das ciências sociais, existe uma importante preocupação em estudar e compreender os processos de mobilização e protesto social, devido ao impacto que estes processos têm dentro da ordem social. Entendo a ordem social desde uma visão

“laclauniana”, como uma construção histórica, contingente e discursiva, mediante uma operação hegemônica. Para o autor argentino, a ordem social representa o terreno da constituição da hegemonia (Laclau, 1985, p.23), em outras palavras, requer uma operação significante orientada à articulação de elementos que entram em jogo relacional que os reconfigura constantemente.

Considero importante dar a conhecer o que entendo pela categoria de movimento social.

Este significante tem levado ao desenvolvimento de intensos debates no mundo contemporâneo, os quais buscam identificar as novas dimensões e formas que estes fenômenos têm assumido durante as últimas décadas. Esse período é caracterizado pela aceleração da expansão da

“globalização capitalista neoliberal” (HALL, 2006), assim como por profundas transformações políticas, junto com uma crise dos paradigmas nas ciências sociais que durante o século XX tentaram compreender os fenômenos sociais.

Laclau (2008) entende que os novos movimentos sociais têm “assumido mudanças na sua forma de atuar, referentes ao tipo de unidade que caracteriza aos agentes sociais e as formas assumidas pelo conflito entre eles” (p.2). Portanto, entendo que o movimento social em estudo tem assumido novas formas de atuar, utilizando novas estratégias que o levaram a obter importante configuração na opinião pública nacional e internacional, por meio da utilização das redes sociais como ferramenta para organizar sua luta e suas demandas. Mas também através de inovadoras estratégias de atuação que permitiram articular uma série de demandas diferenciais, com o claro objetivo de obter mudanças dentro da estrutura do sistema educativo nacional.

É importante destacar que no atual cenário, influenciado pela globalização, estão surgindo novos movimentos sociais, num contexto caracterizado pela fragmentação das identidades que, segundo Hall (2006), podem desenvolver uma luta política pela significação, em direta contraposição aos discursos sedimentados.

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