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Herbert George Wells

No documento Dissertação - Berlany França - 2018.pdf (páginas 75-78)

CAPÍTULO 3 NAS SOMBRAS DO IMPÉRIO

3.3 Herbert George Wells

Nascido em Bromley, em 1866, H. G. Wells veio de uma família de classe baixa.

Seus pais eram comerciantes, mas o negócio não prosperou e sua mãe foi trabalhar como empregada doméstica. Um acidente com o pai de Wells levou a família a entregar os filhos para outrem cuidar. Assim, Wells foi obrigado a trabalhar desde cedo como vendedor de tecido, porém, apesar da vida difícil sempre aspirava subir de posição social. Como estudante conseguiu ministrar aulas, e a partir de 1883 sua vida começa a mudar: consegue uma bolsa no Imperial College, em Londres, graças a suas habilidades para pesquisas científicas e para a escrita. Neste período, conhece Henry Huxley, um dos maiores defensores das teorias de

76 evolução de Darwin. Wells aproveita esse meio e se aproxima ainda mais das ciências, em especial, da biologia. Com o passar dos dias as aulas e as monitorias acabam e Wells se dedica por inteiro à escrita. Mesmo que a ficção científica já existisse antes de H. G. Wells, estava dentro dele a vontade de explorá-la e junto dela imaginar e explorar o futuro da humanidade (ASSIS, 2005, p. 42-43).

Como visto, os avanços tecnológicos e científicos do final do século XVIII e sua continuidade desenfreada no século XIX, o acelerado crescimento e desenvolvimento urbano e consequentemente o alastramento da pobreza na Inglaterra foram o ponto chave para H. G.

Wells registrar seus escritos a respeito dessa nova organização política e social e como fazer para lidar com essa nova engrenagem social.

Em verdade, H. G. Wells examinava, analisava o presente e imaginava como seria o futuro diante das grandes mudanças da humanidade, para ele, o acelerado desenvolvimento das cidades, das fábricas, a poluição, a destruição dos campos para dar lugar aos aglomerados de construções infindáveis e de má qualidade, a perda da mão de obra especializada para as máquinas e como o homem conseguiria sobreviver neste meio serviram de base para muitas de suas ficções, como em A Guerra dos Mundos.

Podemos consolidar que H. G. Wells e sua mente fértil em imaginação para a crítica dessa sociedade que estava em inconstância marcou a história da ficção científica. Em A máquina do tempo (1895), por exemplo, o autor separa a humanidade em duas classes:

―Elóis‖, classe mais refinada, e ―Morlocks‖, classe mais baixa composta de trabalhadores, uma bifurcação social que pode ser lida como o próprio reflexo da divisão social entre trabalhadores e senhores da realidade vitoriana. E, como assegura Assis (2005), as classes mais baixas para Wells são como máquinas que estão ali para desempenharem seu papel e funcionarem para servir, sujeitas ao método, à sobrevivência, e não ao conhecimento ou ao desenvolvimento, assim como era a formação social da época vitoriana, dividida em duas classes basicamente, uma que não trabalhava e era a responsável por produzir a intelectualidade, e outra servil, constituída pelos operários de fábricas. ―Essa divisão entre classes mostra novamente o caráter paradoxal de H. G. Wells. Era um socialista que detestava o trabalhador, pois achava que deixado a si próprio, redundaria em um bruto‖ (ASSIS, 2005, p. 28-29).

O panorama das visões de H. G. Wells na criação de seus enredos, em parte, repercute a sociedade em que ele vivia, além de sua própria infância e juventude difícil, marcadas pela pobreza, pela exploração, e isso acabou revelando personagens e situações de constante exploração e subjugação de uma classe social por outra, como citado na obra A

77 máquina do tempo, e em nosso corpus, A Guerra dos Mundos, que também apresenta o tema da diferença entre classes sociais e que será exposto a seguir.

Desse modo, a importância de seus escritos para a crítica social, por não se acostumar de pronto com as transformações sociais, deu-se em especial por meio das ciências, tornando-se, extraordinariamente, um dos grandes divulgadores das contradições da sociedade vitoriana por meio da ficção científica. E, de modo único, H. G. Wells coloca no papel o contexto sociocultural da Era Vitoriana, os avanços técnico-científicos, as profundas mudanças da Revolução Industrial, as transgressões de valores sociais e morais, as ansiedades que as rápidas alterações da humanidade causaram.

Toda a Inglaterra sofreu o grande alastramento populacional alarmando muitos pensadores e escritores na virada do século XVIII para o XIX, e H. G. Wells, como descreve Carey (1993), também sofreu a inquietação diante dessa superpopulação que surgia nas cidades que se espalhavam e tomavam as calmas regiões da Inglaterra, como aconteceu com o lugar em que Wells nasceu, Bromley. Como resultado, H. G. Wells viu seu cenário mudar de tranquilo para um espaço de agitação de pessoas, lojas, fábricas e subúrbios. Sendo que, para o escritor, um dos grandes desastres do século XIX foi a desordenada proliferação de gente, bairros, fábricas e bens, por isso, um controle de natalidade seria primordial para melhorar o mundo e não a produtividade e a geração de prole por toda parte, ocasionando o rápido crescimento de uma população, vista por Wells, como de baixa categoria, incapaz física e mentalmente de contribuir para melhorar a sociedade e o mundo (CAREY, 1993, p. 116.).

Com essa ideologia, H. G. Wells defendia um maior controle da proliferação de gente, ou isso seria um dano ambiental irreparável e irresponsável, os subúrbios londrinos seriam como um tumor com ramificações cancerosas de fábricas, lojas, indústrias, loteamentos e gente de segunda categoria. Como viu seu lugar, Bromley, ser destruído por esse tumor crescente, e acrescentando sua origem determinada pela situação financeira difícil, que o mesmo almejava deixar para trás, Wells dedicou-se a formular maneiras para controlar essa multiplicação irregular e descontrolada de classes inferiores, enxergada por ele como um problema social que deveria ser combatido. E este tema foi um dos princípios essenciais de suas criações literárias.

A revolução social após a Revolução Industrial que mudou para sempre o cenário britânico, as invenções, as descobertas, a organização das máquinas e fábricas seguidas pelo desenvolvimento urbano, este seguido pela miséria, não deixaram escolhas à massa trabalhadora: ou era conseguir emprego ou ficar na miséria e nas doenças das ruas inglesas.

Todo esse turbilhão, misturado aos estudos e pesquisas científicas, além da grande influência

78 Darwinista baseada na seleção natural em que o mais forte sobreviveria somaram, para H. G.

Wells, motivos fortes para idealizar a possibilidade de uma sociedade mais organizada e mais evoluída, então, destruir o que já se formara para reconstruir uma nova sociedade era necessário.

Dentro dessa visão, Roberts (2006, p. 45) destaca que H. G. Wells notadamente soube combinar personagens, mundos futuristas, viagens no tempo, invasão alienígena e cidades completamente modificadas da realidade, além de elucidar o encontro com as diferenças. Teoria esta também pactuada por Crossley (2005, p. 356-357), o qual referencia H. G. Wells como um grande pensador capaz de visualizar e experimentar mundos ainda inimagináveis, deixando um legado de concepções e uma grande contribuição para o romance científico como: viagens no tempo, invasão extraterrestre, experimentações com animais, exploração planetária, guerras, como A Guerra dos Mundos, cujo escritor soube surpreender os leitores, fazendo-os pensar sobre a experiência de sofrerem uma invasão.

Esta invasão que a Inglaterra sofrera pelos marcianos, em A Guerra dos Mundos, ressoa na questão de os vitorianos se sentirem sob o domínio e a colonização do estrangeiro, assim como o fizeram com boa parte do globo, questão esta que será explorada agora.

No documento Dissertação - Berlany França - 2018.pdf (páginas 75-78)

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