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HIPÓTESES ABSTRATAS DA FORÇA PUNITIVA DO DIREITO

No documento TCC_Direito penal mínimo.pdf (páginas 47-51)

Diante do que foi apresentando cabe a analise da ementa de alguns julgados do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, que pela simples leitura de seu conteúdo já é possível evidenciar o potencial punitivo do direito penal, em situações que podem muito bem serem resolvidas pelos outros ramos do direito, senão vejamos:

STJ - HABEAS CORPUS HC 189392 RS 2010/0202636-3 (STJ) Data de publicação: 28/06/2012

Ementa: HABEAS CORPUS. APROPRIAÇÃO INDÉBITA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. POSSIBILIDADE. NÃO DEVOLUÇÃO DE 4 DVDs LOCADOS. ILÍCITO CIVIL.PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA.

PACIENTE REINCIDENTE E PORTADOR DEMAUS

ANTECEDENTES. CIRCUNSTÂNCIAS QUE NÃO TRANSFORMAM O

DESCUMPRIMENTO CONTRATUAL EM CRIME.

CONSTRANGIMENTO ILEGAL DEMONSTRADO. ORDEM

CONCEDIDA.

1. A lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para evitar situações dessa natureza, atuando como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal.

2. No caso, constata-se o reduzido grau de reprovabilidade e a mínima ofensividade da conduta, além da reduzidíssima periculosidade social, pois a não devolução de 4 DVDs, retirados mediante contrato de locação entre o associado e a locadora de vídeo, caracteriza um ilícito civil e está longe de configurar conduta que autorize a intervenção do direito penal, que deve ser reservado para assituações em que os outros ramos do direito não forem suficientes à tutela do bem jurídico protegido.

3. O fato de o paciente ser reincidente ou possuir anotações em sua folha de antecedentes criminais por crimes contra o patrimônio não transforma o descumprimento contratual em ilícito penal.

4. Habeas corpus concedido para restabelecer a sentença de primeiro grau que absolveu o paciente.

Na situação apresentada pelo julgado percebe-se que em sede de 1º grau o agente foi absolvido, já em 2º grau foi condenado. O ilícito em questão, conforme destacado é civil, proveniente de um contrato de locação. A conduta levada a efeito pelo agente realmente se amolda perfeitamente a descrição do tipo penal do art. 168 do Código Penal, que é “Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção”, a qual tem pena

base fixada entre 1 (um) a 4 (quatro) ano de reclusão. O caso concreto apresenta apresenta tipicidade formal, todavia não temos a presença da tipicidade material, que leva a atipicidade da conduta e o direito civil, por si só, é suficiente para por termo a situação.

STJ - AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL AgRg no REsp 1330858 MA 2012/0093307-9 (STJ)

Data de publicação: 02/10/2013

Ementa: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PENAL.

CRIME DE RESPONSABILIDADE DE PREFEITO. APRESENTAÇÃO TARDIA DAS CONTAS MUNICIPAIS. CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO ANTES DO OFERECIMENTO DA DENÚNCIA. ATRASO INSIGNIFICANTE. FALTA DE JUSTA CAUSA PARA A AÇÃO PENAL.

PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA. AUSÊNCIA DE OFENSA AO BEM JURÍDICO TUTELADO PELA NORMA.

1. De acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, é imperativa, na fase de controle prévio de admissibilidade da denúncia, a constatação da existência ou não de elementos de convicção mínimos que possam autorizar a abertura do procedimento judicial de persecução penal.

2. Na espécie, as contas foram prestadas com apenas 10 (dez) dias de atraso e antes de oferecida a denúncia, configurando o atraso na prestação de contas perturbação social de ordem mínima, que não justifica a intervenção do Direito Penal.

3. Segundo a melhor doutrina, para a consecução do delito descrito no art.

1º , inciso VI , do Decreto-Lei n.º 201 /1967, há que se verificar a vontade livre e consciente do prefeito de sonegar as informações necessárias e obrigatórias à fiscalização da execução orçamentária do município. Em outros termos, o simples atraso não tipifica o delito, pois o que se busca, no pormenor, é a proteção da moralidade administrativa e dos recursos públicos. A norma penal não procura punir o mero deslize burocrático, perfeitamente justificável e reparável por ato imediatamente posterior.

4. Agravo regimental a que se nega provimento.

O caso em tela apresenta a conduta de Prefeito que enviou com atraso as contas do município. Para esta situação a conduta praticada seria criminosa, conforme art. 1º, inciso VI, do Decreto-Lei nº 201/1967 se o agente a praticase para sonegar informações obrigatórias a execução orçamentária do município. O fato por si só já é atípico, não houve sonegação, mas sim um simples atraso, que o Direito Administrativo pode tutelar para proteger a moralidade administrativa e evitar mau uso dos recursos públicos.

STF - HABEAS CORPUS HC 114060 MG (STF) Data de publicação: 26/02/2013

Ementa: Ementa: Habeas Corpus. Furto tentado. Lesão patrimonial de valor insignificante. Incidência do princípio da insignificância.

Atipicidade da conduta. Ordem concedida. Constatada a irrelevância penal do ato tido por delituoso, principalmente em decorrência da inexpressividade da lesão patrimonial e do reduzido grau de reprovabilidade do comportamento, é de se reconhecer a atipicidade da conduta praticada ante a aplicação do princípio da insignificância.

Ausência, na hipótese, de justa causa para a ação penal. Incidência dos princípios da subsidiariedade, da fragmentariedade, da necessidade e da intervenção mínima que regem o Direito Penal. Inexistência de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado. Ordem concedida para determinar o trancamento da ação penal de origem, por efeito do reconhecimento da atipicidade da conduta.

A situação apresenta um caso de tentativa de furto, onde o resultado é de valor insignificante para vítima. Essas situações, em crimes contra o patrimônio, onde o valor do bem é em torno de um salário mínimo ocorre a aplicação do princípio da insignificância e de outros princípios do direito penal mínimo, os quais excluem a tipicidade material e leva a atipicidade da conduta excluindo o crime. Entendimento este já pacificado no STF e STJ.

STF - HABEAS CORPUS HC 100313 PR (STF) Data de publicação: 16/06/2011

Ementa: Habeas Corpus. Descaminho. Tributos não pagos na importação de mercadorias. Habitualidade delitiva não caracterizada. Irrelevância administrativa da conduta. Parâmetro: art. 20 da Lei nº 10.522/02.

Fragmentariedade, subsidiariedade e intervenção mínima do Direito Penal. Atipicidade da conduta.

Ordem concedida. A eventual importação de mercadoria sem o pagamento de tributo em valor inferior ao definido no art. 20 da Lei nº 10.522/02 consubstancia conduta atípica, uma vez que não faz sentido que uma conduta administrativa ou civilmente irrelevante possa ter relevância criminal. O montante de tributos supostamente devido pelo paciente (R$

4.288,49) é inferior ao mínimo legalmente estabelecido para a execução fiscal (art. 20 da Lei nº 10.522/02), não constando da denúncia a referência a outros débitos congêneres em nome do paciente. Ausência, na hipótese, de justa causa para a ação penal. Princípios da subsidiariedade, da fragmentariedade, da necessidade e da intervenção mínima que regem o Direito Penal. Inexistência de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado. Precedentes. Ordem concedida para o trancamento da ação penal de origem.

O suposto ilícito praticado é tributário e não penal, pelo enunciado do julgado foi levado a efeito um raciocínio de habitualidade delitiva, o qual, conforme mandamentos do art. 71 do Código Penal pode elevar a pena entre o patamar de 1/6 (um sexto) a 2/3 (dois terços) e se tal conduta for praticada com violência ou grave ameaça e observadas as condições estabelecidas pela lei penal (culpabilidade, antecedentes, conduta social,

personalidade do agente e os motivos e as circunstâncias) pode o Juiz aumentar a pena de um dos crimes até o triplo, conforme paragráfo único do art. 70 do código penal. Também não há que se falar em crime sonegação fiscal, pois tributos não pagos não configura o crime. A lei 10.522/02, em seu art. 20 e paragráfos trata da situação, senão vejamos:

Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais). (Redação dada pela Lei nº 11.033, de 2004)

§ 1o Os autos de execução a que se refere este artigo serão reativados quando os valores dos débitos ultrapassarem os limites indicados.

A propria Lei já apresenta a solução para este tipo de ilicito tributário, isto é, fixa um limite, o qual se não for ultrapassado deverá ser arquivado, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional. Note que tal arquivamento é sem baixa na distrubuição, isto é, o processo só estará arquivado e conforme o paragráfo 1º do art. 20 da Lei 10.522/02, enquanto não ocorer a precrição da dívida e o agente for deixando de pagar os tributos esse limite pode ser ultrapassado, o que pode acarretar a ativação dos processos arquivados e continuidade da execução fiscal. Neste caso concreto o próprio direito tributário é suficiente para se resolver a situação.

De tudo que foi apresentado, resta concluir que o direito penal é desnecessário quando outros ramos do direito podem garantir a segurança e a paz jurídica, seja com aplicando um sanção administrativa ou outra medida extrajudicial.

5. MEDIDAS A SEREM ADOTADAS PARA A SOLUÇÃO DA JUSTIÇA PENAL

No documento TCC_Direito penal mínimo.pdf (páginas 47-51)

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