Já foi descrito e explicado (no capítulo anterior) como tudo isso funcionou nas sociedades de caçadores-coletores. É concebível que a humanidade nunca te- nha deixado o estilo de vida aparentemente confortável para caçadores-coleto- res. Isso teria sido possível se a humanidade tivesse sido capaz de restringir todo o crescimento populacional além do tamanho ideal de um bando de caçadores-co- letores (de algumas dezenas de membros). Nesse caso, ainda poderíamos viver hoje, como todos os nossos antepassados diretos viveram dezenas de milhares de anos, até 11.000 ou 12.000 anos atrás. De fato, no entanto, a humanidade não con- seguiu fazê-lo. A população cresceu e, consequentemente, territórios cada vez mai- ores tiveram que ser tomados em posse até que um deles ficasse sem terra adicio- nal. Além disso, os avanços tecnológicos realizados no âmbito das sociedades de caçadores-coletores (como a invenção do arco e flecha, há cerca de 20.000 anos atrás, por exemplo) aumentaram (ao invés de diminuíram) a velocidade desse ex- pansionismo. Como caçadores e coletores (como todos os animais não humanos) apenas esgotam (consomem) o suprimento de bens dados pela natureza, mas não produzem e, portanto, acrescentam a esse suprimento, melhores ferramentas em suas mãos apressaram (e não atrasaram) o processo de expansão territorial.
A Revolução Neolítica, que começou cerca de 11.000 anos atrás, trouxe al- gum alívio temporário. A invenção da agricultura e criação de animais permitiu que um número maior de pessoas sobrevivesse na mesma quantidade inalterada de terra e na instituição da família, privatizando (internalizando) os benefícios, bem como os custos da produção dos filhos, forneceu uma nova verificação, até então desconhecida, do crescimento da população. Mas nenhuma inovação trouxe uma solução permanente para o problema do excesso de população. Os homens ainda não conseguiam manter a calma, e a maior produtividade provocada pelo novo modo de produção não parasitário representado pela agricultura e criação de animais foi rapidamente exaurida novamente pelo crescente tamanho da popu- lação. Um número significativamente maior de pessoas poderia ser sustentado no mundo agora, mas a humanidade ainda não escapara da armadilha malthusiana – há até duzentos anos, com o início da chamada Revolução Industrial.
II. História Econômica: O Problema
O primeiro gráfico, retirado de Colin McEvedy e Richard Jones67, mostra o crescimento da população humana de 400 a.C. até o presente (2.000 d.C.). O tama- nho da população era de cerca de quatro milhões no início da Revolução Neolí- tica. Mas até cerca de 7.000 anos atrás (5.000 a.C.), a área cultivada (primeiro ape- nas na região do Crescente Fértil e depois também no norte da China) era pequena demais para afetar muito o tamanho da população global. Até então, a população havia crescido para cerca de cinco milhões. Mas desde então, o crescimento da po- pulação aumentou rapidamente: 2.000 anos mais tarde (3000 a.C.) tinha quase tri- plicou a quatorze milhões, há 3.000 anos (1.000 a.C.) que tinha chegado a cin- quenta milhões68, e apenas 500 anos depois, quando o gráfico é estabelecido, o ta- manho da população mundial ficou em cerca de 100 milhões. Desde então, como o gráfico indica, o tamanho da população continuou a aumentar lentamente, mas de maneira mais ou menos constante, até cerca de 1800 (para cerca de 720 milhões), quando ocorreu uma quebra significativa e o crescimento da população aumentou acentuadamente para atualmente, apenas cerca de 200 anos, mais tarde, atingindo sete bilhões.
67 McEVEDY, Colin & JONES, Richard. Atlas of World Population History. Op. cit., p. 342
68 Ibid., P. 344
Figura I: População total mundial (milhões) - medidas em milhões de pessoas
O segundo gráfico, extraído de Gregory Clark69, mostra o desenvolvimento da renda per capita desde o início da história humana registrada até o pre- sente. Também mostra uma quebra significativa ocorrendo por volta de 1800. Até aquele momento, ou seja, na maior parte da história humana registrada, a renda real per capita (em termos de comida, moradia, roupas, aquecimento, iluminação e iluminação) não aumentava. Ou seja, os padrões de vida médios na Inglaterra do século XVIII não eram significativamente mais altos do que os da antiga Babilônia, onde podiam ser encontrados os registros mais antigos de salários e vários preços de bens de consumo. Naturalmente, com a vida sedentária e a propriedade privada, surgiram diferenças distintas em riqueza e renda. Existiam grandes proprietários de terras (senhores) que viviam em enorme luxo, mesmo pelos padrões de hoje,
69 Gregory Clark, Adeus à Esmola: Uma Breve História Econômica do Mundo (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2007), p. 2)
quase desde o início da vida estabelecida. Nem os padrões de vida médios sempre e em todos os lugares eram igualmente baixos. Existiam diferenças regionais pro- nunciadas entre, por exemplo, a renda real inglesa, indiana e da África Ocidental em 1800. E, é claro, no que diz respeito às comparações entre períodos de tempo, muitas tecnologias existiam em 1800 na Inglaterra, desconhecidas na Roma antiga, Grécia, China ou Babilônia. No entanto, em todo o caso, em todos os lugares e em todos os momentos, a esmagadora maioria da população, a massa de pequenos proprietários de terras e a maioria dos trabalhadores, viviam perto ou apenas um pouco acima do nível de subsistência. Houve altos e baixos na renda real, devido a vários eventos externos, mas em nenhum lugar houve uma tendência ascendente contínua na renda per capita discernível até cerca de 1800.
Figura II: História econômica mundial em uma imagem. A renda au- mentou acentuadamente em muitos países depois de 1800, mas diminuiu
em outros.
Em conjunto, os dois gráficos capturam o significado histórico mundial da chamada Revolução Industrial, que ocorreu cerca de 200 anos atrás, bem como o significado - e em particular a extensão - do estágio malthusiano anterior do de- senvolvimento humano. Até cerca de 1800, existia pouca diferença nas economias de seres humanos e animais não humanos. Para animais (e plantas), é sempre e invariavelmente verdade que um aumento em seu número invadirá os meios dis-
poníveis de subsistência e acabará por levar à superpopulação, a "espécimes su- pernumerosas", como Mises os chamou, que deve ser "eliminada" devido à falta de sustentação. Hoje sabemos que, no que diz respeito aos humanos, isso não deve ser assim: não existem espécimes supernumerosas que são assim eliminados nas so- ciedades ocidentais modernas. Mas, na maior parte da vida humana, esse foi real- mente o caso.
Certamente, o tamanho da população poderia crescer, principalmente por- que mais terras foram adquiridas para uso agrícola e, em parte, devido à melhor tecnologia incorporada nos bens de produção e a uma divisão do trabalho prolon- gada e intensificada. Mas todos esses "ganhos" econômicos sempre foram devora- dos rapidamente por uma população crescente que novamente invadiu os meios de subsistência disponíveis e levou à superpopulação e ao surgimento do "espé- cime supernumeroso" para o qual não havia espaço na divisão do trabalho e que consequentemente tiveram que desaparecer silenciosamente ou se tornar uma ameaça (um "mal" econômico) na forma de mendigos, vagabundos, saqueadores, bandidos ou guerreiros. Durante a maior parte da história humana, então, a lei de ferro dos salários prevaleceu. A renda era mantida em patamar de subsistência de- vido à substancial classe de “espécimes supernumerosas”.
III. História Explicada