4. ENEIDA, MULHER, DEPENDENTE DE DROGAS
4.2. A História de Eneida
Eneida foi-me apresentada tão logo iniciei minhas atividades de trabalho no Programa Municipal DST/AIDS, quando ingressei no ainda Projeto ‘Redução de Danos, do Ministério as Saúde’, como psicólogo da equipe, em maio de 2001. Desde então, Eneida passou a ser atendida por mim, além de ter sido convidada a participar e fazer parte da equipe de Redução de Danos, por conta do perfil apropriado para trabalhar com usuários de drogas na prevenção da contaminação do vírus HIV. Trabalhou conosco por aproximadamente dois anos, quando conseguiu aposentar-se por invalidez, e nunca abandonou seu tratamento de AIDS, tanto medicamentoso como psicoterápico, respeitando, obviamente, suas limitações.
Eneida é uma senhora de 61 anos de idade, que aparenta ter alguns anos mais. Mãe de três filhos, duas meninas e um menino ‘temporão’, todos de relacionamentos e épocas diferentes.
Eneida tem dificuldade em se expressar, demonstrando bastante confusão mental, não conseguindo manter uma ordem cronológica em seu relato, misturando as diversas fases de sua vida, especialmente do período após sua vinda para residir em Balneário Camboriú. Datas e acontecimentos não coincidem, quando aborda relacionamentos, justificados pela deterioração e complicações decorrentes das seguidas infecções, inclusive neurológicas por conta da contaminação pelo HIV e desenvolvimento da AIDS.
Neste relato, mantenho a perspectiva da informante, ou seja, não me propus reconstruir sua história para estabelecer nexos temporais, pois esta situação é em si mesma um dado importante para a compreensão da história de vida de uma pessoa dependente de drogas.
Trata-se de uma pessoa que foi usuária de drogas por aproximadamente 40 anos e fumante de tabaco até os dias atuais, contabilizando assim cerca de aproximadamente 45 anos como fumante de tabaco. É vítima da agulha contaminada por conta do uso de drogas injetáveis que seu último marido fazia, vindo a se contaminar pelo vírus HIV através de relações sexuais, sem a proteção do preservativo e sem nunca ter sido usuária de drogas injetáveis. Este parceiro já faleceu, por conta da AIDS, tendo sido usuário de drogas injetáveis, de modo que, por via indireta, Eneida foi vítima de agulha contaminada de seu
marido. Eneida veio saber da sua condição sorológica para o HIV justamente após o adoecimento do marido, iniciando seu tratamento já no ano de 1995.
Em seu depoimento no documento sobre Drogas da Secretaria Municipal de Saúde de Balneário Camboriú (2005), Eneida comenta que iniciou o uso de maconha aos 17 anos e não aos 20. Conforme seu relato atual.
Ela é natural de São Francisco do Sul, teve um irmão mais novo e viveram com seus pais parte da vida. Foi criada em Curitiba e, por volta dos 20 anos de idade, muda-se para Balneário Camboriú, onde reside até os dias atuais, embora seus pais já tenham falecido.
Ainda em Curitiba, conheceu seu primeiro marido, relacionamento que resultou no nascimento de sua primeira filha e que veio a terminar tão logo o marido soube que estava grávida, e foi abandonada. Relacionamento conflitante, segundo Eneida, por conta da violência sofrida.
O pai da Helena não prestava não e ai eu fui embora (faz sinal com as mãos como quem dá socos), me batia muito (Eneida).
Quando sua primeira filha tinha quatro anos de idade, envolveu-se em um segundo relacionamento e, com este marido, teve sua segunda filha (Sueli), passando a residir em São José dos Pinhais, onde trabalhou em uma fábrica de móveis, enquanto sua filha mais velha era criada pelos seus pais. Separaram-se tão logo engravidou da sua segunda filha. Já em Balneário Camboriú, conheceu seu terceiro marido, com o qual teve um filho ‘temporão’ em relação às suas duas primeiras filhas.
...o pai da Sueli só ‘meteu’4 e meteu o pé na minha ‘bunda’, só me embarrigou e foi embora, pouco tempo juntos (Eneida).
Trata-se de uma pessoa de pouco estudo, chegando a cursar até o quarto ano do ensino fundamental. Em Balneário Camboriú, ajudava a mãe na criação de seus filhos e fazia alguns
‘bicos’ como diarista. Viviam com ajuda da pensão de seu pai, que era muito religioso e se separou de sua mãe, vindo a morar com ela novamente, quando já enfermo, e por pouco tempo, até o seu falecimento.
Seu irmão mais novo, que contribuía no orçamento familiar, foi assassinado com um tiro em um desentendimento pouco esclarecido por nossa informante.
Eu tinha um irmão, mataram meu irmão em Balneário Camboriú, lá na rua Argélia, quando nós tínhamos vindo de Curitiba pra cá. Eu nasci em São
4 Os termos da informante foram mantidos no intuito de demonstrar as características reais da mesma e sua condição sociocultural.
Francisco do Sul, me criei em Curitiba e, de lá, viemos pra cá e não me lembro quantos anos eu tinha, 20 e poucos anos. Ele foi fazer assim (simula como quem vai sacar uma arma da cintura) e foi pegar o documento e o cara achou que ia pegar uma arma e puxou um revólver e atirou nele, mas ele não usava arma (Eneida).
(chora)... foi duro, até hoje...(chora)...eu quase morri de tristeza. Ai me apeguei a minha mãe e no meu pai e continuei vivendo, aos trancos e barrancos, mas continuei vivendo...tinha uns 23, 24 anos eu acho (Eneida).
Contou que começou a fumar cigarro ainda muito jovem, por influência da mãe, que também era fumante, vindo a desenvolver uma dependência pelo tabaco até os dias atuais.
Conta que, em Balneário Camboriú, aderiu aos cigarros de maconha, vindo posteriormente a experimentar cocaína e crack, drogas que desencadearam um longo e difícil processo de dependência.
A minha mãe fumava e o meu pai fumava, mas tinha deixado. Um dia ele deixou, lá na Wolks em Curitiba. Ele era testemunha de Jeová, a minha mãe não, e eu e meu irmão acompanhava a mãe. Ia vez em quando no Salão do Reino com ele. O pai largou o cigarro depois de ir ao Salão (Testemunha de Jeová). A mãe nunca parou e o meu irmão não fumava. Falar em fumar já deu vontade. Eu aprendi a fumar com a minha mãe. Quer dizer, aprendi sozinha (Eneida).
Durante o período em que esteve trabalhando na Redução de Danos, sempre demonstrou estar extremamente comprometida com a causa, tornando-se referência como uma ‘militante’, conhecida por diferentes instituições que desenvolvem trabalhos com drogas.
Em seus depoimentos, contou:
[comecei com]20 e poucos anos, depois que eu conheci o pai do menino, mas ele não usava drogas não. Eu comecei de brincadeira, dar umas bolinhas no baseado e aprendi a fumar baseado, depois usei cocaína, crack, usei de tudo, só nunca injetava (Eneida).
Atualmente, tem sua saúde comprometida na locomoção, na fala, memória, pois já tem lesões cerebrais. Já passou por diferentes combinações dos anti-retrovirais para AIDS, chegando a utilizar todas as medicações disponíveis pelo Sistema Único de Saúde. Vive só, em uma casa de três cômodos, tendo, no mesmo terreno, outras duas casas, vizinhas de porta, onde residem suas duas filhas, com seus respectivos maridos, filhos e netos. Seu filho, com 20 anos de idade, tem uma vida comprometida com o tráfico de drogas, prostituição e algumas passagens pela policia e detenções.
No ano de 2004, ano em que Eneida aposentou-se, estávamos em um período de reelaboração de alguns materiais informativos, haja vista que as campanhas necessitam de atualizações, conforme vai se desenvolvendo a epidemia da AIDS e consumo de drogas, frente às novas substâncias consumidas por estes usuários.
Eneida participava na Redução de Danos com seu depoimento muito significativo, tanto para usuários, como para não usuários de drogas, entre outras atribuições que tinha no trabalho. De acordo com ela (que consentiu nesta informação), podíamos colocar um de seus depoimentos em uma das edições do material informativo sobre a temática.
Só a Redução mesmo que me ajudou. Uma super ajuda para me fortalecer muito. Eu dizia que havia sido usuária, não usava mais. Eu ficava mais firme (Eneida).
Este foi um trabalho da equipe, pois as ações eram pensadas coletivamente, com a participação de todos, alguns usuários, outros não usuários de drogas e a coordenação da Redução de Danos, pela qual fui responsável de 2003 até 2011.
Foi em meados de 2007 que este material informativo ficou pronto, imortalizando o depoimento de Eneida, o qual circulou por volta de três anos, quando então foi suspenso por razões administrativas.
Algumas falhas na memória de Eneida impulsionaram-me a consultar sua médica do Programa DST/AIDS para que alguns dados já conhecidos quanto ao uso de drogas e tratamento da AIDS fossem confirmados. A falha de memória pode ser justificada pela combinação tanto pelo longo tempo de uso de drogas, provavelmente por ter negligenciado a alimentação, o sono e hábitos saudáveis, associados a frequentes processos infecciosos, incluindo duas vezes com neurotoxoplasmose, adicionado a um envelhecimento precoce, desgaste por conta do vírus HIV, uma vez que nunca chegou a ter viremia zero, com imunidade fragilizada e estilo de vida pouco saudável, o que deve ser causa da perda de memória.
O início do acompanhamento para o HIV deu-se em 1995, sempre negligenciado por provavelmente pelo uso de drogas, comprovado pelas faltas nas consultas médicas e consequentemente baixa adesão ao tratamento.
Foi um longo período de uso de drogas, desde o cigarro, maconha, chá de cogumelos, remédios, cocaína, crack, até a ingestão de perfumes. O uso acontecia, muitas vezes, na presença dos filhos, que pouco sabiam o que fazer, mesmo as duas filhas mais velhas, na época com idade em torno dos seus 25 anos (casadas e com filhos), e com um menino, ainda com cinco anos. Muitos pedidos foram feitos pelos familiares para que deixasse o uso, para preservar sua condição de saúde, mas nada conseguiram.
Em uma situação próxima de overdose, Eneida resolveu pedir ajuda a suas filhas e, neste momento, foi inserida, no ano de 2001, no Programa DST/AIDS de Balneário Camboriú, na Redução de danos.
A inserção de Eneida na Redução de Danos foi muito bem-vinda, pois tinha o perfil como redutora de danos, assim como comprometimento com seu processo clínico e psicoterápico, tanto na AIDS como com sua dependência em drogas.
Foram aproximadamente dois anos e meio de participação ativa na Redução de Danos, quando incorporou a proposta e passou a ajudar pessoas que tinham problemas com as drogas, assim como pessoas que ainda não tinham este envolvimento, através dos seus relatos e experiência de vida na Drogadição. Participou de inúmeros encontros sobre Redução de Danos e sessões de psicoterapia em seu processo de dependência.
Após sua saída da Redução de Danos, para tornar-se como militante no programa, objetivando minimizar as consequências do uso abusivo de drogas, para si mesma e para outras pessoas. Aposentou-se e, com muita regularidade, mantinha as consultas psicoterápicas, fazendo visitas a cada nova equipe de redutores de dano, a fim de orientar e contribuir na formação dos novos integrantes da equipe, pois, assim, dizia sentir-se útil e mais firme na questão das drogas.
O estado de saúde de Eneida ficou muito debilitado com o passar de alguns anos, comprometendo sua marcha, fala e memória, como já apontado acima. Nesta época, seu filho atingia a maioridade, e começou a fazer uso de drogas e ter envolvimento com o crime (tráfico de drogas, furtos e prostituição). Com o uso de drogas dentro de casa pelo seu filho (maconha e crack), nossa informante teve algumas recaídas, compartilhando-as com o próprio filho.
Sua filha, que é sua vizinha de porta, conseguiu identificar o problema e buscou uma casa de repouso, onde Eneida ficou interna por alguns meses, até quando o orçamento familiar permitiu. Neste mesmo período, seu filho João (nome fictício) também internado, não conseguiu manter-se ali, embora repreendido pelas irmãs e cunhados, mesmo com o agravante de ter tido algumas passagens na polícia por conta do porte ilegal de arma e tráfico de drogas.
Ela continuou firme, bastante tempo. Foi depois de bastante tempo que ela já tava aposentada tudo, fazia tempo e o João trouxe pra dentro de casa. Ela começou a usar e ai desandou. Ela via e usava junto (Sueli).
Esta passagem em sua vida foi bastante importante, pois, embora quisesse livrar-se da dependência, pois a droga estava muito próxima, em sua própria casa. Atualmente, nossa
informante encontra-se com o estado de saúde bem debilitado, decorrente da AIDS, com envelhecimento precoce, algumas sequelas neurológicas e vive basicamente em casa, fumante de tabaco e sob os cuidados de suas filhas, genros e netas.