2.2 O Processo de Profissionalização Docente
2.2.2 Identidade docente do professor de Ensino Religioso
O que é identidade docente? Muitos autores têm buscado defini-la. A etimologia do termo que vem de idem, “versão latina do grego tó auto”, que significa “legitimação daquilo que se é.” Todavia, como mostra Chaves (2017, p. 202) “identidade profissional se define a partir de um campo específico de determinada profissão, marcada por representações sociais e determinação dos atores sociais”. É uma construção constante, “não termina com a formação inicial”, é constituída pelos aprendizados da prática profissional e por todo o saber acumulado ao longo da experiência (LIMA et al., 2016).
A identidade dos professores de Ensino Religioso, ao longo de sua trajetória, passou do senso comum ao rigor científico, do ensino de uma religião ao conhecimento do fenômeno religioso com a valorização da experiência religiosa tanto pessoal quanto do seu semelhante.
Nesse sentido, observamos que a legislação que foi sendo construída passou a apresentar um perfil dessa identidade quando “houve uma ampla defesa da escola leiga, gratuita, pública e obrigatória” (JUNQUEIRA, ALVES, 2005, p. 6,7). Lentamente, fruto de conflitos e embates, foi se redesenhando um Ensino Religioso numa perspectiva escolar e, inevitavelmente, um profissional com saberes e um campo especifico da sua profissão.
Dessa forma, surge uma nova configuração de professor do Ensino Religioso, a partir da Constituição Federal de 1988 e das demais legislações como: LDBEN 9394/96, a nova redação do artigo 33 da LDB aprovado na Lei 9475/97, a Resolução Nº 2 de 1998 e o Parecer Nº 4 de 1998 do Conselho Nacional de Educação (CNE) que asseguram o artigo 33 da LDB e incluem o Ensino Religioso como uma das Áreas de Conhecimento do Ensino Fundamental.
Desse modo, o ER passa a ser reconhecido entre as demais disciplinas embora, o Ministério da Educação não forneça as orientações curriculares para o seu funcionamento, como há para as demais áreas, e não reconheça uma licenciatura específica para a habilitação desses profissionais sob a alegação da não interferência nos estados e municípios (CHAVES, 2017).
Ainda acerca da identidade docente, de acordo com Bezerra e Bezerra (2020, p. 3) temos que:
A identidade docente refere-se as experiências e posições que os profissionais constroem em sua profissão. Existem diversas características, sociais e culturais, que ressaltam o processo de identidade. Algumas características são: o conhecimento, a capacidade e a competência. Eles estão interligados na formação dos cidadãos em sociedade.
Conforme lemos, o autor salienta que o processo de identificação do profissional docente não pode ser desvinculado de sua natureza social, cultural, política e histórica de formação como um sujeito que é também, além de professor, um cidadão em socialização e diálogo com o mundo em seu funcionamento. Desse modo, as caraterísticas apontadas por Bezerra e Bezerra (2020), a saber, “o conhecimento, a capacidade e a competência” fazem parte de uma conjuntura bem mais ampla do que se podia perceber, sendo necessária uma melhor delimitação de orientações específicas para o ensino do ER na escola pública municipal, tendo em vista que a pessoalização não suplante a necessidade de um ensino pautado numa prática crítico-discursiva, conforme veremos a seguir.
Para além do que a legislação determina como um perfil profissional ou uma identidade, o professor tem o seu dia a dia marcado por transformações no seu ambiente de trabalho, são experiências vivenciadas e que se somam ao conhecimento construído na sua formação inicial e até experiencial e que fabricam as suas competências e habilidades para uma atuação profissional diferenciada. Logo, identidade profissional é a forma como os professores se autodefinem e também definem aos outros, é o entendimento que tem de si mesmo e sobre tudo que lhe é expressivo, levando a uma construção profissional de si mesmo, que vai ganhando forma e consistência no exercício de sua carreira enquanto professor (MARCELO, 2009). Sobre isso, Rodrigues (2003, p. 92) aponta que as
transformações sempre:
[...] provocam desdobramentos de ações que atingem o social, o econômico e o cultural, construindo pontes que oferecem ao docente a compreensão de conceitos, a aquisição de conhecimentos e posturas de mudanças em seus procedimentos para apreensão, socialização e institucionalização do Saber. O desenvolvimento do potencial educativo do professor o capacita a (re)produzir novos significados, a partir das efetivas relações de trocas já estabelecidas [...]. (Grifos postos)
Como exemplo de transformações que alteram o ambiente do profissional docente, podemos destacar a pandemia da Covid-19, que alterou significamente o modo como o professor interagia com o aluno, o próprio ambiente de trabalho e toda a dinâmica necessária ao bom funcionamento e à manutenção do ensino, que agora funcionava predominantemente de forma virtual. Tal realidade pode ser classificada como um acontecimento histórico recente que nos ajuda a compreender que teoria e prática devem estar em constante diálogo, caso contrário o professor não saberá lidar com as mudanças sociais, pois não terá aporte teórico suficiente para compreendê-las e lidar com elas de forma coerente.
Nessa perspectiva, a construção da identidade docente, além de ser uma construção pessoal, é também social, porque inclui, entre outras coisas, o compromisso, o desejo de aprender a ensinar, envolve a qualidade do que ensinam, o conhecimento a respeito da matéria que leciona, a história de vida e até suas vulnerabilidades diante da sua profissão. Diante disso, é notório que se assumir profissionalmente é, antes de tudo, se assumir enquanto ser humano que possui uma identidade cultural numa sociedade específica.
Para Freire (2014), o ensinar traz a exigência de reconhecer e assumir essa identidade cultural. O autor faz uma reflexão sobre esse assumir que ele nomeia como assunção ou o ato de assumir, para ele essa é uma ação do próprio do sujeito que se assume em alguma coisa.
Assim, Freire assevera que a prática educativo-crítica proporciona ao professor condições, através das suas relações com outros professores e com alunos, e a capacidade de uma vivência intensa de assumir-se. Ainda segundo ele, “assumir-se como ser social, histórico, pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque é capaz de amar” (FREIRE, 2014, p. 42).
Logo, ao adquirir uma identidade profissional, o docente forma uma múltipla rede de histórias, aprendizagens, procedimentos e hábitos (MARCELO, 2009), ou seja, o professor no processo de construção de sua identidade, ao lograr maiores saberes de seu trabalho pedagógico, acumula um cabedal de conhecimentos e experiências que lhe darão estabilidade
e segurança de quem de fato ele é: um profissional definido.
A identidade pode ser construída de modo pessoal ou coletivo: A construção pessoal ocorre pela história de vida de cada pessoa, suas experiências que levam a um sentimento de unidade, originalidade e também continuidade. Já o segundo modo, o coletivo, é uma construção social, que acontece no interior dos grupos e das categorias que estruturam a própria sociedade e que dão à pessoa um papel e um status social. Dessa forma, a identidade profissional é configurada como uma identidade coletiva dentro do seu espaço, assim, dependendo do contexto social, a identidade do professor pode assumir um significado diferenciado. Então, buscar essa identidade no contexto da atualidade provoca para o docente grandes desafios para adquirir saberes contextualizados e aplicáveis a sua prática pedagógica (BRZEZINSKI, 2002).
Quanto à identidade do docente, Pereira e Martins (2002, p. 118), afirmam que a
“identidade na educação deve ser concebida como prática social caracterizada como ação de influências e grupos destinada a configuração da existência humana”, isto é, não é possível construir uma identidade docente sem que esta esteja diretamente ligada a uma prática social proveniente da construção de influências direta ou indireta de grupos com os quais o professor tem contato ou faz parte ativamente, trazendo, assim, as marcas expressivas no seu modo de ser e de fazer. Caminhando por essa via, é importante que se apresente ainda o percurso desse profissional para o desenvolvimento de suas competências e habilidades numa mobilização de saberes voltados especificamente ao ER.