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159 Hércules que era venerado como entidade cósmica315, tendo seu paralelo e correspondente persa Mitra.

Saxl chegou nessa conclusão cruzando as informações contidas nas Dionisiacas de Nonno316 com as representações de Hércules como deus cósmico317. E conclui que talvez não se possa afirmar que esta ilustração se trata de um homem zodiacal (homo signorum), mas de outro lado, já continha o imaginário tardo antigo do Primeiro Homem (homem microcosmo).

Assim, a imagem de Hércules como deus cósmico sendo atingido pelos signos zodiacais seria uma espécie de representação intermediária no que concerne a criação da figura iconográfica do homem zodiacal.

Da divindade que cria os elementos astrológicos para que estes retratem os fenômenos cósmicos da criação divina ao homem elevado a potência de um deus cósmico tendo os signos zodiacais como entidades que regem e impactam as diversas partes de seu corpo. Isso demonstra as etapas que possibilitaram o surgimento da iconografia do homo signorum. Os signos passam a determinar o corpo humano e é a partir dessa constatação - junto com o desenvolvimento das práticas medico-astrológicas – que as representações surgem.

160 iconografia da imago signorum são diversas e cada uma propõem centralizar num tipo de relação homem-cosmos. De acordo com cada manuscrito, livro de hora, calendários astrológicos-médicos haverá subdivisões da iconografia. A priori, está elencado abaixo os principais tipos iconográficos, cada qual será explicada e analisado num momento propício do texto:

A) o Homem zodiacal e os temperamentos;

B) o Homem zodíaco-planetário;

C) o Homem planetário-visceral com temperamentos;

D) o Homem esquelético-planetário com temperamentos;

E) o Homem venoso;

F) o Homem planetário;

G) o Homem doença;

H) o Homem-ferida;

I) a Mulher grávida;

J) o Homem esquelético.

Em linhas gerais, esses são os tipos iconográficos mais disseminados na literatura astrológica e médica tanto no medievo quanto na Primeira Época Moderna. Contudo, nem todos contêm as representações astrológicas ilustradas, mas todos estão num contexto onde sempre existirá a relação homem-cosmos. Em todos os casos são tentativas de construir um arcabouço imagético que conseguisse dar conta da imensidão que é a literatura de base astrológica, principalmente em suas aplicações médicas. Essas representações serão amplamente disseminadas entre os séculos XIV, XV e XVI, exatamente no momento onde haverá um maior e intenso debate por parte dos artistas e eruditos sobre a inserção da astrologia tardo antiga no cotidiano e suas implicações sociais, políticas, filosóficas, e, sobretudo, religiosas.

Cada tipo é encontrado com maior ou menor intensidade, dependendo da localidade e do tipo de manuscrito da qual faz parte. Enquanto que o homem zodiacal é amplamente utilizado nos calendários germânicos do século XV e imitados pelos franceses até meados do século XVI; tipos como o homem zodíaco-planetário é comumente encontrado em livros de

161 horas para o uso Sarum. Desses o que terá maior amplitude será o homem zodiacal318, que é o objeto principal deste estudo.

Em se tratando de homem zodiacal, os exemplos existentes convêm a utilização de esquemas esféricos ou circulares num plano radial contendo algum texto. Chama a atenção para esses exemplos o fato de os signos ainda permanecerem ao redor do homem no centro da estrutura, indicando sempre um inter-relação entre os signos e a anatomia. Setas partem dos signos em direção ao corpo da figura no centro, em alguns casos quatro zonas são construídas para indicar os quatro elementos – ou até mesmo as quatro estações do ano.

Um exemplo se encontra numa pequena ilustração (Fig. 27a) datada de 1400, alocada na Biblioteca Nacional francesa, trata-se do MS. lat. 11229, fol. 45v. Nele temos a figura de um homem no centro de uma esfera, os doze signos do zodíaco estão à sua volta. Dos signos partem setas que cruzam e recruzam o corpo do homem e toda a esfera, cada seta que parte dos signos aponta para a região do corpo da qual rege. A estrutura da distribuição das partes do corpo pelos signos segue fielmente o proposto por Manilius319. Do centro da imagem, onde reside a figura do homem são construídos círculos que também envolvem a figura masculina.

Ao todo são sete círculos e em cada parte está escrito o nome dos sete planetas (do interior para o exterior: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno). Dos dozes signos, de apenas cinco partem setas duplas, um em direção a parte do corpo e outra em direção a representação planetária (o Sol e a Lua ficam de fora), formando o binômio: Touro-Vênus, Virgem-Mercúrio, Escorpião-Marte, Capricórnio-Saturno e Peixes-Júpiter.

No topo, acima do círculo temos um verso retirado do Flos medicinae scholae Salerni:

"Cor sapit, pulmo loquitur, fel conimovet iram, Splen ridere facil, cogit amare jecor"320. Este verso remete as qualidades que um corpo deve sempre alcançar e sobre o consenso das coisas [consensum rerum]. Numa ordem cósmica, o corpo deve manter paralelismos com os signos celestes entre suas partes [parallelismus signorum coelestium, cum partibus].

Um outro homem zodiacal contido num manuscrito nórdico (Fig. 27b) guarda as mesmas características no que concerne à disposição dos signos que emitem raios em direção ao corpo do homem, trata-se do Codex Vindobonensis Palatinus 5327, fol. 160, depositado na Biblioteca Nacional de Viena (Österreichische Nationalbibliothek (ÖNB)). Nele, um homem é circundado pelos signos e jaz no centro de um círculo, suas pernas estão levemente

318 Dependendo do contexto, veremos fusões entre os diversos tipos com o homem zodiacal.

319 MANILIUS, op. cit. livro ii, p. 453.

320 RENZI (org,) Flos medicinae scholae Salerni. Versailles: Imprimerie d´Auguste Montalant, 1861, p. 50.

Tradução do autor: "Coração sábio, pulmões falantes, raiva inflamada, sorriso que brilha, compele ao amor o fígado‖.

162 separadas e seus braços um pouco arqueados – como se este homem estivesse fazendo força para levanta-los, porém somente consegue até uma determinada altura. Sua cabeça parece um pouco inclinada e possui uma expressão densa em sua face como se lutasse contra aquilo que acontece. Neste, os signos não são representados em suas formas iconográficas, mas sim com apenas seus nomes inscritos ao redor do círculo, na parte mais externa. Na parte interna, os nomes dos sete planetas também estão espalhados envolta do homem.

A visibilidade do corpo como um todo está suspenso aqui. Tanto dos signos quanto dos planetas partem setas: dos signos as setas duplas atingem o corpo do homem na região indicada como pertencente deste signo e também atingem os planetas da qual os signos têm alguma relação. Assim são formadas setas principais e secundárias, as principais tem a função de representar a melothesia zodiacal, já as secundárias ligam um signo a três planetas. De acordo com Saxl, se levarmos em consideração o título que acompanha a imagem no fólio:

"Item Nota quod vnumquodlibet signum durat duos dies et 12 höre et semper habet vnum signum 3 facies planetarum et semper vna facies durat 20 höre"321, trata-se da aplicação da teoria do decanato aos planetas. "Os três planetas são, portanto, as respectivas faces [decanos]

de um signo do zodíaco e eles indicam a qualidade dos efeitos de cada terço de um signo"322. Diferente das outras representações, este homem guarda uma peculiaridade no que condiz a sua função e até mesmo através de como o artista construiu esta representação. Os ilustradores, até então, recorriam ao aspecto figurativo, como a escolha pela representação dos signos, pela sua iconografia usual. Se utilizavam das expressões gerais das teorias cosmológicas e isso demonstrava como a estrutura pictórica ajudava na prática médica- cosmológica, eram parte fundamental na prática da astrologia, principalmente a partir do século XIV.

Ainda no século XV, num outro manuscrito com algumas miscelâneas médico- astrológica (Fig. 28a), o Sloane 282 f.160, aparecerá uma ilustração seguindo o mesmo preceito iconográfico das duas analisadas anteriormente. Contudo, o que chama a atenção para esta ilustração é sua complexidade no que tange a forma como o artista a concebeu. Num primeiro olhar já se percebe que a ilustração condensa uma gama mais ampla dos conhecimentos cosmológicos, O artista/ilustrador teve a preocupação em exprimir uma

321 SAXL, idem. Tradução: "Observe também que em qualquer um, o sinal tem a duração de dois dias e 12 horas e sempre tem um sinal de 3 planetas que enfrenta, juntamente, uma duração de 20 horas.".

322SAXL, Fritz. Verzeichnis astrologischer und mythologischer illustrierter Handschriften des lateinischen Mittelalters II: Die Handschriften der National-Bibliothek in Wien (Sitzungsberichte der Heidelberger Akademie der Wissenschaften, philhist. Klasse, Jg. 1925/26, 2. Abhandlung. Heidelberg 1927, p. 49. Original: "Die drei Planeten sind also die jeweiligen facies eines Tierkreiszeichens und sie sind angegeben, um die Qualität der Wirkungen jedes Drittels eines Tierkreiszeichens zu kennzeichnen."

163 autêntica prática da fé pagã. De fato, estamos diante de uma representação que junta a iconografia do homem zodiacal com a teoria do microcosmo, de um lado; e por outro, os quatro elementos com a direção dos ventos. Formando assim, um complexo sistema astrológico fundado a partir da concepção de um diagrama matemático.

No centro se encontra o homem sob um fundo preto, a sua volta se formam as esferas, os círculos que refletem e agem sobre si. Os quatro primeiros círculos representam os quatro elementos fundamentais: terra, fogo, água e ar, cujo nomes estão inscritos sob a cabeça do homem. Novamente, temos o esquema de setas que ligam os signos as partes do corpo e aos planetas demonstrando as direções na qual a força cósmica se orienta e exerce seus efeitos no mundo e no homem. As setas vermelhas ligam os signos as partes do corpo que lhe pertencem enquanto que as fracas linhas pretas, ligam-se aos planetas governantes. A quantidade de informação espalhada pela ilustração não é comum de se ver em representações desse tipo.

Provavelmente, o artista quis elencar todos os elementos necessários para exemplificar a relação cosmos-planetas-signos-homem. De fato, esta ilustração contém todos os elementos necessários para servir como objeto de verificação do melhor momento para o que se pretende fazer no corpo do paciente.

Cada esfera planetária contém uma pequena anotação que situa a relação cosmológica e astronômica em relação ao homem. Por exemplo, o comentário sobre Saturno relata que a duração total de seu curso é de trinta anos, está situado no sétimo céu e governa o baço. Isso mostra como o homem está sujeito aos ditâmes astrais através de uma ordem simpatética das coisas para com o Universo323. Saxl afirma que o manuscrito da qual a ilustração faz parte é uma cópia de um outro manuscrito espanhol, que por sua vez é uma tradução árabe de uma obra helenística. Sua função era claramente prática: guiar aqueles que se aventuravam pelos caminhos dos ensinamentos pagãos sobre os astros a como dominá-los324.

Os três exemplos acima demonstram um tipo de representação, herdada do século XI, que se conforma a partir da estrutura do diagrama. Porém não se trata apenas de diagramas

323 PAGE, Sophie. Astrology in Medieval Manuscripts. London: The British Library, 2002, p. 53.

324 SAXL, idem, p. 56. "Il manoscrito boemo è copia di um manuale di astrologia spagnolo, che a sua volta risale a uma traduzione araba di un'opera ellenistica; qui la cosmologia ellenistica non è più subordinata alla teologia cristiana. Ciò che abbiamo di fronte è um autentico manuale pagano, destinato a um lettore del quattordicesimo secolo per intenti astrologici pratici: com la sua guida egli potrà dominare, sia pure entro la cornice della vita critiana, quelle forze cosmiche di cui è ora nuovamente consapevole grazie alla teoria pagana e alla sua

applicazione". Tradução: "O manuscrito boêmio é uma cópia de um manual de astrologia espanhola, que por sua vez remonta a uma tradução árabe de uma obra helenística; aqui a cosmologia helenística não é mais

subordinada à teologia cristã. O que temos diante de nós é um autêntico manual pagão, destinado ao leitor do século XIV para fins astrológicos práticos: com sua orientação, ele poderá dominar, mesmo dentro da estrutura da vida crítica, aquelas forças cósmicas das quais agora está ciente graças à teoria pagã e sua aplicação."

164 que exercem a função de calendários, sendo pensados partindo das teorias do macrocosmo e microcosmo. Agora, eles carregam a natureza médica que foi fermentada até século XIII nos manuais e manuscritos astrológicos-médicos. Essas ilustrações não somente versam sobre a relação do homem com o firmamento, estabelecendo uma co-relação simpática e harmônica.

O corpo humano entra em cena e junto se estabelece a teoria zodiacal, planetária e, principalmente, o resgate do conceito de melothesia. Esse corpo agora está entremeado por forças cosmológicas que incidem diretamente em seus órgãos, beneficiando-os ou não.

Os planetas são demonstrados em círculos concêntricos colocados em volta dos signos zodiacais – que por sua vez envolvem o corpo humano. Em alguns casos, são acrescidas quatros zonas circulares que remetem aos elementos primários. De fato, essas figurações sobre o cosmos serão identificadas como exemplos de homem microcosmo, ao mesmo tempo que são chamadas de homem zodiacal. A explicação básica reside na configuração pictórica: é verdade que ambas iconografias são utilizadas em harmonia; juntas, elas concebem e expressam a correlação plena entre cosmos-homem, sendo mediada pelos planetas e signos.

Portanto, é usual acharmos representações do homem zodiacal nos mesmos manuscritos onde encontramos a imagem do homem microcosmo. Isso demonstra a tese da qual suas bases iconográficas são intercambiáveis.

A iconografia do homem zodiacal e a do homem microcosmo formam um grande amálgama estritamente necessário para a leitura correta do cosmos. Assim, pelas imagens, o cirurgião-barbeiro pode se orientar na hora de realizar uma consulta sobre qualquer procedimento, como a flebotomia, por exemplo. A leitura desses elementos pelas imagens impactará drasticamente no funcionamento e no mecanismo de como deve ser a leitura astral do corpo. O artista tem um papel fundamental nesse processo, pois é ele quem resgata esses elementos sobreviventes e os convertem em imagens. Nesses três tipos pictóricos analisados a diferença reside, principalmente na utilização das linhas de conexões para indicar a reciprocidade entre os signos e os planetas. Anexado a isso entra em jogo a inserção dos elementos de formação do mundo terrestre (terra, fogo, água e ar) e do homem. Essas ilustrações resgatam o método primordial de análise do médico no medievo, onde se estabelece uma lógica de dedução dos diagnósticos pelas imagens, através dos astros.

The body of Greek medicine was pressed into the scholastic framework of the doctrines of the Middle Ages. Logical deduction of diagnoses and remedies from tables finally constituted the paramount method of the mediaeval physician. It is this scholastic version of Greek biology to which the realistic mind and above all the

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religious scepticism of Paracelsus, Agrippa of Nettesheym, van Helmont, Campanella, Comenius, Sir Thomas Browne were opposed.325

Cabe, no fim, ao artista da primeira época moderna a função de concatenar a recepção dos elementos astrais provindos da antiguidade junto com a forma que foram recebidos pelos eruditos do medievo. Um duplo processo de formação para o artista. De todo modo, se deve pontuar que nesse mundo onde pululam imagens sobre a conexão homem-cosmos, diversos são os modos e tipos estilísticos326.

Em geral, essas figuras são encontradas com certa abundância nos séculos XIV e XV nos escritos médico-astrológicos com tipologias das mais variadas. Sua utilização estava condicionada ao uso e a natureza do tratado que era construído, e assim, era função do artista combinar, modificar, fundir determinados aspectos iconográficos para que estes corroborassem com a obra num todo. Por isso, na maioria dos manuscritos encontraremos não apenas representações de um único tipo e sim, os vários tipos iconográficos sendo ajustados de acordo com o seu propósito. Teremos um homem zodiacal fundido com a figura do homem venoso no intuito de mostrar o complexo arranjo físico por onde circulam todo o nosso sangue e como as instâncias astrais impactam e ajudam nos processos cirúrgicos, por exemplo.

Um dos principais meios por onde essas ilustrações circulavam eram nos denominados calendários médicos. Com efeito, o complexo aparato que formava esses calendários de bases astrológicas residia na sua função de servir como uma espécie de obra compilada de referência onde os médicos realizam suas medições e cálculos. Ou seja, era um instrumento

325 PAGEL. Walter. "Prognosis and Diagnosis; A comparison of Ancient and Modern Medicine. in: Journal of the Warburg Institute, London, II, I938-9, p. 396. Tradução do autor: "O corpo da medicina grega fora pressionado n estrutura escolástica das doutrinas da Idade Média. A dedução lógica do diagnóstico e as tabelas de medicação constituíram o principal método do médico medieval. Fora essa versão escolástica da biologia grega que se opunhava à mente realista e, acima de tudo, ao ceticismo religioso de Paracelso, Agripa de Nettesheym, van Helmont, Campanella, Comenius e Sir Thomas Browne.

326 Dentro desse escopo uma outra representação de homem zodiacal chama atenção. Trata-se um uma ilustração (Fig. 28b) contida no manuscrito de origem italiana Can. Misc. 559, fol. 2, datada do século XIV.

Diferentemente das outras imagens e da composição até agora analisada, esta ilustração traz um homem ao centro do diagrama todo contorcido tendo facas inseridas em toda a região do seu corpo. Cada faca sai do primeiro círculo que está envolta deste homem, trata-se dos dozes signos zodiacais. Parece que cada signo lança estas facas em direção homem. Antes eram setas/raios, agora são facas que adentram as partes onde cada signo governa no o corpo humano. Este homem todo contorcido – seus pés tocam a sua cabeça produzindo um movimento de 360 graus, formando, aparentemente, um círculo com seu corpo. Sua aparência física remete à figura de Jesus Cristo, cabelos longos, barba; talvez o artista quisesse trazer a imagem de Cristo como aquele que mantém relação com o cosmo. Na parte intermediária do grande círculo temos desenhados, aos todos doze pequenos círculos que acompanham os dozes signos. Na parte mais externa temos os sete planetas. Aqui seus nomes são repetidos por três vezes, são três series com os nomes dos sete planetas tendo ao todo, vinte e uma inscrições. De fato, isto é curioso numa representação de homem zodiacal. Provavelmente o artista, para solucionar o problema da inserção do decanato na composição tenha se apegado a esse artificio. Aqui estamos falando da conexão entre o decanato com os sete planetas, pois os planetas também possuem a tríade de decanos.

Pouco se sabe sobre esta ilustração em especial, trata-se de apontamentos baseados em comparações, levando em consideração os elementos dispostos pelo artista na imagem.

166 de consulta e leitura que levava em consideração, por exemplo, a posição da lua no zodíaco. E partindo desse dado, formulava-se a diagnose necessária para o tratamento corporal.

O uso desses calendários estava inserido na necessidade em realizar prognose para poder construir uma diagnose sobre aquilo que necessitava consultar. Entre os fatos – para os períodos certos onde se deve, por exemplo, realizar uma cirurgia ou mesmo uma flebotomia tendo por base os dias favoráveis ou não - se consultava o período onde a lua residia nas casas zodiacais e planetárias327.

No século XIV esses manuscritos – diferentemente das fontes do século XI328 - serão obras de referência no estudo medico-astrológico, sendo um tipo de estudo independente.

Encontraremos dois formatos de calendários: o primeiro se resume a um tipo de códex trivial que reunia elementos básicos do conhecimento cosmológico; o outro, uma espécie de vade- mécum dos procedimentos médico-astrológicos. Bober sustenta a ideia de que esses calendários eram versões condensadas dos ensinamentos astro-medicinais, deveria conter ali o necessário para um cirurgião-barbeiro poder realizar as medições e consultas para a posteriori, realizar a cirurgia que pleiteava. Contudo, nesses calendários veremos uma utilização intensiva de ilustrações que, servindo como exemplos e ferramentas para as consultas astrais, terão um lugar cativo no desenvolvimento da iconografia do homo signorum.

The usual content of such Kalendaria, after the regular calendar for the year, includes the following (although in no fixed sequence): tables of the movable feasts;

lunar and solar eclipses; planetary and zodiacal aspects, conjunctions, and positions;

the canon for phlebotomy, purgation and bath-ing; the dominion of the signs and planets; the veins, their location and related diseases; and, usually, urinalytical tables.329

327 O'BOYLE, Cornelius. Astrology and Medicine in Later Medieval England The Calendars of John Somer and Nicholas of Lynn. Sudhoff's Archiv, Bd. 89, H. 1(2005), p. 7: "Conversely, when the humours with draw into the inner most parts of the body during the second and fourth lunar phases, this is a dangerous time for phlebotomy.

We are then reminded not to cut into any part of the body when the moon is in the sign of the zodiac governing that part. The reason given is that the moon encourages the humours to rush to that part of the body to dull any pain inflicted upon it, and if the humours escape through a cut, they cannot serve their function and the patient dies". Tradução: " Por outro lado, quando os humores se desenham no interior da maior parte do corpo durante a segunda e a quarta fase lunar, este é um momento perigoso para a flebotomia. Somos então lembrados de não cortar em nenhuma parte do corpo quando a Lua está no signo do zodíaco que governa essa parte. A razão dada é que a Lua encoraja os humores a correr para aquela parte do corpo para aliviar qualquer dor infligida a ela, e se os humores escapam através de um corte, eles não podem servir à sua função e o paciente morre ".

328 A base para os calendários médicos reside nos manuscritos do século XI, principalmente aqueles que versavam sobre a localização dos planetas, das veias do corpo e sua relação com os planetas e signos (o surgimento da iconografia do homo venarum tem como principal escopo esses primeiros estudos). No geral, esses calendários mediam para cada mês um regime de higienização e tratamento (sangria, flebotomia) através

de ervas e tudo aquilo que beneficiasse o corpo. C.f. Thorndike, History of Magic, I, p. 68o ff; O'Boyle, idid, p. 4.

329 BOBER, ibid, p. 24. Tradução: "O conteúdo habitual de tal Kalendaria, depois do calendário regular do ano, inclui os seguintes aspectos (embora em nenhuma sequência fixa): as tabelas das festas móveis; eclipses lunares e solares; aspectos, conjunções e posições planetárias e zodiacais; o cânone para flebotomia, purgação e banho; o domínio dos signos e planetas; as veias, sua localização e doenças relacionadas; e, geralmente, tabelas

urinolíticas". .