• Nenhum resultado encontrado

Império do Brasil, Estado e nação: historiografi a

No documento atas do - i encontro de história da ugf (páginas 71-74)

SESSÃO 2 História e Cinema

2. Império do Brasil, Estado e nação: historiografi a

Antes, porém, julgamos muito pertinente (re) lembrar que termos e conceitos políticos como “nação” são polissêmicos e carregam consigo uma gama de conteúdos semânticos que se superpõem ao longo do tempo e que, apesar da predominância de um significado sobre o outro em uma determinada época, eles não excluem uns aos outros. E que ao historiador é imprescindível, para não incorrer em anacronismo, saber como os contemporâneos mobilizavam sua linguagem política. 2

Nesse sentido, o historiador Marco Antônio Pamplona mostra como, no mundo ibérico, o termo “nação” passou por importantes transformações entre os anos de 1750 e 1850. Partindo da análise dicionários de época e atento às edições que se seguiam, Pamplona afirma que, por volta dos anos 1820, o conteúdo semântico do vocábulo se politiza, isto é, deixa de estar associado meramente a uma origem étno-linguística e passa a identificar um determinado grupo de cidadãos pertencentes a um determinado corpo político, o Estado.

Num espaço de tempo não superior ao de duas gerações, novos conteúdos se afirmaram e ressignificaram progressivamente o termo. Mesmo quando os velhos significados permaneciam (é o caso do conteúdo étnico que sempre acompanhou o termo natio, identificando-o à descendência ou à gens), eram os vínculos entre nação e Estado, ou nação e ordem política, os que marcariam as vozes mais representativas desse embate cultural no período.

(PAMPLONA, 2009, 192).

Em outras palavras, Pamplona chama a atenção para dois pontos: primeiramente, essas ressignificações da “nação” traziam consigo a gênese da formação do Estado-nação moderno no mundo ibérico. Segundo, o período do vintismo é fundamental para compreender essa transformação. Isso porque a convocação das Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa em 1821 engendrou um impasse político: a resolução de fazer retornar o príncipe regente Pedro de Alcântara ameaçava a autonomia alcançada pelo Império do Brasil, parte da Monarquia Portuguesa, quando da transferência da Corte para a cidade do Rio de Janeiro, cidade essa que ganhara o status de “cabeça” do Império. Dessa forma, a nação portuguesa, vista

2 A esse respeito, é importante destacar as contribuições de duas escolas historiográficas que, cada uma a sua maneira, contribuíram para a percepção da temporalização da linguagem no mundo moderno e denunciaram o anacronismo presente nos trabalhos de história política em meados do século XX: a História do Discurso Político, consolidada na Inglaterra pelos os historiadores J. G. A. Pocock e Quentin Skinner, figuras de destaque da chamada escola de Colinwood. E a Begriffsgeschichte, ou história dos conceitos, desenvolvida na Alemanha, cuja figura mais representativa é o historiador Reinhart Koselleck. Cf. POCOCK, J. G. A. Linguagens do Ideário Político. São Paulo: Edusp, 2003; KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-RIO, 2006.

até então pelos dirigentes políticos de além e aquém mar, como “uma só derramada pelos dois continentes”, enfrentava a ameaça de cisão entre os portugueses brasileiros e os portugueses europeus.

Essa tensão pode ser identificada nos debates nas Cortes, onde um outro termo, correlato à nação, também era mobilizado em seu conteúdo político: a pátria. Ainda de acordo com Pamplona, com as Cortes, apesar da identidade nacional dos nascidos no Brasil ainda estar associada à ascendência portuguesa - e essa identidade era fundamental para a distinção dos cidadãos naquela sociedade hierarquizada -, os mesmos passaram a defender as prerrogativas da pátria, entendida agora como a “pátria de direito”.

Portanto, as revoluções liberais impuseram, por um lado, o constitucionalismo ao monarca D. João VI, reelaborando a Monarquia portuguesa em outras bases e, por outro, trouxeram à tona a discussão que, no limite, levou à cisão da Nação portuguesa e fez emergir um novo e autônomo corpo político, o Império do Brasil.

Contudo, a emergência do Império do Brasil como um corpo político autônomo representava apenas o resultado de um processo que absolutamente não trazia em seu conteúdo um caráter nacional. Tomado por si só, esse resultado pode nos levar ao equívoco de ofuscar os múltiplos interesses que estavam em jogo, que se traduziam em diferentes projetos políticos, e imaginar a coesão interna desse corpo político em seu conjunto de cidadãos, ou melhor dizendo, pode levar a pressupor a existência de uma identidade nacional que antecederia à autonomia política. Aliás, esse equívoco traz à tona um elemento interessante, qual seja o de que a formação das nações nas Américas não se encaixa no paradigma do nacionalismo europeu. É o que apontam Pamplona e Don H. Doyle:

Como antigas sociedades coloniais, os novos Estados-nação americanos precisavam ancorar sua reivindicação de independência em queixas e interesses, mais do que em idéias etnonacionalistas sobre diferenças primordiais em relação à pátria de origem ou em mitos de alguma prévia história comum como nação. (DOYLE; PAMPLONA, 2008, p. 20-21).

E o equívoco que decorre da idéia de que as Américas teriam “antecipado” à Europa, servindo-lhe servido de exemplo, é denunciado numa crítica mais explícita à tese dos criollos pioneiros, de Benedict Anderson. Segundo os autores, esse autor

usou a independência da América Latina para exemplificar o novo nacionalismo do século XIX. Ele pode, porém, estar equivocado ao alegar que os movimentos anticolonialistas eram nacionais, se com isso devermos entender que cada país tinha noção de sua identidade específica antes da independência. (DOYLE; PAMPLONA, 2008, p. 21)

Portanto, a formação de Estados-nação no âmbito da América Latina, e mais especificamente no caso do Brasil, não deve ser encarada como o produto da consciência nacional, ou da nação em busca de seu “telhado político”, no dizer de Ernst Gellner. A conformação da nação se daria apenas depois da consolidação do Estado e levada a cabo por ele próprio, ao longo daquele século e, em alguns casos, adentrando mesmo o século XX.

No “mosaico de pátrias luso-americanas” que era o Brasil, o nexo que unia as províncias coloniais irradiava de Lisboa, da Corte portuguesa. Com a independência, o frágil traço de unidade dessas províncias perdeu completamente o sentido. Dessa forma, o primeiro desafio imposto a um grupo específico de cidadãos do Império era o de manter a unidade territorial diante da possibilidade real de fragmentação. E a unidade em torno de um novo centro político, isto é, a opção monárquica, interessava, sobretudo, ao grupo dirigente proveniente do sudeste, mais especificamente do Rio de Janeiro, cabeça do novo Império.

Segundo Ilmar Rohloff de Matos, o Império conformou-se, pois, a partir da díade herança/construção. Os cidadãos responsáveis pela construção do novo corpo político só o podiam ser porque eram também herdeiros de “um nome; um território e sua cabeça; uma nação”

(MATTOS, 2005, 12). Assim é interessante perceber, por exemplo, como o termo brasileiro foi constantemente ressiginificado nas primeiras décadas do século XIX. De início, referia- se aos portugueses que, uma vez feito fortuna na América, retornavam para a sua pátria, seu lugar de origem. Aos poucos, passa a significar aquele português que tem como dever a defesa apaixonada não da “terra de seu pai”, originária, mas da sua terra de “direito”, a exemplo do que vimos em relação à politização do termo pátria. Em suma, brasileiros eram aqueles portugueses que, juntamente com o príncipe regente, “também tinham decidido ficar”.

Indo além, o autor mostra como o Império do Brasil foi marcado por uma singularidade:

“a expansão para dentro”. Tolhido pelo Império Britânico em sua pulsão expansionista em direção à “fronteira natural” na região Cisplatina e na tentativa de incorporar Angola, coube ao Império a construção de um Estado em termos territoriais, peça imprescindível na elaboração da nação. Daí resulta que

A associação entre Império do Brasil e Nação brasileira era propiciada pela construção do Estado imperial. E esta construção, por sua, vez, impunha a própria constituição da Nação. À dominação das demais ‘nações’ somava-se a direção pelo Governo do Estado daqueles brasileiros em constituição, o que implicava um padrão diverso de relacionamento entre aquele governo e o da Casa, ‘quebrando’ as identidades geradas pela colonização, por meio da difusão dos valores, signos e símbolos imperiais, da elaboração de uma língua, uma literatura e uma história nacionais, entre outros elementos.

Impossibilitados de expandir suas fronteiras, o Estado imperial era obrigado a empreender uma expansão diferente: uma expansão para dentro. E aí

reside o traço mais significativo na construção de uma unidade. (MATTOS, 2005, p. 26)

No documento atas do - i encontro de história da ugf (páginas 71-74)

Documentos relacionados