2.3. Lixo Marinho
2.3.1. Impactos do lixo marinho
A presença de resíduos sólidos no ambiente praial afeta a estética das praias causando uma enorme perturbação visual (ARAUJO & COSTA, 2003; CONCENTINO, 2008). Em Cape Peninsula na Cidade do Cabo - África do Sul, estudos revelaram que a limpeza da praia é o principal fator que determina a escolha da praia. Para aquele local, 40% dos turistas estrangeiros e 60% dos domésticos não retornariam a praias com mais de 10 resíduos por metro, causando um grande impacto econômico as praias consideradas sujas (BALLANCE et al., 2000). No Brasil, Santos et al. (2001) aponta em pesquisa na Praia no Cassino (RS), que quase 30% das pessoas que já sofreram com a presença de resíduos na praia, buscariam outra praia alternativa para o lazer.
A indústria do turismo quase sempre desconsidera a necessidade de manter a integridade do ambiente responsável por sua sobrevivência (CIFUENTES, 1992), levando a diminuição da qualidade dos ambientes oferecidos. Isto acarreta na diminuição da procura
pelos mesmos e por consequência todo o setor de comércio e serviços que usufrui da presença dos turistas acaba por ter prejuízos (POLETTE & CAVEDON, 2001).
Além da perda econômica relacionada ao turismo, existem os gastos públicos desnecessários a limpeza das praias. Limpar continuamente praias preenchidas de resíduos significa um gasto que poderia ser evitado ou reduzido (ARAUJO & COSTA, 2003).
2.3.1.2. Ambientais
Os plásticos correspondem a maior parcela dos resíduos encontrados no ecossistema marinho (CONCENTINO, 2008; KOUTISODENDRIS et. al., 2008; UNEP, 2009a; MACHADO & FILLMANN, 2010) e consistem numa das maiores dificuldades à preservação do mesmo. Derraik (2002) afirma que a poluição plástica é um risco a biodiversidade marinha até maior que o causado pela pesca excessiva, pelas mudanças climáticas e outras formas de distúrbio antropogênico.
Segundo Law (1993), existe basicamente dois tipos de categorias dos resíduos plásticos. Um consiste em grânulos de resina de alguns milímetros de diâmetro, denominado Pellets, sendo comumente lançados ao ambiente marinho por meio de navios que os transportam. Estes são semelhantes a ovos de peixe, fazendo com que algumas vezes sejam confundidos por certos organismos que se alimentam de plâncton. A segunda e maior categoria são os produtos manufaturados, principalmente embalagens, que foram abandonados ou rejeitados. Por suas características - flutuabilidade, degradação lenta, fácil dispersão, cada vez maior produção, e utilização ao longo do tempo – seus efeitos no ambiente marinho são cumulativos, por consequência os problemas relacionados aos itens plásticos estão se tornando cada vez mais crônicos e globalizados (DERRAIK, 2002;
ARAUJO & COSTA, 2004).
Existem também, já documentados, os problemas com a ingestão e enredamento dos animais costeiros, uma vez que mamíferos marinhos, tartarugas e aves, são animais altamente migratórios e muito vulneráveis à contaminação por resíduos sólidos (LAIST, 1997). Estudos de duas décadas atrás, já revelavam números alarmantes, como é o caso da costa da Carolina do Norte, em 1992. Um estudo, com 1.033 aves marinhas detectou que 55% dos animais apresentavam partículas de plástico em seu sistema digestivo (MOSER AND LEE, 1992). Page et al. (2004) aponta estimativas conservadoras de que anualmente 1478 leões e lobos marinhos morrem vítimas de enredamentos na Austrália. De todas as sete espécies de tartarugas marinhas existentes, seis já foram encontradas enredadas ou com resíduos em seu conteúdo estomacal. O lixo marinho flutuante ingerido pelas tartarugas é aparentemente confundido com seu alimento natural (e.g. sacos plásticos confundidos com cnidários) (LAIST, 1997).
O lixo marinho vem também afetando as relações de síndromes ecológicas.
Naturalmente as síndromes ecológicas são relações entre os organismos e seus habitats e/ou outras espécies, e ocorrem de várias maneiras, como as relações mutualísticas, comensais ou de protocoperação, sendo necessárias para a vida dos organismos (BEGON et al., 2006). Porém em consequência dos atuais processos antropogênicos nas regiões costeiras e marinhas, surgiram as síndromes ecológicas com o lixo marinho, que é a interação dos organismos com os resíduos sólidos, normalmente utilizando-os como abrigo ou substrato. Por falta de estudos sobre o tema, ainda não se sabe quais as ameaças ao meio ambiente marinho e as consequências que este processo causará no futuro (CARVALHO-SOUZA, 2009).
A introdução de espécies exóticas pode ocorrer também em função do lixo marinho, os resíduos sólidos, principalmente plásticos, funcionam como vetores, carreando organismos para outras localidades através da bioincrustação. Farrapeira (2011) compilou 122 espécies bentônicas, transportadas por resíduos sólidos abiogênicos flutuantes nos oceanos, o que considerou surpreendente, uma vez que não há estudos específicos sobre este vetor de dispersão no Brasil e existe um número pequeno de estudos dedicados ao conhecimento desta biota no mundo.
Segundo Santos (2005), talvez o maior risco relacionado à incrustação de lixo marinho, com a dispersão por correntes, seja a introdução de espécies exóticas na Antártida, uma vez que o continente antártico está isolado há milhões de anos e reúne grande quantidade de espécies endêmicas com relações ecológicas bastante consolidadas e particulares, podendo trazer consequências mais graves que em outras áreas do planeta.
O mesmo é válido para ilhas oceânicas que igualmente possuem ecossistemas isolados e bastante frágeis (IVAR do SUL, 2010).
Existe ainda, a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, tão comentada pela mídia.
Caracteriza-se por ser uma enorme coleção de lixo marinho no meio do Oceano Pacífico Norte, abrangendo águas da costa ocidental da América do Norte ao Japão. A quantidade de resíduos da Grande Mancha de Lixo do Pacífico se acumula porque a maioria dos materiais não é biodegradável, fala-se de plástico novamente. Na realidade a mancha funciona com uma sopa de plástico de grandes proporções, misturada a resíduos maiores, como apetrechos de pesca e sapatos, por exemplo. Não se sabe ao certo a composição da mancha nem o seu tamanho real, porém, sabe-se que cresce a cada dia, sendo alimentada por resíduos que chegam através das correntes oceânicas. Os cientistas e exploradores concordam que limitar ou eliminar o uso de plásticos descartáveis e aumentar o uso de recursos biodegradáveis será a melhor maneira de limpar a mancha (NOAA, 2014).
Entretanto quando se trata de valores culturais e econômicos, é previsível que nenhuma solução prática tenha sido encontrada até o momento.