4. Sintomas da esteticidade
4.6. Indefinibilidade
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diferentes para tornar familiar ao homem a perturbadora diversidade do mundo. Mas, quanto “mais compactamente os homens cobrem o que é diferente do espírito subjetivo com a rede de categorias, tanto mais profundamente se desabituam da admiração perante esse outro e, com a familiaridade crescente, se frustram da estranheza”. (ADORNO, 1988, p. 147)
Estranho ao logocêntrico é aquilo que ele não consegue compreender (conceituar). Fora da linguagem (verbal) o mundo é inconcebível, porque nele habitam formas ainda não conspurcadas pela interpretação verbal. Muitas formas projetam sobre nós seus sinais sensíveis, que só podem ser percebidos, nunca conceituados, embora a vagueza de suas presenças contribui com o conhecimento estético do mundo.
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O nosso é um tempo em que o projeto da interpretação é em grande parte reacionário, asfixiante. (...) Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte. Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo – para erguer, edificar um mundo fantasmagórico de “significados”.
(SONTAG, 1987, p. 16)
À maneira da reflexão filosófica, a arte conceitual mantém a manifestação artística como produtora de conceitos – pouco nessa arte é deixado ao sensorial, ao passional ou ao afetivo. A arte conceitual suprimiu de seus ready mades a maioria dos sinais que compõem as experiências estéticas, utilizando-se das coisas já significadas pela cultura, para ressignificá-las (atribuindo-lhes outros conceitos) por meio de uma operação de descontextualização.
Ao buscar contrapor-se à metafísica tradicional da arte, o conceitualismo acabou por reforçar a ideia de que a arte é pura essência, pois a define como pensamento teórico. A arte conceitual dispensa o sensorial para se estabelecer definitivamente no logos, reproduzindo a milenar advertência platônica contra a sensualidade das formas estéticas e em favor do significado teórico das obras.
Alguns dos mais importantes sinais estéticos capturáveis pela percepção são aqueles que não cabem em nenhuma ‘definição’
(processo de compreensão de características comuns que formam um conceito). Enquanto os sinais sensíveis escapam da definição fabricada pelo conceito, a cultura logocêntrica considera a ‘indefinição’ uma qualidade negativa, porque acredita que tudo aquilo que não pode ser definido dentro de um conceito deve ser desqualificado como falsidade.
Hoje sabemos que todas as ocorrências que não são reduzidas a conceito formam a maior parte do que existe no mundo. Desprezá-las ou negligenciá-las seria recusar-se a obter um conhecimento precioso da realidade.
A indefinibilidade dos sinais estéticos evita que eles se reduzam a signos, mantendo-os como “radicais livres” em meio aos textos da cultura, tanto quanto nos fenômenos naturais, sendo alcançados pelo
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perceptor apenas quando este suspende seu cacoete logocêntrico de buscar sentido em tudo. No mundo real as coisas não fazem sentido, portanto não têm a finalidade de gerar uma resposta definida. Está no espaço da indefinibilidade de algo o frescor de um possível novo conhecimento.
O aspecto da indefinibilidade dos sinais estéticos vem a nós pelo fato deles serem produtos da materialidade das coisas e dos eventos.
Só é possível deduzir a definição de ideias sobre as coisas, pois as coisas mesmas não são definíveis. Mas como obter informação de algo
‘indefinível’? Utilizando-nos da percepção dos sinais que vem a nós pela tensão da experiência que temos de uma coisa ou de um evento.
O que não tem extensão, não pode ser definido e, portanto, é incomensurável. Ao romper com a noção de moldura, Mondrian já sentia a impossibilidade de definir (dar limites e medidas para) sua arte, permitindo assim a indistinção entre o que seria externo e interno ao seu fazer artístico. Tendências de um teatro contemporâneo já ensaiam misturar-se com o espectador, rompendo com a cerca tradicional que define atores no palco e o público na plateia; o cinema, vez por outra, já mistura não-atores em não-cenas captadas em realities filmados, enquanto as performances de promotores culturais derramam-se pelas ruas, em flash mobs, invadindo o espaço que não pertencia às Artes.
A definição (parte do processo de formação de um conceito) é uma moldura imposta pelo pensamento ao trecho do mundo real que ele pensa poder capturar com seu entendimento lógico. A tal “emolduramento”
o logocêntrico denomina ‘objeto’, que é praticamente sinônimo de conceito (concebido pelo pensamento) acerca da coisa que a mente focaliza.
Aquilo que não pode ser medido, não pode ser definido (colocado dentro de uma moldura: classe, categoria, espécie), e essa indefinição é muito comum no campo estético e das Artes. Assim, se a fruição estética, dentre elas o artístico, é intensiva – ocorre simultaneamente como uma epifania –, não há extensão suficiente para medi-la. Sem
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essa medida não há como capturar o tempo, muito menos gerar segmentação suficiente para constituir signos e discursos. Por isso, os sinais de indefinibilidade de um fenômeno indicam sua esteticidade.
Sinais estéticos de indefinibilidade fustigam a soberba da lógica, que sonha mensurar o mundo para compreendê-lo em seus conceitos.
Mas a interminável lista de fracassos da razão nos pôs mais humildes, a ponto de percebermos que o mundo é infinitamente maior do que o pequeno trecho que as linguagens de nossa cultura conseguem em parte significar. Desse modo, nos instantes em que a vigilância do logos fenece, vislumbramos o mundo em sua real indefinibilidade, quando nossa percepção esbarra com a sensação de algo que transborda a medida do razoável e nos transporta para fora do sentido.
A impossibilidade de ser medido obriga-nos a um silêncio insignificante diante do fenômeno estético – o silêncio das linguagens.
“[Mas, o] silêncio não é diretamente observável e no entanto ele não é o vazio, mesmo do ponto de vista da percepção: nós o sentimos, ele está ‘lá’ (no sorriso da Gioconda, no amarelo de Van Gogh, nas grandes extensões, nas pausas)” (ORLANDI, 1992, p. 47).
Fora das linguagens, nos vastos campos inconcebíveis dos sinais estéticos encontram-se os efeitos da indefinibilidade do mundo real.