2.3 O fenômeno El Niño Oscilação Sul – ENOS
2.3.1 Intensidade e os principais impactos do ENOS no clima global
Para definir a intensidade dos El Niños e La Niñas, a NOAA utiliza o Índice Oceânico Niño – ION, que é gerado a partir das TSM no Oceano Pacífico. Segundo a Golden Gate Weather Service (2019), o ION é a anomalia média de três meses da TSM na região Niño 3.4.
A Golden Gate Weather Service (2019) também aponta a classificação da intensidade dos eventos de ENOS baseando-se no ION. Neste sentido, um evento de El Niño pode ser considerado de intensidade Fraca, quando as anomalias variam de 0,5°C a 0,9°C; Moderada (1,0°C e 1,4°C), Forte (1,5°C e 1,9°C) e; Muito Forte (maior ou igual a 2,0°C). Os eventos de La Niña são considerados de intensidade Fraca quando as anomalias variam de -0,5°C a -0,9°C;
Moderados (-1,0°C a -1,4°C) e; Forte (menor ou igual a -1,5°C).
Segundo as informações disponibilizadas pela Golden Gate Weather Service (2019), os eventos mais intensos de El Niño (de intensidade Muito Forte), registrados até hoje no mundo, ocorreram nos anos hidrológicos de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016. Já os eventos mais intensos de La Niña (Forte) ocorreram nos anos hidrológicos de 1973/1974; 1975/1976;
1988/1989; 1998/1999; 1999/2000; 2007/2008 e 2010/2011. No Quadro 2 são destacados os demais anos classificados como El Niño forte, moderado e fraco, assim como os eventos La Niña classificados como moderado e fraco.
Quadro 2 - Períodos de ocorrência do ENOS classificados conforme sua intensidade
El Niño La Niña
Fraco Moderado Forte Muito Forte Fraco Moderado Forte 1952/53 1951/52 1957/58 1982/83 1954/55 1955/56 1973/74
1953/54 1963/64 1965/66 1997/98 1964/65 1970/71 1975/76 1958/59 1968/69 1972/73 2015/16 1971/72 1995/96 1988/89 1969/70 1986/87 1987/88 1974/75 2011/12 1998/99
1976/77 1994/95 1991/92 1983/84 1999/00
1977/78 2002/03 1984/85 2007/08
1979/80 2009/10 2000/01 2010/11
2004/05 2005/06
2006/07 2008/09
2014/15 2016/17
2018/19 2017/18
Fonte: Golden Gate Weather Service (2021)
É importante mencionar que o ENOS provoca repercussões nos climas da terra, principalmente na variabilidade dos elementos climáticos temperatura, umidade e precipitação pluviométrica. Quanto maior a intensidade do ENOS, seja na sua fase quente, considerada El Niño, ou na sua fase fria, La Niña, maior o seu poder de influência na variabilidade dos elementos climáticos citados.
Conforme Molion (2017), o fenômeno ENOS afeta a dinâmica climática em escala global e produz impactos generalizados sobre as atividades humanas, gerados por inúmeras catástrofes ligadas a severas secas, inundações, ondas de calor e de frio.
Essas repercussões, também chamadas por Silva e Carpenedo (2021) de teleconexões do fenômeno ENOS, não se manifesta, em diversas partes do planeta, de maneira homogênea.
Conforme as informações do CPTEC/INPE (2019) e da NOAA (2019), durante um evento de El Niño, ocorre redução das precipitações em grande extensão da Indonésia e da Australia, e de algumas porções da Índia, Brasil e do continente africano. Com ocorrência de registros de chuvas acima da média em algumas porções do sul do Brasil e do Chile, numa região entre o sul dos Estados Unidos e norte do México, sudoeste asiático e leste do continente africano.
(Figura 9).
Durante eventos de La Niña, há uma inversão da anomalia de precipitação nos mesmos locais impactados pelo ENOS, ou seja, onde se verificam precipitações abaixo da média durante o El Niño, passam a registrar chuvas acima da média devido a ocorrência do La Niña. (Figura 9).
Figura 9 - Influências do El Niño e da La Niña na distribuição de chuvas em diferentes regiões do mundo
Fonte: NOAA (2021)
Segundo Oliveira (2001), Berlato e Fontana (2003), Grimm (2009), Cavalcante et al.
(2009), Borsato (2016) e Silva e Carpenedo (2021) o ENOS influencia na variabilidade climática no território brasileiro de diferentes formas.
Durante os eventos de El Niño há tendência de: a) secas no norte e leste da Região Norte; b) secas no norte da Região Nordeste entre os meses de fevereiro a maio; c) não há mudanças no regime da precipitação pluvial na maior parte da Região Sudeste, com exceção ao extremo sul do estado de São Paulo; d) na Região Sul ocorre o aumento da precipitação pluviométrica na primavera (do ano de início do El Niño) e no final do outono e início do inverno do ano seguinte, em detrimento do movimento das frentes frias que atuam sobre a região por vários dias; e) na Região Centro-Oeste os eventos de El Niño cooperam para
excessos de chuva durante o verão e o outono, principalmente no oeste e sul. (Quadro 3).
Durante episódios de La Niña notam-se efeitos inversos aos identificados durante os episódios de El Niño, sendo que: a) Na Região Norte do país há tendência de precipitações pluviométricas acima da média; b) no nordeste do Brasil há possibilidades de chuvas acima da média na parte semiárida, porém para que a tendência se confirme, segundo Berlato e Fontana (2003), as condições atmosféricas e oceânicas, sobre o Oceano Atlântico, deve ser favoráveis, com TSM acima da média no Atlântico tropical sul e abaixo da média no Atlântico tropical norte (Dipolo do Atlântico); c) no sudeste do Brasil há influências nos valores de temperatura do ar, que podem permanecer abaixo da média climatológica, durante o inverno e verão; d) no sul do país as frentes frias se deslocam com maior velocidade e permanecem por menos tempo sobre a região que provoca a tendência de diminuição da precipitação pluvial, principalmente durante a primavera e início do verão; e) no centro-oeste do Brasil há elevação do volume de chuva durante a primavera e reduções no verão e outono. (Quadro 3).
Quadro 3 - Síntese das influencias do ENOS na precipitação pluviométrica nas regiões geográficas do Brasil
Regiões Influências do El Niño Influências da La Niña Norte Secas de moderada a intensa no
norte e leste.
Tendência de precipitações pluviais abundantes no norte e leste.
Nordeste
Secas de diversas intensidades no norte durante a estação chuvosa
de fevereiro a maio.
Possibilidade de precipitações pluviométricas acima da média na
região semiárida, mediante a associação do La Niña e do Dipolo do
Atlântico.
Sudeste Não há padrão característico de mudanças da precipitação pluvial.
Não há padrão característico de mudanças da precipitação pluvial.
Sul
Chuvas acima da média, principalmente na primavera do
ano de início do fenômeno e no final do outono e início do
inverno do ano seguinte.
Tendência de diminuição das chuvas, principalmente na primavera e verão.
Centro-Oeste
Chuvas acima da média nas porções oeste e sul da região, principalmente durante o verão e
outono.
Elevação do volume de chuva durante a primavera e redução no verão e
outono.
Fonte: Berlato e Fontana (2003); Cavalcanti et al. (2009); Grimm (2009); Borsato (2016); Silva e Carpenedo (2021)
As informações demonstraram as anomalias provocadas pelo ENOS na precipitação pluviométrica das cindo regiões geográficas do Brasil. Neste sentido, também é importante ressaltar que:
Outros casos de precipitação extrema ocorrem em anos neutros com relaçãoao ENOS, e podem ser associados a outras forçantes, como variabilidade intrasazonal, teleconexões, intensificação de sistemas sinóticos, situações debloqueio, ou sistemas de mesoescala (JORGE, 2015, p. 46-47).
Grimm (2009) afirmou que é importante mostrar a variabilidade interanual da precipitação não apenas para os totais anuais de chuva, mas para as diferentes estações do ano, pois desse modo proporciona a condição para verificar sua importância para os períodos chuvosos em cada região, bem como para analisar as influências do ENOS.
No próximo item foram apresentadas as definições do fenômeno Oscilação Decadal do Pacífico (ODP) e suas associações com o ENOS, tendo em vista que suas duas fases promovem alterações nos impactos provocados pelo El Niño e a La Niña.