2. FORMAS
2.4. Intertextualidade
O termo “intertextualidade”, no que concerne aos estudos literários, foi definido teoricamente por uma série de pesquisadores. Devido a essas definições apontarem para a mistura de discursos, em um mosaico de sentidos ou de enunciados, alguns estudos da intertextualidade apresentam outros termos que denotem essa relação intertextual, assim como lembra Tiphaine Samoyault (2008) ao listar “biblioteca”, “tessitura”, “incorporação”,
“entrelaçamento” e “diálogo” como noções metafóricas que podem substituir a necessidade da palavra “intertextualidade”. Independentemente de como é mencionada, é fato dizer que pressupõe a retomada de outro texto, seja de forma espontânea e aleatória, ou mesmo de forma planejada.
A intertextualidade, no contexto dos anos sessenta, não era fortemente levada em consideração, dada a predominância de estudos estruturalistas, de sorte que o texto em si era o próprio objeto teórico. Ainda nessa década, Julia Kristeva introduz o termo
“intertextualidade”, baseada nas ideias dialógicas de Mikhail Bakhtin, embora o pesquisador russo não tenha lançado mão de um único termo para designar essa relação intertextual.
Bakhtin apontou a existência do dialogismo, ou seja, da multiplicidade de discursos evocada pelas palavras de um texto, da multiplicidade de discursos compartilhados entre personagens e autor, mostrando a possibilidade de se construir um texto a partir de muitos outros, de forma explícita ou implícita. Kristeva sistematizou essas ideias na palavra “intertextualidade”, a qual evidencia a transposição de um ou mais sistemas de signos, de um escrito a outro, levando-se em consideração noções como entrelaçamento, hereditariedade, correspondência e diálogo, todas inseridas em um eixo horizontal, que liga o sujeito ao seu destinatário, e em um eixo vertical, que toca texto e contexto.
Certamente, explicar a “intertextualidade” como sistema metodológico não é tarefa simples, visto que muitas releituras de sua significação já foram feitas. Além disso, este trabalho não objetiva discorrer a respeito de teorias da intertextualidade, apenas contextualizar sua importância para os estudos da ironia, do chiste e da paródia.
Um dos conceitos que se relacionam com a ideia de intertextualidade é o de transformação. De fato, quando se dialoga com outro texto, discursos ou com personagens de algumas obras, há uma mistura de ideias e de vozes que se entrelaçam, muitas vezes por meio da paródia, por exemplo. Sendo assim, esse contato com discursos anteriores, mesmo que seja para ironizá-los, faz deles uma síntese e, ao inserir nela também novas ideias, existe então a transformação.
Nesse sentido, Roland Barthes afirmava ser difícil identificar os pontos de contato entre textos, porque as menções muitas vezes são anônimas, à medida que são usados discursos praticamente “apropriados” pelo autor, ou seja, aqueles apreendidos durante a vida, não somente os encontrados nas referências bibliográficas de uma obra.
Ainda nessa tendência de especificação da intertextualidade, Michael Rifaterre vem trabalhar o conceito de intertexto que, para ele, orienta a leitura, pois faz menção a qualquer traço percebido pelo leitor, seja uma alusão a outro texto, seja uma menção explícita ou um detalhe implícito no discurso. Além disso, Rifaterre defende que uma característica bastante importante da intertextualidade é a continuidade do texto por meio do leitor. Para ele, nada impede que um leitor de hoje interprete imagens de um texto do passado utilizando seu conhecimento atual de mundo e de literatura. Rifaterre afirma que essa dimensão da intertextualidade é uma espécie de “anacronia” que faz parte da memória do leitor. Logo, o texto, para ele, faz parte de uma rede de pressuposições de outros textos.
Rifaterre aponta alguns exemplos de “sinais” para se inferir a existência da intertextualidade; um deles, discutido em artigo publicado na revista Poétique, é a silepse.
Esta é uma figura de construção que interfere na sintaxe de concordância dos termos de uma frase. Pressupõe uma concordância diferente da usual, dadas as relações com o termo que pode ser subentendido, mas que não está expresso na frase. Por exemplo, se dissermos que São Paulo é bonita, o adjetivo qualificativo está claramente em consonância com a ideia de
“cidade” e não com “São Paulo”.
Para o estudioso da intertextualidade, esse tipo de figura de linguagem, quando persistente no texto, pode ser visto como uma marca de relações intertextuais. Ele exemplifica seu ponto de vista com um trecho do poema “Guitare”, do livro L’imitation de Notre-Dame la Lune”, de Jules Laforgue (1979, p.27):
Oh ! qu’un Phillipe de Champaigne, Mais né pierrot, vienne et te peigne ! Un rien, une miniature
De la largueur d’une tonsure ;
Rifaterre chama a atenção do leitor para o termo “peigne” que significa “pente”, em francês, e também é o subjuntivo do verbo “peindre” (pintar) e do verbo “peigner” (pentear).
Para que se entenda qual significado é o mais provável de ser empregado nesses versos, é preciso que se entenda com qual ideia o termo está concordando, por isso a importância de se perceber que há, portanto, uma silepse. Ao continuar a leitura do poema, o leitor depara com os termos “largueur” (tamanho, largura) e “tonsure” (tosquia). Este último é de suma importância para a compreensão do intertexto, pois além de confirmar a possibilidade da inferência de que “peigne” pode sim estar relacionado a “peigner”, é um termo cuja ideia, juntamente com a palavra “largueur”, aparece em uma passagem de La Fontaine, em Les animaux malades de la peste:
L’Ane vint à son tour et dit: J’ai souvenance Qu’en un pré de Moines passant,
La faim, l’occasion, l’herbe tendre, et je pense Quelque diable aussi me poussant,
Je tondis de ce pré la largueur de ma langue.
Dessa forma, o leitor visualiza relação intertextual existente, em virtude dos pontos de encontro entre os discursos. Soma-se a isso a ideia de ser esta uma intertextualidade com fins irônicos ou humorísticos, visto que a aproximação do pintor francês Phillipe de Champaigne com o pierrô, figura que para Laforgue representa o abobalhado, e com o asno dos versos de La Fontaine, caminha para a compreensão de que a figura retratada na pintura assemelha-se, dada sua pequenez, ao tamanho dos pelos de um animal após a tosa, como mostra Laforgue, ou à tosquia da pradaria bem proporcional ao tamanho da língua, com palavras de La Fontaine.
Além dessas ideias sobre intertextualidade, quem definiu o termo à base de categorias taxonômicas que delimitassem suas fronteiras foi Gérard Genette em Palimpsestes, de 1982.
O termo que intitula a obra é bastante significativo, uma vez que, em grego, palimpsêstos significa aquilo que é raspado para se escrever de novo. Designa uma espécie de papiro ou pergaminho que era reutilizado; uma vez escrito, era raspado e usado para novas escrituras, podendo muitas vezes se enxergar nele alguns escritos anteriores. Assim também acontece com a intertextualidade, já que um texto B pode conter efetivamente traços de um texto A.
Com relação à ideia de transformação, que se explicaria por um texto B que dialoga com A, Genette chamará de hipertextualidade, que se configura sob a forma de paródia e de pastiche, por exemplo.
Genette dividiu em cinco categorias as características do contexto intertextual. A primeira delas é a referida intertextualidade, que designa uma relação efetiva de co-presença entre textos. A segunda é a do paratexto, ou seja, da relação existente apenas entre partes de uma obra que se pode nomear, como “título”, “subtítulo”, etc. A terceira é a metatextualidade, uma relação entre textos que se baseia no comentário da obra aludida. A quarta categoria é a da hipertextualidade, ou seja, a questão da transformação. A quinta e última categoria genettiana é a arquitextualidade, aquela que evidencia as questões genéricas do texto.
Com essa classificação, o crítico francês, ao categorizar cinco tipos de relações transtextuais, permite que se minimizem as ambiguidades em torno do trabalho com a intertextualidade, apesar de tornar as leituras feitas sob este viés mais teorizadas e técnicas.
Para este trabalho, o que mais nos interessa na conceitualização proposta por Genette é a divisão entre intertextualidade e hipertextualidade, visto que tanto as relações intertextuais quanto sua expressão paródica ou irônica interessam às análises dos poemas de Jules Laforgue e de Carlos Drummond de Andrade. No entanto, as ideias mais vastas de Michael Rifaterre, no que diz respeito à intertextualidade, permitem que, ao se mencionar o termo em questão neste trabalho, venha à tona a noção de relação entre textos. Aqui, interessa mais o objetivo dessa relação do que sua natureza direta ou indireta, implícita ou explícita.