A obra Sobre o fundamento da moral (1840) nasceu com os dias contados, para quem a interessava.
A Sociedade Real Dinamarquesa de Ciências de Copenhague abriu um concurso concorrendo a prêmio, com base na seguinte pergunta: “A fonte e o fundamento da filosofia da moral devem ser buscados numa ideia de moralidade contida na consciência imediata e em outras noções fundamentais que dela derivam ou em outro princípio do conhecimento? ” Schopenhauer aceitou o desafio e pôs-se, então, a escrever Sobre o fundamento da moral. Todos nós já sabemos o final: embora candidato único, foi reprovado na dissertação, exatamente por contrariar o próprio enunciado da questão, por afirmar ser impossível estabelecer um fundamento da moral.
Vamos, então, aos argumentos.
As condições estabelecidas pela Academia são claras: que seja uma resposta breve, teórica, sincera e livre de quaisquer pressupostos, inclusive metafísicos. Para Schopenhauer, este não é um bom começo, no que tange à metafísica. Kant confirma, no Prefácio da Fundamentação da metafísica dos costumes: “A metafísica deve preceder, e, sem ela, não pode haver nenhuma filosofia moral”1
É de todo impossível à filosofia estudar um fenômeno ou um fato da realidade sem sua recorrência à natureza como um todo. Esta convicção Schopenhauer adquiriu lendo Platão: “Estimas ser possível conhecer a natureza da alma, sem conhecer suficientemente toda a natureza? ”2 Neste sentido, o filósofo estendeu a divisão kantiana, caráter empírico e caráter inteligível, referente apenas ao fenômeno humano, à toda natureza, ou seja, a todo fenômeno em geral. Ao afirmar que o mundo é um "macrantropo", ele confirma a compreensão de ser o mundo um só, mas adverte que esse novo cosmo não pode ser ordenado nem pela razão nem pelo conhecimento, mas sim pela Vontade, uma vez que os fatos não pairam soltos no mundo físico, desvinculados de uma razão metafísica que os sustenta. Ao estabelecer seu axioma fundamental, “O mundo é minha representação”3 o pensador não rompe com as leis deste mundo físico, ao contrário, tais leis tornam-se objeto da ciência legítima. A relevância dada pelo filósofo ao mundo físico ensejou a que alguns intérpretes o vissem como um realista, não um realista
1SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o fundamento da moral, Tradução de Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola. Introdução, p. 7, São Paulo: Martins Fontes, 2001.
2Idem, ibidem. Introdução, p. 8.
3Idem, O mundo..., Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza Livro Primeiro, § I, p. 43, São Paulo: Ed. Unesp, 2005.
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transcendental, que ignora a existência do objeto independente do sujeito, mas, talvez, um realista empírico, na medida em que acentua o caráter fenomenal do real, sem considerá-lo ilusório. Portanto, Schopenhauer, como já vimos, não nega a realidade empírica do mundo exterior, a representação, ordenada pela causalidade.
Por outro lado, considerá-lo um idealista empírico é insustentável, uma vez que seu sistema não para no mundo físico, o mundo da representação, mas aponta para a Vontade. Este argumento, também, vale para os que o veem como um materialista.
Em lugar destas diversas interpretações, o filósofo se situa como um idealista transcendental, na medida em que afirma o caráter a priori das formas de conhecimento, espaço, tempo e causalidade. Todavia, Schopenhauer confere um outro sentido ao termo transcendental, o que já foi visto no capítulo anterior. Transcendental passa a significar a filosofia que toma consciência de que as leis primeiras e mais essenciais deste mundo, que se representa diante de nós, têm sua raiz no nosso cérebro, e, por esse motivo, são reconhecidas a priori.
A passagem do mundo fenomenal para o mundo noumênico é que configura o mundo metafísico, o que não foi reconhecido por Kant. Por esta razão, Schopenhauer se apresenta como o filósofo que abriu as portas da metafísica, conciliando-a com a ciência.
As próprias palavras do filósofo, evocadas por Lefranc, atestam sua posição:
“Minha metafísica se afirma como a única que possui uma fronteira comum com as ciências físicas, um ponto até o qual estas vêm ao seu encontro por seus próprios meios, de sorte que fazem realmente a junção com elas e sua harmonia se acha assim estabelecida”.4
Ruyssen, intérprete de Schopenhauer, afirma, ainda mais:
“Enquanto representação, o mundo não é nada real; ele somente é a afeição de um sujeito o qual, ele mesmo, não é nada fora de sua função representativa. Em nenhum ponto, o real é adequado ao conhecido; a ciência não conta com coisas com formas e variações fenomenais, pois ela se limita a classificar e a ligar os dados da percepção. O sábio se parece com ‘alguém que faria um passeio em torno de um castelo para encontrar a entrada e que, não a encontrando, desenharia a fachada’”.5
A tarefa da razão é unir conceitos abstratos aos objetos da representação. Ela, no entanto, se apresenta impotente para unir o objeto da representação à coisa-em-si. O próprio Kant havia pensado como chegar à coisa-em-si, traçando um percurso entre ela e o fenômeno. Schopenhauer, por sua vez, considera que a tarefa de restaurar a metafísica, em nome da razão prática, é um caminho sem chegada. A esfera da metafísica, segundo o filósofo, é permitir que nossas ações sejam pautadas conforme regras máximas de conduta, como se proferíssemos uma confissão de fé: “O Credo necessário de todos os justos e de todos os bons pode se enunciar assim: eu creio em uma metafísica”.
Esta análise introdutória ao capítulo nos permite reafirmar o que dissemos ulteriormente: a mola que move o homem é a metafísica. Este é o sinal da vocação
4LEFRANC, Jean, Compreender Schopenhauer, Trad. Ephraim Ferreira Alves, cap. III, p. 121, Petrópolis: Ed. Vozes, 2005.
5RUYSSEN, Theodore. Schopenhauer, Ch. VIII, p. 186. Paris: Félix Alcan, Éditeur, 1911 (Tradução minha).
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filosófica do homem a que se referia Aristóteles, já evocado na poesia épica de Hesíodo como um ato primordial de perplexidade, de admiração do homem, “thaumasthon”. O homem é um ser em estado constante de surpresa, como nos fala Platão no diálogo Teeteto:
Sócrates a Teeteto:
“Teodoro parece ser, meu amigo, um bom avaliador no que tange a tua natureza, visto que és um filósofo, já que para a filosofia só existe um começo: a perplexidade: e quem disse que Ísis era filha de Taumas produziu uma boa genealogia.”6
Schopenhauer é um autor metódico e propedêutico. A estrutura do seu livro principal, O mundo como vontade e como representação, mostra como o filósofo explica o mundo e o conhecimento que dele se pode ter. Cada divisão da obra, formada por quatro livros, corresponde a um grau do pensamento por ele desenvolvido.
Desenvolveremos este tópico contextualizando, primeiramente, o período histórico no qual nosso pensador constrói seu sistema filosófico.
Na sequência, analisaremos o primeiro grau em que se dá o conhecimento do mundo, que corresponde ao Livro primeiro da obra O mundo como vontade e como representação. Completaremos o estudo com a análise do Livro segundo da mesma obra.
A filosofia schopenhaueriana nasce em solo irrigado pelo idealismo alemão, cujos termos foram colocados por Kant (1724-1804) e explorados por Fichte (1762-1814), professor de Schopenhauer, Schelling (1775-1854) e Hegel (1770-1831), que encerra o período, após 60 anos de grande florescência cultural. Tamanha envergadura intelectual só se compara ao Séc. V a.C., período em que Sócrates, Platão e Aristóteles viveram. Uma nova forma de pensar se consolida, na qual o primado está no sujeito pensante, o cogito.
Toda realidade pensável se sustenta no sujeito; o Eu passa a ser o princípio de explicação, ou o fundamento da verdade. A discussão filosófica gira em torno do racionalismo, empirismo e pensamento teológico, visando não o transcendente, mas o sujeito transcendental. O ideal visado é a maioridade histórica do povo alemão, na medida em que ele seja capaz não de só de explicar como, também, de plasmar a realidade. O desafio que se estabelece é a passagem da crítica ao sistema, recuperando a unidade na dualidade, uma dívida kantiana retomada por seus sucessores, tendo sempre como conceito matricial o sistema de Kant.
Nesse berço profícuo, animado pela ruptura, pela cisão da antiguidade clássica com o desenvolvimento da ciência moderna, Schopenhauer escreve seu sistema filosófico, cujo vetor é Kant.
Ao iniciar sua grande obra, que se pode dizer única, o filósofo tem diante de si o vigor da filosofia kantiana. Apesar do solo intelectual fértil, no qual é anunciada a virada copernicana, o Eu kantiano é um Eu vazio, simples forma, destituído de ação.
6PLATÃO, Diálogos, Teeteto, I, p. 63. Tradução, textos complementares e notas de Edson Bini. 1ª edição. São Paulo: Edipro, 2007.
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