As reformas propostas pelo Estado brasileiro, a partir de 1990, trouxeram para o cenário das políticas sociais um conjunto de demandas gerenciais, assistenciais e intersetoriais que desafiam a administração pública, uma vez que estas políticas são operacionalizadas por meio de sistemas públicos complexos, regionalizados e hierarquizados sob as diretrizes da descentralização, que envolvem atendimento integral e participação da sociedade.
A descentralização político-administrativa prescrita na Constituição Federal de 1988 (CF/88) exige uma atuação articulada do governo central com os governos estaduais e municipais. Com isso, uma nova organização administrativa e técnica foi exigida dos órgãos públicos desses três níveis. Considerando, segundo Costa, Cunha e Araújo (2010), que o maior impacto desse novo arranjo foi sofrido pelos municípios, estes, obrigatoriamente, tiveram de se adequar muito rapidamente para desempenhar a função de execução direta que lhe coube, segundo as novas determinações legais referentes à gestão das políticas sociais.
Para dar conta desse modelo federado e cooperativo17, a CF/88 instituiu um ordenamento jurídico complexo de divisão de competências e atribuições, dentro de limites expressos, reconhecendo a autonomia, na qual coexistem competências privativas e concorrentes entre os entes federados.
A descentralização das políticas sociais em nível local configurou-se com mais intensidade na municipalização da provisão dos serviços universais de saúde e educação, assistência social, entre outros. Entretanto, essas políticas foram concebidas como um sistema complexo de relações intergovernamentais baseado em recompensas e sanções.
Geralmente, nesse processo, os entes federados dotam-se de características autoritárias, baseadas na tradicional hierarquia dos níveis de governo.
Diante desse contexto, desafios são colocados cotidianamente para os trabalhadores sociais envolvidos direta e indiretamente com as políticas sociais, no cumprimento das determinações contidas na Carta Magna. A implantação dos processos de descentralização veio acompanhada de uma extensa pauta de recomendações técnicas e burocráticas que exigem soluções qualificadas.
*Assistente Social, docente do departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina, doutoranda do programa pós graduados em Serviço Social da PUC-SP. E mail: [email protected]
17 “A Constituição Federal de 1988 reconhece o Brasil como uma República Federativa formada pela união indissolúvel dos estados, municípios e do Distrito Federal. Ao se estruturar assim, o faz sob o princípio da cooperação, de acordo com os artigos 1º, 18º, 23º e 60º” (COSTA; CUNHA; ARAÚJO, 2010, p. 3).
O Serviço Social não ficou, assim, imune a esse processo. Com a descentralização em curso, os assistentes sociais passaram a ser requisitados para trabalhar na formulação, gestão, implementação, execução e avaliação de políticas sociais, e não mais apenas na execução terminal de tais políticas, como afirmou Netto (2011). O exercício profissional ampliou seu espaço de atuação nas esferas governamentais, e esta ampliação, nas palavras de Iamamoto (2005), Cardoso et al. (1997), e Guerra (2001), produz impactos significativos nas demandas colocadas aos profissionais, nos espaços ocupacionais, redefinindo os objetos de intervenção e atribuindo novas funções à profissão.
Consequentemente, surgem critérios diferentes para a aquisição de novas formas de legitimidade.
Dessa maneira, a gestão das políticas sociais, parte do cotidiano de trabalho do assistente social, incorpora novas formas e novas possibilidades. Para tanto, a apropriação de conhecimentos e saberes envolvidos com a gestão é essencial.
Segundo Paiva (2000) o campo da gestão ganha na contemporaneidade uma nova especificidade ao ser conectado aos processos sociais de enfrentamento da questão social.
Adquire, por isso, uma abrangência e características singulares, que tanto visa atender às requisições da sociedade, em termos de ampliação do acesso a direitos sociais, como vem responder às propostas do Estado, em termos de identificação da problemática governamental.
Para Iamamoto (2009), orientar o trabalho profissional nesta direção requer um perfil de profissional crítico, propositivo, capaz de formular, recriar e avaliar propostas que apontem para a progressiva democratização das relações sociais. Há, ainda, a exigência com o compromisso ético-político, bem como com a teoria social crítica na sua lógica de explicação da vida social.
Refletir, portanto, sobre essas requisições profissionais, considerando as atribuições e competências aí envolvidas, faz-se necessário, a fim de se poder pensar em estratégias socioprofissionais que possam enfrentar, coletivamente, de forma competente e comprometida com o projeto ético-político profissional, as demandas emergentes.
Dessa forma, estudar com mais profundidade as demandas emergentes, tendo como foco a gestão e suas expressões, contribuirá para qualificar a análise e o debate.
Partindo destes pressupostos, o problema que orientou a presente investigação se expressa na seguinte questão: diante das alterações ocorridas com a profissão e com os espaços sócio-ocupacionais, particularmente em decorrência das mudanças vinculadas ao Estado brasileiro, após a promulgação da Constituição Federal de 1988 e do complexo
gerenciamento expresso nas demandas profissionais apresentadas nos casos em que o assistente social é requisitado a trabalhar com a gestão de políticas sociais nos diferentes municípios brasileiros, quais são as exigências apresentadas ao trabalho do assistente social?
Para responder tal questão, a partir da abordagem qualitativa, seguiu-se com o levantamento bibliográfico e da escolha do instrumento para a coleta de dados.
Considerando a amplitude da pesquisa, defini que o mais apropriado seria a análise documental, pois assim seria possível, diante dos limites impostos pelo tempo, recursos e condições geográficas, obter informações de um número maior de municípios brasileiros.
Assim sendo utilizei como fonte de coleta os editais18 de concurso público, disponibilizados via internet.
O acesso aos dados referente às demandas profissionais emergentes apresentadas aos assistentes sociais partiu do mapeamento realizado nos editais disponibilizados na internet. Para tanto, foi realizado durante o ano de 2012 e início de 2013 um levantamento de todos os sites existentes na internet que deram publicidade aos editais de concursos públicos e processos seletivos que ocorreram durante os anos de 2009 a 201319. Foram encontrados 417 (quatrocentos e dezessete) editais.
Dentre as áreas mencionadas, considerando os percentuais encontrados e por sua importância histórica na profissionalização do Serviço Social, serão as áreas priorizadas neste estudo: assistência social e saúde e as respectivas políticas — a Política Nacional de Saúde (1990) que, através do Sistema Único de Saúde (SUS) e a Política Nacional de Assistência Social (2004), seguida da constituição do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a qual configurou particularidades para o exercício profissional, principalmente com a instalação dos Centros de Referência de Assistência (CRAS) e Centros de Referências Especializados de Assistência Social (CREAS).
Pela diversidade significativa entre os estados e municípios brasileiros, determinante na pesquisa, enfrentou-se o desafio e ficou decidido que seria importante analisar todos os editais encontrados.
Para tanto, a partir da amostra, para melhor compreensão e análise dos dados, definiu-se como método a análise de conteúdo na modalidade analise temática.
18 Segundo Borges (2009), o edital é uma peça escrita que tem por finalidade a divulgação de informações acerca de determinado fato jurídico, segundo o conceito dominante na doutrina. Em editais de concursos públicos, devem ser previstas as regras relativas à competição, observados, sempre, os ditames constitucionais.
19O período definido contempla (1) um mandato do gestor municipal.