3. CAPÍTULO 3: ORLANDA, O DILDO DE JACQUELINE HARPMAN
3.1 Jacqueline Harpman e a alterid(entid)ade belga
uma vasta obra que totaliza dezessete romances, oito novelas, três contos e uma peça de teatro. Além de Orlanda, algumas de suas obras mais conhecidas como La plage d’Ostende (1991), Moi qui n’ai pas connu les hommes (1995), “Dieu et moi” (1999) e La dormition des amants (2002) ganharam traduções para o inglês, o alemão e o italiano. No entanto, nenhuma dessas e outras obras harpmanianas foram traduzidas para o português até o presente momento.
A nacionalidade de Harpman é ausente de uma fixidez, pois, mesmo que tenha nascido na Bélgica, a sua escrita, assim como a de outros escritores conterrâneos, é classificada como literatura francófona, uma vez que os romances de Harpman sempre foram publicados primeiramente por editoras parisienses e depois exportados para a Bélgica. Pensadores como Otto Maria Carpeaux (1999), embora em um discurso bastante contestável, chegaram até mesmo a afirmar que
É preciso audácia para escrever sobre um assunto que não existe. Não existe literatura belga. Na Bélgica vivem dois povos: os valões, que falam francês, e os flamengos, que falam holandês. O dialeto valão e os diversos dialetos flamengos carecem de importância literária. Há pois na Bélgica literatura francesa e uma literatura holandesa, com alguns toques de regionalismo, apenas. E isto se explica: o reino a Bélgica é de criação artificial e recente, fundado em 1830 por uma conferência diplomática das grandes potências. Não existe uma nação belga. Não existe, portanto, literatura belga (CARPEAUX, 1999, p.133).
Afirmações como a de Carpeaux tornam-se datadas quando confrontadas com leituras pós-coloniais como a de Stuart Hall (2005), em que as culturas nacionais são um “sistema de representação cultural” (p. 49), o que faria com que a Bélgica fosse um país multicultural, que abriga uma identidade em trânsito. Segundo Hall:
As culturas nacionais são uma forma distintivamente moderna. A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais, eram dadas à tribo, ao povo, à religião e à região, foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional.[...] A formação de uma cultura nacional contribuiu para ciar padrões de alfabetização universais, generalizou uma única língua vernacular como o meio dominante de comunicação em toda a nação, criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais [...]. Dessa e de outras formas, a cultura nacional se tornou uma característica-chave da industrialização e um dispositivo da modernidade (HALL, 2005, p. 49-50).
Sendo assim, a Bélgica, enquanto território nacional, se encaixa no padrão da “cultura nacional” caracterizado por Hall, uma vez que consiste em um país cultural, política e
linguisticamente dividido, concentrando dentro de seu território duas línguas oficiais: o flamengo, uma espécie de dialeto do holandês falado no território norte do país; enquanto no sul a língua oficial é o francês.
A capital, Bruxelas, por estar localizada no centro do território e ocupar um espaço de fronteira entre a região norte (Flandres) e a sul (Wallonie), consiste em uma cidade bilíngue que admite tanto o flamengo quanto o francês como línguas oficiais. Sendo assim, há regiões da cidade em que predominam comunidades linguísticas francesas e outras em que a língua e cultura predominantes são o flamengo. Harpman passou toda sua vida residindo no bairro de Etterbeek, cuja cultura e língua predominantes são francesas. Pelos fatores acima mencionados, a literatura produzida por Harpman e outros belgas em língua francesa dentro do território de seu país é considerada literatura francófona.
A não correspondência entre língua e nacionalidade é apenas um sintoma das diferenças que separam os territórios belgas e que os mantém em constante tensão, uma vez que há uma forte tendência de movimentos separatistas apoiadores da independência do território norte, que, por ser dono de um PIB maior é considerado o carro motor de tecnologia e desenvolvimento do país. Boxus aponta que
O estado federal belga é considerado um espaço de conflitos: de um lado, reúne comunidades linguísticas e culturais rivais; de outro lado, o prestígio cultural das comunidades busca impor sua especificidade frente à França e à Holanda, com os quais compartilham línguas e culturas; enfim, cada região da Bélgica é diversa do interior, linguisticamente e/ou ideologicamente: a região flamenga agrupa os flamenguianos, onde se encontram espalhados os flamenguistas (autonomistas flamengos) e os flamengos francófonos (chamados pejorativamente fransquillons por aqueles que lhes consideram pedantes); a região da Wallonie reagrupa os valônios francófonos e os valônios alemães; a região bruxelense é composta de francófonos e neerlandófonos. A busca de uma especificidade na Bélgica se faz portanto em três níveis: comunitária (se seguirmos o critério linguístico), regional (se seguimos o critério geográfico) e internacional (no que diz respeito às afinidades culturais que ligam o pais à França e Holanda) (BOXUS, 2002, p. 22-23, tradução nossa).17
17 “l’État fédéral belge est à considerer comme un espace de conflits: d’une part, il rassemble des communutés linguistiques et culturelles rivales; d’autre part, le prestigie culturel des communautés cherche à imposer as spécificité face à la France et face à la Hollande, dont elles partagent les langues et les cultures; enfin, chaque région de Belgique est diverse de l’intérieur, linguistiquement et/ou idéologiquement: la région flamande groupe les Flamands, où se trouvent par ailleurs les Flamingants (autonomistes flamands) et les Flamands francofones (appelés péjorativement fransquillons par ceux qui les considèrent comme des pédants); la région bruxelloise est composée de francofones et de néerlandophones. La quête d’une spécificité em Belgique se fait donc à trois niveaux: communautaire (si l’on suit le critère linguistique), regional (si l’on suit le critère géographique) et international (eu égard aux affinités culturelles realiant le pays à la France et à la Hollande.”
Além de ser cultural, geográfica e linguisticamente dividida, a Bélgica faz fronteira com países europeus que no passado já tiveram um papel de imposição cultural e/ou de colonizadores (França, Alemanha e Holanda), cujas economias desenvolvidas e sólidas contribuíram para que estes países tivessem suas culturas bastante difundidas em território europeu e em territórios por eles colonizados. A Bélgica, portanto, é um país cuja cultura é fortemente influenciada, seja por parte da França, da Holanda ou da Alemanha, sendo a “não existência de uma literatura belga”, como postulado por Carpeaux, apenas um sintoma da posição de inferioridade econômica e cultural que a Bélgica ocupa em relação aos países com os quais faz fronteira.
Nos romances harpmanianos, a busca de suas protagonistas femininas por um Outro é uma isotopia que permeia suas obras. Tal aspecto, presente também em Orlanda, foi interpretado por Boxus (2002) como uma metáfora para a condição da Bélgica, uma vez que sua situação econômica e a divisão linguística e cultural colocariam o país em desvantagem em relação àqueles com os quais faz fronteira, restando a busca pelo Outro como um meio para transcender esta condição e alcançar uma harmonia. Como Boxus aponta, “nos parece que a Bélgica é andrógina e comporta uma dualidade multissecular que contradiz os esquemas em nome dos quais se pretende construir o Estado” (BOXUS, 2002, p. 173).18 Os esquemas aos quais Boxus se refere são a edificação de uma nação a partir do conceito de língua oficial, que seria a essência da nação, bem como a declaração de guerras a outras nações (2002, p.
170). Tais pontos esquemáticos constituem uma noção falogocêntrica do que é performar o conceito de uma nacionalidade. Ao pensarmos que, ao longo de sua história de construção de nação, a Bélgica seguiu na contramão e se construiu sem a necessidade de eleger uma única língua oficial e sem declarar guerra a outros países, poderíamos considerar que, dadas as limitações, a Bélgica é um país com políticas progressistas e avançadas ao abrigar duas culturas diferentes em seu território.
Assim sendo, trata-se de um país cujo território é, ao mesmo tempo, cultural e socialmente híbrido, como caracteriza Hall (2005), “(...) a Europa Ocidental não tem qualquer nação que seja composta de apenas um único povo, uma única cultura ou etnia. As nações modernas são, todas, híbridos culturais” (p. 62). A mesma situação se verifica no território canadense que divide políticas linguísticas e culturais entre as línguas inglesa e francesa.
Assim, conforme Boxus (2002) afirma, autores belgas que escrevem em francês produzem
18 Il nous est apparu que la Belgique est androgyne et “comporte une dualité multiséculaire qui contredit les schémas au nom desquels on entend [...] construire les États”.
literatura belga francófona, e escritores do território norte do país produzem literatura belga flamenga.
Além do estudo de Boxus (2002) sobre as relações entre Orlanda e a alteridade belga, em 1992 foi publicado um volume da revista Textyles com uma seção dedicada ao estudo da obra harpmaniana, contendo três artigos: um com uma análise de La Lucarne, outro sobre o gesto autobiográfico na literatura feminina e outro sobre as histórias de amor em sua obra.
Além disso, inclui uma entrevista com a escritora, bem como dois contos inéditos de Harpman. Um ano após a morte da autora, é publicado o que talvez seja o estudo mais completo de sua obra, de autoria de Marie Compagne (2013), intitulado Je et/est l’Autre:
représentations et enjeux de l’altérité dans l’oeuvre de Jacqueline Harpman, em que diversos romances de sua autoria são analisados a partir dos jogos de alteridade e da intertextualidade que, caracteristicamente, compõem o texto de Harpman. Apesar de suas obras trazerem protagonistas mulheres ou homossexuais em busca de seu Outro, com questões que envolvem as subjetividades sexuais, a maior parte dos estudos sobre ela não abordam seus romances com leituras desconstrucionistas ou queer.
As protagonistas harpmanianas são predominantemente mulheres em busca de seu outro, de seu duplo ou de sua metade perdida, de modo que a alteridade seja talvez a principal temática que permeia toda a obra harpmaniana. Tendo em vista que se trata de assunto à qual a psicanálise, a literatura e os estudos de gênero recorrem frequentemente para abordar a transexualidade, unido ao fato de que em Orlanda há explicitamente uma referência à obra woolfiana, bem como uma redesignação sexual corpórea, a obra de Harpman é uma importante contribuição no que diz respeito às performances trans no período pós-guerra. Os estudos, posteriores a 1996, tem como grande foco a representação da androginia em Orlanda, portanto, pretendemos, com este capítulo, construir uma análise das intertextualidades harpmanianas fazendo uso do mesmo viés teórico que vem sendo utilizado até aqui, de modo a observar qual o projeto literário que, no romance, se construiu em decorrência da presença do transexual espectral de Virginia Woolf.