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CAPÍTULO III................................................................................................................... 81

3.1. João Cassiano e o Monasticismo

Queremos, à guisa de contextualização, inserir João Cassiano em uma tradição maior. João Cassiano é um monge que transita de um século para o outro com influência nas transformações da vida monacal, ele que mergulhou nas fontes da anacorese e do monaquismo. As obras de João Cassiano, sobretudo as Instituições Cenobíticas e as Conferências não deixam de ser um resumo da espiritualidade monacal dos quatro primeiros séculos, além de serem obras aproveitadas por muitos autores subsequentes. São Bento faz menção da mesma em sua regra, no capítulo LXXIII.

Vivendo quarenta anos no século IV e trinta e cinco anos no século V, quando Cassiano vai para a vida monástica, ela já é uma realidade regulamentada por Pacômio e por São Basílio, sobretudo no Oriente, onde ele busca se inserir. Entretanto, dois são os escritores da idade Patrística responsáveis pela síntese dos materiais elaborados nesta época para a constituição da ciência da espiritualidade, a saber: São João Clímaco, no Oriente e São João Cassiano, no Ocidente.

A vida cristã no Egito, na época de Cassiano, já é bastante florescente. Todavia o cristianismo levou muitos anos para penetrar as camadas mais pobres desse país. Dois séculos antes de Cassiano, ou seja, mais ou menos no ano 130, o cristianismo é uma religião sem muita expressão no Egito. Era simplesmente uma nova religião entre as demais existentes neste país. Embora existisse, segundo Eusébio de Cesareia, uma comunidade cristã organizada em Alexandria desde fins do século II e também a Didascália, escola cristã de exegese fundada por um filósofo grego de nome Panteno, que fora estoico e que se convertera ao cristianismo e que essa escola tivesse sido dirigida por Clemente de Alexandria e Orígenes, a vida cristã estava restrita antes de tudo a gregos, judeus e romanos vivendo nesta cidade e a egípcios helenizados, ou seja, a membros de uma sociedade culta de Alexandria.

Por volta da segunda metade do século III, com o cristianismo sendo pregado em língua copta, essa religião se difunde rapidamente entre as camadas mais pobres, atingindo a população puramente egípcia. Por isso, em meados do século IV, o Egito contará com um milhão de cristãos e uma centena de bispos, segundo o que é informado por Harnack.

Não se pode dizer que o Egito inteiro se tornou cristão e que houve conversão maciça ao cristianismo, pois muitos camponeses e parte da elite grega e romana

84 continuaram pagãos, apesar da proibição oficial do paganismo por parte do imperador Teodósio. Entretanto, será nesta parte do mundo cristão que a vida eremítica terá sua maior expressão. Peculiar será o modo de ser cristão e viver o cristianismo neste país, pelos camponeses e povo egípcio. O mesmo acontecerá também com outros países convertidos, que terão sua maneira única de ser cristãos e de conceber o Cristo. Por isso é que, nos seis primeiros séculos, a Igreja fará um esforço enorme para obter uma visão única de Cristo, com o combate as chamadas heresias.

Por volta de 350 d.C, o Egito exibe muitas Igrejas cristãs e às margens do rio Nilo são construídos grandes mosteiros. Os desertos da desembocadura do Nilo, o delta do Nilo, o baixo e alto Egito serão povoados por anacoretas. O fluxo, ou seja, a anacorese feita para essa região do mundo cristão é espantosa.

É no Egito do século III que surge Pacômio, que pede a um eremita para fazer dele monge. Como discípulo, Pacômio iniciou vida anacorética dentro da tradição de alguns Pais do deserto que também o precederam. Aliás, antes de Pacômio muitos anciãos já habitavam os ermos do Egito. O primeiro monge, ou eremita de quem se tem informação, vivera antes de Antão no deserto da Tebaida. Seu nome era Paulo de Tebas, um anacoreta de origem egípcia que, fugindo da perseguição do imperador Décio, viveu mais de oitenta anos nesse deserto, até sua morte, por volta do ano 338. Na "Vita Sancti Pauli primi eremitae", São Jerônimo relata sua história 113.

São Pacômio que vivera até 348 d.C, era um ex-soldado das legiões imperiais que após conhecer o cristianismo e o testemunho exemplar de muitos homens e mulheres seguidores da religião cristã, decide se fazer cristão e entrar para a vida eremítica. Sob a orientação paternal de Palemôn, ou Palemão, um eremita de vida muito austera vivendo no deserto da Tebaida, Pacômio inicia uma vida de muita penitência e de mudança de costumes. Para receber Pacômio em sua companhia, Palemôn o desafia dizendo que muitos já tinham vindo até ele, mas não suportaram as austeridades da vida que ali era levada porque "o serviço de Deus é muito difícil". Para se ter ideia da dificuldade da vida eremítica, basta escutar o que Palemôn disse a Pacômio a propósito da frugalidade nos seus hábitos, dos jejuns diários que observava. No verão passava a pão e sal, sem vinho, com longas vigílias e, às vezes, até a noite toda. No inverno, Palemôn comia a cada três dias.

113 Cf. Migne PL 23,17–28.

85 Disposto a ser submetido à prova, Pacômio inicia sua vida anacorética com Palemôn e com ele viverá vinte anos. Por volta de 320, Pacômio funda o primeiro cenóbio. Esses mosteiros, ou colônias de monges vão rapidamente crescer e causar uma superpopulação nas periferias do Egito.

Quando Pacômio ainda era vivo, havia sete mil monges vivendo segundo a regra que ele escrevera, além de dois mosteiros femininos com quatrocentas monjas, fundado por ele a pedido de sua irmã. Conta-se que após sua morte e em fins do século V os que seguiam o exemplo de Pacômio eram cerca de cinquenta mil monges espalhados em vários mosteiros do Egito. Segundo Paládio, autor da História lausíaca, que morou no Egito entre os anos 388 e 399, apenas nas redondezas de Alexandria, havia dez mil monges 114.

É preciso também conhecer São Basílio Magno e a reforma de costumes que ele opera em meio aos monges, como a diminuição do número dos monges em cada cenóbio, a diminuição das austeridades corporais, a necessidade da perfeita obediência aos superiores, além das duas regras que escrevera, a "Grande" e a "Pequena" que lhe valeram ser chamado de legislador do monaquismo oriental.

Após Basílio temos Agostinho de Hipona, também legislador e outros bispos que tentaram organizar em suas dioceses a vida religiosa monástica. Mas, é com Bento de Núrsia que a vida monacal no Ocidente chega a sua plenitude, ou seja, a sua maturidade. Por isso ele recebe o título de patriarca dos monges do Ocidente por conta de sua regra de vida monacal ser bem elaborada e bastante equilibrada a qual serviu de modelo para quase todas as outras regras de ordens religiosas ulteriores.

A busca da vida cristã de maior perfeição era fato desde os primórdios das comunidades cristãs e a mais difundida e admirada maneira de buscar a perfeição era a prática do conselho evangélico da castidade, abraçado por alguns cristãos de ambos os sexos e de forma livre. A perfeição cristã era a razão que levara muitos cristãos a afastarem-se do mundo para viver a Palavra de Cristo que convida homens e mulheres a tudo deixarem para segui-lo mortificando a carne para obterem a salvação eterna 115.

114 ROYO MARIN, Antonio. Los grandes maestros de la vida espiritual. Madrid: BAC, 2012, p.

63.

115 DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 1988, p. 506.

86 Há indicio de que, já no século I e II, havia na Igreja ocidental, instituições de virgens semelhantes às já existente no Oriente 116. Eram grupos de cristãos que morando com a família e participando da vida social gozavam, da parte das comunidades cristãs, onde estavam inseridos, de respeito e admiração. Esse modo de vida vai paulatinamente evoluindo com regras precisas e correções feitas por alguns Pais da Igreja sobre os jejuns, a oração, as saídas inúteis, as esmolas, o serviço aos enfermos, os exercícios de vida em comum como a récita dos salmos e a leitura dos textos sagrados, até tomar forma de abandono da família e reclusão na solidão, na mais estreita pobreza, ocupando-se de Deus e de sua salvação eterna 117.

É dentro dessa tradição monástica que Cassiano faz suas pesquisas coletando suas entrevistas ou Conferências; relatos que instigam às mudanças na vida cenobítica, sobretudo da região Provençal da Gália.

Não é por razão histórica que apresentamos Cassiano dentro do mundo monástico como uma realidade mais ampla, mas para fazer vir à tona sua teologia espiritual que beneficiou a Igreja subsequente a seu século. Cassiano é autor que foi redescoberto, se podemos assim dizer, em meados do século XX como sendo uma luz para a vida religiosa do mundo latino.

Uma vez que a Igreja do Concílio Vaticano II, ou pós-Conciliar, vê nos Pais do deserto uma riqueza e um vigor novo que "elevam o homem todo à contemplação das coisas divinas" e que mantém a Igreja dinâmica e profética ainda hoje 118 queremos apresentar Cassiano como mestre por excelência capaz de conduzir a essa vida em Deus e para Deus.