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1. JUSTIFICATIVA, PROBLEMA E OBJETIVOS

1.1 Justificativa

Mulheres com deficiência compõem 19,2% da população feminina mundial e 26,5% da população feminina brasileira (IBGE, 2010; MSH; UNFPA, 2016). A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2008) reconhece os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência e admite que as mulheres e meninas com deficiência estão sujeitas a múltiplas formas de discriminação, responsabilizando os Estados Partes pela adoção de medidas que assegurem o pleno desenvolvimento, o avanço e o empoderamento das mulheres e meninas com deficiência, garantindo-lhes o exercício e o gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais.

Apesar disso, pessoas com deficiência estão mais vulneráveis a sofrer violência física, emocional e sexual, sendo as mulheres com deficiência 10 (dez) vezes mais vulneráveis a experienciar violência sexual. No mundo todo, estima-se que de 16% a 30% dos garotos com deficiência e de 40% a 68% das garotas com deficiência sofrerão violência sexual antes dos 18 anos de idade. Essa vulnerabilidade aumenta quando estão fora da escola. Soma-se a isso esterilização compulsória, aborto forçado e maior vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (MSH; UNFPA, 2016; UNFPA, 2018), as quais podem ocorrer tanto devido às agressões sexuais quanto à ausência de educação sexual.

Frequentemente, pessoas com deficiência são consideradas destituídas de desejos sexuais, pouco atraentes, indesejáveis e incapazes de estabelecer e/ou manter relacionamentos afetivo-sexuais (MAIA; RIBEIRO, 2010). Esses mitos podem contribuir para negligenciar o estabelecimento de programas de educação sexual e promoção dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres com deficiência, colaborando com a manutenção de sua vulnerabilidade à violência sexual e ao relacionamento abusivo.

Mulheres com deficiência estão mais propensas a permanecer por mais tempo em relacionamentos afetivo-sexuais marcados por violência (SMITH, 2008). Essa propensão pode ter origem no contexto social, o qual, ao combinar sexismo e capacitismo, produz desvalorização das mulheres com deficiência, as quais passam a se sentir inadequadas como parceiras íntimas, baixam os critérios que esperam encontrar em um/a companheiro/a e estabelecem e/ou mantêm relacionamentos afetivo-sexuais abusivos, conforme foi encontrado em entrevistas realizadas por Hassouneh-Phillips (2005) com 37 (trinta e sete) mulheres com deficiência física residentes nos Estados Unidos, sendo a maioria heterossexual.

Esse estudo revelou que, além do contexto social de desvalorização, mulheres com deficiência que precisavam da mediação de uma pessoa para a realização das atividades de vida diária e que tiveram relacionamentos ruins com os pais e/ou foram vítimas de violência na infância estavam mais propensas a permanecer em relacionamentos íntimos de alto risco (HASSOUNEH-PHILLIPS, 2005).

Em outra pesquisa, Hassouneh-Phillips e McNeff (2005) investigaram a influência da baixa estima corporal e sexual na vulnerabilidade à violência por parceiro íntimo com 37 (trinta e sete) mulheres com deficiência física dos Estados Unidos. A estima corporal foi definida no estudo como a percepção geral positiva ou negativa do próprio corpo, enquanto a estima sexual diz respeito à autoidentificação como ser sexual, variando de ‘sexualmente atraente e competente’ à ‘desagradável e incompetente’.

Quanto mais visível a deficiência, maiores os impactos do padrão de beleza que enfatiza a magreza, a juventude, a capacidade atlética e a relação sexual reduzida ao coito sobre a estima corporal e sexual das participantes, ao passo que, quanto mais baixa a estima corporal e sexual e mais forte o desejo de parceria afetivo-sexual, mais baixos os critérios de escolha de parceiro íntimo e mais altos os esforços para se engajar em relações sexuais, objetivando agradar os parceiros e afirmar sua feminilidade, estando mais propensas a tolerar violências, permanecendo em relacionamentos abusivos em troca de companhia e intimidade, sobretudo quando o parceiro era homem sem deficiência e as participantes temiam ficar sozinhas (HASSOUNEH-PHILLIPS; MCNEFF, 2005).

As estratégias cognitivas usadas por mulheres com deficiência para lidar com as violências cometidas pelos parceiros íntimos foram investigadas por Rich (2014) com 19 (dezenove) mulheres com deficiência física dos Estados Unidos, das quais 12 (doze) foram vítimas de abuso na infância ou adolescência.

As estratégias adotadas pelas participantes tendiam a amenizar a gravidade dos atos dos parceiros violentos, por exemplo: (1) julgavam a violência uma consequência inevitável do estresse de viver com uma mulher com deficiência, ao invés de reflexo do caráter dos agressores; (2) avaliavam que os parceiros se comportavam de forma violenta porque estariam debilitados, precisando de apoio e avaliando-se capazes de cuidar deles e fazê-los melhorar; (3) consideravam o abuso acidental, justificando que se tivessem estatura e força normais os atos dos agressores não as teriam prejudicado, assim, o impedimento corporal, e não a intenção do agressor, era considerado responsável pelo dano; (4) ponderavam que o abuso “não era tão ruim” em comparação com experiências dolorosas de procedimentos de reabilitação que já haviam experienciado e (5) compreendiam a restrição de sua autonomia pelos parceiros como devoção cavalheiresca, ao invés de estratégia de controle e poder (RICH, 2014).

Além de amenizar a gravidade da violência dos parceiros íntimos, as estratégias cognitivas empregadas pelas mulheres com deficiência permitiam alinhar suas identidades aos scripts tradicionais de feminilidade, como ter um parceiro afetivo-sexual e exercer o papel de cuidadora, o que corroborou sua permanência nos relacionamentos abusivos por longos períodos de tempo. Tais estratégias não significam que as mulheres com deficiência são ingênuas ou alienadas. Trata-se de tentativas de lidar com problemas difíceis, principalmente, diante da impossibilidade de abandonar os relacionamentos marcados por violência, dada a ausência de acessibilidade nos abrigos para mulheres em situação de violência e de serviços alternativos de cuidado, conforme Rich (2014).

A autora (RICH, 2014) aponta que é necessário: (1) desafiar ativamente, tanto em intervenções individuais, quanto grupais, as normas culturais de perfeição física, que podem ser muito opressivas para mulheres com deficiência; (2) promover acessibilidade nos espaços comuns, a fim de aumentar a interação e convivência entre pessoas com e sem deficiência, sobretudo, entre mulheres com e sem deficiência que já enfrentaram violência de gênero, pois tal interação tende a favorecer uma compreensão feminista de suas situações; (3) criar oportunidades para mulheres com deficiência orientarem e cuidarem de outras pessoas e (4) promover educação sexual comunitária, difundindo e incentivando a aceitação de possibilidades mais amplas de atividades sexuais, ao invés daquelas que se enquadram em moldes rígidos e opressivos para mulheres com deficiência física.

O processo de constituição de mulheres com deficiência na intersecção gênero e deficiência foi observado por Gesser, Nuernberg e Toneli (2013) por meio de entrevistas com 8 (oito) brasileiras com deficiência física de 24 a 68 anos. A análise de discurso identificou as seguintes categorias: (1) corporeidade, a qual é marcada pela compreensão do corpo com deficiência como desviante dos padrões valorizados socialmente, acarretando vergonha e dificuldade de aceitação do próprio corpo; (2) trabalho, reproduzindo os estereótipos de que as tarefas domésticas são de responsabilidade da mulher, originando frustração por não conseguirem cumprir o papel de dona de casa; (3) maternidade e cuidado, também reproduzindo os estereótipos de gênero que os naturaliza como atribuições da mulher e, mais uma vez, produzindo sofrimento emocional e (4) violência praticada por cônjuges e familiares, denunciando a naturalização da violência de gênero, o cerceamento dos direitos sexuais e o processo de infantilização da mulher com deficiência.

Achados semelhantes foram encontrados pela pesquisa de Mello e Nuernberg (2013) acerca da articulação da deficiência com a construção do corpo, gênero e sexualidade com 2 (duas) brasileiras com deficiência física. Os resultados apontaram sentimentos de inferioridade, solidão, falta de autoestima, repressão da sexualidade e dificuldade de estabelecer e manter relacionamentos afetivo-sexuais, reconhecendo que a mulher com deficiência não se enquadra nas representações ocidentais contemporâneas de mulher enquanto objeto sexual e enquanto mãe.

Já a pesquisa de Maia (2011a) acerca das questões psicossociais sobre a sexualidade de pessoas com deficiência física, dentre elas, as questões da autoestima e da representação do corpo, por meio de entrevista individual com 4 (quatro) brasileiras/o com deficiência física (três mulheres e um homem), indicou boa autoestima e percepção corporal, com exceção de uma participante, que tem dificuldade de olhar o próprio corpo, mas valoriza suas habilidades de

relacionamento interpessoal e dedicação ao trabalho e estudos. O homem que participou do estudo relatou que estar gordo o incomoda mais que a lesão medular.

As mulheres que participaram da pesquisa percebem que a experiência da deficiência afeta homens e mulheres de modo diferente. Segundo elas, é mais comum encontrar relacionamentos entre homens com deficiência e mulheres sem deficiência do que o contrário, pois as mulheres se importariam menos com o desempenho e frequência sexual, bem como com os atributos físicos de beleza, e estariam mais dispostas a assumir as tarefas de cuidado que, muitas vezes, a deficiência requer e também o cuidado com os filhos. Assim, percebem que as mulheres com deficiência estariam em uma situação de desvantagem para estabelecer relacionamento amoroso dados os papéis de mãe e esposa, enquanto os homens com deficiência teriam desvantagem em relação ao papel de provedor financeiro (MAIA, 2011a).

Uma das participantes da pesquisa de Maia (2011a) rompeu o namoro ao perceber o padrão dominador do namorado e compará-lo ao comportamento de seu próprio pai, que não aprovava que ela trabalhasse e continuasse estudando, duas atividades importantes para ela. A mesma participante não foi levada em consideração pela mãe, tampouco pelos policiais, ao denunciar o assédio sexual cometido por um fisioterapeuta, o que ela atribui ao fato de as pessoas com deficiência serem consideradas indesejáveis e assexuadas (MAIA, 2011a).

A invalidação da denúncia de violência sexual também foi encontrada por Mello (2014) ao analisar a violência contra mulheres com deficiência por meio de narrativas de 3 (três) mulheres com deficiência física e observações e entrevistas realizadas na Delegacia Especializada de Atendimento à Pessoa com Deficiência e ao Idoso de Belo Horizonte (DEADI/BH). As interlocutoras da pesquisa vivenciaram violência física, psicológica, sexual e patrimonial, praticada em domínios privados (por parentes de primeiro grau e ex-marido), semipúblicos (por profissionais da saúde da rede privada) e públicos (por profissionais da saúde de instituições públicas). Uma das participantes reclamou que, ao denunciar violência sexual cometida por médico ginecologista, sua família invalidou o relato e não procurou nenhum serviço de denúncia (MELLO, 2014).

A complexa interação de discriminações que perpassam o gênero (sexismo) e a deficiência (capacitismo) é indicada no levantamento sobre violência realizado pela Rede Internacional de Mulheres com Deficiência (RIMCD, 2011), o qual demonstra que mulheres com deficiência estão mais vulneráveis que mulheres sem deficiência e homens com deficiência a sofrer violências física, emocional e sexual, além de receberem pouca credibilidade ao denunciar a violência sofrida. Como estratégias de enfrentamento à violência contra mulheres com deficiência, a RIMCD recomenda a disseminação de informações sobre os canais para

denúncia de todos os tipos de violência, educação sobre direitos humanos e sobre saúde sexual e reprodutiva.

Ao encontro das estratégias de fortalecimento das mulheres com deficiência recomendadas pela RIMCD, encontra-se a formação feminista, conforme definido na Carta do I Seminário Nacional de Políticas Públicas e Mulheres com Deficiência (2013). A Carta define a necessidade de

promover capacitações teóricas sobre feminismo para mulheres com deficiência;

promover a realização de campanhas com foco na autoestima de meninas e mulheres com deficiência, bem como no enfrentamento a estereótipos, discriminações e preconceitos; assegurar às mulheres com deficiência o direito ao exercício de sua sexualidade, a constituição de família, ao pleno gozo dos direitos sexuais e reprodutivos, incluído o direito a gestação e a adoção; promover e aprofundar discussões sobre os assistentes eróticos; promover campanhas que abordem as diversas identidades das mulheres com deficiência (indígenas, negras, lésbicas ou bissexuais, quilombolas etc.); fortalecer e divulgar a rede nacional de mulheres feministas com deficiência (SEMINÁRIO NACIONAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS E MULHERES COM DEFICIÊNCIA, 2013).

Algumas pesquisadoras têm investigado a vivência da sexualidade pelas pessoas com deficiência, bem como a educação sexual recebida (LUIZ; KUBO, 2007; ALMEIDA, 2010;

MAIA, 2011a; 2011b; 2016; FRANÇA, 2013; 2014).

Luiz e Kubo (2007) investigaram, por meio de entrevista individual, as percepções de 5 (cinco) brasileiras/os (duas mulheres e três homens) com Síndrome de Down, com nível de escolaridade variando da alfabetização ao ensino médio completo, sobre relacionar-se amorosamente. Os resultados apontam que as percepções das pessoas com Síndrome de Down sobre relacionamento amoroso não diferem das percepções de pessoas da mesma idade sem Síndrome de Down, envolvendo percepções sobre cuidado e empatia para com a/o namorada/o, sentimentos de paixão, controle do próprio comportamento e seguimento de regras acerca do momento para iniciar a vida sexual, bem como o apontamento de conexão emocional e métodos contraceptivos como necessários para estabelecer uma relação sexual, consideração de atributos físicos e comportamentais para avaliar uma pessoa como atraente, havendo reprodução do ideal de beleza divulgado pela mídia (corpo magro).

Esse estudo indicou a possibilidade de haver relação entre a condição socioeconômica das famílias e a educação para a vida amorosa das pessoas com Síndrome de Down. As/os participantes cujas famílias têm maior nível de escolaridade e renda tiveram mais oportunidades de estabelecer namoro. A pesquisa indicou, também, que as crenças de que pessoas com Síndrome de Down têm sexualidade exacerbada ou infantilizada são incompatíveis com a realidade das/os participantes (LUIZ; KUBO, 2007).

A pesquisa de Almeida (2010), adotando entrevista individual com 3 (três) adolescentes portugueses (duas garotas e um garoto) com deficiência mental10 acerca de seus conhecimentos, necessidades e sentimentos relativos à vivência da sexualidade, apontou que os conhecimentos das/o participantes sobre funções corporais, reprodução, nascimento, Doenças Sexualmente Transmissíveis11 (DST) e métodos contraceptivos são limitados e deturpados. Por outro lado, os relatos dos sentimentos sobre namoro, casamento, maternidade e paternidade são equivalentes aos esperados para adolescentes sem deficiência mental.

A pesquisa indicou, também, que no contexto escolar são oferecidas poucas informações sobre educação sexual, enquanto no contexto familiar prevalece uma atitude de silêncio. As relações de amizade das/o participantes estão limitadas ao contexto escolar. Já no contexto familiar, há ausência de espaços e momentos de privacidade (ALMEIDA, 2010).

Almeida (2010) apresenta uma proposta de um programa de educação sexual para pessoas com deficiência mental com os conteúdos: funções do corpo, exercício da sexualidade, distinção entre público e privado, diferentes sentimentos, relacionamentos interpessoais, saúde sexual e reprodutiva, cuidado diário do corpo, autoestima e autoimagem positiva e assertividade para reagir a comportamentos não desejados.

Ao pesquisar questões psicossociais sobre a sexualidade de 4 (quatro) brasileiras/o com deficiência física com nível de escolaridade superior completo ou cursando, Maia (2011a) averiguou também a educação sexual recebida na família e na escola. O estudo revela pouca ou nenhuma informação sobre sexo e sexualidade nos contextos familiar e escolar, sendo as/os amigas/os com e sem deficiência, livros, palestras e consultas médicas fontes alternativas de informação, muitas vezes, por iniciativa das/o participantes e não das/os profissionais de saúde.

As pessoas que participaram da pesquisa apresentaram uma compreensão ampla de sexualidade, não restrita aos órgãos genitais e envolvendo afeto, carinho e confiança.

A pesquisa também revela a infantilização das mulheres com deficiência congênita por suas famílias, assim como controle e superproteção, até mesmo em relação ao trabalho e estudos, nesse caso, mais por parte dos pais que das mães. Há ainda a denúncia do preconceito social e da consideração equivocada de que as pessoas com deficiência são assexuadas e indesejáveis, o que não é compatível com a realidade das/o participantes (MAIA, 2011a).

Em outro estudo, Maia (2011b) investigou a sexualidade e a educação sexual por meio de entrevista com uma mulher cega. Os resultados apontaram uma concepção natural, individual e orgânica de sexualidade. A educação sexual recebida ocorreu de modo superficial

10 Início da nota. Nomenclatura adotada pela autora. Fim da nota.

11 Início da nota. Nomenclatura adotada pela autora. Fim da nota.

e sem materiais adaptados na escola, enquanto na família prevaleceu o silêncio, sendo as conversas com as amigas e a própria relação sexual meios pelos quais a participante aprendeu sobre as diferenças entre os sexos.

A participante desse estudo, que já teve namorados cegos e videntes, afirma que a deficiência não afeta sua sexualidade, tendo um conceito positivo do próprio corpo por se enquadrar nos padrões de magreza. Relata que deseja a maternidade, mas aponta que é uma tarefa difícil. A participante denuncia ainda que as barreiras sociais e a falta de acessibilidade a limitam mais que a cegueira em si. Percebe preconceito entre as/os familiares e avalia que a superproteção atrapalha a autonomia e independência. Percebe, também, que a sociedade reproduz a crença de que as pessoas com deficiência são assexuadas (MAIA, 2011b).

Maia (2016) pesquisou a vivência da sexualidade e a educação sexual recebida por pessoas com deficiência intelectual, entrevistando 8 (oito) homens e 4 (quatro) mulheres com deficiência intelectual, os quais cursam o ensino fundamental em uma escola especial e pertencem à classe socioeconômica desfavorecida. A pesquisa revelou uma educação sexual superficial e com viés sexista, havendo orientação de uso de preservativo com fins de prevenção de DST12 para os homens e gravidez para as mulheres. A educação sexual foi fornecida por médicas/os, psicólogas/os e algumas/ns familiares.

Essa pesquisa indicou compreensão genitalizada da sexualidade e valores heteronormativos; namoro, geralmente, sem sexo e vigiado por outros adultos para algumas/ns participantes e práticas sexuais vulneráveis (com pouca privacidade e sem preservativo) para outros. Por outro lado, suas expectativas sobre casamento e reprodução são responsáveis. Há preocupação com a estética como condição para a felicidade amorosa. A pesquisa revela, ainda, que as dificuldades na vivência da sexualidade são mais psicossociais que orgânicas (MAIA, 2016).

França analisou como pessoas cegas definem a percepção de pessoas videntes em relação à sua sexualidade (FRANÇA, 2013) e como percebem seu direito à sexualidade (FRANÇA, 2014) com entrevista individual e grupo focal com 11 (onze) brasileiras/as cegas/os (seis homens e cinco mulheres) com nível de escolaridade do fundamental completo ao superior incompleto. As/os participantes reconhecem que houve avanços na inclusão em vários aspectos, mas não na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, denunciando que a sociedade considera as pessoas cegas assexuadas e incapazes de gerir a própria vida, o que pode contribuir com a

12 Início da nota. Nomenclatura adotada pela autora. Fim da nota.

privação de uma vida sexual prazerosa e obstruir o acesso aos serviços de prevenção de IST (FRANÇA, 2013).

As/os participantes da pesquisa de França (2014) apontaram que seria importante ter acesso à educação sexual para compreender a sexualidade como algo natural, serem menos tímidas/os, quebrar o preconceito, diferenciar órgãos sexuais femininos e masculinos, devendo isso ocorrer desde a infância, sem necessidade de um método especial, apenas com materiais adequados como livros em braile, texturas e/ou áudio, modelos anatômicos do corpo humano, por exemplo.

Tais pesquisas (LUIZ; KUBO, 2007; ALMEIDA, 2010; MAIA, 2011a; 2011b; 2016;

FRANÇA, 2013; 2014) acerca da vivência da sexualidade pelas pessoas com deficiência e da educação sexual recebida indicam que esta é marcada, principalmente, por recomendações que coadunam com as abordagens13 médica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), médico-biologista (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006) e biológico-higienista (FURLANI, 2005; 2016), seguidas por indicações em harmonia com as abordagens religiosa (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), normativo- institucional (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006) e moral-tradicionalista (FURLANI, 2005; 2016). Também ocorrem nuances das abordagens terapêutico-descompressiva e consumista-quantitativa, difundidas pela mídia (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006), como será apresentado na próxima Seção.

Apesar disso, as pessoas com deficiência identificam fatores familiares e sociais, que cerceiam sua vivência da sexualidade, indicando uma leitura dos determinantes contextuais sobre a sexualidade a qual se aproxima do que é defendido pela Educação Sexual Emancipatória (FIGUEIRÓ, 1995; 2006; NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006).

Outras/os pesquisadoras/os têm se dedicado à elaboração e aplicação de programas de educação sexual para pessoas com deficiência (CURSINO et al., 2006; PIECZKOWSKI, 2007;

MORALES; BATISTA, 2010; MAIA et al., 2015; OLIVEIRA et al., 2018).

Cursino et al. (2006) identificaram as necessidades de informação de 14 (quatorze) jovens adultas/os com deficiência auditiva (oito mulheres e seis homens), com nível de escolaridade variando do ensino fundamental incompleto ao superior incompleto. As pesquisadoras aplicaram um programa de orientação sexual14 e verificaram a aquisição de informação. O programa foi composto por conteúdos sobre órgãos sexuais e relações de gênero, relacionamentos afetivos, gravidez, DST15 e autoestima.

13 Início da nota. As abordagens de Educação Sexual serão apresentadas na subseção 2.2. Fim da nota.

14 Início da nota. Nomenclatura adotada pelas autoras. Fim da nota.

15 Início da nota. Nomenclatura adotada pelas autoras. Fim da nota.

Os resultados identificaram mais acertos no pós-teste, em comparação ao pré-teste. É possível identificar uma combinação das abordagens médica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), médico-biologista (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006), biológico-higienista (FURLANI, 2005; 2016), pedagógica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), dos direitos humanos e dos direitos sexuais (FURLANI, 2005; 2016) neste programa de educação sexual (CURSINO et al., 2006).

Pieczkowski (2007) relatou os efeitos de orientações para alunas/os com deficiência mental16 de uma escola especial e suas/seus familiares acerca dos comportamentos de namorar, masturbar-se e tocar outras pessoas. Os resultados indicaram que, após as orientações, a masturbação passou a ocorrer em ambiente privado. Uma família conseguiu orientar sobre privacidade e as/os professoras/es e funcionárias/os ficaram mais tranquilas/os. Pieczkowski (2007) apontou maior dificuldade de abordar a sexualidade com mulheres com deficiência. A demanda desta intervenção não partiu das pessoas com deficiência. Observa-se as abordagens médica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), médico-biologista (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006), biológico-higienista (FURLANI, 2005; 2016) e pedagógica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006).

Morales e Batista (2010) descreveram a compreensão de conceitos sobre sexualidade por 9 (nove) jovens com deficiência intelectual (seis homens e três mulheres) em aulas de educação sexual em uma escola especial de condição socioeconômica baixa. Os resultados sugerem apropriação heterogênea de conceitos de sexualidade pelas/os participantes e manifestação de valores e preconceitos semelhantes aos de seus grupos (heteronormatividade).

As/os jovens apresentaram sinais de embaraço nas aulas sobre coito, beijo e homossexualidade, boa compreensão na aula sobre camisinha e DST17, o que pode ser fruto das propagandas da mídia. Nessa pesquisa, as/os participantes foram capazes de seguir as regras estabelecidas pelo grupo. Tais resultados indicam que aspectos do contexto podem favorecer ou desfavorecer as apropriações sobre sexualidade.

É possível identificar uma combinação das abordagens médica (FIGUEIRÓ, 1995;

2006), médico-biologista (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006), biológico-higienista (FURLANI, 2005; 2016), pedagógica (FIGUEIRÓ, 1995; 2006), dos direitos humanos e dos direitos sexuais (FURLANI, 2005; 2016) neste estudo (MORALES; BATISTA, 2010).

Também é possível perceber, na educação sexual recebida pelas/os participantes em contextos diferentes da intervenção programada, a influência das abordagens religiosa (FIGUEIRÓ, 1995;

2006), normativo-institucional (NUNES, 1996; NUNES; SILVA, 2006), moral-tradicionalista

16 Início da nota. Nomenclatura adotada pela autora. Fim da nota.

17 Início da nota. Nomenclatura adotada pelas autoras. Fim da nota.