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Parte 3: Promoção de saúde e prevenção

3.5.1. LPM- PR

A prevenção vai além de um estilo de vida saudável, caminha na busca de um bem estar global, individual e coletivo. A saúde deve ser vista como um recurso para a vida e não um objetivo para viver enfatizando os recursos pessoais e sociais, bem como as capa- cidades físicas.

continuação

3.5.2. O papel do médico

O compromisso da equipe de saúde dos Serviços de Atenção Básica nas terras indí- genas e da rede referências deve ser intensificado para superar as dificuldades e operacio- nalizar um atendimento adequado às necessidades de cada caso em conformidade com a concepção de cada povo.

O médico tem um grande desafio a enfrentar não só devido às limitações impostas pelas diferenças culturais indígenas como também pelas dificuldades técnicas de assistência adequada e de acompanhamento no pré-natal, parto e ao recém-nascido.

A assistência pré-natal adequada, propicia a identificação da gestação de risco con- tribuindo para a prevenção de seqüelas.

O atendimento da criança deverá ser integral e multidisciplinar onde, a consulta de puericultura, deve ser realizada por profissionais capacitados. O exame físico e neuroló- gico, a avaliação sensorial, principalmente, audição e visão, e avaliação das habilidades compõem o importante papel do médico habilitado no processo de diagnóstico e detecção precoce dos problemas do desenvolvimento. Parte indispensável e fundamental de toda consulta é o conhecimento social, dados sobre a família, gestação, fatores de risco desde a concepção.

Na literatura existem inúmeras escalas de desenvolvimento que tem valor no pro- cesso de avaliação sistematizada nos primeiros anos de vida, porém é necessário ter um conhecimento mais profundo em relação ao desenvolvimento infantil indígena, uma vez que estas crianças estão inseridas numa sociedade diferenciada com particularidades dis- tintas. O empenho do médico neste sentido garantirá o sucesso do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil desta população diferenciada.

Muitas patologias que seriam tratáveis sem deixar seqüelas, ou outras nas quais o acompanhamento precoce e adequado permitiria uma boa qualidade de vida, deixam de ser diagnosticadas, em tempo hábil para tratamento. E, quando estas crianças chegam aos ser- viços de saúde, o atraso de desenvolvimento já está instalado com suas conseqüências.

3.5.3. O papel da equipe multidisciplinar

A prevenção exige uma ação abrangente de educação preventiva, que extrapola o setor saúde como único responsável. Faz-se necessária uma ação interdisciplinar e intersetorial, envolvendo os vários setores do poder público, as organizações não-governamentais, a iniciativa privada, os pajés, lideres comunitários, agentes indígenas de saúde, que devem trabalhar de forma integrada, sincronizada e planejada, possibilitando realizar diagnósticos e intervenções adequadas, dentro do contexto histórico-social da comunidade em que es- tejam atuando, respeitando as culturas, crenças, espiritualidade e misticismo dos povos.

É preciso resgatar a responsabilidade dos diferentes setores do poder público para que as medidas sejam implementadas, além da atenção especial às atividades de capacitação e atualização dos profissionais de saúde com o estímulo ao trabalho em equipe e à formação de vínculos que favoreçam os envolvidos.

3.5.4. O papel da comunidade

Cabe salientar que, nesta estratégia, é fundamental a participação da comunidade em todas as etapas do trabalho, ou seja, este deve ser realizado com a população e não para a população, possibilitando o fortalecimento de sua autonomia, resgatando-se valores de consciência social, solidariedade e fraternidade, porém sem missionarismo, autoritarismo ou paternalismo.

Várias estratégias têm sido utilizadas, para se implantar políticas de prevenção de deficiências.

Uma importante estratégia que tem sido adotada por várias entidades que atendem aos portadores de deficiências são as campanhas em formas de cartilhas, oficinas, cartazes com o seguinte conteúdo:

Veja como, com alguns cuidados, você pode evitar a deficiência:

a) antes da gravidez:

• vacine-se contra rubéola e tétano neonatal;

• evite casamentos consangüíneos (entre parentes);

• realize exames de rotina (grupo sangüíneo, fator RH, sífilis, toxoplasmose e HIV);

• evite a gravidez em idade muito avançada;

• procure aconselhamento genético se tiver algum caso de deficiência ou malfor- mações na família;

• tome ácido fólico ou alimente-se adequadamente;

b) durante a gravidez:

• consulte mensalmente um médico obstetra;

• faça controle: sangue (hemograma, fator RH, sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalo, vírus, diabetes), urina, fezes;

• só tome remédios que o médico lhe receitar;

• exija e cuide de sua carteira de gestante, ela vai ser muito útil na hora do nas- cimento de seu filho;

• se você tem algum problema como: pressão alta, diabetes, coração ou infecções, procure um médico;

• faça uma alimentação saudável. Coma sempre carnes, ovos, frutas e verduras;

• evite carnes cruas ou mal passadas;

• evite contatos com animais, sobretudo gatos (toxoplasmose);

• não acredite quando lhe disserem que o álcool e o fumo não fazem mal;

c) ao nascimento:

• tenha seu filho amparado em sua comunidade, em caso de gestação sem risco, ou em ambiente hospitalar, em caso de gestação de risco;

• exija a presença do pediatra na sala de parto para prevenir seqüelas graves do trauma de parto, se tiver qualquer suspeita de que não poderá ter parto natural;

• amamente o seu filho o quanto antes, se possível já na sala de parto; e

• toda mãe vai ter leite para seu filho. É um leite forte, sempre fresco e quentinho o que vai defender o bebê de muitas doenças. Amamentar é um ato de amor;

d) depois do nascimento:

• procure pediatra mensalmente durante os dois primeiros anos de vida;

• companhe o desenvolvimento de seu filho por meio cartão da criança;

• siga rigorosamente o calendário de vacinação;

• faça o teste do pezinho entre o sétimo dia e o segundo mês de vida;

• higiene corporal e oral é muito importante;

• dê alimentação saudável ao seu filho;

• procure orientação do pediatra;

• não espere que as doenças aconteçam. Evite-as;

• não dê remédios a seu filho sem orientação médica;

• evite acidentes, quedas, traumatismos. Siga orientação da campanha de Preven- ção de Acidentes e Violências da Sociedade Brasileira de Pediatria;

• seu filho deve ficar longe do fogo, remédios, produtos tóxicos; e

• não consuma bebidas alcoólicas.

3.5.5. Cuidados com a vida saudável (fique por dentro... previna!) a) pré-natal, parto normal;

b) aleitamento materno, vacinações;

c) teste do pezinho;

d) controle das doenças;

e) controle do desenvolvimento;

f) prevenção de acidentes e violências.

3.5.6. Conclusão

Uma série de pré-requisitos é necessária para a conquista da saúde: paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e eqüidade. Apesar da falta de referências a incidência de deficiências na população indígena, provavelmente seja maior do que a estimada.

Conhecer e obter maior número de dados relacionados a possíveis fatores de risco desde a concepção até o início das aquisições das habilidades características da criança indígena inserida na sua comunidade, além da pesquisa detalhada de incidência de mal- formações ou doenças genéticas é fundamental para detecção precoce dos problemas de desenvolvimento. A comunidade deve atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo maior participação no controle deste processo. Para atingir um estado de bem-estar físico, mental e social, as pessoas e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente.

Acreditamos que o compromisso da equipe de saúde, por meio da pesquisa e ava- liações de forma interdisciplinar e intersetorial, que atende à população indígena deverá ser imprescindível para se obter maiores informações sobre o desenvolvimento infantil, as seqüelas e lesões que as crianças indígenas estão sujeitas. A intervenção precoce e de forma adequada, certamente, contribuirá para minimizar o que não poderá ser evitado, estimulando o processo de inserção da criança em seu meio social.

Prevenir as condutas de risco em todas as oportunidades educativas, analisar de forma crítica e reflexiva os valores, as condutas, os estilos e as culturas, fortalecendo os vínculos com uma participação da família e se possível das comunidades nas tomadas de decisão, colaborará na promoção da saúde e construção da cidadania e elaboração de políticas públicas saudáveis garantindo maior eqüidade, qualidade de vida e saúde para as crianças indígenas brasileiras e seus familiares.