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O Mapeamento das Redes Sociais e dos Itinerários de Cura e Cuidado

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 120-200)

Esquema 1 Triangulação das informações no trabalho de campo

7.2 O Mapeamento das Redes Sociais e dos Itinerários de Cura e Cuidado

Os dados coletados dessa forma permitiram mais significativas da Barra do Rio e a descrição desenvolvidos nas redes sociais identificadas. A

cê considera que essa(s) soluções gativos.

às fontes de apoio social e aos Cs nismo. O mesmo dos a de

da

os

ura e Cuidado

redes sociais do a

problemas? - Resultados ne autor.)

s

os objetivos específicos, os DS ado pelo antago

c

ntes avaliavam os resultados dessas questões foi sob form ro com sentido negativo, para ca

discussão como subsidiários a e nosso projeto.

ários de C

a identificação das

dos itinerários de cura e cuida partir disso, elaboramos um

representação gráfica dessas redes sociais, o que fazer segundo o modelo apresentado por Sluzki (199

dada aos problemas de saúde esvaziava os setores do diagrama relativos a formas de apoio mais procuradas em situações outras que

concentrando-se nos setores “Família” e “Relaç

num primeiro momento tentamo 7) (Figura 8). No entanto, a ênf

s ase

aúde,

ões c ncias

ociais”. Nossa opção foi adaptar o diagrama original a fim de representar as fontes de apoio sem discriminação de forma de apoio (Figura 9), relacionando a acessibilidade da

fonte de apoio com stá

disposta até o centro do diagrama no qual localizam

fontes de apoio positivo no formato de elipses, enquanto aquelas de apoio negativo estão inscritas em retângulos.

aquelas de problemas de s om Sistemas de Saúde e Agê S

o diretamente proporcional à distância do círculo na qual e os a família, e diferenciando as

Figura 8 – Mapa de redes sociais na Barra do Rio no modelo de Sluzki (Fonte: Sluzki, 1997)

AMIZADES FAMÍLIA

RELAÇÕES COMUNITÁRIAS

RELAÇÕES DE TRABALHO OU ESTUDO

C1

C2 S1

S2 S3 A

F1

F2

F1 - Filhos F2 - Irmãos A - Amigos C1 - Vizinhos C2 - Igreja S1 - Equipe PSF S2 - SS

S3 - Hospital

Figura 9 – Mapa adaptado das Redes Sociais na Barra do Rio.

(Fonte: adaptação do autor)

PSF

Famílias

Farmácia

Posto de Saúde Central

Pastoral da Criança

Hospital Deus

Vizinhos

Amigos

Médicos Particulares Cuidadores

Contratados

Igrejas Assistentes

Sociais

Prefeitura

Família

Vizinhos

Igrejas Evangélicas

Prefeitura e Vereadores Centro

Espírita

Médic Particul

os ares

No diagrama da Figura 8, que seguiu o modelo original proposto por Sluzki (1997), nos limitamos àqueles apoios profissionais que não demandavam,

que cada informante descreveu, no mais das vezes, diferentes itinerários para iferentes problemas de saúde, o diagrama que construímos buscava evidenciar quais os elementos comuns aos itinerários de cura e cuidado na Barra do Rio. Esses

elementos eram combináve de

ário individual.

necessariamente, desembolso de dinheiro, excluindo os apoios profissionais que se caracterizavam como alternativas pagas. Além disso, sintetizamos diferentes apoios que poderiam ser incluídos sob um mesmo rótulo, sem diferenciar as igrejas ou os diferentes recursos disponíveis através do Governo Municipal, reunidos sob o rótulo de Secretaria da Saúde. Isso se deveu à característica desse diagrama de não diferenciar os apoios entre negativos ou positivos.

Na construção do diagrama adaptado da Figura 9, como não estávamos restritos à disposição por quadrantes, foi mais viável graficamente especificar as várias fontes de apoio mantidas por organizações sociais, fossem elas governamentais ou não. Nesse diagrama, reunimos os convênios médicos e os médicos particulares sob um mesmo rótulo, pois se mostraram intercambiáveis em termos de acessibilidade para as famílias quando dispunham de recursos financeiros para esses atendimentos, ambos fazendo parte das alternativas pagas. Também aqueles médicos particulares que foram identificados como sendo tradicionais no município, atendendo algumas pessoas da comunidade por relações de amizade ou parentesco, foram integrados nesse rótulo, visto não estarem amplamente disponíveis como fonte de apoio social.

A representação gráfica dos itinerários de cura e cuidados (Figura 10) foi dividida em quatro quadrantes, parcialmente superponíveis às fontes de apoio social positivas, com as quais são identificáveis através das cores utilizadas nos rótulos dos diagramas.

Como seria impraticável e pouco elucidativo representar cada itinerário particular, sendo

d

is em ordens diferentes ou em paralelo na reconstrução cada itiner

Figura 10 - Diagrama dos itinerários de cura e cuidado na Barra do Rio.

(Fonte: o autor) Visitas da equipe

Posto de Saúde da Barra

Fornecimento de Medicação

Grupo hipertensos

Médico no posto

Tentar resolver em casa

Oração

Alimentação Automedicação

Fitoterapia

Farmácia

Médicos Particulares

Convênios Médicos

Alternativas Pagas

Pastoral da Criança

Ambulâncias e Hospital

Terapias espíritas

Organizações Sociais

Posto de Saúde Central

e modo a elementos

tar resolver ios, ao contrário do O PSF foi representado como um único rótulo no diagrama de apoio social, enquanto ficou subdividido na representação gráfica dos itinerários, d

especificar ações desenvolvidas pela equipe que foram identificadas como isolados nos itinerários descritos pelos informantes.

Da mesma forma, aquelas alternativas que fazem parte do grupo “Ten em casa” foram isoladamente representadas no gráfico dos itinerár

diagrama de apoio social, considerando-se que estas foram incluídas sob o próprio rótulo de “Família”.

8 DISCUTINDO OS RESULTADOS

O Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) sobre as redes de apoio social no bairro da Barra identificou fontes de apoio diferentes de acordo com cada forma de apoio buscado. Dentre essas fontes de apoio, a família se mostrou como a mais rica, tanto em disponibilidade quanto em variedade de formas de apoio mediadas por ela. No entanto, a abordagem inicial direcionada à saúde e doença, além da identificação dos entrevistadores como profissionais da saúde que faziam uma pesquisa sobre cuidados com a saúde, provavelmente foi determinante na ênfase que os informantes deram aos apoios sociais buscados em situações de doença.

Na analogia de Elsen (2002), o cuidado familial estende seus ramos como uma árvore de ações e interações entre os membros da família, enraizando-se no universo biopsicossocial compartilhado por eles como uma cultura familiar, não sendo o cuidado um fenômeno isolado. O cuidado familial constitui-se, então em um sistema de saúde com um modelo explicativo de saúde e doença próprio que serve como um guia internalizado para a promoção, prevenção e tratamento dos problemas de saúde.

Os membros das famílias entrevistadas contavam basicamente com o apoio mantido entre os membros do casal em relação à saúde, visto que na maioria dos casos a família se constituía somente do casal ou este coabitava com filhos e/ou netos sob seus cuidados. Sluzki (1997) descreveu o ganho de importância da relação conjugal na velhice, com sua eventual sobrecarga, resultante da redução da rede social, enquanto as relações entre os pais idosos e os filhos modificam suas dinâmicas, na medida em que os filhos passam a ter o papel de cuidadores dos progenitores. O apoio para transporte, recursos financeiros, conselhos, informações ou de caráter emocional costumava envolver uma rede mobilizada eventualmente, até mesmo via telefone, da qual participavam basicamente filhos(as) e irmãos(ãs), com suas respectivas famílias.

A mobilização da rede de apoio familiar em um caráter mais permanente se dava em relação a pessoas com limitações importantes para a vida diária, incluindo a contratação de cuidadoras e divisão de despesas entre os filhos(as), como nos casos de F2 e F4. Essas duas famílias encontraram soluções diferentes para lidar com o idoso dependente de cuidados diários em função de problemas crônicos de saúde. Mesmo

longo do tempo, até sua morte, em relação a M4 que, com 72 anos, apresentava freqüentes complicações pelo DM. As

nte e

Posto de Saúde. Isso pode ser indicativo de uma dificuldade no acesso aos serviços de saúde, traduzido por F10 em sua atitude de deixar o que as duas famílias mantivessem cuidadoras contratadas somente durante o dia, enquanto os familiares assumiam os cuidados à noite, P2 permaneceu em sua casa, diferente de M4 que passava por um rodízio entre as residências das filhas no próprio bairro.

Os diferentes cursos dos problemas de saúde de M4 e P2 não permitiam comparações diretas, sendo que P2 tinha 84 anos, mas apesar das seqüelas de AVC e da HAS mantinha uma situação mais estável ao

duas famílias vivenciaram mudanças de cuidadoras contratadas e, mesmo assim, as dificuldades envolvendo a continuidade dos cuidados com saúde pareciam maiores para M4, implicando um recomeço a cada mudança de residência sofrida. Porém, a filha que cuidava de M4 na época da entrevista justificava a impossibilidade de mantê-la em sua própria casa não só pelos limites financeiros, mas também em razão dos conflitos na convivência com o filho etilista que coabitava com M4 anteriorme

permanecia na casa desta.

Ainda que a família fosse a principal intermediária dos problemas de saúde e que o apoio disponibilizado pelas pessoas aos familiares se mostrasse gratificante, a família também se constituía em uma fonte de apoio negativo ou uma limitação para obter o apoio necessário. A sobrecarga sofrida no cuidado com os netos (F6 – Q 3.2.2; F4 – Q3.2.3; F8 – Q 3.2.4) e a simples incapacidade de identificar fontes de apoio mesmo na própria família (F7; F9; F10 – Q 3.2.5) foram exemplos disso.

Essas informantes que contribuíram com a idéia central (Q 3.2.5) “Não procura apoio, não tem com quem contar.”, eram coincidentemente identificadas como usuárias pouco freqüentes do

atendimento pelo médico do PSF para quem precisasse mais, enquanto o médico particular se tornara muito caro, como pela demora e falta de resultados na utilização dos serviços do Posto de Saúde Central (F9; F10 – Q 5.2.15). Por outro lado, a presença de uma rede consistente de apoio positivo é um fator capaz de afetar favoravelmente a saúde no momento em que a busca por soluções para os problemas de saúde pode ser estimulada pela rede (SLUZKI, 1997). Se essas famílias não contavam com redes de apoio desenvolvidas, isso seria uma influência para seu comportamento de não utilização dos recursos do PSF quando necessário.

Conseqüentemente a seu papel como fonte de apoio social em relação à saúde,

atenção médica formal.

comprados no comércio informal. De acordo com as ACS da Barra (SILVA; SCHOLZE; FAGUNDES; 2004), o a família se constituía para os informantes como coordenadora dos itinerários de cura e cuidado, bem como mantenedora de alternativas que foram incluídas sob a idéia central

“Tentar resolver em casa”. Estas alternativas se relacionavam à fitoterapia e outras formas de medicina caseira, à automedicação e à alimentação. Sartori (2002) observou que a medicina familiar era o primeiro recurso de saúde na comunidade rural pesquisada por ela, praticada primariamente pelas mulheres, a partir de sua experiência própria ou dos mais velhos, nos mesmos moldes das práticas de mulheres no México descrita por Tezoquipa, Monreal e Santiago (2001). Segundo Sartori, a medicina familiar não conflitava com a medicina oficial, estabelecendo seus limites de forma bem definida como recurso para problemas de saúde leves ou simples, enquanto os graves eram destinados à

As ancoragens da fitoterapia e da medicina caseira residiam em fontes diversas, desde as tradições familiares e prescrições de médicos antigos, até programas de televisão com a participação de médico naturalista, terapias orientais baseadas na unibiótica, além de orientações da Pastoral da Criança e da Secretaria de Meio Ambiente do Município. Esta última disponibilizava fitoterápicos que, de outra forma costumavam ser cultivados pelas próprias famílias ou eram

uso de plantas medicinais era mais significativo entre idosos e famílias de pescadores.

O conhecimento popular sobre plantas medicinais, segundo Queiroz (2003), estava mais vinculado aos idosos, dependendo da inserção destes nas famílias para que seja

difundido, isso foi observado no relato de M6 que distribuía chás previamente embalados e identificados para os filhos que não moravam com ela.

Com a exceção de C2 (Q 5.2.4), a fitoterapia foi relatada como uma alternativa positiva nos itinerários de cura e cuidado, amplamente utilizada e isenta de riscos.

Queiroz (2003) também afirmou que um aspecto positivo das plantas medicinais era o de serem menos iatrogênicas e com menores reações adversas que medicamentos químicos. Ele apontou a incompatibilidade lógica entre o uso de plantas medicinais e a farmacologia, já que na primeira uma erva pode ser benéfica para uma pessoa e não

ma ancoragem, destinada especialmente a crianças. Os itinerários descritos por Scholze, Silva, e Fagundes para outra. A fitoterapia considera o valor terapêutico da planta como um todo no sentido de restabelecer o equilíbrio do organismo, sem isolar um composto ativo, mas manipulando-a de forma mínima a partir de uma seleção baseada em experiência, sensibilidade e intuição. Warber e Zick (2001) revisaram o uso de ervas medicinais e sua relação com problemas cardiovasculares, relatando benefícios potenciais de algumas delas, mas relacionando vários possíveis efeitos adversos, mais comumente alergias, além de interações de ervas com medicamentos utilizados para doenças cardiovasculares, podendo levar a redução de efeito das drogas ou aumento do risco de sangramento se utilizadas concomitantemente com varfarina ou ácido acetilssalicílico.

A automedicação também teve na tradição familiar u

(2004) também apontavam para uma utilização maior da automedicação em famílias jovens, menos comum entre idosos que mais comumente já faziam uso de medicamentos prescritos por doenças crônicas.

Em estudo que incluiu 775 indivíduos em uma cidade brasileira, Loyola Filho et al (2002) observaram uma prevalência do consumo de medicações exclusivamente não prescritas de 28,8%, considerando-se um período de 90 dias anterior ao estudo, sendo que outros 17,2% utilizaram conjuntamente medicamentos prescritos e não-prescritos no mesmo período. A maior freqüência de automedicação estaria relacionada com a menor freqüência de consultas médicas, sugerindo que fosse uma alternativa à atenção

formal à saúde na comunidade estudada, o que estava de acordo com estudos realizados em outros países.

Visto ser uma alternativa muito difundida, é possível que o emprego da automedicação tenha sido menos relatado pelos entrevistados em nossa pesquisa por se encontrarem diante de representantes do sistema formal de saúde. Isso se deu no caso de F7, pois ela negava utilizar medicamentos sem prescrição médica e, mesmo não sendo usuária de tratamentos para doenças crônicas, mantinha uma verdadeira farmácia sobre a geladeira da cozinha.

Outra alternativa de cura e cuidado desenvolvida no ambiente familiar foi o uso terapêutico da alimentação ou, mais amplamente, como forma de prevenção, tendo ancoragens evidentes na unibiótica e na Pastoral da Criança. A alimentação errada fez parte das idéias centrais segundo as quais a doença é resultante da falta de cuidados (Q 2.5) e que ter saúde depende de saber se alimentar (Q 1.13), o que refletiu uma ancoragem biomédica, constante nas recomendações alimentares repetidas ad nauseum pelos profissionais da saúde que trabalham com pessoas em tratamento para HAS e DM, situação vivida pela quase totalidade das famílias entrevistadas. Sartori (2002) chamou a atenção para um possível conflito entre um padrão alimentar ditado pelo saber oficial em saúde e aquele adotado no cotidiano das famílias que, mesmo

A presença dos amigos e vizinhos na rede de apoio social foi identificada pelas família

conhecedoras do primeiro, seguem critérios ditados por suas possibilidades aquisitivas e por uma classificação entre alimento “forte”, necessário para manter o corpo trabalhando, e alimento “fraco”, para aqueles com o organismo debilitado e muitas vezes identificado com as orientações nutricionais da saúde formal.

s sob formas variadas, mas pouco intensiva, mais em um aspecto de socialização, para “fofocar, conversar”. Em alguns casos, o papel de amigos e vizinhos foi o de fonte de apoio financeiro e transporte em situações de doença. Em nossa pesquisa com as ACS da Barra, também não identificamos um apoio efetivo dos vizinhos em situações de problemas de saúde, como na fala da ACS que atuava em uma das áreas mais carentes: “cada um assim procura ter a sua opinião, né? Antes do

outro saber mesmo eles já fizeram alguma coisa.” (SILVA; SCHOLZE; FAGUNDES;

2004, p. 47).

otivo para agradecer a deus, a doença era creditada ao maligno, agindo para aplicar um castigo divino. Naturalmente, a oração

onal das crianças, quanto na ausência de participação das igrejas evangélicas nas reuniões desenvolvidas

promoção à saúde (SILVA; SCHOLZE; FAGUNDES, 2004). Valla (2000), por outro lado, Deus foi um apoio onipresente, tanto em situações de doença como no dia-a-dia das famílias, quer fossem católicos ou evangélicos. No caso das famílias evangélicas, a religião foi uma ancoragem constante ao longo dos discursos, retratada em expressões chaves como “tudo o que eu dependo é de deus”, o que era identificado na responsabilização do divino tanto pela saúde quanto pela doença. Mesmo que as duas situações fossem apontadas como m

surgia como uma primeira opção nos itinerários de cura e cuidado, fosse ela uma ação individual ou de um grupo de oração que se reunia na casa da pessoa doente.

Exceto pelos grupos de oração, as igrejas evangélicas não foram representadas no DSC como uma fonte de apoio, até mesmo sendo rejeitadas como possibilidade de apoio em relação a problemas de saúde, exatamente por atribuir as doenças ao

maligno(Q 3.2.6). Já a igreja católica, mesmo não constituindo uma ancoragem tão presente quanto a evangélica, mostrou-se uma fonte de apoio social mais variada, incluindo apoio financeiro e emocional, e com um aspecto de organização social atuante no apoio à saúde através da Pastoral da Criança.

Aparentemente a ligação da Pastoral da Criança com a igreja católica acabava mesmo por ser uma limitação a sua atuação nessa comunidade, como relatou F8, tanto na falta de aderência dos “nativos” ao acompanhamento nutrici

pela Pastoral, ainda que estas procurassem demonstrar um caráter ecumênico.

Essa possibilidade de contribuição negativa das igrejas evangélicas ou pentecostais para a constituição de redes sociais pode ser verificada também na pesquisa de Ambrozio (2003), que as considerou um fator de desagregação da comunidade, e nos relatos das ACS quanto a heterogeneidade das igrejas e seu papel como fator contrário à participação dos moradores em atividades de educação e

ressaltou o caráter de manifestação popular dos cultos evangélicos, que teriam sua função terapêutica para a comunidade menos pela identificação com o grupo que pela possibilidade de externar as frustrações que são cotidianamente somadas como fatores

ecostais foram as que mais ganharam fiéis, utilizando-se das crenças já existentes, a exemplo

guindo o seu objetivo, recorre à renda de sacrifício para alguma entidade afro-brasileira. A cura, no entanto, não vem. Ele, então, assiste na televisão

a Igreja de estresse. Esse sofrimento difuso na vida das classes populares, não expressado em outros contextos, ganharia coerência na vivência das igrejas evangélicas em concordância com a proposta do apoio social.

Os dados de uma pesquisa em áreas urbanas do Brasil em 1998 foram utilizados por Almeida e Montero (2001) para investigar a migração entre religiões. Eles traçaram um perfil dos membros do segmento pentecostal como uma maioria de mulheres, chegando a 80% na Igreja Universal, adultos jovens das classes C e D, com ensino fundamental incompleto, buscando uma rede de sociabilidade. As religiões pent

da umbanda, e satanizando-as, como um sincretismo ao contrário. Eles propuseram um caminho na migração mais comum, do catolicismo ao pentecostalismo, que poderia ser visto como um itinerário de cura e cuidado religioso:

ao descobrir ser portador de uma grave doença recorrerá à fé católica, aos santos milagreiros e a alguma devoção à Maria. Não conse

umbanda que lhe promete a cura mediante à ofe

os testemunhos de milagres que ocorrem a quem for à Universal; e lá se fixa o fiel- doente. (ALMEIDA, MONTERO; 2001).

Guareschi (1995) distinguiu as igrejas evangélicas na América Latina em pentecostais antigos, como a Assembléia de Deus, e os neopentecostais, como

Universal do Reino de Deus, estas com maior crescimento nas últimas duas décadas e que foram objeto de sua pesquisa sobre a ancoragem da questão financeira em suas práticas religiosas. Ele também identificou as crenças afro-brasileiras como a ancoragem do mal para os pentecostais, enquanto as graças de deus dependiam da reciprocidade, muitas vezes antecipada, sob forma de “doações” em dinheiro para o

pastor, que garantiriam as benesses da divindade, da mesma forma que qualquer outra força do mercado capitalista que trabalha em troca de dinheiro.

Esse autor observou que os fiéis constituíam uma massa anônima tratada de forma a não questionar quais fatores perpetuavam a miséria humana, atribuindo tudo ao “demônio”, a mesma abordagem da doença presente no DSC relativo à falta de apoio em nosso estudo (Q 3.2.6). Valla (2000) atribuiu essa situação não a uma

ões submetiam-na duplamente: à lógica do consumo e à lógica da graça esperada. O crente, imobilizado pela sociedade pela religião, “só tem que agradecer”, como nas expressões-chave relativas à saúde e doença.

As terapias espíritas não tiveram relatos por parte dos entrevistados na qualidade de usu

as terapias. Isso estava de acordo com os resultados da pesquisa com as ACS (SILVA;

CHOLZE; FAGUNDES, 2004) que desconheciam a prática dessa alternativa nos

Barra pelas ACS foram as benzeduras, também presentes nas observações em nosso manipulação externa do crente, mas a uma constatação coerente das classes populares que a melhora da situação social é ilusória.

O papel das religiões como determinantes dos valores da sociedade foi, segundo Santos (1987), apropriado pelo consumo cuja fé se instala nos objetos, alienando o ser humano de modo a reduzir sua sensibilidade, individualidade e cidadania. Porém, considerando os autores acima, o pentecostalismo e o neopentecostalismo foram capazes de agregar o ópio da religião ao ópio do consumo. Mesmo que envolvessem a pessoa em uma forma de rede social, essas religi

e

ários, somente por F6 como proprietária da casa onde eram realizadas

S

itinerários da Barra, ainda que pacientes atendidos no Posto de Saúde tivessem se submetido a tais tratamentos. Inclusive, essa residência era identificada como estabelecimento dedicado a massagens, não como local de sessões espíritas. A massagem foi relatada por F6 como uma alternativa terapêutica buscada por muitas pessoas da comunidade e de outros locais, levando a resolução de problemas ortopédicos.

Outra alternativa não relatada pelas famílias entrevistadas, mas identificada na

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 120-200)