Para compreender didaticamente e facilitar os estudos futuros, indica-se os principais mecanismos da desinformação, sem pretensão de exauri-los. Esta explicação e nomenclatura das técnicas e mecanismos surgiu do estudo e compilação das teorias de Volkoff (1999), Abramo (2003), Serrano (2010) e Chomsky (2014), agregando conhecimentos adquiridos em outras leituras como Parenti (2001), Lewandowski et al. (2012), Marshall (2017) e Christofoletti (2018) sob a perspectiva da Ciência da Informação e da Comunicação. Não está apontado em cada mecanismo todos os autores que articulam cada ideia, mas apenas aqueles cujas citações achamos necessárias à compreensão do fenômeno.
A indicação primária destes mecanismos já foi elencada em artigo de Brisola e Doyle (2019) e inclui a maior parte do mapa conceitual abaixo (Figura 3), ampliado para esta tese. O mapa contempla também as causas e contextos abordados no capítulo anterior. Todos os conceitos estão numerados no texto para facilitar a correlação com o mapa.
Assim, temos no mapa conceitual, acima, o conceito resumido de desinformação. Do lado esquerdo, os fenômenos e contextos que fomentam a desinformação. No centro abaixo os mecanismos de desinformação com seus desdobramentos. Por fim, do lado direito superior os propósitos da desinformação.
Fonte: Autoria própria a partir de Brisola e Doyle (2019)
A desinformação se constitui em um conjunto de práticas informacionais, cujos principais mecanismos e técnicas são:
1. Infantilização(a31): a informação é passada como se fosse para uma criança. Fácil de entender, resumida, sem contrastes, sem contextualização, em linguagem simples, comumente maniqueísta, quase sempre baseada em uma fonte interessada ou em interesses que não estão evidentes. Também é mais facilmente esquecida porque não é contextualizada.
Autores como Ignacio Ramonet, Serrano e Chomsky, elucidam que o discurso, a mensagem jornalística e a informação circulante estão mais simples e mais fáceis. O discurso produzido hegemonicamente possui estratégias pedagógicas, sedutoras e de persuasão.
Segundo Ramonet (2003), estes discursos têm características da retórica – um discurso rápido e impactante, que segue um modelo publicitário a fim de evitar o tédio – e simplicidade na construção – elementar, com uso de vocabulário comum, uma construção fácil de entender, repetitiva, utilizando elementos de espetacularização que apelam para as emoções. Por empregar táticas que são aplicadas à comunicação voltada às crianças, Ramonet (2003) qualifica esse discurso como infantilizante.
Ramonet (apud SERRANO, 2010, p. 37) também atenta para o fato de que até o número de palavras é limitado para que a compreensão seja facilitada: “Com a ideia de que se deve expressar de maneira muito fácil, muito simples, porque tudo o que é raciocínio complexo, tudo o que é raciocínio inteligente, fica muito complicado e sai do sistema de informação tradicional”. A simplificação mais elementar é a maniqueísta: “Os matizes são suprimidos [...] tudo o mais é para ‘intelectuais’”.
Uma lista com 10 estratégias de manipulação midiática é atribuída à Chomsky em diversos sites e trabalhos acadêmicos, em várias línguas. Lida pelo jornalista Eduardo Aliverti em programa de rádio e postada pelo francês Sylvain Timsit, a lista é certamente baseada em Chomsky. Assim, utilizamos esta lista que trata da infantilização no 5º item. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade, uso de discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis. E completa: Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico.
Sob esse aspecto, a infantilização parte dos princípios da publicidade e chega a informações que seriam relevantes para o cidadão, afastando a crítica e deixando o indivíduo
sem condições de compreender sua origem, alcance ou significado. Deste modo, os meios apresentam de forma suficientemente superficial os problemas locais e mundiais, entravando assim a reflexão crítica dos cidadãos, impedidos de sequer deduzir os motivos e as origens dos “fatos” que a informação carrega (SERRANO, 2010).
Informações que são simples, fáceis de lembrar, dramáticas e apelos a informações já aceitas, tendem a se espalhar mais rapidamente entre grupos de informações conectadas, do que informações complicadas, chatas, incertas ou contraditórias, mesmo que essas informações sejam mais precisas. Na sociedade da informação, informações ruins podem expulsar boas (MARSHALL; GOODMAN; ZOWGHI;
RIMINI, 2015, p. 100-102).
A infantilização contribui para o espalhamento de informações precárias e das distopias informacionais e dificulta o trânsito de informações mais complexas e completas.
Cria o hábito da leitura “fácil” e rápida, que não exige maior esforço de concentração e/ou interpretação e colabora com a preguiça de ler mais que um parágrafo. Um exemplo recente desta infantilização é a mensagem viral “Se é agro é bom!”, que reduz toda complexidade social, ecológica, laboral e econômica ao simples “é bom”.
2. Comoção(a32): estímulo ao excesso de emoção e aderência a sentimentos e afetos mais do que à razão. O aspecto emocional atrapalha a análise racional e o sentido crítico no indivíduo, abrindo uma porta de acesso ao inconsciente, enxertando ideias, desejos, medos, temores ou compulsões. A emoção é verdadeira, a informação pode até ser verdadeira, mas o indivíduo é despido de condições de perceber os mecanismos de distorção da realidade.
Serrano (2010) recorre à tese do filósofo francês Jean Baudrillard para exemplificar o mecanismo: “acontecimentos como os atentados de 11 de setembro supõem um ‘excesso de realidade’ que causam tal comoção que os cidadãos, em especial os estadunidenses, não conseguem buscar a conexão entre essa realidade e seu entendimento” (SERRANO, 2010, p.
33). Mediante o choque com o acontecimento e antes que se possa racionalizar, é entregue, rapidamente pelos meios, uma interpretação já pronta, aproveitando a situação emocional para imprimir sua leitura de mundo. “O único sentimento que alguém pode ter acerca de um evento que ele não vivenciou é o sentimento provocado por sua imagem mental daquele evento”
(LIPPMANN, 2008, p. 29).
Os produtos informativos de multimídia têm mais poder ainda de manipular através das emoções, a partir da elaboração e apresentação de imagens, sons e texto. Através da
construção elaborada da mensagem, envolta em som, imagem e da maneira como estas são ordenadas, a informação pode despertar sentimentos (ódio, drama, indignação, rejeição, afeto, compaixão) antes mesmo que o intelectual/racional compreenda o que está sendo apresentado.
Serrano cita Ramonet, explicando que existe uma conexão interna: se a emoção sentida é verdadeira, a informação deve ser verdadeira, e isso estabelece a conexão entre a emoção e a crença da verdade, sem passar pela diferença entre realidade e construção da realidade (SERRANO, 2010).
Construindo uma situação hipotética: uma adolescente caminha, de cabeça baixa, sozinha, no meio de uma rua sem carros e com prédios altos envelhecidos. Se essa imagem vem sonorizada com uma música melancólica, vai despertar a ideia de tristeza. A narração a seguir pode falar de perda, de angústia, de solidão. Mas se junto desta música existem sons de sirenes ou tiros, mesmo que ao longe, a sugestão será de conflito ou guerra, mesmo que a adolescente não esteja correndo. Se a mesma imagem é acompanhada de uma música romântica, no espectador é suscitada a ideia de que ela olha o ser amado ou uma mensagem dele, sugerindo romance. Se for melancólica: teria ela terminado com alguém? Se for mais alegre: estaria ela pensando no seu amor? A imagem pode estar falando do medo das mulheres ao andar sozinhas pela cidade, da busca dessa adolescente pela família perdida depois que uma cidade foi inteiramente abandonada, do bairro calmo que não tem quase circulação de carros e pessoas, tudo vai depender do som e da narrativa. Mas antes mesmo que a narrativa comece, o som e a imagem já despertaram os sentimentos.
O fato casual, a imaginação criativa e o desejo de crer são elementos que propiciam a falsificação da realidade no espectador ou expectador. Sob condições favoráveis, as respostas a ficções ou a realidades podem ter a mesma reação forte. Sem proximidade com os fatos, a emoção e o pensamento podem demorar a perceber a realidade, ou nunca perceberem.
A adaptação do ser humano se dá através do que Lippmann (2008, p. 30) chama de
“ficção”, que ele não associa diretamente às mentiras. “A variedade da ficção se estende desde a completa alucinação até o uso perfeitamente consciente do modelo esquemático de cientistas, ou sua decisão de que para o seu problema particular a exatidão além de certo número de casas decimais não é importante”. Dependendo do grau de fidelidade da “ficção” e se este grau puder ser considerado, ela não é enganosa.
“O principal efeito dessa manipulação é que os órgãos de imprensa não refletem a realidade”. Perseu Abramo (2002) escreve isso em 1988 e acrescenta que a maior parte do material veiculado na mídia tem relação com a realidade, mas que essa relação é uma referência indireta à realidade, que distorce a realidade. Como se a imprensa se referisse à
realidade para apresentar uma nova realidade. Assim os usuários são colocados diante de informações que sobrepõem e contradizem a realidade. O indivíduo raramente tem como avaliar essas informações, assim, não percebe a realidade diretamente, mas a apreende pelos meios de comunicação. “A manipulação das informações se transforma, assim, em manipulação da realidade” (ABRAMO, 2002, p. 39). O indivíduo é compelido a vagar pela informação guiado como por um mapa. A dificuldade está em seguir os mapas nos quais estão expressos, sem transparência, as necessidades e vontades de outrem.
Daí a crítica de Chomsky (2014, p. 8 - 9) aos pensadores que defendem a ideia de
“rebanho desorientado”, que é conduzido pelo impulso e emoção, e precisa ser guiado. Critica também a divisão da sociedade em classe especializada/intelectuais e expectadores ou rebanho desorientado, na qual o primeiro grupo cria ilusões e simplificações emocionais. Esta crítica indica o uso premeditado da comoção como mecanismo de desinformação. O
“rebanho” é intencionalmente guiado pela informação para introjetar como verdade aquilo que lhe é oferecido e premeditadamente engendrado pela classe “especializada”. A emoção e os impulsos são usados como atrativos para conduzir as pessoas pela rota desejada, através dos mecanismos de manipulação da informação. Cerceando a autonomia do pensar e colaborando para a adesão à hegemonia. Manipulação que Chomsky condena.
A manipulação conduz a um pensamento hegemônico que molda a população.
Relacionar esta condução com a moral vigente, remete ao que Martín-Barbero (1997) denuncia: que a mudança não está acontecendo no âmbito da política e sim no da cultura. A mudança de estilo de vida é mediada pelos meios de comunicação de massa. A família e a escola, tradicionais campos da socialização, não são mais espaços chave. Segundo o autor, os meios de comunicação começam modificando o vestuário e terminam provocando uma
“metamorfose dos aspectos morais mais profundos”. As emoções são terrenos fundamentais para a manipulação dos aspectos morais que influenciam as relações interpessoais e a coletividade.
Assim, tudo que destoa do padrão é visto como estranho, feio, menor e/ou o outro.
Exemplos disso podem ser vistos nas discriminações àqueles que não se enquadram, como nas expressões de homofobia, gordofobia, racismo, xenofobia, entre outros. Mas também as opressões relacionadas à objetificação das mulheres, a redução destas, dos negros, dos indígenas e dos pobres como menores, perdedores, preguiçosos, fracassados etc. A lista é enorme.
Martin-Barbero recorre a Edward Shils: “A sociedade de massa suscitou e intensificou a individualidade, isto é, a disponibilidade para as experiências, o florescimento
de sensações e emoções, a abertura até os outros [...], liberou as capacidades morais e intelectuais do indivíduo” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 58 - 59). A questão da manipulação através da emoção se agrava nas redes sociais, as bolhas favorecem a aderência às crenças e sentimentos alimentando os cliks que geram lucro.
O recurso de capturar a atenção com chamadas apelativas ou de duplo sentido não é novo, mas, “em tempos de internet e redes sociais, o recurso alargou seus limites, recebendo fortes impulsos em novas dinâmicas, sendo também chamado de clickbait”
(CHRISTOFOLETTI, 2018, p. 73). Os clikbaits são postagens que utilizam chamadas sensacionalistas, chamativas ou polêmicas para captarem os cliks que geram lucros. Contudo, a informação que aparece depois do click não tem conteúdo relevante, nem necessariamente adesão com a chamada, ou trata-se de um assunto que foi distorcido na chamada.
Os clikbaits utilizam a curiosidade inerente ao ser humano para atrair a atenção e o clik. São exemplos desse tipo de artimanha aquelas chamadas que aparecem depois das notícias, mesmo em sites de jornais importantes, algo com uma imagem e uma chamada como: “10 celebridades que você não reconheceria na rua”. E por curiosidade, ganham o click. Outro artifício é o da distorção: “Paul McCartney morre atropelado”, depois de clicar o texto que aparece narra a tragédia de um cachorro, batizado com o homônimo do célebre cantor, que foi atropelado na frente de sua casa em Bombaim. Em um terceiro tipo a chamada não tem nada a ver com o texto: “Descubra como esse método milenar natural combate as rugas”, mas o conteúdo trata da venda de um produto antirrugas industrializado.
3. Omissão(a33): supressão deliberada de informações ou de partes de assuntos, fatos, dados, personagens etc.
“Mais insidioso que o hype sensacionalista é a esquiva astuta” (PARENTI, 2001, on- line, tradução nossa). Informações relevantes são simplesmente minimizadas ou evitadas, parcial ou completamente, a despeito de sua importância. Dados e pesquisas que refletem negativamente as condições da população, segurança e políticas de estado, podem ser suprimidos e nunca dados ao conhecimento público. Crimes de guerra, torturas e mortes, raramente aparecem ou são notadas como danos colaterais, a não ser que favoreçam os poderes locais. Essas omissões acontecem principalmente se o cidadão não tem acesso aos fatos. A omissão ou supressão pode ser parcial ou total.
A ocultação é deliberada, um silêncio proposital sobre certos assuntos ou pessoas.
Como coloca Abramo (2003), a própria escolha do que é considerado um fato jornalístico, ou
para este estudo, uma informação relevante ou que vale ser documentada, trata da exclusão, apagamento, ocultação ou negação de outras informações e realidades.
Agenda setting é uma teoria de Maxwell McCombs e Donald Shaw, inspirado nos estudos de Lippmann sobre opinião, que defende que o público tende a dar mais importância aos assuntos que tem maior exposição nos meios de comunicação. Gatekeepers é a Teoria de David Manning White de que a difusão de notícias se faz através de canais ou cadeias nas quais existem pontos, portas ou diques por onde as notícias podem passar ou ficar retidas.
Trata-se da seleção das informações que serão disponibilizadas/usadas ou não.
Nestas teorias a filtragem das informações estabelece a pauta do debate social, mediante a seleção das informações que serão veiculadas na mídia, com mais ou menos destaque, e de quais não serão. De fato, essa seleção não acontece apenas na mídia. Qualquer informação passa pelo crivo da omissão ou uso. Em um artigo científico nem tudo que é lido é utilizado, mas passa por uma seleção do pesquisador, que leva em consideração a fonte, adequação, relevância etc., tornando-se assim um gatekeeper da informação. A seleção por pares também funciona do mesmo jeito. O agendamento (agenda setting) também influencia a informação científica, quando os pesquisadores são levados a tratar de assuntos que estão em pauta na sociedade.
A omissão pode seguir critérios de seleção honestos e necessários ou pode simplesmente ocultar e apagar assuntos relevantes apenas com a finalidade de manter a hegemonia ou o status quo. Para este estudo, é nomeado de omissão o recurso de desinformação que amputa do cidadão uma informação importante para sua tomada de decisão ou, ao menos, ciência dos fatos. Essa omissão, premeditada e intencional, é um artifício desinformativo do qual raramente se tem consciência, por sua própria natureza.
É esta omissão desinformativa que oculta os motivos e danos das guerras, a penúria causada pela exploração, que mantém os cidadãos afastados de assuntos que afetam a democracia ou seus direitos, que não apresenta dados relevantes sobre violência contra as mulheres, os negros, os pobres e os LGBTQI+, e tantas outras omissões que nos apartam de realidades das quais precisamos ter ciência.
4. Inundação(a34): é a hiperinformação proposital, com objetivo de desviar a atenção ou apagar uma informação.
Ramonet, no prefácio do livro de Serrano (2010, p. 10), aponta a superinformação como um dos maiores mecanismos de desinformação, e até de censura, da atualidade; que,
como um biombo ou barreira, impede o acesso à informação: “Nas ditaduras é o poder que nos impede de acessar a informação. Na democracia é a própria informação, por saturação, o que nos impede. Ou seja, na democracia a censura funciona por asfixia, por engasgamento, por entupimento”. Ante tanta informação circulante e consumida, é quase impossível a percepção daquelas que foram suprimidas, apagadas ou lavadas pela enxurrada informacional.
“A ocultação e a dissimulação, nessa massa de informação que se consome, são as formas da censura de hoje. E essa ‘censura invisível’ é a que é praticada pelos grandes grupos midiáticos e pelos governos” (RAMONET In SERRANO, 2010, p. 10).
O filme “Mera coincidência”, título original “Wag the Dog”, de 1997, direção e produção de Barry Levinson, retrata, ficcionalmente, a manipulação governamental para abafar uma notícia indesejada. No filme, o presidente dos EUA está envolvido em um escândalo de abuso sexual. Para evitar que a história se espalhe e ganhe importância, às vésperas da almejada reeleição, um assessor, representado por Robert De Niro, é convocado para resolver a situação. O assessor então contrata um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este “produza” uma guerra na Albânia, a ser vencida pela interferência do presidente, poucos dias antes das eleições. Os dois se esmeram em uma produção hollywoodiana para convencer mídias e massa. O personagem de De Niro diz repetidamente no filme que o que “deu na TV” é verdade, por mais que ele mesmo esteja idealizando e forjando as mentiras.
A artimanha funciona e serve como exemplo de desvio de atenção de uma notícia, que o poder quer apagar, como muitas outras sobre um assunto que pode ser mais atrativo para o povo. Situamos este exemplo fictício no nível macro da inundação, que ainda dividimos também em médio e micro.
a) Macro(a35): Divulgação de outras notícias para encobrir aquela.
b) Médio(a36): Divulgação de outras informações dentro da notícia para encobrir o fato.
c) Micro(a37): Divulgação de outros detalhes minuciosos do fato para encobrir o problema do fato.
5. Orientação(a38): argumentação para conduzir a opinião pública a apoiar determinada conduta.
“Submetido, ora mais, ora menos, mas sistemática e constantemente, aos demais padrões de manipulação, o leitor é induzido a ver o mundo como ele não é, mas sim como
querem que ele o veja” (ABRAMO, 2003, p. 49). A orientação é facilitada pelo acúmulo de ideias, conceitos e “verdades” veiculadas na desinformação sistemática, porém não óbvia.
Esse mecanismo perpassa toda a produção e difusão da informação e pode abarcar diversas informações e fontes.
Os meios precisam orientar as escolhas a respeito do que é importante ou não, mas também, em relação à interpretação de como e porque acontecem. Além disso, é necessária a manutenção da crença de que aquele meio é confiável e que acerta em suas escolhas. Manter a credibilidade é um fator essencial para que a orientação seja eficiente, daí sua complexidade ser muito maior do que apenas mentir. É preciso convencer. Utilizando os mecanismos de desinformação e torcendo a verdade em vez de simplesmente violá-la, os meios informativos podem criar a impressão desejada sem recorrer a pronunciamentos explícitos e se mantendo na aparente objetividade.
Até mesmo a ordem em que as informações são apresentadas e a ênfase fazem parte dessa escolha de orientação, tudo contribui e conduz o indivíduo ou a população ao objetivo do emissor.
A forma como as notícias são envolvidas, a extensão da exposição, a localização (primeiro plano ou enterrada no interior, artigo principal ou último), o tom da apresentação (atitude aberta ou pejorativa), as manchetes e fotografias e, no caso dos meios audiovisuais, os efeitos da imagem e do som” (SERRANO, 2010, p. 31, 32)
Alguns tipos de desinformação por orientação são:
a) Criar problemas para oferecer soluções(a39): é criada uma situação para que o povo reaja de maneira a corroborar a ação pretendida.
Cria-se uma situação para que o povo tenha a reação que confere ao poder a autorização de fazer o que pretendia. É o ato de ordenar o rebanho. Um exemplo que Chomsky dá é criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. Como já mencionado, a propaganda política foi criada nos EUA para gerar esses problemas, cuja solução era a ação pretendida pelo governo antes mesmo da invenção do problema, como no caso da Primeira Guerra Mundial e os inimigos alemães.
Abramo (2003, p. 52) destaca que “a autoridade tranquiliza o povo, desestimula qualquer ação autônoma e independente do povo, mantém a autoridade e a ordem, submete o povo ao controle dela, autoridade”. A autoridade anuncia as providências – soluções já tomadas ou prestes a serem tomadas. Se a questão envolve dissidências, manifestações ou revoltas, a autoridade reprime o mal (o inimigo) e enaltece o bem (“nós”), também oferecendo
a solução para o problema. Por fim, é exaltado o papel resolutório, tranquilizador e alienante da autoridade; ou “melhora” o apelo para obtenção da aprovação. O que também pretendia o marqueteiro do presidente americano no filme “Mera coincidência”, ao criar a guerra que seria resolvida pela intervenção do próprio presidente logo antes da reeleição.
Pascual Serrano (2010) oferece exemplos desse tipo de desinformação trazendo casos sobre terrorismo e guerra, como quando Saddam Hussein, depois de ter sido aliado por muitos anos dos EUA, se transforma em um inimigo detestável e perigoso. A justificativa das armas químicas que estariam sendo produzidas no Iraque, serviu para fomentar o apoio aos ataques e bombardeios. Posteriormente emergiu a informação de que não haviam tais armas químicas.
Mas a guerra já estava ganha e o problema solucionado.
b) Gradualidade(a40): “Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita, basta aplicá-la gradualmente” (Volkoff, 1999) ou como sacrifício futuro. O tempo favorece a resignação do público;
“A comunicação, tal e como é concebida pelos meios de comunicação dominantes na imprensa, rádio, televisão e internet, tem como função principal convencer o conjunto das populações de sua adesão às ideias das classes dominantes” (SERRANO, 2010, p. 9).
Convencer gradualmente é mais eficaz quando o assunto é passível de rejeição pela população. No caso do Iraque ficam evidentes os mecanismos por meio dos quais os lobbies a favor da guerra conseguiram influenciar massivamente nos meios de comunicação a população, principalmente os estadunidenses.
O mesmo mecanismo é utilizado quando se tratam de “reformas” que, na verdade, subtraem conquistas de reformas anteriores. A população é convencida da necessidade daquela providência, que só terá suas consequências no futuro, assim o convencimento é mais fácil. O cidadão é bombardeado hoje como o risco, por exemplo, do colapso da previdência, logo depois é mostrado como as pessoas vivem mais hoje em dia e como isso impacta no sistema previdenciário (o que é uma verdade incontestável). O passo posterior é explicar a necessidade da contribuição por mais tempo e o adiamento da aposentadoria, neste caso, ainda distante da maioria que será afetada. Por fim o novo plano é apresentado como solução para todo o problema e garantia de um futuro seguro. Está aplicada a gradualidade.
c) Culpabilidade(a41): o indivíduo é responsável por sua condição – meritocracia.
Nesse tipo de desinformação é conferido ao indivíduo ou ao grupo a culpa pelo fato ou problema, a responsabilidade por sua condição ou pelas consequências. Uma frase recorrente dos setores mais conservadores brasileiros na atualidade é “não tem o que comer, ou é pobre, porque não quer trabalhar”. Essa frase representa o cerne da culpabilidade e foi