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Microfinanças e o perigo da deriva da missão

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 41-46)

microcrédito alguns efeitos positivos sobre o bem-estar e o empoderamento feminino pelo menos em um dos estudos realizados no México.

Habib e Jubb (2012) argumentaram que, nos países em desenvolvimento, as mulheres são excluídas de diversas modalidades de atividades sociais. O que representa um significativo impedimento para o desenvolvimento tanto a nível individual, quanto de sociedade. É importante acrescentar também que, nos mesmos países, uma proporção significativa das mulheres não participa diretamente de atividades econômicas. Situação que impacta negativamente no desenvolvimento econômico da nação (MUHAMMAD et al., 2012).

Por fim, é preciso destacar que o acesso da mulher a serviços financeiros ainda é reduzido em diversas economias. E, nessas circunstâncias, para promover o espírito empreendedor e a igualdade de gênero torna-se indispensável o financiamento direcionado para mulheres (SARAVANAN; DASH, 2017). Nessa conjuntura, o microfinanciamento apresenta-se como uma política adequada para empoderar as mulheres nos países em desenvolvimento (LEITE; CIVITARESE, 2019).

A maioria das mulheres adquirem empréstimos de menor tamanho, ou seja, haveria uma relação positiva entre a profundidade de alcance e uma maior proporção de mulheres tomadoras de empréstimos (QUAYES, 2012). Pois, como afirmam Mersland e Strøm (2010), aumentar a profundidade de alcance se traduz em também alcançar mais mulheres.

Nesse contexto, organizações que realmente se mostram efetivas são aquelas que conseguem expandir todos os lados do chamado “triângulo crítico das microfinanças” que englobam o alcance social, sustentabilidade financeira e, também, o impacto na qualidade de vida dos beneficiários. Contudo, dada a configuração desses objetivos, alguma forma de compensação entre eles pode acabar ocorrendo (ZELLER; MEYER, 2002).

Uma dessas formas de compensação ficou conhecida na literatura de microfinanças como “deriva da missão” ou “abandono da missão”. Esse fato ocorre quando as instituições microfinanceiras passam a perseguir objetivos de caráter comercial em detrimento de sua

“missão” social de reduzir a pobreza (LEITE; MENDES; SACRAMENTO, 2019).

O cenário cada vez mais competitivo no setor de microfinanças tem impelido a literatura sobre o tema a debater a possibilidade da existência de um trade-off entre sustentabilidade/desempenho financeiro e alcance/ desempenho social. Isso porque as IMFs poderiam estar tentadas a perseguir os objetivos financeiros em detrimento ao enfoque social da atividade (BASSEM, 2012). Nessa perspectiva, questões relacionadas aos aspectos sociais das microfinanças podem ser deixadas de lado. O que inclui o acesso feminino a esses serviços, além do atendimento dos mais pobres.

Morduch (2000) argumenta que por trás da ideia de sustentabilidade financeira está a premissa de que os indivíduos mais pobres necessitam de acesso a crédito, não sendo necessário que este seja mais barato. Desse modo, a redução da pobreza poderia ser atingida sem a dependência de subsídios. Uma vez que os programas poderiam cobrar taxas mais elevadas sem comprometer seu alcance. Ou seja, as instituições poderiam ser administradas de forma a não gerar custos para governos e doadores e, ainda, propiciar lucros.

A sustentabilidade financeira, nesse contexto, é entendida como uma condição necessária para o desenvolvimento e crescimento de uma IMF (DESPALLIER; GUERIN;

MERSLAND, 2013). Mersland e Strøm (2010) enfatizam que a viabilidade financeira tem se tornado uma grande preocupação do setor de microfinanças. Dado que na busca por recursos oriundos de bancos comerciais e assistência de doadores, as IMFs, segundo Bassem (2012), devem transmitir segurança e confiança, possuir sustentabilidade financeira, desenvolver mecanismos financeiros adequados para captar recursos financeiros e obter economia de escala em suas atividades.

Essa ideia de crescimento impulsionado pela sustentabilidade financeira possui os fundamentos no que Morduch (2000) chamou de proposta de “win-win”, ou ganha-ganha, que pode ser resumida em uma proposta de ganhos mútuos. Por trás desta proposta está a ideia de que as IMFs que atuarem de acordo com as melhores práticas bancárias serão as mesmas que promoverão o alívio da pobreza. Ou seja, a instituição obteria uma lucratividade satisfatória, ao mesmo tempo em que atingiria seus objetivos sociais. Pois, ao alcançar a sustentabilidade financeira e se tornarem independentes de subsídios, essas organizações poderiam expandir suas atividades sem restrições impostas pela escassez de recursos.

Diante dessa discussão, é importante compreender que as combinações de objetivos econômicos e sociais sempre estiveram presentes nas estratégias das IMFs (SANTOS et.al, 2019). Entretanto, Bassem (2012) adverte que a realização simultânea de objetivos financeiros e sociais atribuídos a estas instituições pode representar um desafio. Pois, muitas vezes, objetivos como obter uma boa lucratividade e ter um alcance elevado apresentam aspectos contraditórios. Esse possível cenário enfrentado por essas organizações expõe a existência de um possível trade-off entre objetivos que pode resultar em um desvio da missão.

Essas questões giram em torno da possível mudança de objetivo no setor, que se deslocaria do atendimento aos mais pobres para o aumento da lucratividade, com foco mais amplo na sustentabilidade financeira e eficiência das instituições. O fenômeno possui como um dos principais catalisadores a ênfase atribuída pelas agências doadoras à sustentabilidade financeira como critério de para alocação de recursos (ABDULLAH; QUAYES, 2016).

Outra circunstância capaz de amplificar a ocorrência desse fenômeno, como destacado por Bassem (2012), é a entrada de certos bancos comerciais tradicionais no segmento de microcrédito. Esse movimento é explicado pela busca incessante de novos mercados e novos clientes. Sendo que essa dinâmica ocorre através da concessão direta de empréstimos a pequenos empresários e, também, na aquisição de IMFs. Dessa forma, a entrada de instituições que atuam de acordo a lógica convencionalmente adotada pelo segmento financeiro tradicional pode forçar outras organizações do setor a atuarem a partir dos mesmos critérios.

Diante desse cenário, Mersland e Strøm (2010) expõem a existência de um temor relativo à crescente incorporação de aspectos comerciais das atividades financeiras pelas IMFs. Esse processo estaria se refletindo no desvio dos objetivos originais deste segmento de oferecer serviços financeiros aos mais pobres. Pois, neste cenário, somente os “menos pobres”, que se contrapõem aos mais pobres, estariam aptos a adquirir empréstimos.

Essa perspectiva estaria, inclusive, colocando em dúvida o futuro das mulheres como principais beneficiárias dos serviços de algumas IMFs. Isso porque, muitas organizações sem fins lucrativos que atuavam no segmento estão alterando sua orientação para a finalidade lucrativa. E essas mudanças vêm sendo reforçadas por críticas que contestam o papel das microfinanças como um instrumento de combate à pobreza (D’ESPALLIER; GUERIN;

MERSLAND, 2013).

As IMFs, para garantir a consecução de seus objetivos, devem elevar seu nível de competitividade ao máximo e se tornarem financeiramente viáveis e, portanto, lucrativas (BASSEM, 2012). Nesse contexto, para que as mulheres se mantenham como um mercado- alvo para instituições de perfil comercial, elas devem representar um meio de garantir a lucratividade das instituições (D’ESPALLIER; GUERIN; MERSLAND, 2013).

Nesse ponto é importante retomar o debate relativo ao desempenho social abordado nas discussões a respeito da existência de deriva da missão. Primeiramente, é preciso ressaltar que entre os objetivos sociais a profundidade do alcance merece destaque. Uma vez que essa perspectiva diz respeito às principais características dos serviços financeiros prestados, definido com base no valor médio dos empréstimos destinados aos segmentos mais pobres da população, mas inclui, também, extensão dos empréstimos em comunidades rurais, para mulheres, e empréstimos na modalidade de grupo (MERSLAND; STRØM, 2010).

Assim, é possível indicar como as métricas mais utilizadas para mensurar a profundidade de alcance: o número de clientes ativos, número de empréstimos concedidos para mulheres e valores médios dos empréstimos concedidos. Essas são, inclusive, as medidas comumente utilizadas na literatura para mensurar o desempenho social das IMFs (COSTA, 2017).

Santos et al. (2019,) destacam que o percentual de mutuários do sexo feminino é uma das variáveis utilizadas para mensurar o alcance das IMFs. E, de acordo com Bassem (2012), a deriva da missão, baseada na busca por redução de riscos e aumento da sustentabilidade financeira, levaria ao abandono dos objetivos sociais IMFs, entre eles o alcance. Neste sentido, seria possível especular que variáveis que possuem alguma relação com o desempenho financeiro das instituições poderiam estar, de algum modo, associadas com a participação de mulheres na carteira de crédito da IMFs.

Para ilustrar essa relação é possível utilizar o trabalho de Bassem (2012) que relaciona o tamanho da IMF com sua propensão a atender mutuários do gênero feminino. Esse resultado pode ser explicado pelo fato de que o crescimento das IMFs tende a resultar na perda de interesse destas em servir os mais pobres, em sua maioria mulheres. E assim, estaria mais

inclinada a se desviar da missão à medida que a organização cresce, movendo-se em direção a níveis de renda mais elevados.

O fato é que não há como estabelecer um consenso a priori sobre essa possibilidade, mas alguns estudos podem fornecer alguns indícios. Isso porque, existem algumas visões no segmento de microfinanças com potencial para desestimular o acesso feminino aos serviços disponibilizados pelas organizações do setor. Uma vez que as mulheres são, por vezes, consideradas um fardo para a sustentabilidade da organização (DESPALLIER; GUERIN;

MERSLAND, 2013). Assim, Abdullah e Quayes (2016) inclui o alcance das mulheres entre as preocupações decorrentes da existência do desvio da missão. Dado que um trade-off entre a sustentabilidade e o alcance social pode afetar adversamente a missão principal de redução da pobreza do segmento de microfinanças.

Contudo, existe o argumento, difundido com certa frequência na literatura sobre microfinanças, que relaciona o interesse das IMFs em emprestar para as mulheres ao fato delas serem consideradas melhores clientes, indicando, desse modo, que a decisão está fundamentada em uma perspectiva financeira (LEITE; CIVITARESE, 2019). Dessa forma, a princípio, questões envolvendo risco e participação feminina na carteira de crédito não seria problema, uma vez que estudos como Muhammad et. al. (2012) e D’espallier, Guérin e Mesland (2011) associam a participação feminina a um risco menor de inadimplência. E classificam as mulheres como melhores pagadoras do que clientes do gênero masculino.

Nesse sentido, Abdullah e Quayes (2016) identificaram, em todos os modelos utilizados em seu estudo, que uma maior participação feminina resulta em melhor desempenho financeiro. É importante destacar, também, que cada um desses coeficientes estimados foi estatisticamente significativo ao nível de 1%. O que reforça a relevância dos resultados encontrados. Todavia, esses resultados não permitem identificar se tais efeitos se devem a uma taxa de reembolso maior ou a obtenção de taxas de juros mais altas.

No entanto, D’espallier, Guerin e Mersland (2013) argumentam que a aparente contradição que poderia haver na busca simultânea de foco no atendimento às mulheres e bom desempenho financeiro na verdade não existe. Isso porque, a lucratividade é uma variável que depende dos custos operacionais e da questão do reembolso. E, dessa maneira, o direcionamento às mulheres pode ter efeitos diferentes para cada um desses aspectos.

Contudo, trabalhos como Kittilaksanawong e Zhao (2018) e Civitarese e Leite (2019) desafiaram a concepção que atribui um desempenho financeiro melhor das IMFs a uma proporção maior de mulheres nas carteiras de crédito dessas organizações. Uma vez que tais

estudos não identificaram diferenças significativas no risco e no desempenho financeiro provenientes de uma participação feminina maior na carteira de mutuários.

A proporção de mutuários do gênero feminino na carteira de crédito das IMFs ainda é uma questão que carece de consenso na literatura sobre microfinanças, conforme indicam Leite e Civitarese (2019). Contudo, a inexistência de consenso a respeito dos efeitos que a busca por sustentabilidade financeira produz sobre acesso das mulheres aos serviços disponibilizados por essas organizações permite especular se, as variáveis comumente associadas às investigações sobre desempenho financeiro, não estariam, de alguma forma, associadas proporção de mulheres atendidas pelas instituições do setor.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 41-46)